Leia agora
O Acordo da Meia-Noite

Universo da obra

O Acordo da Meia-Noite

Capítulo 1 · O Acordo da Meia-Noite

A Cláusula

Clara Medeiros chegou ao Hotel Mirante vinte minutos antes da meia-noite, com chuva no para-brisa, o celular sem sinal e uma pasta preta presa contra o peito. A estrada terminava diante de um portão de ferro alto, ladeado por duas colunas antigas onde o nome da família Montenegro aparecia gasto pela maresia. Ela desligou o carro e ficou ouvindo o motor esfriar. Havia muitos motivos para voltar. O irmão detido em uma sala de delegacia, a mensagem de voz que ele deixara chorando, o extrato bancário que não explicava o dinheiro encontrado em sua mochila, a última foto enviada por Bia antes de desaparecer, tirada diante daquele mesmo portão. Clara respirou pelo nariz, contou até sete e saiu do carro. O salto afundou na terra úmida. O hotel, no alto da encosta, mantinha todas as janelas acesas, parecendo aguardar uma festa da qual ninguém saía limpo.

O segurança abriu depois de conferir seu nome em uma prancheta plastificada. Não perguntou por que uma advogada vinha assinar documento àquela hora. Talvez a família Montenegro treinasse bem seus empregados, talvez o dinheiro antigo ensinasse todo mundo a não demonstrar curiosidade. Clara dirigiu pela alameda de pedras com cuidado. Ciprestes inclinados pelo vento marcavam o caminho até a entrada principal. O prédio surgiu inteiro quando ela fez a última curva, branco, imenso, com varandas de ferro e uma escadaria larga demais para hóspedes comuns. O Hotel Mirante fora capa de revista, cenário de casamentos, retiro de políticos e abrigo de famílias que preferiam o mar visto de longe. Agora parecia guardar outra coisa. Clara estacionou ao lado de um carro preto e viu, refletido no vidro, o próprio rosto tenso, a maquiagem vencida pelo dia e os olhos de quem aceitara uma proposta antes de entender o preço.

Um mordomo de idade indefinida esperava na porta. Chamava-se Silas, informou sem sorriso, e conduziu Clara pelo saguão. O chão de mármore estava seco apesar da chuva, lustres baixos espalhavam luz amarela, quadros de antepassados ocupavam as paredes com expressões de dono. Nenhum hóspede circulava. Clara percebeu que o hotel funcionava, porem naquela noite parecia reservado para uma negociação. Silas a levou até uma biblioteca no fim do corredor. Antes de abrir a porta, avisou que o senhor Elias a aguardava. Clara quase corrigiu o tratamento por impulso profissional. Senhor era palavra que deixava homens perigosos confortáveis. Guardou a observação. Precisava de cada nervo disponível para ler o contrato, não para vencer uma guerra de etiqueta no corredor.

Elias Montenegro estava de pé diante da janela, segurando um copo sem beber. Usava camisa branca, mangas dobradas, calça escura e a tranquilidade irritante de quem nunca precisara correr atrás de ônibus, prazo ou fiança. Tinha trinta e poucos anos, talvez mais, talvez apenas carregasse cedo demais a seriedade dos homens que herdam ruínas com sobrenome bonito. Virou-se quando Clara entrou. O olhar dele passou pela pasta, pelo casaco molhado, pelo rosto dela, e parou nos olhos com precisão desconfortável. Agradeceu por ter vindo. Clara respondeu que não viera por gentileza. Ele aceitou a frase sem mudar a expressão. Sobre a mesa havia duas cópias do contrato, uma caneta tinteiro, uma garrafa de água e uma fotografia virada para baixo. Clara viu primeiro a fotografia, depois fingiu que não.

Ele indicou a cadeira. Clara permaneceu em pé. Pediu para ver o contrato antes de qualquer conversa. Elias empurrou a cópia em sua direção. Ela abriu na primeira página e encontrou seu nome completo, Clara Medeiros, escrito com todos os acentos corretos, endereço, número da OAB, dados do irmão, cláusulas de confidencialidade, prazos e uma expressão que a fez levantar os olhos. Compromisso público de união afetiva simulada. Elias acompanhou a leitura sem pressa. Clara perguntou que tipo de delírio jurídico era aquele. Ele disse que o nome técnico importava menos que o efeito prático. Durante trinta dias, ela seria apresentada como sua noiva. Em troca, a família Montenegro retiraria a queixa contra Daniel e entregaria à defesa as imagens internas que provavam que ele não entrara sozinho na sala do cofre. Clara sentiu raiva antes de sentir esperança. Esperança, naquela mesa, era armadilha com polimento.

Ela leu as cláusulas seguintes. Moradia temporária no hotel. Presença em dois eventos familiares. Nenhuma comunicação com imprensa. Nenhum acesso ao terceiro andar sem autorização. Nenhum contato com funcionários sobre fatos ocorridos antes daquela data. A última regra fez Clara apertar a folha. Perguntou que fatos. Elias respondeu que a família tinha inimigos e empregados falavam para sobreviver. Clara ouviu o desvio com a atenção de quem reconhece uma porta trancada pelo barulho da chave. Perguntou por Beatriz Lemos. O nome entrou na sala sem pedir licença. Elias colocou o copo sobre a mesa com cuidado. Disse que a amiga dela se hospedara ali por dois dias e saiu por vontade própria. Clara tirou o celular da bolsa, abriu a última foto salva, aproximou da mesa. Bia diante do portão do Mirante, cabelo preso, sorriso incompleto, legenda curta. Se eu sumir, começa por aqui.

Elias olhou a tela tempo suficiente para Clara saber que ele já vira a imagem. Disse que lamentava. Clara respondeu que lamento não servia como prova. Ele respirou fundo, pela primeira vez sem parecer inteiramente imóvel. Disse que também queria saber o que Beatriz descobrira. Clara riu sem humor. Então o acordo era para isso. Usar a advogada do homem acusado de roubo e amiga da desaparecida para entrar na própria casa sem parecer investigação. Elias não negou. Disse que havia pessoas no hotel que não falariam com ele, porem talvez falassem com ela. Clara percebeu a falha dele tarde demais. Pessoas tinham medo do herdeiro. Isso podia torná-lo culpado ou apenas inútil dentro da própria família. As duas possibilidades eram ruins. Ela voltou ao contrato. A cláusula do terceiro andar parecia crescer no papel.

Clara perguntou por que deveria confiar nele. Elias respondeu que não deveria. Disse que confiança era lenta e eles não tinham esse luxo. Entregou um envelope pardo. Dentro havia cópias de imagens de câmera, uma sequência granulada de Daniel entrando no corredor do cofre atrás de uma mulher de vestido verde. O rosto dela estava cortado pelo ângulo. Clara conhecia o casaco do irmão, o jeito dele andar quando estava nervoso, a maneira infantil de enfiar a mão no bolso. Daniel parecia seguindo alguém, não invadindo. Havia ainda um recibo de depósito feito para a conta dele na manhã seguinte, valor exato encontrado pela polícia. Clara sentou-se sem perceber. O caso contra o irmão não sumia, porem mudava de forma. Alguém o colocara dentro de uma história que começara antes dele.

Elias disse que a queixa poderia ser retirada em vinte e quatro horas, caso ela assinasse. Clara fechou o envelope devagar. Perguntou qual era o ganho dele. O olhar de Elias foi para a fotografia virada sobre a mesa. Ele não tocou nela. Disse que seu avô morreria em breve e a família disputava controle do hotel. Um noivado com uma advogada sem vínculo social com os Montenegro produziria escândalo suficiente para deslocar atenções e, ao mesmo tempo, permitir que Clara circulasse entre convidados, empregados e parentes que jamais abririam portas para uma investigadora formal. Clara disse que ele falava de pessoas como peças. Elias respondeu que naquela casa todos faziam isso, a diferença era que ele preferia admitir. A frieza dele deveria afastá-la. Em vez disso, deu a Clara a sensação perigosa de estar diante de um homem que pelo menos não vendia bondade.

O vento bateu contra a janela. Clara pensou em Daniel na delegacia, no rosto dele inchado de choro, na mãe morta anos antes, no pai que sumira antes de qualquer responsabilidade, na promessa antiga de que ela manteria o irmão fora de confusão. Pensou em Bia, nas mensagens sem resposta, no apartamento vazio, na mãe de Bia ligando todas as semanas com a voz diminuindo. Pensou em sua própria carreira, construída com plantões, clientes difíceis, audiências em cidades vizinhas e uma recusa teimosa a dever favor a gente rica. Elias esperou. Essa talvez fosse a habilidade mais cruel dele. Não pressionava porque sabia que a pressão já estava na sala, sentada no colo de Clara, respirando contra seu pescoço. Ela passou para a última página. Havia espaço para duas assinaturas e uma cláusula adicional escrita à mão.

