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Capítulo 4 · O Príncipe

O Príncipe: Capítulo III - Dos principados mistos

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As dificuldades aparecem nos principados novos. Primeiro, quando o principado não é inteiramente novo, e sim como um membro acrescentado a um Estado que, tomado em conjunto, pode ser chamado composto, as mudanças nascem sobretudo de uma dificuldade natural que existe em todos os principados novos. Os homens mudam de senhor de bom grado, esperando melhorar de condição, e essa esperança os leva a pegar em armas contra quem governa. Nisso se enganam, pois depois aprendem pela experiência que passaram do mal para pior. Isso decorre também de outra necessidade natural e comum: o novo príncipe sempre precisa impor aos que se submeteram a ele o peso de suas tropas e de muitas outras cargas que a nova conquista exige.

Desse modo, tens por inimigos todos aqueles que feriste ao tomar o principado, e não consegues conservar como amigos aqueles que te puseram ali, porque não podes satisfazê-los como esperavam. Também não podes agir com dureza contra eles, pois te sentes obrigado a eles. Ainda que alguém seja muito forte em armas, para entrar em uma província precisa sempre da boa vontade dos naturais do lugar.

Por essas razões, Luís XII, rei da França, ocupou Milão depressa e depressa a perdeu. Para expulsá-lo da primeira vez bastaram as forças do próprio Ludovico, pois aqueles que lhe haviam aberto as portas, vendo-se enganados na esperança de benefício futuro, não suportaram os maus-tratos do novo príncipe. É muito verdade que, depois de conquistar pela segunda vez províncias rebeladas, elas não se perdem tão facilmente. O príncipe, com pouca hesitação, aproveita a rebelião para punir os culpados, afastar os suspeitos e fortalecer-se nos pontos mais fracos. Desse modo, para fazer a França perder Milão pela primeira vez, bastou ao duque Ludovico levantar revoltas nas fronteiras. Para fazê-la perder pela segunda vez, foi necessário trazer o mundo inteiro contra ela, derrotar seus exércitos e expulsá-los da Itália, o que nasceu das causas já mencionadas.

Mesmo desse modo, Milão foi tirada da França tanto na primeira quanto na segunda vez. As razões gerais da primeira perda já foram examinadas. Resta nomear as da segunda e ver que recursos ele tinha, e que recursos qualquer um em situação semelhante teria, para conservar-se com mais segurança na conquista do que fez o rei da França.

Digo, então, que os domínios que, ao serem adquiridos, se acrescentam a um Estado antigo de quem os adquire pertencem ao mesmo país e à mesma língua, ou não pertencem. Quando pertencem, é mais fácil conservá-los, sobretudo quando não estavam acostumados a governar-se por si mesmos. Para mantê-los com segurança, basta extinguir a família do príncipe que os governava. Como os dois povos conservam, nas demais coisas, as antigas condições, e não são diferentes nos costumes, viverão tranquilamente juntos. Foi o que se viu na Bretanha, na Borgonha, na Gasconha e na Normandia, unidas à França há tanto tempo. Embora possa haver alguma diferença de língua, os costumes são semelhantes, e os povos conseguem conviver com facilidade. Quem os anexou, se deseja conservá-los, só precisa atender a duas coisas: que a família do antigo senhor seja extinta e que nem suas leis nem seus impostos sejam alterados. Em pouquíssimo tempo, eles se tornam um só corpo com o antigo principado.

Quando se conquistam Estados em um país diferente por língua, costumes ou leis, surgem dificuldades, e são necessárias boa fortuna e grande energia para conservá-los. Uma das maiores e mais reais ajudas seria que aquele que os conquistou fosse morar ali. Isso tornaria sua posição mais segura e duradoura, como ocorreu com o Turco na Grécia, que, apesar de todas as outras medidas tomadas para conservar aquele Estado, não teria conseguido mantê-lo se não tivesse se instalado ali. Estando presente, veem-se as desordens quando nascem e é possível remediá-las depressa. Estando distante, só se ouve falar delas quando já são grandes, e então não há mais remédio. Além disso, o país não é saqueado por teus funcionários. Os súditos ficam satisfeitos por poder recorrer prontamente ao príncipe. Se querem ser bons, têm mais motivo para amá-lo. Se querem agir de outro modo, têm mais motivo para temê-lo. Quem quiser atacar de fora esse Estado precisará de extrema cautela. Enquanto o príncipe residir ali, só com enorme dificuldade poderá ser arrancado dele.

