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Estudos brasileiros: 1a. série

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Estudos brasileiros: 1a. série

Capítulo 1 · Estudos brasileiros: 1a. série

Bases da nacionalidade brasileira: do descobrimento ao ciclo da defesa

A JOSÉ VASCONCELOS

CONSTRUCTOR DO MÉXICO MODERNO

BASES DA NACIONALIDADE

BRASILEIRA

DO DESCOBRIMENTO ÁS CAPITANIAS

O Brasil nasceu do esforço calculado e prudente de um pequeno mas intrépido povo. Apertado em angustioso trato de território, entre as serranias ásperas de Espanha e as rumorosas praias do Atlântico, Portugal tinha traçado no mar o seu destino, nos grandes «mares nunca dantes navegados». Longos e amargos séculos porfiaram os lusos por se constituir em Estado soberano, e, somente ao cabo de muitas e tenazes pugnas, quando raiavam as primeiras luzes do Renascimento, no fim do século XIV, é que a nação se organizou politicamente, sob o dominio de D. João l.o, príncipe da casa de Aviz. De D. João l.o até o mysteriòso D. Sebastião, desapparecido ás mãos da moirama, em Alcácer-Quibir, isto é, de 1385 a 1587, a historia dos portugueses é uma continua batalha, nas costas inhospitas da África «viciosa», nas feitorias da Ásia, e, sobretudo, nas ondas do oceano desconhecido. Na destemerosa «cavallaria do mar», corn que a Ibéria deslumbrou a christandade, as esquadras de Lisboa emparelham em gloria com as de Cadiz.

A necessidade de novos mercados, e não simplesmente , a pura ambição de dilatar a fé, como querem os historiadores românticos, levou os lusitanos aos caminhos marítimos (1). Habitando um paiz de paisagens amáveis, onde, até hoje, ecoam as frautas e as sanfoninas bucólicas, essa raça de pastores e agricultores, que os romanos não puderam subjugar de todo, vivia frugalmente, ao meio dos vinhedos, das oliveiras, dos trigaes e dos rebanhos. Com tão escassos cabedaes, porém, seria impossível formar um grande império. E, por sabias e engenhosas directrizes de um es-

(!) Vide: Antônio Sérgio. Ensaios, vol. I. col de políticos e mercadores avisados, esses bandos de pegureiros se transformaram em legiões de marujos. A placidez das collmas vestidas de pinhaes e dos valles estrellados de papoulas foi substituída, quasi de improviso, pelo rumor das tem-? pestades ou pela nostalgia dos céos estranhos do equador.

O descobrimento do Brasil, como o do continente americano, não foi, portanto, obra do acaso. Desde a celebre profecia de Seneca, e antes até, desde os diálogos de Platão, no «Timeo», onde se reproduzem velhas tradições egypcias, não era novidade para os homens cultos a existência de terras situadas a oeste da Europa. As raças vermelhas da famosa Atlantida têm o seu logar nas festas de Amenas, porque, ali, nas pequenas Panathenéas, celebradas em louvor de Pallas, era obrigatório o uso de um peplo, que recordasse a protecção daquella divindade, na guerra victoriosa dos athenienses contra os atlantas.

Não resta mais duvidaj hoje, para os pesquizadores do assumpto, e deante de documentos como o Esmeralda de Sita Orbis, de Duarte Pacheco, onde se fala que o Rei de Portugal mandara descobrir «a quarta parte occidental», que os almirantes portugueses tinjhafn sciencia do novo mundo (1).

Velejando longe das costas africanas, as caravelas de Pedro Alvares Cabral, que iam com derrota para as índias (?), depois de atravessarem águas coalhadas de botelhos, igolfões e rabos de asno, e céos, onde revoavam gaivotas e alcatrazes, chegaram

í 1 Cf. Esnieraldu de Situ Orbis. l.o livro, cap. 2.o, edição critica annotada por Augusto Epifanio da Silva Dias, publicada, em 1905, pela Sociedade de Geographia de Lisboa. Escrevendo sobre o assumpto, diz o grande navegador Duarte Pacheco:... «ha experiência, que he madre das cousas, nos desengana e de toda duvida nos tira; e por tanto, bemaventurado Príncipe, temos sabido e visto como no terceiro hanno do Vosso Reinado do hanno do nosso senhor de mil quatrocentos e noventa e oito, donde nos vossa alteza mandou descobrir ha parte occidental, passando alem1 ha grandeza do mar oceano, onde he achada e navegada hua tão grande terra firme, etc...»

Carlos Malheiro Dias, na sua monumental Iniroducção á Historia da Colonização Portuguesa no Brasil, vol. 1.°, pag. XI, affirma: «Nenhum technico naval, a quem se tenha subimettido a apreciação do problema da casualidade ou intencionalidade da arribada de Pedro Ala um litoral inexplorado. Procurando ancoradouro, afim de conhecer melhor a terra, aportou a frota de Cabral a uma enseada espaçosa, boa para refrescar os navios, onde, a' 26 de Abril de 1500, foi rezada a' primeira missa em um ilhéo deserto. Desembarcaram, depois, os descobridores em terra firme, tomando posse delia em nome de D. Mandei, o venturoso, e ali chantando

vares Cabral a Vera Cruz, deixou de argumentar semelhantemente ao official da armada portuguesa e engenheiro hydrografo, Baldaque da Silva, pronunciando-se a favor de uma intencionaüdade manifesta». Mais adeante, a pgs. XXXII, diz o illustre escriptor português, para justificar a mesma these: «Se D. João II, em 1493 e 94, obstinadamente procurou açautelar a posse das terras austraes, é porque dellas havia suspeita ou conhecimento. Não se reclama o que não se suppõe existir».

Vide ainda: João Ribeiro, O Fabordão, 1910. Capistrano de Abreu, O Descobrimento do Brasil pelos portugueses, 1900. Baldaque da Silva, O Descobrimento do Brasil por Pedro Alvares Cabral, in Memórias da Commissão Portuguesa da Exposição Colombina, 1892. Lisboa. Duarte Leite Pereira, Os Falsos Precursores de Cabral, in H. da Colonização Port. do Brasil, vol. 1.° pags. 109 a 225. a Cruz de Christo, com as armas e divisas reaes.

Ao parecer dos mais atilados, afigurava-se a região uma ilha gentil, e, como tal, foi baptisada com os nomes de «Vera Cruz» e depois «Santla Cruz». Lê-se na formosa carta do escrivão da armada Pero Vaz de Caminha, que é a nossa certidão de nascimento, entre muitas e ingênuas observações, que «a terra em si é de muito bons ares assim frios e temperados como os dentre Douro e Minho, porque, neste tempo de agora assim os achávamos como os de lá; águas são muitas infindas; em tal maneira é graciosa que querendo-a aproveitar, dar-se-á nella t u d o . . . »

Ficou-lhe, finalmente, o appellido de Brasil, mercê da abundância de certa madeira conhecida por «pau brasil», ou, talvez, como reminiscencia da lendária ilha de Braçir, Braxil, Brazylle ou O' Brasile, celebre nas cartas medievaes.

Logo que as noticias do descobrimento chegaram á Corte, houve júbilo geral, pois, embora se affirmasse a inexistência de ouro e metaes no seu solo, era, no mínimo, excellente abrigo que se offerecia aos que demandavam a Ásia. Aprestaraimse, conseguintemente para a explorar, varias expedições, que estiveram no litoral brasileiro mais ou menos demoradamente, desde a de Américo Vespucio, em 1501, até á da nau Bretôa, em 1519. O sonho das índias, entretanto, cedo tornou desamparadas as florestas americanas. Os olhos estavam' todos voltados para o oriente, de onde vinham1 as sedas, o marfim, o âmbar, as jóias e as especiarias, e que rasgava aos portugueses mercados opulentos e inesgotáveis. Não entrava o Brasil nas cogitações da coroa, se não como o paraíso dos selvagens bravios, que era mister civilizar com água benta, dos papagaios e das araras, de colorida plumagem. A noticia de que a terra não tinha ouro nem prata, contribuio muito para esse natural descaso.

Desse abandono se aproveitavam, porém, os piratas franceses, que, da Bretanha e da Normandiá, se faziam ao mar freqüentemente, em cruzeiros de longo curso,, das Antilhas á costa do Brasil, pilhando os aldeiamentos dos incolas, ou commerciando com estes em madeiras, pennas, aves e productos naturaes. Até 1521, quando ascendeu ao throno D. João III, successor do rei venturòso, as solidões brasileiras se conservaram intactas e brutas. A feitoria .fundada em Pernambuco, por Christovam Jacques, em 1516, assaltada depois pelos franceses, retomada pelos lusos, e, finalmente, destruída por aquelles, fora, até então, o único e remoto vestígio da acção portuguesa.

Com a expedição de Marfim Affonso de Sousa, em 1530, começa propriamente a historia do Brasil, que deve muito ás minas de prata do México e do Peru, o povoamento systematíco, o desbravamento paulatino mas firme do seu território vir» gem e olvidado. Os thezouros aztecas e incas despertaram, nos dirigentes da metrópole, a ambição de assegurar o domínio da colônia, possivelmente riquíssima também, e entregue ás ameaças de inimigos de toda a procedência.

A divisão do paiz em quinze capitanias hereditárias, e a doação dellas a capitães-mores, dignos pela excellencia da linhagem ou pelo prestigio individual, foi um acto de evidente sabedoria. Somente assim, confiando essa porção de terras incultas á energia de homens de boa vontade, poderia guardar a coroa, sem maiores gastos, a presa já cobiçada por muitos salteadores. Essas capitanias, mais tarde, ficaram sob a dependência de um governo central, com sede na Bahia, até que, no correr do tempo, foram passando umas após outras, por acquisição do erário publico, ao jugo da Metrópole.

O BRASIL HISTÓRICO

Para se formar claro juízo da nossa nacionalidade e de como se desenvolveu a nossa historia, faz-se mister, antes que tudo, dividil-a em quatro cyclos essenciaes.

Abrange o primeiro dêlles o século XVI, e se prolonga aos meiados do XVII: é o Cyclo da Defesa, quando os habitantes da terra, cruzados com os adventicios brancos e africanos, se juntam e combatem, hombro a hombro, para proteger os lares ameaçados pelas incursões estrangeiras;

estende-se o segundo, da ultima metade do século XVII á primeira do XVIII: é o Cyclo da Conquista, quando se realizaram as profundas penetrações na interior da colônia, de que resulta o conhe-i cimento do sertão, assim como o relevo geographico do paiz ;

dilata-se o terceiro, da segunda metade do século XVIII até aos primeiros annos do século XIX: é o Cyclo da Consolidação, quando, em virtude do descobrimento das minas, a colônia se torna um factor .econômico de tal eminência, que entra já nos cálculos de notáveis estadistas ultramarinos a possibilidade da transferencia da Metrópole para a America, o que, afinal, acontece, por força aa í.ivasão napokonica, em 1807, com a vinda de D. Maria I e do príncipe D. João para o Rio de Janeiro ;

comprehende o ultimo, o século XIX e as duas décadas do XX: é o Cyclo da Independência, que se inicia, politicamente, com o estabelecimento da casa de Bragança no Brasil, de onde nos vieram os dous Imperadores Pedro I e Pedro II, e culmina nos movimentos da reacção intellectual, econômica e social das gerações que, de 1822 até agora vêem trabalhando pelo Brasil soberano e livre, em todas as esferas de acção.

O CYCLO DA DEFESA

O Jesuíta. O Senhor de Engenho. O Fidalgo

A organização administrativa do nosso 1.o século obedeceu a princípios verdadeiramente feudaes. Os colonos estavam sujeitos ao arbítrio das leis, que ora se relaxavam ou mais rigorosas se tornavam, consoante o capricho dos capitães-mores e seus prepostos.

Vieram para as novas terras, em1 levas, de começo escassas e depois crescentes, indivíduos das mais distinctas classes e profissões. Desde os fidalgos da melhor nobreza e dos sacerdotes do mais puro animo, aos soldados, artifises, mecânicos, lavradores e mesmo criminosos, as recentes povoações se encheram dos mais encontrados elementos. A maioria desse gente não emigrava do Reino para ficar, se não para accumular pecunia, encher a bolsa e voltar á pátria, livre de necessidades. Sente-se, desde logo, nesses alongados aldeiamentos, que tudo era, então, provisorioi, e que os seus moradores, postos entre o terror dos piratas marinhos e as investidas inesperadas dos índios escorraçados, viviam em1 uma perpetua tragédia.

