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Uma Lágrima de Mulher

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Uma Lágrima de Mulher

Capítulo 36 · Uma Lágrima de Mulher

Uma Lágrima de Mulher: Terceira Parte, Capítulo V

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Mal chegados, atracou o barco e saltaram os viajantes, seguidos do cão.

Sombra da Noite, por maior segurança, escolhera para desembarque uma praia de pescaria, das muitas que possui Nápoles, e disfarçadamente vestido de pescador, carregava cantando à moda destes, o peixe que apanhara durante a viagem.

Seriam, quando muito, dez horas da noite, hora essa de se prepararem os pescadores para a pesca noturna em alto mar.

Tudo estava pronto; viam-se as redes esticadas, amontoados os archotes e cheias as borrachas.

Dirigiram-se os dois e Castor para uma tasca fronteira à praia; aí, segundo o costume, esperavam os pescadores, com as competentes mulheres e filhos, a vez da maré, entretidos a cear ou a beber. Os recém-chegados, que, a despeito da vontade e do disfarce, chamavam a atenção geral, foram-se sentando com a afetada indiferença e bebendo com sofrível vontade.

Sombra da Noite tratou logo de se desfazer do peixe, arranjar pouso para a noite e ajustar preços; feito isto, saiu com o companheiro da tasca e, sempre acompanhado de Castor, desprezaram a praia e entranharam-se pela cidade.

Miguel não conhecia Nápoles e, carregado da sua rabeca, deixava-se ir acompanhando o guia; assim palmilhavam muitas ruas, a princípio tomando para a esquerda, seguiram depois transversalmente, ora atravessavam uma rua estreita e deserta, ora uma larga e concorrida, até que afinal chegaram a um lugar espaçoso e arborizado; depois de ligeira hesitação, venceram o largo e meteram-se por uma bonita rua, larga, bem calçada e mais concorrida que as outras.

-- É esta, disse o pescador sem parar. Miguel levantou os olhos para uma tabuleta e leu: Rua de Toledo. O coração bateu-lhe mais apressado.

Continuaram a andar, silenciosos. À proporção que o faziam, diminuía o número de transeuntes, era a noite que se adiantava. Uma vozeria confusa e alegre partia dos cafés e dos grupos rareados.

Castor, de cauda interrogativa e focinho baixo, ia na frente, farejando sofregamente as pedras estranhas para o seu faro.

Nem sequer olhavam os viajantes para as preciosidades naturais e artísticas que se desenrolavam a seus olhos; contudo ali estava um artista, não sem alma para ver, sentir e admirar, mas não tomado de suas preocupações, tão pasmado e absorvido por uma idéia fixa, que não lhe dava a alma pressa de regalar a sede do artista, quando um coração se ressequia à mingua de outro carvalho. Um artista, um lazarone e um cão, isto é, o primeiro abstrato, o segundo rude e o terceiro irracional, são justamente as espécies mais refratárias ao belo, mas em verdade é que pareciam identificados pelo mesmo interesse e levados pelo mesmo fim, porque, igualmente apressados, caminhavam no mesmo compasso, se é que dois homens podem andar pelo compasso de um cão.

De repente Castor se pôs a ladrar contra um portão de ferro, que servia de vasta entrada para um jardim, em cuja casa muito se dançava e folgava. A música do baile absorvia os latidos do animal, este porém, ladrando cada vez mais, enfiava a cabeça e patas pelos intervalos dos varões lanceados da grade.

Nas salas principais do edifício estorcia-se o baile em convulsões sensuais; da rua viam-se rodar vertiginosamente as cabeças muito frisadas e as espáduas nuas de alabastro e banhadas de luz.

Sombra da Noite parou, olhou com atenção para a fachada do edifício e, calcando a cinza do cachimbo disse secamente:

-- É aqui!

Miguel estava imóvel e distraído; tinha os olhos arregalados e as mãos frias; a luz imensa, a música, o luxo, o zunzum das sedas e veludos, ofuscavam-o, ao mesmo tempo que o enchiam de raivosa tristeza.

-- Agora, disse o outro em voz baixa, podemos entrar por ali, sem risco de sermos vistos. Conheço uma ruazinha particular pertencente à casa e por onde é permitido ao povo transitar.

E arrancando o companheiro do labirinto de reflexões em que parecia perdido, foi com ele atravessando a frente do edifício. Miguel ia atrás, caminhava de cabeça baixa e passos lentos. Desse modo, costearam o jardim pelo lado esquerdo, depois, embrenhando-se por uma sombria alameda de laranjeiras, Sombra da Noite disse ao companheiro:

-- Esta rua cerca toda a casa; caminhemos por aqui.

Quando chegaram ao meio da ruazinha, o guia parou novamente, acrescentando em segredo:

-- Daqui se vê perfeitamente o fundo de toda a casa. Aquela grande varanda em forma de arco, disse ele, apontando para a enorme balaustrada do andar superior, fecha toda a casa; por aí pouca gente pode agora transitar, porque naturalmente estão entretidos com a dança e com o jogo; os salões do baile são no centro, e a eles pertencem aquelas cinco janelas que o senhor viu da rua; dos lados estão os dois salões do jogo e dão também para a rua aquelas duas outras janelas, que o senhor viu de cada lado, porém, compreende? É tudo resguardado pela varanda, onde agora não chegam os convidados. Estão no diabo da festa! Daqui a pouco, ouve-se o barulho que fazem, porque o vento leva contrário. Olhe agora para baixo, continuou Sombra da Noite, debruçando-se nos ombros de Miguel e acompanhando a descrição com o indicador da mão direita, olhe! vê aquela grade de mármore? na parte escura!... Está inteiramente sombreada pelo diabo da varanda do andar de cima...

-- Onde estão aquelas vidraças de cor? Perguntou Miguel, todo atenção.

-- Justo, disse o outro estendendo a palavra e os lábios. Também é o único aposento do andar de baixo que tem luz. Pois ali, continuou, abaixando misteriosamente a voz e chegando a boca ao ouvido de Miguel, é o aposento da filha do senhor Maffei!...

Miguel encostou-se à grade do jardim, segurou a cabeça com a mão e ficou a fitar embevecido as vidraças coloridas da janela. Sentia uma tempestade na alma; luziam-lhe ali na sombra os vidros iluminados do quarto de Rosalina, como um farol no alto mar.

Teria ele encontrado o porto?

-- Eu conheço, continuava Sombra da Noite, contendo Castor, que se queria precipitar pelas grades do jardim, não bem essas casas, conheço toda a cidade de Nápoles, palmo a palmo! Que quer? aqui fui criado, aqui brinquei, cresci e corri. Todas estas casas novas, que o senhor vê por cá, foram levantadas sobre as ruínas e um antigo convento de frades Em pequeno ainda apanhei esse convento; estes lados eram os da villa, de negras paredes, muito altas e feias. Com os diabos! parecia um cemitério! Hoje está tudo isto acabado, assim mesma a única coisa que conservam do convento é um cruzeiro de pedra, que deve ter ficado para aquelas bandas, e indicava com os beiços o lado oposto à casa. E se isso ficou, meu rico cavalheiro, foi porque não o puderam destruir e não por ser, como disfarçam eles, obra de grande arte e merecimento. Ora, quem não sabe que estes lugares não são bons?! Neste chão, dizia ele batendo com o pé, há sangue mau de frades, que os irmãos matavam para lhes ficar com os haveres, e depois enterravam aí pela quinta, sem que a mais ninguém constassem. Todas as noites, continuava o velho, engolindo a saliva, cada vez mais aterrado, ao badalar dos sinos grandes, aos sábados, à meia-noite, os diabos os frades levantavam-se das sepulturas e iam, rezando, rezando... agarrar-se à cruz, e cada uma a puxa para o seu lado por penitenciar os seus pecados. Há uma força que a prende a este chão amaldiçoado! Dizem até, e há quem tenha visto! que o cruzeiro falou!... e eu acredito! disse ele benzendo-se, todo trêmulo, com ambas as mãos.

Uma Lágrima de Mulher

Sinopse

Leia Uma Lágrima de Mulher, de Aluísio Azevedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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