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Capítulo 26 · O Príncipe

O Príncipe: Capítulo XXV - O que a fortuna pode fazer nas coisas humanas e como resistir a ela

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Não me é desconhecida a opinião que muitos tiveram, e ainda têm, de que as coisas do mundo são governadas de tal modo pela fortuna e por Deus que os homens, com sua sabedoria, não podem dirigi-las, e ninguém pode sequer ajudá-las. Por isso, querem fazer crer que não é necessário trabalhar muito nos assuntos, e sim deixar que o acaso os governe. Essa opinião recebeu mais crédito em nossos tempos por causa das grandes mudanças nas coisas, vistas e ainda vistas todos os dias, além de toda conjectura humana. Pensando nisso às vezes, inclino-me em alguma medida à opinião deles. Mesmo desse modo, para preservar nosso livre-arbítrio, considero verdadeiro que a fortuna é árbitra de metade de nossas ações. A outra metade, ou talvez um pouco menos, ela deixa para nós governarmos.

Comparo-a a um daqueles rios furiosos que, quando transbordam, inundam as planícies, derrubam árvores e edifícios, levam a terra de um lugar para outro. Tudo foge diante deles, tudo cede à sua violência, sem poder resistir de modo algum. E, embora essa seja sua natureza, não se segue daí que os homens, quando o tempo fica bom, deixem de fazer provisões com diques e barreiras, de modo que, subindo outra vez, as águas passem por um canal, e sua força não seja tão livre nem tão perigosa. O mesmo acontece com a fortuna, que mostra seu poder onde a valentia não se preparou para resistir a ela, e dirige sua força para onde sabe que não foram erguidos diques nem barreiras para contê-la.

E, se considerares a Itália, que é sede dessas mudanças e lhes deu impulso, verás que ela é um campo aberto, sem barreiras e sem defesa alguma. Pois, se tivesse sido defendida pela valentia adequada, como são Alemanha, Espanha e França, ou esta invasão não teria produzido as grandes mudanças que produziu, ou nem sequer teria vindo. E considero isso suficiente quanto à resistência à fortuna em geral.

Mas, restringindo-me mais ao caso particular, digo que se pode ver um príncipe feliz hoje e arruinado amanhã sem que tenha mostrado mudança alguma de disposição ou caráter. Isso nasce, creio eu, antes de tudo, das causas já discutidas longamente: o príncipe que se apoia por inteiro na fortuna se perde quando ela muda. Creio também que será bem-sucedido aquele que dirige suas ações conforme o espírito dos tempos, e que não terá êxito aquele cujas ações não concordam com os tempos. Porque se veem homens, nos assuntos que levam ao fim que cada um tem diante de si, isto é, glória e riquezas, chegar lá por métodos variados: um com cautela, outro com ímpeto, um pela força, outro pela habilidade, um pela paciência, outro por seu oposto. E cada um alcança a meta por método diferente. Também se vê, de dois homens cautelosos, um chegar ao fim e o outro falhar. Do mesmo modo, dois homens, por procedimentos diferentes, são igualmente bem-sucedidos, um sendo cauteloso e outro impetuoso. Tudo isso nasce apenas de eles conformarem ou não seus métodos ao espírito dos tempos. Daí segue o que eu disse: dois homens agindo de modo diferente produzem o mesmo efeito, e, de dois que agem de modo semelhante, um alcança seu objetivo e o outro não.

As mudanças de condição também nascem disso. Se, para aquele que governa a si mesmo com cautela e paciência, os tempos e os assuntos convergem de modo que sua administração seja bem-sucedida, sua fortuna está feita. Mas, se os tempos e os assuntos mudam, ele se arruína caso não mude seu modo de agir. Raramente se encontra homem bastante prudente para saber acomodar-se à mudança, tanto porque não pode desviar-se daquilo a que a natureza o inclina, quanto porque, tendo sempre prosperado agindo de um modo, não se persuade de que seja bom deixá-lo. Portanto, o homem cauteloso, quando chega a hora de tornar-se ousado, não sabe fazê-lo, e daí se arruína. Se tivesse mudado sua conduta com os tempos, a fortuna não teria mudado.

O papa Júlio II procedeu impetuosamente em todos os seus assuntos, e encontrou tempos e circunstâncias tão conformes a essa linha de ação que sempre teve êxito. Considera sua primeira empresa contra Bolonha, ainda vivo Messer Giovanni Bentivogli. Os venezianos não concordavam com ela, nem o rei da Espanha, e ele ainda discutia a empresa com o rei da França. Apesar disso, entrou pessoalmente na expedição com sua audácia e energia habituais, movimento que deixou Espanha e venezianos indecisos e parados, estes por medo, aqueles pelo desejo de recuperar o reino de Nápoles. Por outro lado, arrastou consigo o rei da França, porque esse rei, tendo observado o movimento e desejando fazer do papa seu amigo para humilhar os venezianos, achou impossível recusá-lo. Portanto, Júlio, com sua ação impetuosa, realizou o que nenhum outro pontífice, com simples prudência humana, poderia ter feito. Se tivesse esperado em Roma até poder partir com seus planos arranjados e tudo fixado, como qualquer outro pontífice teria feito, nunca teria alcançado êxito. O rei da França teria dado mil desculpas, e os outros teriam levantado mil temores.

Deixarei de lado suas outras ações, pois foram todas semelhantes e todas tiveram êxito, porque a brevidade de sua vida não lhe permitiu experimentar o contrário. Mas, se tivessem surgido circunstâncias que exigissem dele agir com cautela, sua ruína teria vindo, porque nunca teria se afastado daqueles modos aos quais a natureza o inclinava.

Concluo, portanto, que, sendo a fortuna mutável e os homens firmes em seus modos, enquanto ambos concordam, os homens têm êxito. Quando discordam, fracassam. Quanto a mim, considero melhor ser ousado que cauteloso, porque a fortuna é mulher e, se desejas mantê-la submetida, é necessário golpeá-la e contrariá-la. Vê-se que ela se deixa dominar antes pelos ousados do que por aqueles que procedem com frieza. Por isso, como mulher, é sempre amiga dos jovens, porque são menos cautelosos, mais violentos e a comandam com maior audácia.

O Príncipe

Sinopse

Escrito durante o Renascimento, este livro oferece insights atemporais sobre governança e estratégia política. Maquiavel mergulha na natureza da autoridade e aconselha líderes sobre como manter e consolidar seu domínio, revelando táticas astutas e realistas que continuam a ressoar na política contemporânea. “O Príncipe” é uma obra essencial para qualquer estudante de política, história ou liderança. Com uma linguagem direta e análises profundas, Maquiavel explora questões fundamentais de ética e pragmatismo no exercício do poder. Esta obra clássica desafia as convenções e oferece perspectivas perspicazes sobre o mundo do governo, tornando-se um guia atemporal para aqueles que buscam entender os meandros do poder e da tomada de decisões políticas. Examine as ideias revolucionárias de Maquiavel sobre política e liderança, e entenda a sua relevância contínua e a influência que “O Príncipe” exerceu ao longo dos séculos. Explore as estratégias políticas atemporais e os dilemas éticos que Maquiavel apresenta e compreenda por que este livro continua a ser uma leitura obrigatória para estudiosos e líderes em todo o mundo.

Critério de domínio público no Brasil: direitos patrimoniais por vida do autor mais 70 anos, contados de 1º de janeiro do ano seguinte ao falecimento. Tradução W. K. Marriott, falecido em 1927; livre no Brasil desde 1998.

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