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Capítulo 9 · O Príncipe

O Príncipe: Capítulo VIII - Dos que chegaram ao principado por crimes

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Embora um príncipe possa subir de uma condição privada por dois caminhos, nenhum dos quais pode ser atribuído inteiramente à fortuna ou ao engenho, parece-me claro que não devo calar sobre eles, ainda que um deles pudesse ser tratado com maior amplitude quando eu discutir as repúblicas. Esses caminhos são: quando alguém chega ao principado por meios criminosos e infames, ou quando uma pessoa privada se torna príncipe de sua pátria pelo favor de seus concidadãos. Falando do primeiro modo, ele será esclarecido por dois exemplos, um antigo e outro moderno. Sem entrar mais a fundo no assunto, considero que esses dois exemplos bastam para aqueles que possam ser obrigados a segui-los.

Agátocles, o siciliano, tornou-se rei de Siracusa partindo de condição privada e também de condição baixa e abjeta. Filho de um oleiro, esse homem, em todas as mudanças de sua fortuna, levou sempre uma vida infame. Apesar disso, acompanhou suas infâmias de tanta capacidade de espírito e de corpo que, dedicando-se à profissão militar, subiu por seus graus até tornar-se pretor de Siracusa. Estabelecido nessa posição, e tendo deliberadamente resolvido fazer-se príncipe e tomar pela violência, sem obrigação para com outros, aquilo que lhe fora concedido por consentimento, entrou em acordo para esse fim com Amílcar, o cartaginês, que combatia na Sicília com seu exército. Certa manhã, reuniu o povo e o senado de Siracusa, como se tivesse de tratar com eles de assuntos relativos à república. A um sinal combinado, os soldados mataram todos os senadores e os mais ricos do povo. Mortos esses, ele tomou e conservou o principado daquela cidade sem nenhuma comoção civil. Embora tenha sido duas vezes derrotado pelos cartagineses e, por fim, sitiado, conseguiu defender sua cidade e, deixando parte de seus homens para defendê-la, atacou a África com os outros e, em pouco tempo, levantou o cerco de Siracusa. Os cartagineses, reduzidos a extrema necessidade, foram obrigados a entrar em acordo com Agátocles e, deixando-lhe a Sicília, contentaram-se com a posse da África.

Portanto, quem considera as ações e o engenho desse homem verá nada, ou pouco, que possa ser atribuído à fortuna, uma vez que alcançou a superioridade, como foi mostrado, sem o favor de alguém, e sim passo a passo na profissão militar, graus conquistados com mil trabalhos e perigos, e depois mantidos por ele com ousadia entre muitos riscos. Mesmo desse modo, não se pode chamar de virtude matar concidadãos, enganar amigos, não ter fé, piedade nem religião. Tais meios podem conquistar império, mas não glória. Se forem consideradas a coragem de Agátocles ao entrar nos perigos e sair deles, junto com sua grandeza de ânimo ao suportar e vencer adversidades, não se vê por que deveria ser estimado menos que os capitães mais notáveis. Sua crueldade bárbara e sua desumanidade, com infinitas maldades, não permitem que seja celebrado entre os homens mais excelentes. O que alcançou não pode ser atribuído nem à fortuna nem ao engenho.

Em nossos tempos, durante o governo de Alexandre VI, Oliverotto da Fermo, deixado órfão muitos anos antes, foi criado por seu tio materno, Giovanni Fogliani, e nos primeiros dias de sua juventude foi enviado para combater sob Pagolo Vitelli, a fim de que, formado sob sua disciplina, alcançasse alguma posição elevada na profissão militar. Depois da morte de Pagolo, combateu sob seu irmão Vitellozzo e, em pouquíssimo tempo, dotado de engenho e de corpo e ânimo vigorosos, tornou-se o primeiro homem de sua profissão. Mas, parecendo-lhe coisa pobre servir sob outros, resolveu, com a ajuda de alguns cidadãos de Fermo, para os quais a servidão da pátria era mais cara que sua liberdade, e com a ajuda dos Vitelleschi, tomar Fermo. Escreveu então a Giovanni Fogliani dizendo que, tendo estado muitos anos longe de casa, desejava visitar a ele e sua cidade, e de algum modo ver seu patrimônio. Embora não tivesse trabalhado para adquirir outra coisa além de honra, desejava vir honrosamente para que os cidadãos vissem que não gastara seu tempo em vão. Por isso viria acompanhado de cem cavaleiros, seus amigos e servidores, e pedia a Giovanni que providenciasse para que fosse recebido com honra pelos fermianos, o que seria honra para ele e também para o próprio Giovanni, que o havia criado.

