Galo que não cantou Primeiro Andar · Capítulo 5 de 12
Obra Menu

Galo que não cantou

GALO QUE NÃO CANTOU

1918 [1943]

a Rubens de Moraes

Arlindo Teles – Telinho como lhe chamavam no lar – casara-se aos 25 anos. Era lá das bandas de Pinda onde seus pais tinham vivido como agregados de parentes de riqueza e mais inteligente atividade. Órfão sem mais recursos que mãos inermes e vontade bruxuleante, viera para São Paulo onde lhe prometiam casa e dinheiro. Lendo correntemente as palavras mais comuns da língua, escrevendo letra gorda em que se confessava toda a candura da alma escassa, multiplicando somando subtraindo porventura até os bilhões desembarcou na capital ao aproximar dos vinte anos. Fugindo à orfandade e penúria acolhia-se como os pais à asa dum tio – aliás menos galinha-mãe que usurário e aproveitador.

Entrando para o escritório do comerciante lobrigou sem grande labor nem fadigas a epiderme da escrituração mas em geral só aproveitavam dele os donaires da caligrafia e a rijeza das pernas. Copiava cartas, levava a correspondência ao Correio, dava recados percebendo cinquenta por mês. Que bom rapaz!

Caseiro moderado no comer e econômico, indo nos raros acessos de liberalidade até a xícara de café paga ao amigo (retribuição de gentileza mais notável) soube cair nas graças de viúva mais ou menos rica. Dona Cremildes vendo-o simples são mansueto e herdeiro de outros méis deu-lhe gostosamente a filha.

Telinho jamais folheara um desses livros de retórica que ensinam as artes do bem escrever portanto mais que provável sua total ignorância da força e da eloquência das antíteses mas tinha sem dúvida algum refolho de alma onde ardesse a lâmpada da intuição artística pois ignaro das antíteses tinha por elas intuitivo amor. Provou-o casando com Jacinta. E Jacinta era a antítese de Telinho. Alta e magra machucava o espaço com as anfractuosidades dos membros e no rosto empinava o recorte bélico dum nariz sem fim mui digno de figurar entre as setas do deus menino.

Camões num soneto imortal conta que do magano deus acoitado nuns olhos recebeu as feridas incruentas da paixão. Raimundo Correia não menos foi ferido pelo deus magano desta vez ajudado por dois lábios sonorosos. Jacinta se soubera de poética e teogonias lançara como Schiller sobre a morte dos deuses, especialmente de Eros lástimas e imprecações. E desejara pulsassem mais no Telinho além do gosto artístico pelas antíteses os estos da inspiração pois bem pudera surgir do nariz dela as galas cavalheirescas dum soneto a primor.

Mas não foi preciso seta nem deus. Jacinta mais prática, sabendo instintivamente talvez que o começado em verso não termina em bênçãos matrimoniais utilizou-se do nariz para uma operação piscativa: fisgou com ele o Telinho. Assim o que troveiros de antanho levariam dez anos e quatorze versos para cantar realizou com um só verbo, rescendente além disso do aperitivo fartum de bagres e piracanjubas: pescou o Telinho.

Jacinta não expandia bondade. Tinha porém vago encanto. Talvez o encanto de toda virgem moça. Talvez dos cabelos negros crespos. Telinho era a antítese dela. Baixo e gordo. Não se lhe via sequer o desenho da carcaça enluvada que estava na gelatina da carne mole. No meio da cara aberta mal se arrebitava como ponto timidamente róseo o embrião dum nariz. Além disso os cabelinhos pardos já lhe começavam a rarear no cocuruto oval.

Casaram em manhã de neblina com missa prédica lágrimas de mãe ironias de assistentes almofadas para ajoelhar, meninas de filó carregando a cauda da nubente. Nubente simpática receosa, quase bela nesse dia.

Depois de nove meses um filho; no fim de outro ano outro filho; terceiro ano terceiro filho… Mas é preciso miudear o que aconteceu antes dos filhos.