A cláusula dizia que qualquer contato físico em público deveria ser previamente consentido por ambas as partes. Clara leu, surpresa contra a própria vontade. Elias disse que sua família confundia performance com posse e ele preferia limites escritos. Ela olhou para ele de novo. Havia algo cansado naquele detalhe, um cuidado prático onde ela esperava arrogância. Isso não o tornava seguro. Homens perigosos também podiam conhecer regras úteis. Clara perguntou se havia outros limites que deveria saber. Ele respondeu que a suíte dela ficaria no segundo andar, que Silas seria ponto de contato, que ninguém entraria em seu quarto sem autorização e que, se ela encontrasse qualquer menção ao nome Aurora nos arquivos do hotel, deveria avisá-lo antes de falar com outra pessoa. Clara anotou mentalmente. Aurora. Pela primeira vez, Elias parecia temer uma palavra.

Ela perguntou quem era Aurora. Elias demorou meio segundo demais. Disse que era uma história antiga da família. Clara respondeu que histórias antigas costumavam matar pessoas novas quando ninguém as enterrava direito. Ele não gostou da frase. Bom. Clara precisava que ele se lembrasse de que, contrato ou noivado, ela continuava advogada. Pegou a caneta. Antes de assinar, acrescentou uma cláusula no rodapé da própria via. A retirada da queixa contra Daniel Medeiros deverá ser protocolada até dezoito horas do dia seguinte, sob pena de rescisão imediata e liberação integral de comunicações da contratada com autoridades. Elias leu por cima do ombro dela. O perfume dele era discreto, madeira fria e chuva. Clara odiou notar. Ele pegou a outra caneta e rubricou ao lado. Sem discutir.

Clara assinou. O nome dela entrou no papel com firmeza treinada, porem a mão ficou gelada depois. Elias assinou em seguida. Por alguns segundos, o silêncio pareceu um terceiro contratante. Silas apareceu sem ser chamado e recolheu uma via para cópia, o que confirmou que a biblioteca tinha ouvidos melhores que as paredes de prédios comuns. Clara guardou sua via na pasta preta. Elias finalmente virou a fotografia sobre a mesa. Era uma imagem antiga do terraço do hotel, talvez vinte anos antes. Uma mulher jovem aparecia de costas, vestido claro, cabelo solto, uma criança pela mão. No verso, escrito em tinta azul, havia apenas uma frase. Aurora voltou para buscar o que era dela. Clara sentiu o estômago afundar. A letra no verso era de Bia. Ela reconheceria em qualquer papel.

Elias disse que encontrara a foto na gaveta do avô naquela manhã. Clara pegou a imagem sem pedir. A tinta era recente, a borda estava marcada por dedos, e havia um cheiro fraco de perfume que ela conhecia do apartamento de Bia. A amiga estivera naquela casa depois da data em que, segundo a recepção, havia ido embora. Clara levantou os olhos. Elias já não parecia tão frio. Parecia alguém que abrira a porta errada e encontrara uma coisa viva atrás dela. Do lado de fora, um trovão sacudiu a janela. Silas voltou com a cópia do contrato. Anunciou que o quarto da senhorita Clara estava pronto. Senhorita Clara. Ela quase riu. Em menos de uma hora, perdera o direito de ser apenas advogada. Ganhara uma suíte, um noivo, uma pista e uma palavra que ninguém ali queria explicar.

Quando saiu da biblioteca, Elias caminhou ao lado dela até a escada. Não tocou em seu braço. No primeiro degrau, Clara parou e perguntou se Daniel sairia da delegacia naquela noite. Elias respondeu que já havia ligado para o delegado antes da assinatura. A soltura dependia de formalidade, porém aconteceria pela manhã. Clara virou-se para ele com raiva renovada. Então ele apostara que ela assinaria. Elias sustentou o olhar. Disse que apostara que ela amava o irmão e a amiga o bastante para odiá-lo depois. A resposta foi tão limpa em sua crueldade que Clara ficou sem frase. Subiu a escada com a pasta apertada contra o peito. No segundo andar, uma porta se abriu ao fundo do corredor, embora Silas tivesse dito que todos os quartos estavam vazios. Uma mulher de vestido verde olhou para Clara por um instante e desapareceu no escuro.

O Acordo da Meia-Noite

Sinopse

Clara Medeiros chega ao Hotel Mirante para assinar um acordo impossível com Elias Montenegro, o herdeiro frio de uma família cercada por luxo, dívida e rumores. Em troca de proteção para o irmão acusado de roubo, ela deve fingir um noivado por trinta dias e obedecer a regras estranhas dentro da propriedade. Clara aceita porque a última mensagem de sua melhor amiga desaparecida também saiu daquele hotel. Entre corredores fechados, fotografias retiradas das paredes e uma atração que ameaça sua prudência, ela descobre que o contrato não foi feito para unir duas pessoas. Foi feito para manter uma morte fora da luz.

O Acordo da Meia-Noite

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de O Acordo da Meia-Noite

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias de O Acordo da Meia-Noite

Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Sinopse do universo · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo