Leia agora
Uma Lágrima de Mulher

Universo da obra

Uma Lágrima de Mulher

Capítulo 31 · Uma Lágrima de Mulher

Uma Lágrima de Mulher: Segunda Parte, Capítulo XIII

31 de 45 ≈ 5 min de leitura

Nesse mesmo dia, Miguel, compondo boa sombra e bom gesto, se desfazia em razões por descontinuar em casa da família L...

-- Já que está tão aferrado à sua resolução, parta, meu amigo, dizia o protetor de Miguel, entregando ao protegido o saldo dos seus salários; mas não se esqueça que aqui fica uma família que tanto o aprecia, como estima. Se algum dia suceder que volte, venha de novo ter conosco; prezamos contar para meus filhos com o mesmo mestre e para mim com o mesmo filho. Venha! O senhor será sempre recebido de braços abertos nesta casa; e pode, tanto disto, como da afeição sincera que nos inspirou, levar certa a vitória, mais ganha por direito que por conquista!

E levantando mais a voz, em cuja firmeza se percebia a experiência e a convicção, disse como um profeta:

-- O senhor é um homem de bem!

-- Obrigado, balbuciou Miguel comovido, e beijou-lhe a mão.

As crianças estavam boquiabertas.

-- Mas o meu mestre vai para ficar? Perguntou Beppo.

-- Espero que não, meu amiguinho; um dever de amigo constrange-me a partir para Nápoles, mas, logo que me seja possível voltar, continuaremos nossos estudos e os nossos passeios; quanto à boa amizade - ah! essa, garanto, em desfavor da ausência e do tempo, continuar na mesma altura.

Assim dizendo, Miguel abraçava Beppo e os irmãos.

Os meninos, entretanto, vestiam tal seriedade, que mais pareciam zangados que pesarosos. Convém notar que em Miguel não viam eles a carranca do mestre-escola, mas o olhar inteligente e amigo do companheiro de folguedos; metera-lhes, é verdade, o bom moço, a carta do ABC nas unhas e na memória, mas em compensação ensinara-lhes a atirar funda, a lançar o pião, a nadar e vencer barrancos e finalmente instruíra-os na grande ciência de fazer armadilhas e laçar passarinhos e lagartos.

Ora, quem ensina destas artes às crianças é fatalmente adorado por elas, e, por conseguinte, mesmo barateando a simpatia natural de Miguel, os filhos do senhor L... tinham jus a estremecer o mestre, para, assim de coração tranqüilo, o verem partir tão inesperadamente.

A amizade das crianças, como toda afeição dos fracos, é egoísta; os pequenos constituíam para si um direito absoluto sobre o amigo. Tiravam-lho? Tanto pior! Por que? Não queriam saber de razões; fossem quais fossem as causas, o efeito era evidentemente desfavorável e mau. E tanto bastava para estarem enfiados e furiosos.

Jeovanito, o mais moço dos três, vendo que nada conseguia pelo suposto direito, achegou-se do mestre e disse-lhe, ameigando-lhe os dedos com a sua mãozinha gorda e rosada:

-- Fica, meu mestrinho!...

Dito isto, ficou a olhá-lo suplicante, fazendo dos lábios, que talvez ainda cheirassem a leite, um biquinho de enfado e ternura.

Miguel respondeu negativamente com a cabeça, enquanto o beijava.

Desesperou-se o pequeno, e, conhecendo a nulidade de seus esforços, arremessou com toda a delicada força de seus bracinhos uma pancada no ombro de Miguel, acompanhando-a dos epítetos mais engraçados e injuriosos que pode dizer uma criança.

Por outro lado, a mãe dos garotos também apresentava, com muita brandura de gestos e delicadeza de palavras, as suas sinceras oposições; e delas, vendo a virtuosa senhora o nenhum êxito, volvia a aconselhar o amigo de seus filhos, com tais carinhos e meiguices de mãe, como se aos próprio filhos o fizesse.

A mãe revela em tudo a maternidade, seja ela a mãe de Cristo ou a de um leão; entre a brandura celestial da santa e a ferocidade mundana da leoa está esse sentimento sublime, esse amor incomparável que tudo pode, tudo vence, tudo desbarata para salvar o filho. Penda para uma das extremidades, penda para outra, seja divina ou seja bestial, há de ser mãe - ora comove pedras com as lágrimas do anjo, ora vence gigantes com as garras da fera; ora pede de joelhos, ora ameaça com as unhas; ora suplicante, ora ameaçadora; mas sempre imponente, sempre sublime, sempre mãe!

Miguel despediu-se da mãe dos seus discípulos sumamente comovido; ela fê-lo chorando e chorando dependurou-lhe do pescoço uma medalha de cobre com a imagem da Madona.

-- É para que o proteja e ajude, disse a boa senhora abençoando-o, e, distribuindo depois pelos filhos objetos de uso, como pentes, escovas, lenços e gravatas, disse-lhes:

-- Vamos, meus filhos, dêem esses mimos ao seu mestre e peçam a Deus que o abençoe e acompanhe.

As crianças, quase em coro, repetiram automaticamente as palavras da mãe.

O senhor L... ofereceu-se ainda uma vez ao viajante para escrever a alguns amigos de sua confiança, recomendando-o; ao que se opôs reconhecido Miguel, protestando parecer-lhe isso nimiamente desnecessário.

-- Então, repito-lho, meu amigo, vá e não se esqueça de nós.

-- Seria preciso ser muito ingrato, disse Miguel, abraçando-o pela última vez, o que foi fazendo por todos até sair, depois de beijar repetidas vezes os discípulos, que se conservaram imperturbáveis e sérios.

Quando Miguel desapareceu, os pequenos desataram a chorar ruidosamente.

Decorreu para a família L... um dia comprido e triste.

Uma Lágrima de Mulher

Sinopse

Leia Uma Lágrima de Mulher, de Aluísio Azevedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978658312958526327035692
Uma Lágrima de Mulher

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Uma Lágrima de Mulher

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Uma Lágrima de Mulher Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 31 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Uma Lágrima de Mulher

Capa de Uma Lágrima de Mulher
Continue a leitura Uma Lágrima de Mulher: Segunda Parte, Capítulo XIII Capítulo 31 · 31 de 45 · ≈ 5 min
Todos os capítulos 45 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir