Universo da obra
Universo da obra
Manifestado especialmente pela arte, mas manchando também com violência os costumes sociais e políticos, o movi mento modernista foi o prenunciador, o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional. A transformação do mundo com o enfra quecimento gradativo dos grandes impé rios, com a prática européia de novos ideais políticos, a rapidez dos transpor tes e mil e uma outras causas internacio nais, bem como o desenvolvimento da conciência americana e brasileira, os pro gressos internos da técnica e da educa ção, impunham a criação de um espírito novo e exigiam a reverificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional. Isto foi o movimento modernista, de qúe
a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo principal. Há um mé rito inegável nisto, embora aqueles pri^ meiros modernistas. . . das cavernas, qpie nos reunimos em torno da pintora Anita Malfatti e do escultor Vitor Brecheret, tenhamos como que apenas servido de ab tifalantes de uma força universal e nacio nal muito mais complexa que nós. Força fatal, que viria mesmo. Já um crítico de senso-comum afirmou que tudo quanto fez o movimento modernista, far-se-ia da mesma forma sem o movimento. Não co nheço lapalissada mais graciosa. Porque tudo isso que se faria, mesmo sem o m o vimento modernista, seria pura e sim plesmente . . . o movimento modernista. Fazem vinte anos que realizou-se, no Teatro Municipal de São Paulo, a Se mana de Arte Moderna. E’ todo um pas 4 sado agradavel, que não ficou nada feio, mas qpie me assombra um pouco também. Como tive a coragem para participar da-
quela batalha î E’ certo que com minhas experiências artísticas muito que venho escandalizando a intelectualidade do meu país, porem, expostas em livros e artigos, como que essas experiências não se rea lizam in anima nobile. Não estou de corpo presente, e isto abranda o choque da estupidez. Mas como tive coragem pra dizer versos diante duma vaia tão hulhenta que eu não escutava no palco o que Paulo Prado me gritava da pri meira fila das poltronas ? . . . Como pude fazer uma conferência sobre artes plás ticas, na escadaria do Teatro, cercado de anônimos que me caçoavam e ofendiam a valer ? . . . O meu mérito de participante é mé rito alheio: fui encorajado, fui enceguecido pelo entusiasmo dos outros. Apesar da confiança absolutamente firme que eu tinha na estética renovadora, mais que confiança, fé verdadeira, eu n ã o . teria forças nem físicas nem morais para
arrostar aquela tempestade de achinca' lhes. E si aguentei o tranco, foi porque estava delirando. 0 entusiasmo dos outros me embebedava, não o m eu. Por mim, teria cedido. Digo que teria ce dido, mas apenas nessa apresentação es petacular que foi a Semana de Arte Mo derna. Com ou sem ela, minha vida intelectual seria o que tem sido. A Semana marca uma data, isso é inegável. Mas o certo é que a pre-conciência primeiro, e em seguida a con vicção de uma arte nova, de um espírito novo, desde pelo menos seis anos viera se definindo no. . . sentimento de um grupinho de intelectuais paulistas. De primeiro foi um fenômeno estritamente sentimental, uma intuição divinatória, um. . . estado de poesia. Com efeito: educados na plástica ‘ ‘histórica” , saben do quando muito da existência dos im pressionistas principais, ignorando Cézanne, o que nos levou a aderir incondi-
cionalmente à exposição de Anita Malfatti, que em plena guerra vinha nos mostrar quadros expressionistas e cubistas? Parece absurdo, mas aqueles qua dros foram a revelação. E ilhados na enchente de escândalo que tomara a ci dade, nós, três ou quatro, delirávamos de êxtase diante de quadros que se cha mavam o ‘ ‘Homem Amarelo” , a “ Estudanta Russa” , a “ Mulher de Cabelos Verdes” . E a esse mesmo “ Homem Ama relo” de formas tão inéditas então, eu dedicava um soneto de forma parnasianíssima. . . Éramos assim. Pouco depois Menotti dei Picchia e Osvaldo de Andrade descobriam o escul tor Vitor Brecheret, que modorrava em São Paulo numa espécie de exílio, um quarto que lhe tinham dado grátis, no Palácio das Indústrias, pra guardar os seus calungas. Brecheret não provinha da Alemanha, como Anita Malfatti, vinha de R om a. Mas também importava