O outro caminho, e melhor, é enviar colônias a um ou dois lugares que sejam como chaves daquele Estado. É necessário fazer isso ou manter ali grande número de cavaleiros e soldados de infantaria. O príncipe gasta pouco com colônias, pois com pouca ou nenhuma despesa pode enviá-las e mantê-las. Ofende apenas uma minoria dos cidadãos, aqueles de quem tira campos e casas para entregá-los aos novos moradores. Os ofendidos, ficando pobres e dispersos, nunca podem prejudicá-lo. Todos os demais, não lesados, ficam quietos com facilidade e, ao mesmo tempo, receiam errar, temendo que lhes aconteça o que aconteceu aos que foram despojados. Concluo que essas colônias não são caras, são mais fiéis, ferem menos, e os feridos, como foi dito, pobres e dispersos, não podem causar dano. Sobre isso, é preciso observar que os homens devem ser tratados com bondade ou esmagados. Eles podem vingar ofensas leves, das graves não podem. Portanto, a ofensa feita a um homem deve ser tal que não deixe receio de vingança.

Ao manter homens armados no lugar de colônias, gasta-se muito mais, pois é preciso consumir na guarnição toda a renda do Estado. Com isso, a aquisição se transforma em perda, e muito mais gente se irrita, porque o Estado inteiro é prejudicado. Com o deslocamento da guarnição de um lugar para outro, todos conhecem o peso da ocupação, todos se tornam hostis, e são inimigos que, embora vencidos em sua própria terra, ainda podem causar dano. Por todas as razões, tais guardas são inúteis na mesma medida em que as colônias são úteis.

Além disso, o príncipe que possui um país diferente nos aspectos mencionados deve tornar-se chefe e defensor dos vizinhos menos poderosos, enfraquecer os mais poderosos entre eles e cuidar para que nenhum estrangeiro tão poderoso quanto ele entre ali por acidente. Isso sempre acontecerá por iniciativa dos descontentes, movidos por excesso de ambição ou por medo, como já se viu. Os romanos foram levados à Grécia pelos etólios, e em todos os outros países onde entraram foram chamados pelos habitantes. O curso habitual das coisas é este: tão logo um estrangeiro poderoso entra em um país, todos os Estados submetidos se aproximam dele, movidos pelo ódio que sentem contra o poder dominante. Quanto a esses Estados sujeitos, ele não precisa fazer esforço para conquistá-los, pois todos se reúnem depressa ao Estado que ele adquiriu ali. Precisa apenas cuidar para que não ganhem força demais nem autoridade demais. Então, com suas próprias forças e com a boa vontade deles, poderá conter facilmente os mais poderosos e permanecer senhor absoluto do país. Quem não conduzir bem esse negócio logo perderá o que adquiriu, e, enquanto o mantiver, terá dificuldades e aborrecimentos sem fim.

Nos países que anexaram, os romanos observaram cuidadosamente essas medidas. Enviaram colônias e mantiveram relações amistosas com as potências menores, sem aumentar sua força. Abateram as maiores e não permitiram que nenhum estrangeiro poderoso adquirisse autoridade. A Grécia me parece exemplo suficiente. Os aqueus e os etólios foram mantidos como amigos, o reino da Macedônia foi humilhado, Antíoco foi expulso. Mesmo desse modo, os méritos dos aqueus e dos etólios nunca lhes trouxeram permissão para aumentar seu poder. As persuasões de Filipe nunca levaram os romanos a serem seus amigos antes de humilhá-lo. A influência de Antíoco não os fez aceitar que ele conservasse qualquer domínio naquele país. Nesses casos, os romanos fizeram o que todos os príncipes prudentes devem fazer: considerar os males presentes e também os futuros, e preparar-se contra eles com toda energia. Quando previstos, é fácil remediá-los. Se esperas até que se aproximem, o remédio já não chega a tempo, porque a doença se tornou incurável. Acontece aqui o que os médicos dizem da febre hética: no princípio da doença, ela é fácil de curar e difícil de reconhecer. Com o passar do tempo, quando não foi reconhecida nem tratada no início, torna-se fácil de reconhecer e difícil de curar. O mesmo ocorre nas coisas de Estado. Quando se preveem os males que nascem, o que só é dado ao homem sábio ver, eles podem ser corrigidos depressa. Quando, por não terem sido previstos, se deixa que cresçam até que todos os vejam, já não há remédio. Por isso os romanos, prevendo os problemas, tratavam deles de imediato e, mesmo para evitar uma guerra, não permitiam que amadurecessem. Sabiam que a guerra não se evita, apenas se adia para vantagem dos outros. Quiseram combater Filipe e Antíoco na Grécia para não ter de combatê-los na Itália. Poderiam ter evitado ambos naquele momento, mas não quiseram. Tampouco lhes agradou jamais aquilo que está sempre na boca dos sábios de nosso tempo: gozemos os benefícios do tempo. Preferiram os benefícios de sua própria virtude e prudência, pois o tempo leva tudo adiante e pode trazer consigo o bem como o mal, e o mal como o bem.

