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Capítulo 19 · O Príncipe

O Príncipe: Capítulo XVIII - De que modo os príncipes devem manter a palavra

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Todos admitem quanto é louvável, em um príncipe, manter a palavra e viver com integridade, sem astúcia. A experiência de nossos tempos, contudo, mostrou que os príncipes que realizaram grandes coisas deram pouca importância à boa-fé, souberam contornar pela astúcia a inteligência dos homens e, no fim, venceram aqueles que se apoiaram na palavra dada.

Deves saber que há dois modos de combater: um pelas leis, outro pela força. O primeiro é próprio dos homens, o segundo, dos animais. Como o primeiro muitas vezes não basta, é necessário recorrer ao segundo. Portanto, é necessário que um príncipe saiba usar bem tanto o animal quanto o homem. Isso foi ensinado aos príncipes, de modo figurado, pelos escritores antigos, que descrevem Aquiles e muitos outros príncipes antigos entregues ao centauro Quíron para serem criados sob sua disciplina. Ter por mestre alguém meio animal e meio homem significa apenas que um príncipe precisa saber servir-se das duas naturezas, pois uma sem a outra não dura.

Sendo, portanto, obrigado a adotar com consciência a natureza animal, o príncipe deve escolher a raposa e o leão, porque o leão não se defende das armadilhas, e a raposa não se defende dos lobos. É preciso, pois, ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para assustar os lobos. Os que se apoiam apenas no leão não entendem do assunto. Portanto, um senhor prudente não pode, nem deve, manter a palavra quando essa observância se volta contra ele e quando já desapareceram as razões que o levaram a prometê-la. Se os homens fossem inteiramente bons, este preceito não valeria. Como são maus e não manteriam a palavra contigo, tu também não estás obrigado a mantê-la com eles. Nunca faltarão a um príncipe razões legítimas para desculpar essa inobservância. Poderiam ser dados exemplos modernos sem fim, mostrando quantos tratados e compromissos foram anulados e tornados sem efeito pela falta de fé dos príncipes, e aquele que melhor soube empregar a raposa saiu-se melhor.

É necessário, no entanto, saber disfarçar bem essa natureza, e ser grande fingidor e dissimulador. Os homens são tão simples e tão sujeitos às necessidades presentes que quem procura enganar sempre encontrará alguém que se deixará enganar. Não posso deixar passar em silêncio um exemplo recente. Alexandre VI nada fez além de enganar os homens, nem jamais pensou em fazer outra coisa, e sempre encontrou vítimas. Nunca houve homem com maior força para afirmar, nem que com juramentos maiores confirmasse uma coisa e a observasse menos. Ainda desse modo, seus enganos sempre lhe saíram conforme o desejo, porque ele compreendia bem esse lado dos homens.

Portanto, um príncipe dispensa ter todas as boas qualidades que enumerei, sendo muito necessário parecer tê-las. Ousarei dizer também isto: possuí-las e observá-las sempre é prejudicial, enquanto parecer possuí-las é útil. Parecer misericordioso, fiel, humano, religioso e íntegro, e sê-lo, mas com o espírito formado de tal modo que, se for preciso deixar de sê-lo, possas e saibas mudar para o oposto.

E tens de entender isto: um príncipe, especialmente um novo, não pode observar todas as coisas pelas quais os homens são estimados, pois muitas vezes é forçado, para conservar o Estado, a agir contra a fidelidade, a amizade, a humanidade e a religião. Por isso é necessário que tenha o espírito pronto para voltar-se conforme o obriguem os ventos e as variações da fortuna, e, como disse acima, manter-se no bem se puder, sabendo entrar no mal quando for obrigado.

Por essa razão, um príncipe deve cuidar para que nunca lhe escape da boca coisa alguma que não esteja cheia das cinco qualidades nomeadas acima, de modo que pareça, a quem o vê e ouve, todo misericordioso, fiel, humano, íntegro e religioso. Nada é mais necessário parecer possuir do que esta última qualidade, pois os homens julgam, em geral, mais pelos olhos que pelas mãos, porque todos podem ver-te, poucos podem tocar-te. Todos veem o que pareces ser, poucos conhecem o que és, e esses poucos não ousam opor-se à opinião dos muitos, que têm a majestade do Estado para defendê-los. Nas ações de todos os homens, e especialmente dos príncipes, que não convém contestar, julga-se pelo resultado.

Por isso, que um príncipe tenha o crédito de conquistar e manter seu Estado. Os meios serão sempre julgados honrados, e ele será louvado por todos, porque o vulgo se deixa prender sempre pelo que uma coisa parece ser e pelo que resulta dela. No mundo só existe o vulgo, pois os poucos só encontram lugar quando os muitos não têm onde se apoiar.

Um príncipe dos tempos presentes, que não convém nomear, jamais prega outra coisa senão paz e boa-fé, e é inimigo máximo de ambas. Se tivesse observado uma ou outra, teria perdido muitas vezes a reputação e o reino.

O Príncipe

Sinopse

Escrito durante o Renascimento, este livro oferece insights atemporais sobre governança e estratégia política. Maquiavel mergulha na natureza da autoridade e aconselha líderes sobre como manter e consolidar seu domínio, revelando táticas astutas e realistas que continuam a ressoar na política contemporânea. “O Príncipe” é uma obra essencial para qualquer estudante de política, história ou liderança. Com uma linguagem direta e análises profundas, Maquiavel explora questões fundamentais de ética e pragmatismo no exercício do poder. Esta obra clássica desafia as convenções e oferece perspectivas perspicazes sobre o mundo do governo, tornando-se um guia atemporal para aqueles que buscam entender os meandros do poder e da tomada de decisões políticas. Examine as ideias revolucionárias de Maquiavel sobre política e liderança, e entenda a sua relevância contínua e a influência que “O Príncipe” exerceu ao longo dos séculos. Explore as estratégias políticas atemporais e os dilemas éticos que Maquiavel apresenta e compreenda por que este livro continua a ser uma leitura obrigatória para estudiosos e líderes em todo o mundo.

Critério de domínio público no Brasil: direitos patrimoniais por vida do autor mais 70 anos, contados de 1º de janeiro do ano seguinte ao falecimento. Tradução W. K. Marriott, falecido em 1927; livre no Brasil desde 1998.

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