Leia agora
O Príncipe

Universo da obra

O Príncipe

Capítulo 10 · O Príncipe

O Príncipe: Capítulo IX - Do principado civil

10 de 32 ≈ 6 min de leitura

Chegando agora ao outro ponto, quando um cidadão destacado torna-se príncipe de sua pátria sem crime nem violência intolerável, e sim pelo favor de seus concidadãos, pode-se chamar isso de principado civil. Para alcançá-lo, não é de todo necessária a genialidade nem a fortuna, e sim uma astúcia feliz. Digo, então, que esse principado é obtido pelo favor do povo ou pelo favor dos grandes. Em todas as cidades encontram-se esses dois partidos distintos. Daí nasce que o povo não deseja ser governado nem oprimido pelos grandes, e os grandes desejam governar e oprimir o povo. Desses dois desejos opostos nasce nas cidades um de três resultados: principado, governo livre ou desordem.

O principado é criado pelo povo ou pelos grandes, conforme um ou outro tenha a ocasião. Os grandes, vendo que não podem resistir ao povo, começam a levantar a reputação de um dos seus e o fazem príncipe, para que sob sua sombra possam desafogar suas ambições. O povo, percebendo que não pode resistir aos grandes, também levanta a reputação de um dos seus e o faz príncipe para ser defendido por sua autoridade. Quem alcança o poder com a ajuda dos grandes se mantém com mais dificuldade do que quem chega a ele com a ajuda do povo, porque o primeiro se vê cercado por muitos que se consideram seus iguais, e por isso não pode comandá-los nem manejá-los a seu gosto. Quem chega ao poder pelo favor popular encontra-se só, e não tem ao redor de si ninguém, ou tem poucos, que não estejam dispostos a obedecer.

Além disso, é impossível satisfazer os grandes com justiça e sem ofender outros. É possível satisfazer o povo, pois o objetivo deste é mais justo que o dos grandes. Estes querem oprimir, aquele deseja apenas não ser oprimido. Acrescente-se ainda que um príncipe nunca pode assegurar-se contra um povo hostil, por serem muitos, ao passo que pode assegurar-se contra os grandes, por serem poucos. O pior que um príncipe pode esperar de um povo hostil é ser abandonado por ele. Dos grandes hostis, deve temer o abandono e também que se levantem contra ele, pois, sendo nessas coisas mais previdentes e astutos, sempre se adiantam para salvar-se e obter favores daquele que esperam que vença. Além disso, o príncipe é obrigado a viver sempre com o mesmo povo, mas pode muito bem viver sem os mesmos grandes, podendo fazê-los e desfazê-los todos os dias, e dar ou tirar autoridade quando lhe agrada.

Portanto, para tornar esse ponto mais claro, digo que os grandes devem ser considerados principalmente de dois modos: ou conduzem seu caminho de tal maneira que se ligam inteiramente à tua fortuna, ou não. Aqueles que se ligam, e não são rapaces, devem ser honrados e amados. Os que não se ligam podem ser tratados de dois modos. Se agem desse jeito por fraqueza de ânimo e falta natural de coragem, deves servir-te deles, sobretudo daqueles que dão bons conselhos. Desse modo, na prosperidade os honras, e na adversidade não tens de temê-los. Mas, quando evitam ligar-se por seus próprios fins ambiciosos, isso é sinal de que pensam mais em si mesmos do que em ti. O príncipe deve guardar-se deles e temê-los como inimigos declarados, porque na adversidade sempre ajudam a arruiná-lo.

Portanto, quem se torna príncipe pelo favor do povo deve mantê-lo amigo, e pode fazê-lo facilmente, pois o povo pede apenas não ser oprimido por ele. Mas quem se torna príncipe pelo favor dos grandes, contra o povo, deve antes de tudo procurar ganhar o povo para si, e isso pode fazer facilmente se o toma sob sua proteção. Os homens, quando recebem bem daquele de quem esperavam mal, ligam-se mais estreitamente ao benfeitor. Desse modo, o povo se torna depressa mais devotado a ele do que se ele tivesse sido elevado ao principado por seus favores. O príncipe pode conquistar sua afeição de muitos modos, mas, como esses modos variam conforme as circunstâncias, não se podem dar regras fixas, e por isso os deixo de lado. Repito, contudo, que é necessário ao príncipe ter o povo como amigo. De outro modo, não terá segurança na adversidade.