Voltemos agora à França e examinemos se ela fez alguma das coisas mencionadas. Falarei de Luís, e não de Carlos, por ser aquele cuja conduta se observa melhor, já que manteve posse da Itália por mais tempo. Verás que ele fez o contrário do que se deve fazer para conservar um Estado composto de elementos diversos.

O rei Luís foi levado à Itália pela ambição dos venezianos, que desejavam obter metade do Estado da Lombardia por sua intervenção. Não censurarei a decisão do rei, porque, querendo firmar-se na Itália e não tendo amigos ali, vendo antes que todas as portas lhe estavam fechadas pela conduta de Carlos, foi forçado a aceitar as amizades que pôde encontrar. E teria alcançado rapidamente seu objetivo se, em outras coisas, não tivesse cometido alguns erros. Tendo adquirido a Lombardia, o rei recuperou de pronto a autoridade que Carlos havia perdido. Gênova cedeu, os florentinos tornaram-se seus amigos, o marquês de Mântua, o duque de Ferrara, os Bentivogli, minha senhora de Forlì, os senhores de Faenza, de Pesaro, de Rimini, de Camerino, de Piombino, os luqueses, os pisanos, os sienenses, todos se aproximaram dele para se tornarem seus amigos. Então os venezianos puderam perceber a imprudência da decisão que haviam tomado, pois, para ganhar duas cidades na Lombardia, fizeram do rei senhor de dois terços da Itália.

Considere-se agora com quanta facilidade o rei poderia ter mantido sua posição na Itália se tivesse observado as regras acima e mantido seguros e protegidos todos os seus amigos. Eles eram numerosos, fracos e temerosos, alguns com medo da Igreja, outros dos venezianos. Por isso sempre seriam obrigados a ficar com ele, e por meio deles ele poderia facilmente proteger-se contra os que ainda eram poderosos. Mal chegou a Milão, fez o contrário, ajudando o papa Alexandre a ocupar a Romanha. Não percebeu que, com essa ação, enfraquecia a si mesmo, privando-se dos amigos e daqueles que haviam se lançado em seus braços, ao mesmo tempo que engrandecia a Igreja, acrescentando muito poder temporal ao espiritual e dando-lhe maior autoridade. Tendo cometido esse primeiro erro, foi obrigado a prosseguir nele, tanto que, para pôr fim à ambição de Alexandre e impedir que se tornasse senhor da Toscana, precisou ele próprio vir à Itália.

Como se não bastasse ter engrandecido a Igreja e privado a si mesmo de amigos, desejando possuir o reino de Nápoles, dividiu-o com o rei da Espanha. Onde era o principal árbitro da Itália, trouxe um parceiro, de modo que os ambiciosos daquele país e os descontentes com ele tivessem onde se abrigar. E, quando poderia ter deixado no reino um rei dependente seu, expulsou-o para pôr ali alguém capaz de expulsar a ele, Luís, por sua vez.