Giovanni, portanto, não faltou a nenhuma atenção devida ao sobrinho, fez com que fosse recebido com honra pelos fermianos e hospedou-o em sua própria casa. Ali, depois de passar alguns dias e de preparar o necessário para seus desígnios perversos, Oliverotto deu um banquete solene, para o qual convidou Giovanni Fogliani e os chefes de Fermo. Quando terminaram os pratos e os demais divertimentos usuais em tais banquetes, Oliverotto começou habilmente certos discursos graves, falando da grandeza do papa Alexandre e de seu filho Cesare, bem como de suas empresas. Giovanni e os outros responderam a esse discurso, mas Oliverotto levantou-se de repente, dizendo que tais assuntos deviam ser discutidos em lugar mais reservado, e retirou-se para uma câmara, para onde Giovanni e os demais cidadãos o seguiram. Mal se sentaram, soldados saíram de lugares secretos e mataram Giovanni e os outros. Depois desses assassinatos, Oliverotto montou a cavalo, percorreu a cidade e sitiou o magistrado principal no palácio, de modo que, por medo, o povo foi forçado a obedecer-lhe e a formar um governo do qual ele se fez príncipe. Matou todos os descontentes capazes de prejudicá-lo e fortaleceu-se com novas ordens civis e militares, de tal modo que, no ano em que manteve o principado, não apenas esteve seguro na cidade de Fermo, como se tornou temível para todos os vizinhos. Sua destruição teria sido tão difícil quanto a de Agátocles se ele não se tivesse deixado enganar por Cesare Borgia, que o capturou com os Orsini e os Vitelli em Sinigaglia, como foi dito acima. Desse modo, um ano depois de cometer esse parricídio, foi estrangulado junto com Vitellozzo, a quem havia tomado como mestre em virtude e maldade.

Alguém poderá admirar-se de como acontece que Agátocles, e outros semelhantes, depois de infinitas traições e crueldades, tenham vivido por muito tempo seguros em sua pátria, defendido-se dos inimigos externos e nunca sofrido conspiração de seus próprios cidadãos, enquanto muitos outros, por meio da crueldade, nunca conseguiram conservar o Estado nem em tempos de paz, e muito menos nos tempos incertos da guerra. Creio que isso nasce das severidades mal usadas ou bem usadas. Podem ser chamadas bem usadas, se é lícito falar bem do mal, aquelas aplicadas de uma só vez, necessárias à própria segurança, e que depois não continuam, a menos que possam converter-se em benefício dos súditos. Mal usadas são aquelas que, embora poucas no princípio, multiplicam-se com o tempo em vez de diminuir. Aqueles que praticam o primeiro modo podem, com ajuda de Deus ou dos homens, suavizar em alguma medida seu governo, como fez Agátocles. Para os que seguem o outro, é impossível manter-se.

Daí se deve notar que, ao tomar um Estado, o usurpador deve examinar de perto todas as ofensas que precisa fazer e executá-las todas de uma só vez, para não ter de repeti-las diariamente. Desse modo, ao não inquietar os homens, poderá tranquilizá-los e conquistá-los para si com benefícios. Quem age de outro modo, por timidez ou mau conselho, é sempre obrigado a manter a faca na mão. Não pode confiar em seus súditos, nem eles podem ligar-se a ele, por causa das ofensas contínuas e repetidas. As ofensas devem ser feitas todas de uma vez, para que, sendo provadas menos, ofendam menos. Os benefícios devem ser dados pouco a pouco, para que seu sabor dure mais.

Acima de tudo, um príncipe deve viver entre seu povo de tal modo que nenhuma circunstância inesperada, boa ou má, o faça mudar. Porque, se a necessidade disso chega em tempos turbulentos, já é tarde para as medidas duras. E as brandas não te ajudam, pois serão consideradas forçadas, e ninguém se sentirá obrigado a ti por elas.

O Príncipe

Sinopse

Escrito durante o Renascimento, este livro oferece insights atemporais sobre governança e estratégia política. Maquiavel mergulha na natureza da autoridade e aconselha líderes sobre como manter e consolidar seu domínio, revelando táticas astutas e realistas que continuam a ressoar na política contemporânea. “O Príncipe” é uma obra essencial para qualquer estudante de política, história ou liderança. Com uma linguagem direta e análises profundas, Maquiavel explora questões fundamentais de ética e pragmatismo no exercício do poder. Esta obra clássica desafia as convenções e oferece perspectivas perspicazes sobre o mundo do governo, tornando-se um guia atemporal para aqueles que buscam entender os meandros do poder e da tomada de decisões políticas. Examine as ideias revolucionárias de Maquiavel sobre política e liderança, e entenda a sua relevância contínua e a influência que “O Príncipe” exerceu ao longo dos séculos. Explore as estratégias políticas atemporais e os dilemas éticos que Maquiavel apresenta e compreenda por que este livro continua a ser uma leitura obrigatória para estudiosos e líderes em todo o mundo.

Critério de domínio público no Brasil: direitos patrimoniais por vida do autor mais 70 anos, contados de 1º de janeiro do ano seguinte ao falecimento. Tradução W. K. Marriott, falecido em 1927; livre no Brasil desde 1998.

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