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Uma Lágrima de Mulher

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Capítulo 37 · Uma Lágrima de Mulher

Uma Lágrima de Mulher: Terceira Parte, Capítulo VI

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Continuava Sombra da Noite a discorrer por diante, enquanto Miguel, sem sequer se aperceber disto, fitava, encostado, imóvel, aos varões o jardim, a claridade colorida e alegre das vidraças de Rosalina, cujo aspecto festivo contrastava com o sombrio das grades negras e lustrosas do cárcere interior do seu espírito.

Ignorado, corria-lhe em silêncio, dos olhos, o pranto morno e copioso.

Por que chorava ele, tão bom e generoso, ao contemplar a fortunosa opulência da sua querida amiga? Não a desejava por acaso feliz? Não queria para ela todos os bens da terra e todas as bênçãos do céu? Sim! mas é que no meio da opulência daquele orgulhoso viver se haveriam de humilhar a singela blusa e a rabeca o artista.

Desgraçado! Chorava porque era moço, porque não tinha vivido bastante para saber que a vida é uma enorme decepção; chorava porque Rosalina era o seu primeiro amor, e o primeiro amor do homem é tão selvagem e feroz como o deve ter sido o do primeiro homem da natureza. Chorava porque a estrela que o conduzia na existência tingia-se de cores mundanas, em perda do celeste azul do seu fosforecer.

Era aquele chorar de Miguel um carpir triste e desesperançado sobre dois túmulos ainda mais tristes, sobre o de Rosalina e sobre o seu, porventura menos valioso que o dela; era chorar sobre o túmulo das recordações e sobre o das esperanças, o passado e o futuro, o nada e o nada.

E que mais é o nosso viver nesta espécie de mundo, senão uma ilusão entre dois nadas: o presente e o futuro? Dois nadas insondáveis e obscuros que fecham uma hipótese, chamada presente. Ontem, saudades nebulosas; hoje, mentiras e esterilidades; amanhã, sonhos mal contornados. Eis a vida!

E assim cismava Miguel, enquanto o companheiro, sem lhe dar pela indiferença, continuava a papaguear, acrescentando:

-- Não seria eu capaz de morar aqui, nem que me cobrissem de ouro! Meter-me com os demos de almas penadas, que...

Nisto avivou-se e repente a luz do quarto de Rosalina.

Miguel endireitou-se todo como uma cobra e prestou atenção. Sombra da Noite calou-se de todo e ficou também a olhar para a janela iluminada, dizendo baixinho, depois de algum silêncio:

-- Entrou para o quarto...

Miguel chegou-se dele e disse-lhe imperiosamente:

-- Deixe-me só e vá esperar-me na tasca. Leve consigo Castor e tome dinheiro para o que for necessário.

Sombra da Noite retirou-se silenciosamente.

O artista continuou imóvel e abstrato a fitar a janela; depois, como se quisesse falar àquela claridade risonha e colorida que de lá vinha, ergueu inspirado o arco, colou com frenesi a rabeca ao ombro, e os sons encantados, com que dantes comovera a sua amada, rebentaram plangentes e harmoniosos, como um coro de beijos e suspiros, soluçando pelos anjos.

Estaria ela no quarto?

Estava, com efeito, pois essa era a noite, justamente a mesma em que Rosalina, concertada com o cavalheiro de bigodes pretos, abandonava os salões da dança, para refugiar-se voluptuosamente extenuada nos seus aposentos, e aí ouvira o murmurar choroso de uma harmonia esquisita e conhecida.

Era essa mesma a noite, mesma era também a música, a rabeca a mesma, mesmos o arco, o artista, o braço, a inspiração; só Rosalina! só ela não era a mesma, que dantes se arrebentava com aquela música bela e inocente como o amor de duas crianças.

Uma Lágrima de Mulher

Sinopse

Leia Uma Lágrima de Mulher, de Aluísio Azevedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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