Leia agora
Uma Lágrima de Mulher

Universo da obra

Uma Lágrima de Mulher

Capítulo 28 · Uma Lágrima de Mulher

Uma Lágrima de Mulher: Segunda Parte, Capítulo X

28 de 45 ≈ 10 min de leitura

O pequenos continuavam aterrados sem se animarem a proferir palavra, até que o mais velho deles, Beppo, aproximando-se de Miguel, abraçou-o pela cintura, dizendo em voz baixa e tímida:

-- Por que está chorando, meu mestre?

Para as crianças, corações lógicos, onde não medrou ainda desconfiança, nem experiência - chorar é sinônimo de - sofrer. O menino imediato a Beppo imitou o irmão; ente foi imitado pelo menor e finalmente pelo pequenino, que se contentou em dizer, terna e familiarmente:

-- Não chores!...

Puxado pelo fio de ouro destas palavras, Miguel voltou a si e sentou-se comovido num pedaço de parede, cobrindo de beijos a cabecinha loura de Jeovanito.

A gente, não sabemos por que, depois de muito chorar e lastimar-se, sente apetite de beijar e abraçar alguém; queremos crer é na adversidade que se fortalecem mais os corações, e se corroboram os afetos - ligam-se tão bem as lágrimas e o amor e formam tão imperecível betume, que vencem resistir às borrascas destruidoras da vida e aos gelos mortíferos da ausência e da idade. De tal sorte, que Miguel daquele momento sentiu-se amar ainda mais os discípulos; e, como o amor é sempre uma luz, a claridade chegou-lhe ao gesto volatilizada num sorriso de alegria. As quatro crianças entravam-lhe com alvoroço pelo coração, como um bando de passarinhos alegres num templo abandonado e sombrio.

-- Meu mestre! disse Beppo, passando o braço pelo ombro do artista - porque razão você desde que chegou a este montão de pedras está triste e chorando?

Francino, o imediato àquele, atalhou, sem dar a Miguel tempo de responder:

-- Ora essa! É porque aqui morreu alguém!

À palavra - morreu - Jeovanito voltou-se rapidamente e disse, arregalando muito os olhos, belos, como são sempre os olhos de uma criança:

-- Morreu? de que foi que ele morreu?...

-- Não sei... disse muito naturalmente Angelino, metendo as mãozinhas gordas nas algibeiras dos calções, com certo ar de autoridade.

Nisto, Jeovanito, que se tinha afastado um pouco dos irmãos, voltou-se aterrado, e apontando para o sul com o seu dedinho cor-de-rosa, exclamava, contente por chamar a atenção de todos:

-- Olha! olha! um velho! E batia palmas alegremente assustado.

Efetivamente, um velho alto e curvado, que subia a encosta, debuxava-se de negro na derradeira claridade do horizonte.

Aquela aparição produziu um mau efeito no ânimo dos pequenos. O crepúsculo dava-lhe o jeito fantástico de uma sombra, que saía aos poucos do mar e cujos contornos se iam desvanecendo no azul amortecido do céu.

Silenciosamente, caminhava o vulto para eles e, à proporção que o fazia, os meninos conchegavam-se mais a Miguel.

-- É o misterioso habitante da choupana, calculou o professor, e não se enganara.

Este homem, digamo-lo de passagem, era um antigo pescador, conhecido em Lipari pelo cognome de - Sombra da Noite. Tinham-no por milagreiro e na ilha atribuíam-lhe toda a casta de feitiçarias e malefícios, que sóe imaginar a ignorância do povo. Em bom tempo fora companheiro de trabalho e amigo de Maffei, a quem, por amizade e talvez mais acertadamente por interesse, arranjara os meios de transportar-se em segredo para Nápoles, na mesma noite do incêndio da casinha branca. Esta boa ação rendeu-lhe em recompensa o direito de ocupar enquanto vivesse o terreno de Maffei em Lipari e tirar dele, como das oliveiras, o partido que bem lhe aprouvesse.

Rosalina, se bem que por esse tempo tomasse Miguel por morto, levava o coração ainda morno do amor de seu companheiro de infância; como uma parede que durante o dia recebesse o sol forte e abrasador, e à noite, apesar da ausência daquele, conserva uma certa dose de calor, que pouco a pouco vai morrendo, assim se esqueceu, ela de que podia arriscar o pai e para logo encarregou Sombra da Noite de se instruir sobre o resultado de um cadáver que necessariamente havia de ter aparecido na costa pelo dia seguinte à sua viagem.

Sombra da Noite não se deslembrou da incumbência, porém o cadáver não apareceu. No fim de um ano de pesquisas, foi a Nápoles e tagarelou um pouco com a mãe Ângela; de volta à ilha o pescador, ligando o sentido das palavras desta com o da recomendação de Rosalina, concluiu por descobrir que se tratava do cadáver de Miguel, a quem conhecera vagamente.

-- Disto me pode vir algum resultado vantajoso, dizia ele consigo e procurava um meio de falar a Miguel; a ocasião porém não se oferecia. Vendo-o agora, Sombra da Noite sentiu um estremecimento e tratou de aproveitar o lance. -- Nada de precipitações, com os diabos! E parece que bispo enfim o meu cadáver.

Pensando assim, Sombra da Noite aproximava-se silenciosamente do grupo, que o observava também em silêncio. Chegou às ruínas, trepou-se com agilidade de moços pelos barrancos e, equilibrando-se, alcançou finalmente a extremidade oposta, onde estava Miguel, a fitá-lo com suma curiosidade.

Sombra da Noite abeirou-se dele e cortejou-o, descobrindo-se humildemente.

Era o tipo perfeito de lazarone - macilento e esfarrapado, sujo e feio, falando um dialeto extravagante; grande chapéu de abas largas sobre a nuca e cachimbo queimado no canto da boca.