O desejo de adquirir é, em verdade, muito natural e comum. Quando os homens o fazem podendo fazê-lo, serão sempre louvados, não censurados. Mas quando não podem e querem fazê-lo de qualquer modo, nisso há erro e censura. Portanto, se a França podia atacar Nápoles com suas próprias forças, deveria tê-lo feito. Se não podia, não deveria tê-lo dividido. E se a partilha feita com os venezianos na Lombardia se justificava pela desculpa de que, por meio dela, a França obteve entrada na Itália, essa outra partilha mereceu censura, pois não tinha a desculpa daquela necessidade.

Luís cometeu, portanto, estes cinco erros: destruiu as potências menores, aumentou a força de uma das maiores potências da Itália, trouxe para dentro uma potência estrangeira, não foi morar no país e não enviou colônias. Esses erros, se ele tivesse vivido, não seriam suficientes para prejudicá-lo, caso não tivesse cometido um sexto: tirar dos venezianos seus domínios. Se não tivesse engrandecido a Igreja nem trazido a Espanha para a Itália, teria sido muito razoável e necessário abatê-los. Mas, tendo dado antes esses passos, jamais deveria ter consentido em sua ruína. Poderosos como eram, os venezianos sempre manteriam outros afastados de projetos contra a Lombardia, aos quais nunca teriam consentido, exceto para se tornarem senhores dela. Além disso, os outros não desejariam tomar a Lombardia da França para entregá-la aos venezianos, e enfrentar ambos não teriam coragem.

Se alguém disser que o rei Luís cedeu a Romanha a Alexandre e o reino à Espanha para evitar a guerra, respondo, pelas razões já dadas, que nunca se deve cometer um erro para evitar a guerra, porque ela não é evitada, apenas adiada para tua desvantagem. E se outro alegar a promessa que o rei havia feito ao papa, de ajudá-lo na empresa em troca da dissolução de seu casamento e do chapéu cardinalício para Rouen, responderei a isso no que escreverei mais adiante sobre a palavra dos príncipes e como ela deve ser mantida.

O rei Luís perdeu, portanto, a Lombardia por não ter seguido nenhuma das condições observadas por aqueles que tomaram posse de países e quiseram conservá-los. Não há milagre nisso, e sim muito de razoável e bastante natural. Falei sobre essas coisas em Nantes com Rouen, quando Valentino, como costumava ser chamado Cesare Borgia, filho do papa Alexandre, ocupava a Romanha. O cardeal Rouen observou que os italianos não entendiam de guerra. Respondi-lhe que os franceses não entendiam de Estado, pois, se entendessem, não teriam permitido que a Igreja chegasse a tamanha grandeza. E, na verdade, viu-se que a grandeza da Igreja e da Espanha na Itália foi causada pela França, e que sua ruína pode ser atribuída a elas. Daí se tira uma regra geral que nunca falha, ou raramente falha: quem é causa de outro tornar-se poderoso se arruína, porque esse poder foi produzido por astúcia ou por força, e ambas são suspeitas àquele que foi elevado ao poder.

O Príncipe

Sinopse

Escrito durante o Renascimento, este livro oferece insights atemporais sobre governança e estratégia política. Maquiavel mergulha na natureza da autoridade e aconselha líderes sobre como manter e consolidar seu domínio, revelando táticas astutas e realistas que continuam a ressoar na política contemporânea. “O Príncipe” é uma obra essencial para qualquer estudante de política, história ou liderança. Com uma linguagem direta e análises profundas, Maquiavel explora questões fundamentais de ética e pragmatismo no exercício do poder. Esta obra clássica desafia as convenções e oferece perspectivas perspicazes sobre o mundo do governo, tornando-se um guia atemporal para aqueles que buscam entender os meandros do poder e da tomada de decisões políticas. Examine as ideias revolucionárias de Maquiavel sobre política e liderança, e entenda a sua relevância contínua e a influência que “O Príncipe” exerceu ao longo dos séculos. Explore as estratégias políticas atemporais e os dilemas éticos que Maquiavel apresenta e compreenda por que este livro continua a ser uma leitura obrigatória para estudiosos e líderes em todo o mundo.

Critério de domínio público no Brasil: direitos patrimoniais por vida do autor mais 70 anos, contados de 1º de janeiro do ano seguinte ao falecimento. Tradução W. K. Marriott, falecido em 1927; livre no Brasil desde 1998.

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