Leia agora
Uma Lágrima de Mulher

Universo da obra

Uma Lágrima de Mulher

Capítulo 27 · Uma Lágrima de Mulher

Uma Lágrima de Mulher: Segunda Parte, Capítulo IX

27 de 45 ≈ 4 min de leitura

E no cogitar doloroso da saudade, decorreram dois anos de desesperança, sem que fosse dado ao artista ter notícia da sua amada.

Já não parecia o mesmo - tornara-se trabalhador e grave. A vigília e o estudo avivaram-lhe na fisionomia os clarões da inteligência, com a mesma intensidade com que as sombras de constante tristeza lhe anuviavam no olhar a mocidade e o riso.

Bela e pensadora cabeça, quem te burilou tão sublime; a arte divina do homem ou a mão humana de Deus?

Muitas vezes o viam passar sombrio e automático, seguido dos seus discípulos e do cão; em tais momentos pendia-lhe para a terra a cabeça, como quem procura um canto onde descanse o último sono. E as pobres criancinhas, coitadas! olhavam para o mestre com os pequeninos corações estremecidos; as louras sensitivas choravam porque o viam chorar.

Num desses passeios, chegaram às ruínas da casinha branca; massa informe de pedras e barro denunciavam apenas o lugar onde crescera e brincara Rosalina. Era tudo enegrecido pelo fogo e silencioso pelo abandono; somente eles, para as bandas do mar, por entre o sussurrar das oliveiras, um pescador velho se lembrara de construir a sua choupana.

Derramava-se a hora do crepúsculo e da tristeza; os últimos clarões do dia abraçavam as primeiras sombras da noite - carícia contraditória da luz e da sombra.

Nada enternece tanto como, depois de algum tempo, voltar ao berço de nossa primeira felicidade; também não há decepção comparável à que experimentamos ao topar arrasado esse ninho de recordações e saudades. -- Procurar um abrigo e tropeçar em ruínas, procurar um berço e despenhar-se na cova! Todo aquele nada respirava aniquilamento e tristeza; contudo, parecia haver uma voz mágica e sobrenatural que, semelhante aos fogos fátuos dos cemitérios, se sobreerguia trêmula e duvidosa das ruínas.

Miguel, hirto e arrebatado pela influência do fluído que exalavam os restos carbonizados da casinha branca, pascia neles o olhar ansioso, procurando compreender a voz misteriosa das ruínas, com a atenção de um septuagenário que procurasse soletrar na confusa inscrição de uma lápide, gasta pelo tempo, o nome do seu primeiro afeto.

E o seu olhas investigador, e o seu gosto cheio de interesse e ternura, e o som trêmulo das suas palavras quase inarticuladas, parecia dizerem:

-- Que é feito de ti, minha ventura?... Coração que por mim palpitaste teu primeiro amor; lábios que me falastes com a primeira mocidade; olhos que me seguistes com o primeiro cuidado! aonde fugistes vós?!... -- Sorrir! Como te deixaste esmagar pelas ruínas? Lágrimas! Como vos beberam, as línguas do incêndio? -- Crença, foge! Coração, cala-te! E o teu? O teu coração, minha Rosalina? Estará em ruínas como o teu berço, ou brilhará porventura mais feliz e mais virtuoso, ao clarão tranqüilo e honesto do lar e da fortuna?! Se assim não for, se te não prendeste a uma sorte invencível, volve! que de muito te aguardo impaciente; se não te esqueceu a nossa passada ventura, pensa em mim, que to retribuirei com amor de escravo; e se eu morrer, esquecido e abandonado de todos, sem que aos meus olhos seja dado refletir a ternura dos teus, no momento extremo - chora meu amor, chora que Deus recolhe as lágrimas que os anjos cá da terra derramam nas sepulturas.

E assim cismava Miguel - imóvel, chumbado às ruínas da casinha branca, pasmando as quatro criancinhas, que sobre ele passeavam admiradas os seus olhares de auroras.

O artista cobriu o rosto com as palmas das mãos e rompeu a chorar soluçadamente.

Uma Lágrima de Mulher

Sinopse

Leia Uma Lágrima de Mulher, de Aluísio Azevedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978658312958526327035692
Uma Lágrima de Mulher

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Uma Lágrima de Mulher

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Uma Lágrima de Mulher Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 27 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Uma Lágrima de Mulher

Capa de Uma Lágrima de Mulher
Continue a leitura Uma Lágrima de Mulher: Segunda Parte, Capítulo IX Capítulo 27 · 27 de 45 · ≈ 4 min
Todos os capítulos 45 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir