Universo da obra
Universo da obra
Entretanto, as nuvens negras cresciam no céu, como os fantasmas crescem na sombra, como remorso cresce no coração, como a ferrugem cresce no ferro e como a úlcera cresce nos pulmões.
O mar, cada vez mais encarapinhado, quebrava-se de encontro à rocha, salpicando-a de cuspiduras espumosas e grossas, como as de um ébrio.
Com este salivar a pedra se tornava mais e mais escorregadia. Já o pé não encontrava resistência.
Peito a peito, braço a braço, lutavam os dois homens; ora escorregava um e se firmava no adversário: ora cambaleava o outro, e restabeleciam o equilíbrio.
A luta continuava.
Abraçaram-se mais. Estreitavam-se com o frenesi de dois amantes moços que se encontram depois de longa ausência.
E lutaram!
De repente, deslocou-se o ar com a detonação da queda de um só corpo.
Foi uma queda para dois; rolavam formando um só vulto.
Lembrava aquilo uma besta informe nas agonias da morte: os dois formavam uma fera.
Era a mocidade fundida na cólera de um velho. A força dos vinte anos e a cólera dos cinqüenta eram o motor dois do bruto negro, que engatinhava, rolava e se torcia na lisura da pedra, um monstro marinho, fora dágua.
A claridade fosfórica do mar, a besta movia-se em todos os sentidos e tomava novas proporções; parecia fantasticamente ora crescer, ora diminuir.
A boca espumosa do velho esfregava-se pela cara do moço, segredando-lhe em tom terrível e quebrado pelo cansaço estas palavras:
-- Pois morrerás! Miserável!...
E mordiam-se.
-- Pois morrerás!
Procuravam matar um ao outro.
Lutavam!
E a rocha cada vez mais escorregadia, o céu mais negro e o mar mais bravo.
A luta tendia a enfraquecer: a fera ia sossegando; a massa bruta dilatava-se: a mole negra parecia diluir-se.
Era o cansaço.
Desfaziam-se como uma nuvem negra no horizonte.
Como um urso enorme e velho, arrastavam-se surda e vagarosamente para a borda do precipício.
Miguel se apercebera disso e reagiu: com um esforço supremo lograra tomar sob si o velho, ficando de gatinhas sobre ele. Tinha um aspecto feroz; o sangue escorria-lhe por entre os dentes e pelas ventas; a posição, como o olhar, eram irracionais. Nesta atitude, ia atirar-se à garganta do adversário, quando este, concentrando o resto das forças, reagiu por sua vez: com um empurrão expeliu de si o moço.
Miguel rolou pela pedra até segurar-se nas asperezas das bordas do precipício.
Maffei não lhe dera tempo para mais, de um salto deitou-se ao comprido no chão, e engatinhando com ligeireza de tigre, agarrou-o pelas costas.
Cinqüenta pés os separavam do mar, e nesse ponto a pedra era inteiramente íngreme, quase cavada.
Miguel torcia-se todo nas mãos do velho.
De repente, um grito agudo e rápido sucedeu a uma gargalhada surda, estalada pelo cansaço. Gargalhadas como só sabem dar um velho mau ou uma mãe doida.
Maffei, e bruços sobre a roda, via tranqüilamente rolar pelo precipício o corpo ensangüentado de Miguel. Um sorriso cansado e triunfante encrespou-lhe os lábios esfolados, ao ouvir o ruído cavo de um corpo que cai na água.
A tempestade, que se preparava ameaçadora, desabou encerrando o espetáculo; e o mar, contente de sua presa, gargalhou com seu rir de espumas.
Começou a chover copiosamente.
Tranqüilo, como nos seus dias mais tranqüilos, o velho levantou-se, sacudiu a roupa molhada e pôs-se a andar para casa silenciosa e pacificamente, como uma menina quando volta do banho do mar.
Leia Uma Lágrima de Mulher, de Aluísio Azevedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.