Os pequenos estavam horrorizados.

-- Boa noite, disse Miguel.

-- deus Nosso Senhor lhes dê a mesma, meu senhor e meus ricos meninos, respondeu Sombra da Noite, mastigando compassadamente estas palavras e estendendo a mão para acariciar a menor das crianças.

Jeovanito fugiu com a cabeça, olhando de esguelha e procurou refugiar-se nas pernas do mestre.

-- Então? disse este. Fala, Jeovanito! não vês que te fazem festa?...

Boa noite, meu velho, disse Jeovanito mais tranqüilo.

-- Este é seu filhinho? perguntou o pescador, passando a mão grosseira pela cabeça loura do pequenito.

-- Não senhor. São todos meus discípulos.

-- Ah! estão de passeio?

-- É verdade, disse Miguel, e levantou-se, segurando as mãos das duas crianças menores. -- Íamos já, quando o senhor chegou.

-- É pena, com os diabos! disse Sombra da Noite, porque eu desejava falar-lhe sobre alguém que morou neste lugar.

Miguel sentiu-se fulminado - era a primeira vez, desde que se separara de Rosalina, que alguém lhe falava nela, e voltando rapidamente para o pescador:

-- De Rosalina?! Oh! diga, diga depressa! Como estão eles? São felizes? Ricos?

-- Riquíssimos e muito felizes, digo-lhe mais - em breve serão nobres!...

-- Nobres?!...

-- Pois então!? A excelentíssima senhora dona Rosalina vai casar-se com um fidalgo de muito boa linhagem e de muito bom dinheiro!

-- O senhor está gracejando! Não pode ser! Disse Miguel fingindo tranqüilidade.

-- Gracejando? berrou o homem. Pela Madona o juro eu! e beijou a palma da mão.

Miguel sentia-se horrivelmente oprimido - tinha vontade de continuar o interrogatório, mas ao mesmo tempo temia ouvir alguma verdade inédita que o esmagasse de todo; temia uma explosão de dor; atacara-lhe logo uma sensação nervosa e frenética; latejavam-lhe as frontes, como contundidas por este dilema de ferro - calar-se, nada ouvir sobre Rosalina e sofrer - ou ouvir muito, saber tudo e sofrer mais. O coração saltava-lhe dentro como uma rã no charco; acometiam-lhe desejos extravagantes e inexplicáveis. Sentia-se com o apetite de ser um homem mau, desregado e inútil; tinha como um prazer de ouvir dizer mal de Roslina e ao mesmo tempo ardia por esbofetear aquela sombra impertinente que tinha defronte de si, o pescador; porém, aquele homem era o primeiro que, no seu exílio, lhe falara sobre Rosalina; então, tinha vontade de abraçá-lo.

Estava triste, mas estava alegre; desejava cantar, mas soluçando; desejava abraçar Sombra da Noite, mas estrangulando-o.

Temos, às vezes, dessa contradições no nosso espírito, que, expostas assim, parecem disparatadas e absurdas.

Qualquer resolução todavia atravessou como um relâmpago o cérebro do artista - cruzou os braços e fitou Sombra da Noite.

-- Tem certeza do que está dizendo?

-- Tenho, respondeu com firmeza o pescador, tanto quanto tenho de saber que falo com senhor Miguel Rizio.

Miguel tornou a estremecer; agora, porém, era a idéia da raiva de Maffei que lhe surgia negra e ameaçadora. Seria isto uma cilada? Estaria aquele homem pago por ele? Miguel desconfiava, mas ardia de curiosidade; finalmente, descendo de seus espasmos, disse descansadamente e afetando o mais frio desinteresse:

-- Com que, o senhor conhece-me?...

-- Perfeitamente, cavalheiro, e até desejo falar-lhe.

-- A respeito de Rosalina?

-- Sim, senhor, a respeito de dona Rosalina.

-- Então fale! disse Miguel já não podendo se conter. Fale que..

-- Agora, é impossível.

-- Então, quando?

-- Quando estivermos a sós. Eu moro naquela choupana. E Sombra da Noite indicou a casinha que quase não se divisava. -- O senhor pode procurar-me ai. Quer vir amanhã?

Miguel não respondeu. Tinha a cabeça baixa e o queixo descansado na mão direita.

Depois de um quarto de hora, sombra da Noite quebrou o silêncio.

-- Então vem?

Miguel ergueu resolutamente a cabeça.

-- Venho!

-- Amanhã?

-- Não! Hoje?

-- Pois até a meia-noite, disse o pescador, dando-lhe as costas e descendo as pedras. Daí a pouco tinha desaparecido nas trevas.

Miguel continuou a olhá-lo por algum tempo; depois sacudiu os ombros e tornou a tomar a mão dos pequenos.

Meia hora depois, caminhavam pela estrada. Na lama nervosa do artista, após tão longa noite, raiara afinal um clarão triste, de desesperança e despeito, mas era uma luz, enfim.

E como a mariposa que festeja a própria luz que a há de queimar, começou a alvoroçar-se, cantarolando nervosamente.

As crianças, tomando aquele cantar por expansão de alegria, abriram também a imitá-lo, até chegar a uma cocheira, onde tomaram um carro que os levou alegremente à casa.

Uma Lágrima de Mulher

Sinopse

Leia Uma Lágrima de Mulher, de Aluísio Azevedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978658312958526327035692
Uma Lágrima de Mulher

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Uma Lágrima de Mulher

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Uma Lágrima de Mulher Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 28 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Uma Lágrima de Mulher

Capa de Uma Lágrima de Mulher
Continue a leitura Uma Lágrima de Mulher: Segunda Parte, Capítulo X Capítulo 28 · 28 de 45 · ≈ 10 min
Todos os capítulos 45 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir