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Uma Lágrima de Mulher

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Capítulo 10 · Uma Lágrima de Mulher

Uma Lágrima de Mulher: Primeira Parte, Capítulo X

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Ir para Nápoles!

Viver na grande capital, com opulência, beleza, mocidade, saúde, alegria, admiradores; isto é, realizar o mais dourado dos sonhos, a mais sonhada das esperanças, o desejo mais querido e a mais brilhante expectativa do coração de uma mulher bela e vaidosa.

Tal era o quadro que Maffei descortinara aos olhos fascinadores da filha, tal era a cornucópia abundante, cuja fortuna sufocava de alegria o coração, ainda terno de Rosalina.

Do fundo da sua obscuridade, sentia a formosa filha do pescador as convulsões da pérola nas profundezas do oceano.

Era a sede formidável de luz e de brilho, de admiração e de inveja! A febre de aparecer e ofuscar! O direito da beleza e a impaciência do ouro!

Vaidade! Vaidade grosseira da matéria! Que supõe desperdício esquecer na ostra singela e honesta a jóia digna de se corromper na cabeça de um rei!

Vai, criança sonhadora! E que te hajas tão ditosa que para ti Nápoles seja somente o que o diadema de uma princesa é para uma pérola.

Porém Miguel?! O querido namorado de Rosalina!?...

Oh! Que imprudência... lembrar uma lágrima, quando se trata de todo um futuro de prazeres e galas!

Quem se importa da pétala da rosa, que o trem faustoso do rico, ao passar altivo, esmagou no caminho?!

Todavia, Miguel era um ponto sensível e doloroso no coração da moça ambiciosa. A despeito de tudo, ela ainda o amava, e, no meio dos sonhos de grandeza, tinha para o pobre artista um suspiro de amor e saudade, ainda o via, no fundo brilhante do seu quadro de irradiações e alegrias, sombrio, triste, meio espectro, meio homem, a chorar talvez, com certeza a sofrer. Via-o ela esbelto e delicado, contra a luz das suas esperanças, e sentia-se projetar-se no disco iriado de seu coração a sombra negra desse vulto querido.

Não há felicidade, por mais completa, que não ressinta de uma mancha ao menos!

Todo e qualquer obstáculo, por mais mesquinho e miserável que seja, produz uma sombra relativa.

Subtraiam todos os mundos, todos! Que o firmamento fique um nada infinito. Então deixem brilhar unicamente o sol, isolado e egoísta. Só ele! e a sua luz a perder-se pelo nada.

Não se pode certamente julgar mais completa e inteira luz; pois bem, tragam depois um grão de areia, só um! coloquem-no defronte do sol e será perturbada essa imensa pureza de luz! Um mesquinho grão de areia contra a enormidade da luz do sol! Todavia, o grão de areia será uma sombra!

Assim também grande e cheia era a taça de néctar, que Maffei entregara à filha, porém nessa taça havia uma gota de fel: era o amor do artista.

A fortuna passara a cobrir Rosalina de beijos, porém nesse aluvião de carícias foi de envolta uma arranhadura.

Pobre Rosalina!

E neste vacilar, entre a felicidade e a dor, entre o bem e o mal, escrevera a Miguel uma carta, contando-lhe, com honesta franqueza, o que se passara, e prometendo-lhe uma entrevista, às ocultas do pai.

O rapaz ficou fulminado ao receber a notícia; entretanto, sofreu todas essas coisas afetando a mais indiferente tranqüilidade. Exteriormente, parecia no seu estado normal de tristeza e inteligência, e contudo não conseguiria, se o tentasse, ligar duas idéias.

Tinha a lucidez no olhar, porém, as trevas no cérebro!

De queixas, nem vestígios!

De resignação - todos os sintomas!

Depois da chegada do pescador, o músico nem cuidava de si; esquecera obrigações e talento!

Coitado! Sem família, sem um amigo ao menos, um companheiro com quem dividisse fraternalmente o seu infortúnio, sofria, o desgraçado, essa dor ignorada, que só tem uma expressão - a lágrima; só sabe um caminho - o do túmulo!

Uma Lágrima de Mulher

Sinopse

Leia Uma Lágrima de Mulher, de Aluísio Azevedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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