Arlindo ao casar não trabalhava mais no escritório do tio, copiando cartas e fazendo somas pequeninas pouco maiores que a mesada. Com a especial piedade da futura sogra associara-se a um primo também moço e necessitado de arrumar vida. No vazio da antiga rua do Rosário (o caso foi na caudinha do século passado, ali por 1899) montaram os dois sócios uma loja de duas portas. Loja muito síria onde aos olhos do transeunte se expunham fazendas vistosas de nenhum luxo e muitos chiquismos de armarinho burguês.

Sentou-lhes Fortuna ao portal e Telinho pôde trazer para casa no primeiro mês de lua a então gorda bolada de duzentos mil-réis. E com ela bem embrulhado no jornal um esquisito vidro de cheiro: Cuir de Russie.

Extasiara-se à contemplação daquelas letras francesas que deviam contar tantas coisas doces e finas. Russie!… E murmurava à portuguesa: Rú-ssi-e… De-certo queria dizer Rússia que sabia ser um país muito longe por detrás do mar, acamado de neve devastado por ursos brancos, Nossa Senhora!… Telinho não era positivamente burro, aprendia até relativamente rápido, que habilidade para trabalhos caseiros! arranjar o pé do sofá, endireitar a luz, torcer lã para os cordões de sapatinhos mas – coisa comum a toda gente que imagina – sempre acreditara que a Rússia era habitada por fortes negros desnudos de olhos em brasa. Consequência talvez de antítese aterrorizada dos ursos brancos… Fossem agora dizer-lhe que lourejava naquelas terras de setentrião a mais negra de todas as raças brancas!… Sorriria incrédulo. Continuaria a povoar a estepa nívea com os negros da própria imaginativa. Não sei se teria razão. Mas correm mundo assim tantas rússias!

Entrando em casa antegozava a alegria da mulher. Como ficaria linda cheirando a Cuír de Russie!… Encontrou-a sentada à cama no quarto remendando meias.

— Imagine o que trago para você, hoje! gritou da porta com as mãos escondidas.

— É o dinheiro da loja.

— Não! Falo de presente.

— Então você não trouxe o dinheiro da loja!

— Já está aqui. Falo…

— Quanto?

— Duzentos.

— É melhor eu guardar. Você é tão palerma, vai perder tudo e daí sim!

— Mas posso precisar, Jacinta!

— Ora essa! fique com uns cinco mil-réis. Quando precisar mais, pede. Me dê o dinheiro.

E as notas lá foram parar numa gavetinha de cômoda. Bem fechada.

Arlindo ficara muito aborrecido. Desagradava-lhe viver sem dinheiro. Necessitava de o ter no bolso. Tranquilizava-se com ele como criança que no meio da multidão caminha destemerosa segurando A mão de pessoa mais velha. Tinha frequentemente ideias destas: Se cair e me machucar posso tomar um tílburi e ir para casa. Se sentir sede posso tomar uma limonada…

Mas era perder a esperança. Lá estavam os mil-réis bem dobradinhos numa caixa escarlata de veludo numa gaveta fechada. E a chave dessa gaveta pendia da cintura de mulher enérgica. Desistiu por esta vez de conservar a mensalidade jurando intimamente que no próximo 31 guardaria custasse o que custasse o dinheiro. E afinal, pensou rápido, Jacinta tinha razão: não precisava de tanto cobre.

— Que é isso que você traz aí?

Era o presente. Apagou-se-lhe a sombra. Num jeito rápido escondendo o embrulho:

— Adivinhe!

— Já sei: é sabão.

— Não senhora, não adivinhou! e desmanchava-se numa gargalhada.

Mas Jacinta já se apropriara do embrulho e descobrira o vidro.

— Ah, é perfume… Obrigada… Quanto custou?

— Nada, então! Tirei lá da casa.

— Mas vocês podem tirar assim qualquer coisa da loja!

— Posso, ora sebo! Pois tudo aquilo não é meu!

Jacinta deixou-se levar pelo suasivo da resposta. Até o marido entrara com duas partes para a sociedade!…

— Então por que não trouxe uns lenços. Seria mais proveitoso… Ou meias… Você fura demais suas meias! Ande com mais cuidado. Nunca vi homem mais arara: vive a dar topadas…

No fim do segundo mês Telinho trouxe as meias. No terceiro os lenços. Já então a mulher se acostumara a lhe determinar o que traria para casa. Por fim nem pedia os lenços hoje e esperar trinta dias para pedir as meias: eram meias e lenços na mesma ocasião.