Nábis, príncipe dos espartanos, sustentou o ataque de toda a Grécia e de um exército romano vitorioso, e contra eles defendeu sua pátria e seu governo. Para vencer esse perigo, bastou-lhe assegurar-se contra poucos, mas isso não teria bastado se o povo lhe fosse hostil. E que ninguém combata esta afirmação com o provérbio gasto de que “quem constrói sobre o povo constrói sobre lama”, pois isso é verdade quando um cidadão privado põe ali seu fundamento e se persuade de que o povo o libertará quando for oprimido pelos inimigos ou pelos magistrados. Nisso ele se verá muitas vezes enganado, como aconteceu aos Gracos em Roma e a Messer Giorgio Scali em Florença. Mas, admitido um príncipe estabelecido como foi dito acima, que possa comandar, que seja homem de coragem, não se espante na adversidade, não falhe nas demais qualidades e, por sua resolução e energia, mantenha todo o povo animado, esse príncipe nunca se verá enganado por ele, e ficará demonstrado que lançou bem seus fundamentos.

Esses principados correm perigo quando passam da ordem civil para o governo absoluto, pois tais príncipes governam pessoalmente ou por meio de magistrados. Neste último caso, seu governo é mais fraco e inseguro, porque repousa inteiramente na vontade daqueles cidadãos elevados à magistratura, os quais, especialmente em tempos turbulentos, podem destruir o governo com muita facilidade, por intriga ou desafio aberto. O príncipe não tem oportunidade, no meio dos tumultos, de exercer autoridade absoluta, porque os cidadãos e súditos, acostumados a receber ordens dos magistrados, não estão dispostos a obedecer-lhe nessas confusões, e sempre haverá, nos tempos duvidosos, escassez de homens em quem possa confiar. Tal príncipe não pode apoiar-se naquilo que observa nos tempos calmos, quando os cidadãos precisam do Estado, porque então todos concordam com ele. Todos prometem e, estando a morte distante, todos querem morrer por ele. Mas nos tempos turbulentos, quando o Estado precisa dos cidadãos, então encontra poucos. E essa experiência é tanto mais perigosa porque só pode ser feita uma vez. Portanto, um príncipe sábio deve tomar um caminho tal que seus cidadãos, em todo tipo de tempo e circunstância, sempre tenham necessidade do Estado e dele. Então os encontrará sempre fiéis.

O Príncipe

Sinopse

Escrito durante o Renascimento, este livro oferece insights atemporais sobre governança e estratégia política. Maquiavel mergulha na natureza da autoridade e aconselha líderes sobre como manter e consolidar seu domínio, revelando táticas astutas e realistas que continuam a ressoar na política contemporânea. “O Príncipe” é uma obra essencial para qualquer estudante de política, história ou liderança. Com uma linguagem direta e análises profundas, Maquiavel explora questões fundamentais de ética e pragmatismo no exercício do poder. Esta obra clássica desafia as convenções e oferece perspectivas perspicazes sobre o mundo do governo, tornando-se um guia atemporal para aqueles que buscam entender os meandros do poder e da tomada de decisões políticas. Examine as ideias revolucionárias de Maquiavel sobre política e liderança, e entenda a sua relevância contínua e a influência que “O Príncipe” exerceu ao longo dos séculos. Explore as estratégias políticas atemporais e os dilemas éticos que Maquiavel apresenta e compreenda por que este livro continua a ser uma leitura obrigatória para estudiosos e líderes em todo o mundo.

Critério de domínio público no Brasil: direitos patrimoniais por vida do autor mais 70 anos, contados de 1º de janeiro do ano seguinte ao falecimento. Tradução W. K. Marriott, falecido em 1927; livre no Brasil desde 1998.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978652613886187722597290
O Príncipe

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de O Príncipe

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral O Príncipe: Tradução Literunico Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
1Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 10 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de O Príncipe

Capa de O Príncipe
Continue a leitura O Príncipe: Capítulo IX - Do principado civil Capítulo 10 · 10 de 32 · ≈ 6 min
Todos os capítulos 32 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir