Universo da obra
Universo da obra
Para onde e para que se dispunha Miguel com tanto afã? É o que vamos ver e o que necessariamente ficou concertado desde aquela singular entrevista na choupana de Sombra da Noite.
Prepararam-se como para uma pesca no alto mar; Miguel abriu francamente a bolsa à Sombra da Noite, e ele soube servir-se dela com inteligência e economia; fretara um barco grande de pescar, comprara provisões, salgara bastante peixe, empacotara lenha, bolacha e frutas secas, enchera duas talhas de água fresca, munira-se de bom vinho e aguardente, arranjara duas macas, alcatroara os competentes archotes de feno e com tal zelo e atividade se houve em tudo, que à meia-noite todo o necessário estava pronto.
O vento era favorável e já o barco se sacudia impaciente na praia. Entre esta e o barco, grosso archote, coberto de resina, espalhava um clarão vermelho e fumífero, parecia, refletindo na umidade da areia, uma brasa cuidadosamente colocada sobre uma lâmina de vidro.
De vez em quando, interrompia a luz o archote o vulto negro e Sombra da Noite, carregado de mantimentos, que ia deixara a bordo; logo voltava com água pela cintura, subia e novo a ladeira e tornava a descê-la vergado com a carga. Seis ou sete carretos e dera por feito todo o carregamento. Então, armou a tolda no tombadilho, empurrou com cuidado as talhas para um lado, calçou-as bem e depôs, ao alcance da mão, a borracha de aguardente; abriu em seguida a escotilha, arrumou nela os fardos de víveres e subiu novamente à coberta; aí fez lume para disfarçar a umidade, estendeu um bom encerado, armou duas macas e, tomando fôlego, que tudo isto o fizera cansar, disse em voz alta:
-- Pronto, com os diabos!
Depois, por sua conta e de sua idéia, assestou à proa quatro anzóis e duas redes de pescar. Feito isso, tirou vagarosamente tabaco e uma bolsa de couro, encheu bem o cachimbo, olhou em torno, procurando descobrir o que faltava e disse satisfeito:
-- Bom!
Acendeu o cachimbo, voltou à praia e subiu para casa, cantarolando muito tranqüilamente e muito contente de sua vida.
O artista desprezara as roupas graves do professor e revestira a sua antiga e singela blusa e artista ambulante: tinha na mão o estojo da sua queria rabeca, uma faca na bainha da cintura, na algibeira todo o dinheiro que possuía e no coração toda a esperança que lhe restava, na cabeça... Ah! nessa, além das harmoniosas concepções de há muito uma idéia sinistra e repugnante, dependurada da imaginação, com o cadáver contraído de um enforcado.
E, seguido dessa idéia, negra, como a sombra informe da sua própria desgraça, sentia alvejar, nas margens opostas o mar da Sicília, a roupagem transparente de um anjo, que o chamava de lá. Era isso a sua estrela; seguia-a indiferente a tudo mais que o cercava, via-a somente, só ela, luzir no fundo negro do seu futuro, com farol a única salvação possível.
Alvo, farol ou estrela, apagassem essa esperança e a vida para Miguel seria toda trevas e gelos.
-- Roubem-na, pensava ele, e esta vida não será mais que uma enorme sepultura.
Castor dormia profundamente aos pés do amo.
-- Pronto, patrãozinho! Disse Sombra da Noite, chegando à casa.
-- Podemos ir?
-- Quando quiser, respondeu o pescador, tomando do chão a torcida acesa.
Miguel tomou o capote de um prego donde estava dependurado e, embrulhando-se, saiu, acompanhado de Castor, que, rápido, lhe tomou a frente e desceu a ladeira.
Sombra da Noite fechou por dentro a porta com a tranca de nogueira, foi ao outro quarto e fez o mesmo à porta do fundo e, depois de apagar o pavio, pisá-lo e mantê-lo na algibeira, afastou de um canto do teto o choupo e, espremendo-se pela estreita abertura, saltou fora, exclamando:
-- Até a volta, se te encontrar viva ou se eu não estiver morto!
Em cinco minutos, alcançou Miguel.
Chegados à praia, o homem tomou nos ombros o artista e carregou-o para bordo. Castor seguiu-os a nado.
Miguel agarrou-se ao portaló e pulou no barco, estendeu depois um braço e puxou Castor para dentro; o cão entrou todo a sacudir-se, salpicando água do corpo. Sombra da Noite foi o último e fechou o portaló; em seguida, voltando-se para Miguel, apresentou-lhe o barco e os seus arranjos, explicando a serventia disto, elogiando aquilo, falando de tudo e dando a entender que tinha consciência do bom desempenho da sua comissão. Miguel distraidamente passeou a vista pelo interior do barco e declarou-se plenamente satisfeito.
Suspendeu-se a amarra, guindou-se a vela grande. O barco começou a embalar-se, como se tivesse acordado naquele instante, parecia mesmo que se espreguiçava; logo, porém, cedeu ao leme de Sombra da Noite, virou a favor do mar e entrou a navegar com vento em popa.
Partiram.
Leia Uma Lágrima de Mulher, de Aluísio Azevedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.