Por delicadeza o primo, rapaz tímido e de humildes descorajadas ambições não descontara o vidro de cheiro dos lucros de Telinho. Por timidez invencível e até se é possível vergonha, pelo outro ou do outro, continuou a fazê-lo com lenços meias metros de chita e mesmo a peça de morim. E como para si por quase idiota honestidade não se dispunha a praticar o mesmo vinha para casa furioso, desabafando com a esposa ao jantar. Depois, passada a erupção, planejava mil meios de terminar com aquelas meias. Preparava-se para falar ao primo, decorava períodos, incomodava-se com as entrelinhas da frase – não fosse molestar o sócio! – construía toda uma arenga pejada de desculpas e quando no dia seguinte por volta das nove horas Telinho entrava na loja, sorridente e honesto com “bons-dias” tão virginais tão dúlcidos, lá da caixa o outro entressaindo das cifras respondia miúdo à saudação, pigarreava e não dizia nada. Há timidezes intransponíveis. Delas estava rico o primo de Arlindo. É ordem das sociedades que uns ajoelhem para que os outros lhes subam às costas.

Arlindo que lhe honre isto a consciência, por leviana vaidade apenas dissera poder tirar tudo da loja como se fosse apenas seu. Ao mando da mulher, com receio e desgosto se apropriara dos lenços. Pouco a pouco porém esvaíram-se os receios e com a maior naturalidade excluía do bem comum o que a mulher desejava. Já nos fins da sociedade – isto cinco anos mais tarde – nem esperava o último dia do mês: em qualquer tempo tirava rendas e sabonetes.

Os negócios no entanto iam bem. Arlindo falava com orgulho na “minha loja” e nela passava os dias sentado à frente do balcão, chapéu sagrando a calva incipiente, uma perna horizontalmente dobrada sobre a outra, olhando o vaivém de fora e a tutear os fregueses. O primo lá da mesa das cifras olhava-o de quando em quando com luzes de ira nos olhos, mastigando a caneta. Mas Telinho não sabia fazer coisa alguma. Era natural que agisse assim. Quando o freguês era de alta roda Telinho o servia, ele próprio. E continuava levando cartas ao Correio…

Em casa espraiava-se a abundância, não a felicidade da paz. Jacinta tomara aos poucos conta de tudo. Esse tudo compreendia Arlindo. O espírito prático e ambicioso dela, inteligente e arguto dava-lhe sobre o marido real ascendência. Aconselhava-o nos projetos da loja, rescindia contratos, imaginava outros, dirigia passos e mãos do marido, indagava-lhe das horas gastas fora, proibia-lhe a saída, regrava-lhe os acessos de afeição. Arlindo tentou protestar. Jacinta em dura voz protestou contra o protesto. E Telinho entregou as ventas a argolar. Conto como foi.

Nos primeiros tempos quando não redarguia às imposições da esposa consolava-se pensando consigo que eram os primeiros tempos. Fazia tão pouco que estavam casados!… Melhor deixasse passar mais um mês ou dois… Então sim: mostraria que naquela casa quem cantava era o galo. Passados dois meses mais um terceiro se escoou. E assim até que veio pontual o período da gravidez. Era preciso deixá-la sossegada, coitada! ia sofrer tanto!… Madama Assunta recomendara descanso. Depois do parto ele tomaria conta da casa… Coitada!…

Aos olhos de Telinho vinham sorrir lágrimas enternecidas. Vivia num encantamento. Teria um filho que era dele! Aquela manifestação de masculinidade abrandava o afelear do grilhão. Mas a cada nova intimação ou ordem da mulher mais lhe engrossava no espírito a ideia de após o parto manobrar sozinho as difíceis rédeas do lar. Ora sebo! a casa era dele. Quem mandava era ele. Depois do parto!…

Afinal, velha manhã de terça-feira um quinze de março, arranhou a casa o choro da criatura nova. Telinho por mais de três horas ajoelhado junto à cama olhos imersos nos lençóis, guardando entre os dedos a mão gelada da mulher, derramara mais suores e lágrimas que fonte de cordilheira. Sofreu muito mesmo. Aniquilou-se. Emagreceu. E quando depois junto ao leito onde pálida Jacinta e Jacintinha repousavam conversava com a sogra e a parteira, confessou escorrendo as mãos trementes pelo ápice da barriga que sofrera as mesmas dores da mulher. Parecia-lhe que Jacintinha nascera unicamente dele. Ai, dor!…

Por uma semana adorou Jacinta e filha. Não saiu do quarto. Não trocou roupa. Não se lavou. Quando lá surgiu na loja outra vez, os negócios corriam uniformemente bem. Quis inteirar-se de tudo. Agora sim, precisava trabalhar muito. Tinha um nobre dever a cumprir. E foi interrompendo a série de contas e de notas com litanias de peripécias e rosários gozosos às graças de Jacintinha que chegou ao fim das informações do primo. Não compreendera não ouvira coisa alguma. Estava bem! Estava tudo muito bem! Mas ansiara por chegar até a loja porque deixá-la assim… sem ele! E tinha de voltar para casa. Como irá passando Jacintinha, minha filha!… Jacintinha!…

Jacinta logo se tirara da cama e pusera-se com ímpeto de mãe nova a tratar da criança. Ninguém tinha licença de mudar uma fralda, só ela. Lavava com segura habilidade a pequenina, curava-lhe o umbigo, espargia montanhas de pó no corpinho rubro, vestia-o no azul das flanelas, perfumava-lhe a Cuir de Russie as longas mantas debruadas de seda e adormentava a filha, com o calor das palavras mais profundamente maternais. Quando Telinho na ponta dos pés entrava da loja perguntando com os olhos por Jacintinha, Jacinta recomendava-lhe silêncio com tanta veemência que às vezes chegava a acordar a criança. Então quem recebia as admoestações ásperas e sofria-lhe a descomponenda? Era, quem mais? Telinho o só culpado.

E Telinho recordou-se que chegara enfim o tempo de assumir a direção do lar. Mas Jacinta ainda estava tão fraca! Contrariá-la? Podia influir no leite. Mais tarde, quando Jacintinha tivesse uns duzentos dias… Então sim! Havia de mostrar que não era nenhum pai-gonçalo. Fazia mais aquele sacrifício pela filha, Jacintinha!…

E os dias passavam. Telinho inteirava-se cada vez mais de sua subalternidade. A consciência da própria fraqueza acirrava-lhe por tal forma a sensibilidade que duas ou três vezes por dia era todo cóleras abafadas. E tudo ia tão bem! O progresso exterior e suas galas e mais suas facilidades contrastava dolorosamente com a decadência de alma em que se via. Rebaixado assim! Não! E nos próprios atos caseiros em que quem manda é a mulher Telinho via espezinhamentos à sua dignidade de senhor e macho. Desconhecia gradações e meios-termos, ignorava compensações. O objeto disposto por ele e descolocado pela mulher parecia-lhe degradante humilhação. Mas sofreria muito com isso? Tornara-se apenas irritadiço, pensava um pouco mais, perdera uma quarta parte do bom-humor. Da completa paz anterior passara a viver vida de gozos intermitentes em que os eclipses parciais da calma dilatavam-se apenas o eco dum pensamento ou dum gesto. O que mais lhe doía era se alguma pessoa presenciava uma dessas ocasiões em que lhe cumpria obedecer às ordens da esposa. Então remordia-se interiormente e jurava que aquilo havia de acabar. Mas saía dali já plácido já Telinho sorridente referindo ao primeiro que encontrava, com a serenidade duma importância repleta de si mesma que fizera a mulher executar tal ação, a tal parte a mandara, aconselhara-a por esta forma quando na verdade ele era o executante, ele o mandado, ele o aconselhado. E num andantino discreteava com a voz das coisas importantes sobre o quão difícil é mandar e agir na sociedade quando se é negociante reto, nobre esposo e legítimo pai.