escurezas menos latinas, pois fora aluno do célebre Maestrovic. E fazíamos ver dadeiras rêveries a galope em frente da simbólica exasperada e estilizaçoes deco rativas do ‘ ‘ gênio” . Porque Vitor Brecheret, para nós, era no mínimo um gênio. Este o mínimo com que podíamos nos contentar, tais os entusiasmos a que ele nos sacudia. E Brecheret ia ser em breve o gatilho que faria “ Paulicéia Des vairada” estourar. . . Eu passara esse ano de 1920 sem fazer poesia mais. Tinha cadernos e ca dernos de coisas parnasianas e algumas timidamente simbolistas, mas tudo aca bara por me desagradar. Na minha lei tura desarvorada, já conhecia até alguns futuristas de última hora, mas só então descobrira Verhaeren. E fôra o deslum» bramento. Levado em principal pelas “ Villes Tentaculaires” , concebi imedia tamente fazer um livro de poesias “ mo dernas” , em verso-livre, sobre a minha
i cidade. Tentei, não veio nada que me interessasse. Tentei mais, e nada. Os meses ^ passavam numa angústia, numa insufip ciência feroz. Será que a poesia tinha se acabado em mim ?. . . E eu me acordava LI insofrido. A isso se ajuntavam dificuldades I morais e vitais de vária espécie, foi ano ) de sofrimento muito. Já ganhava pra f viver folgado, mas na fúria de saber as > coisas que me tomara, o ganho fugia em [ livros e eu me estrepava em cambalaxos ' financeiros terriveis. Em familia, o clima ' era torvo. Si Mãe e irmãos não se amo lavam com as minhas “ loucuras” , o resto da família me retalhava sem piedade. E com certo prazer até: esse doce prazer familiar de ter num sobrinho ou num primo, um “ perdido” que nos valoriza virtuosamente. Eu tinha discussões bru tais, em que os desaforos mútuos não raro chegavam àquele ponto de arreben-
tação que. . . porque será que a arte os provoca ! A briga era braba, e si não me abatia nada, me deixava em ódio, mes mo ódio. Foi quando Brecheret me concedeu passar em bronze um gesso dele que eu gostava, uma ‘ ‘Cabeça de Cristo” , mas com que roupa ! eu devia os olhos da cara ! Andava às vezes a-pé por não ter duzentos réis pra bonde, no mesmo dia em que gastara seiscentos mil réis em livros. . . E seiscentos mil réis era di nheiro então. Não hesitei: fiz mais con chavos financeiros com o mano, e afinal pude desembrulhar em casa a minha “ Cabeça de Cristo” , sensualissimamente feliz. Isso a notícia correu num átimo, e a parentada que morava pegado, invadiu a casa pra ver. E pra brigar. Berravam, berravam. Aquilo era até pecado mor tal ! estrilava a senhora minha tia velha, matriarca da fam ília. Onde se viu Cristo de trancinha ! era feio ! medonho !
fl Maria Luisa, vosso filho é um “ perdido” fi mesmo. Fiquei alucinado, palavra de honra. /| Minha vontade era bater. Jantei por b dentro, num estado inimaginável de esi traçalho. Depois subi para o meu quarto, 5 era noitinha, na intenção de me arranjar, a sair, espairecer um bocado, botar uma J! bomba no centro do m undo. Me lembro ji que cbeguei à sacada, olhando sem ver o I meu largo. Ruidos, luzes, falas abertas í subindo dos cbofêres de aluguel. Eu es-» I tava aparentemente calmo, como que in) destinado. Não sei o que me deu. Fui i até a escrivaninha, abri um caderno, es• crevi o título em que jamais pensara, “ Paubcéia Desvairada” . 0 estouro che gara afinal, depois de quase ano de an gústias interrogativas. Entre desgostos, trabalhos urgentes, dívidas, brigas, em pouco mais de uma semana estava jogado no papel um canto bárbaro, duas vezes
maior talvez do que isso que o trabalho de arte deu num livro (^) .
Texto original em OCR da conferência O Movimento Modernista, de Mário de Andrade, edição de 1942 em domínio público no Brasil.
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