Universo da obra
Universo da obra
NOTA PARA A 2ª EDIÇÃO
Esta é realmente a segunda edição de Primeiro andar. Se correm por aí algumas talvez centenas de exemplares com capa nova ilustrada e crismada “2ª Edição”, é que o proprietário da primeira fez isso por sua exclusiva conta, no desejo de desencalhar os exemplares que restavam. Imagino que foi bem sucedido pois o livro acabou se esgotando.
Para esta segunda edição verdadeira não pude mais me acomodar com a curiosidade falsa por mim que provocou a composição da primeira e está explicada na ADVERTÊNCIA que conservei aqui. Na verdade esta segunda edição é quase um livro novo. Da primeira edição só guardei os contos, por curiosidade o mais antigo que não destruí, feito lá pelos vinte e um anos, CONTO DO NATAL, e mais CAÇADA DE MACUCO, CASO PANÇUDO, GALO QUE NÃO CANTOU, EVA, BRASÍLIA, HISTÓRIA COM DATA. Foram retirados o hórrido COCORICÓ uma vergonha, e… ara! várias outras vergonhas. Quanto a O BESOURO E A ROSA, primeira história que Belazarte me contou, desligou-se prazerosamente deste livro e tomou o seu justo lugar no Belazarte. Em compensação ajuntei certos contos que vieram se compondo pela minha vida. São eles o CASO EM QUE ENTRA BUGRE que já andou imiscuído falsamente entre os contos de Belazarte
a que não pertencia, BRIGA DE PASTORAS e mais duas páginas que eu gosto, OS SÍRIOS e PRIMEIRO DE MAIO, bons pra os teoristas da nomenclatura me ensinarem que não são contos. São. Eu sei que este não é livro fundamental para os que se interessem pela minha experiência literária, mas eu espero que as modificações introduzidas o tornem mais divertido para os leitores da Livraria Editora Martins, melhor garantia por que este livro se recomenda.
M. de A.
S. Paulo / novembro / 1943
ADVERTÊNCIA INICIAL
Não sei mesmo que carinho errado por mim e por esses amigos assuntando o que escrevo me faz publicar estas façanhas de experiência literária. Escritor mais serelepe que eu nunca vi. Se agora acontece às vezes me equilibrar sozinho sobre estes meus pés bem calçados não tive parada por toda a casa dos vinte. Andei portando nos pomares de muitas terras, comendo frutas cultivadas por Eça e por Coelho Neto, por Maeterlink… Só reflexo? Não sei. Sei que ficou perturbando o vácuo nobre e taciturno das gavetas um dilúvio de manuscritos recorrigidos muitas vezes. Pois neste volume eu salvo alguns Noés desse passado. Contos cuja virtude está nas datas, são os que me pareceram mais bonitos ou característicos. Aos que me estimam interessarão. É verdade, livro sem outros valores que esses: carinho e enganos bem iludidos de aprendiz. Muita literatice muita frase enfeitada. Não faz mal, ao menos publicando-se me liberta duma vez do meu passado e dos namoros artísticos dele. Agora vou gastar meu dia bem descansado sem esses exames-de-consciência que fazem a gente parar de supetão contemplando a distância atrás num juízo crítico impossível, fiz bem? fiz mal? se extraviando na relembrança na ilusão no amor. Nessas coisas que a distância faz engraçadas e apenas são primeiro andar de casa crescendo, ninguém põe reparo nele, o que passou passou.
MÁRIO DE ANDRADE/junho/1925
Texto original de Mário de Andrade em domínio público no Brasil, publicado a partir da transcrição eletrônica preservada pela UFSC.
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