Posso assegurar que a sogra era sua maior defensora, a única mesmo contra as investidas de Jacinta. Desde o princípio talvez mesmo antes do princípio com a sagacidade divinatriz das mães inteirara-se dona Cremildes da orientação que tomaria o lar da filha. Não lhe desagradou ser mãe de tal segura energia. Vieram porém horas de pensar mais acertado e concordara que a posição dum marido não era positivamente aquela. Morando na mesma casa foi contínua testemunha das vergonhas do Telinho. Vendo ocasião de intervir falou à filha. É porém a mais verdadeira das verdades que Jacinta de nada se apercebera. Nem planejara mandar. Mandava porque era índole sua mandar. Sem preconceitos. Sem raciocínios. Mandava porque reconhecendo-se inconscientemente superior e mais forte sabia… intuitivamente agora, que é dos superiores e dos fortes mandar e não obedecer, dirigir e não aconselhar-se. As advertências maternas serviram só para que se inteirasse duma verdade que até então não percebera e apressar-lhe assim a conquista do lar e dos negócios da família. Entre os negócios da família Jacinta incluiu Telinho. Viu-se o marido. Verificou a própria superioridade, acostumou-se a chamar Telinho de bobo, desdenhou dele e mandou. Agora se uma dessas mulheres se põe a pensar em coisas de amor… Mas Jacinta era fria. O enclausurar-se numa virgindade perpétua fora para ela o menos pesado entre os exílios. Casara porque é costume casar. Pouco lhe importava a escolha deste ou daquele. A virilidade do seu caráter fazia dela homem entre homens. Todavia veremos que chegada a ocasião não se esqueceu de ser inteiramente mulher.

Corriam os duzentos dias. Foi a época de maior exacerbação nos brios de Telinho. Tempo em que existiu um pouco menos para o gosto de viver. Nem repetia mais a promessa de retrucar às ordens da mulher “quando Jacintinha tivesse duzentos dias”. Remastigava em silêncio a erva ruim da humilhação. Tinha azias de alma. Vencer ou… Era preciso vencer. Nem se passaram os duzentos dias.

Foi num lerdo crepúsculo de outubro. Depois do jantar. Jacinta, Telinho, dona Cremildes. Com o palito a oscilar nos dentes espaçados, Arlindo chegara à janela. Corria no roxo da tarde o hálito refrescante duma brisa. Deram-lhe vontades de sair. Foi buscar o chapéu.

— Aonde você vai?

— Sair um pouco. Já volto.

— Você não vai, não.

Àquela proibição Telinho jogou o olhar à sogra na esperança dela não ter ouvido e poder arrepiar caminho mas nos olhos que dona Cremildes mandara à filha sobejavam para ele além da notícia nua de seu apoucamento firmes alianças para uma revolta. Sentiu que estava no fim dos duzentos dias. Exagitadamente após tantos duzentos dias de canga, perguntou o seu primeiro, seu primeiríssimo “por quê?”. Tão inesperada era a audácia que Jacinta levantou os olhos para ele numa legítima admiração. Sem de pronto compreender o fato tal a anormalidade deste, numa baianada de quem quer assegurar-se de seus próprios músculos, escondendo uma possível razão redarguiu como aço frio:

— Porque não quero!

— Mas a senhora não tem querer!

— Quem é que não tem querer! gritou ela alçando-se na expressão descomposta de fúria. Nos seus lábios trementes de cólera viera sorrateira depor a sua linha de irresolução uma perplexidade.

— A senhora! Quem é o marido nesta casa?

— É você? e casquinhou: Bobo!

A situação abria-se por tal forma extraordinária que Jacinta perdia a faculdade de raciocínio. Se não, veria na figura oscilante de Telinho não cólera e resolução mas covardia apavorida e idiota. E as risadas que pretendera dar sair-lhe-iam sonoras e reais. Telinho em meio já daquele Gólgota resolvera duma vez crucificar-se. Berrou cuspindo o palito para frente:

— Bobo, se quiser mas hei-de mandar! Veremos quem pode mais nesta casa ou acabamos com isto! Ora sebo… O que é que a senhora pensa! Se me deixei mandar algum tempo foi… foi… por delicadeza! Mas agora quero mandar e hei de mandar! Ora sebo!

Estava cada vez mais encorajado porque a réplica tardava. Enterrara desmesuradamente o chapéu na cabeça como que se coroando rei daquele Congo. Rebusnava com voz de matraca as frases primogênitas de energia que nunca proferira na vida. Ebriou. Delirou no prazer de ouvir-se e ver-se forte, senhor de sua e mais vontades. E pouco frequentado nos requebros da oratória, valorizando os interstícios da fala com ora-sebos ofensivos fustigou os ouvidos de Jacinta com relhadas nunca ouvidas mesmo dos lábios calejados dum orador pé-de-boi.

Jacinta viu-se perdida. Lembrou-se que era mulher. Golfou soluços de assobio e murmúrios de trespasse e soltando um “ai, mamãe!” de abandono e infelicidade estirou-se no sofá largadamente para com mais conforto representar a imagem da mulher batida.

Telinho então magnífico ante a queda da esposa. Descortinara afinal em si mesmo uma força que não possuía. Tresvariava na vitória narcisando-se nos seus muques irreais. Discursou muito tempo. Aludes de objurgatórias e inúteis afrontas ao amaro refrão de suspiros que eram uivos e chorares gritados. E saiu.

Saiu atarantado. Na placidez monástica do pôr-de-sol andou sozinho. Homem maluco? a dar punhadas na brisa… Julgava tropeçar a cada passo em Jacintas inermes. Paravam para vê-lo. Riam. Só muito depois já na doçura da noite Telinho começou a pensar.

As horas passavam rapidamente impiedosamente. As ruas estavam cheias de famílias que findo o jantar vinham para o relento em busca de assunto. Telinho embaralhava-se no ruído das ruas com a ansiedade do que encontra lenitivo. O barulho dos passos o tóróró dos carros o crepitar das risadas a grita das crianças impedia-lhe quase recordar. Dava graças a Deus. Pensava acelerado. E a explosão com que delirara em frente da mulher assumia agora proporções de tragédia. Insultara. Batera? Matara talvez. Que esgotamento!…

No largo do Palácio havia música. Arlindo ouviu música, muita música, toda a música. Não escutava, deixava-se assombrar na atoarda dos bombos e dos saxofones. Maior porém era o chinfrim que lhe ia n'alma. Encharcou-se de multidão. Que consolo perder-se na turba móvel nulificado ignoto reassumindo as proporções de nada que sempre lhe tinham ido tão bem!

Mas a música cessou. As famílias partiram. Pouco a pouco as últimas janelas fecharam as pálpebras cansadas. As ruas adormeceram. Era preciso voltar… As brisas numa reviravolta feminina traziam uma névoa gelada e úmida.

Telinho sentiu a nostalgia do leito. Sempre quente, sempre cômodo! Também: que necessidade tivera de fazer tal sarceiro! Podia ter saído sem dizer nada… Uma zanguinha à-toa… Passava logo. E ela tivera razão, olhe aí o tempo! E não: insultara a esposa… batera… E agora por causa da raiva intempestiva era aquilo: Jacinta muito bem adormecida nos cobertores e ele a se molhar de neblina tonto de sono… Burro!

Andou mais. Saudades de Jacintinha!… As horas passavam lentamente impiedosamente… Chorou. Enraiveceu-se. Vão pro diabo! Crescia-lhe a impaciência e o frio. Não voltaria!… Resolveu voltar. Entraria muito manso. Podia até ficar na sala de jantar dormindo no sofá… Bem que lhe sorrira a ideia de ir dormir num hotel mas… e dinheiro?

Quando defrontou a rua em que morava tomou-se de tal pavor que rodou para trás. Decididamente não voltava! Havia de esperar sozinha toda a noite. Bem feito! Experimentasse o que é falta de homem! Na casa dele quem cantava era o galo… Não voltaria! Se voltasse ela veria nisso… atchim!… uma prova de submissão… Isso nunca! Nunca!......................................................................

.................................................................................................

......................................................................atchim................

.................................................................................................

Quando Telinho com mil paciências de ladrão deu volta à chave o relógio avisava o silêncio que eram as duas da madrugada. Agradou-lhe isso: as badaladas ressoando disfarçavam o trreque da fechadura. Entrou na sala de jantar. Doce calor na casa toda! Que melhor cama que um sofá! Doer-lhe-ia talvez o corpo mas era uma noite só… Depois…

— Telinho!

— Que é!

— Venha dormir na cama, seu bobo! Você vai passar a noite no sofá?…

Telinho foi.

1/1
Menu

Fazer anotação