No cimo dos outeiros ou na coroa dos morros, se elevavam as primitivas aldeias, protegidas por fossos e paliçadas de pau a pique. Ao redor das habitações dos chefes, construídas com o apuro de fortalezas, se distribuía o casario irregular dos colonos, derramando-se pelas abas das collinas, entre bosques de arvores seculares e á sombra de matadas espessas.

Cada um desses villarejos era uma pequena communa, em que todos estavam unidos por um sentimento collectivo de defesa, e em que a operosidade de cada indivíduo ia augmentar os frutos do labor geral. Formou-se, assim, ao longo da faixa litoreana, uma sociedade rústica, entregue á existência patriarcal da lavoura e da creação em modesta escala. A terra era formosa e de bons ares. Â beira de praias douradas e piscosas, á margem de rios e lagoas de águas desnevadas e ricas, cercadas de vegetação luxuriante, os homens se entretinham em trabalhos domésticos, dispostos e saudáveis.

Com o desenvolvimento da cultura da canna de assucar e a doação de sesm árias, a terra começou a ser explorada em maior extensão. Do mesmo passo, foram crescmdo as relações entre o gentio e os ádvenas, relações que, era de esperar, nem sempre se revestiram de cordura e mansidão. Perseguidos e rechassados, os incolas, de brandos que se revelaram aos marinheiros de Cabral, mostravam-se, agora, desconfiados^, não raro, aggressivos. De vez em vez, do seio das selvas humidas, voava a flecha hervada e silenciosa, que vinha vingar, rápida e certeira, alguma espoliação dura e mesquinha. A carência de braços para a agricultura impelliu os colonos á escravização do indlo. Este era considerado, por via de regra, como simples animal, sem direito e fora da lei, era cousa usufructuaria de que os brancos poderiam utilizar-se francamente e sem estorvo. Desamparados de uns e outros, pois o governo central animava e auxiliava essas caçadas monstruosas de seres humanos, os índios americanos misturavam no eito rude, com os escravos de Angola, as duas melancolias immensas, que tanto iriam pesar no caracter da raça brasilica. Sob o latego do branco, jorrava das epidermes de bronze e de ebano, o sangue humilde que, mais tarde, confundido com o do português, correria as veias de grande porção do nosso povo.

Surgiu, sem embargo, ao lado dos senhores do engenho, dessa destemerosa aristocracia da terra, uma outra benigna e pacifica, a aristocracia do céo, formada pelos missionários da Companhia de Jesus. Em que pese aos seus erros políticos e á teimosia com que os reiteravam, prestaram os jesuítas inestimável serviço á nossa nacionalidade. Sem o seu concurso diuturno e paciente, sem o devotamento da sua fé, sem o sacrifício de tantas existências massacradas pelo pavor do selvagem, o problema do nosso caldeamento ethnico teria sido seriamente difficultado.

Tresmalhados nos mais carrancudos sertões, esses homens prodigiosos, apenas armados da Cruz de Christo, foram os primeiros que percorreram as invias solidões dos nossos taboleiros interminos. Os nomes de Nobrega e Anchieta são dos mais nobilitantes na historia do nosso paiz. Encarnam soberanamente toda a grandeza da sua ordem e da sua religião. Plantaram as raízes do catholicismo no coração da nossa terra e transformaram, com o risco imminente das próprias vidas, o instincto áspero do selvagem em um instrumento auxiliar da colonização. São innumeros os depoimentos, os testemunhos, os documentos preciosos para o estudo das raças americanas, que os jesuítas deixaram nos seus roteiros interessantíssimos.

Descreveram os usos e costumes das tribus, defendendo-as de injustiças e erronias malévolas; procuraram, como Anchieta e Montoya, fixar os sons das suas prosódias barbaras por meio do nosso alphabeto; investigaram com amoroso intuito as regras de syntaxe e os segredos etymologicos dos seus idiomas, facilitando, assim, o contado entre elles e os colonizadores. Contribuíram, também, para a obra formidável de penetração realizada pelos bandeirantes paulistas, porquanto, vararam desfiladeiros e zonas desoladas. Os tupis do litoral e os tapuias, caribas, nu-aruaks, guaycurus, carajás, bororós, e dezenas de nações do interior, receberam a vizita, por vezes mal succedida, desses missionários famosos em todo o continente latino-americano.

O factor moral da religião e o factor econômico da agricultura e da pecuária, constituíram, desta arte, os alicerces do futuro Estado. Até ao descobrimento das minas, que modificou a physionomia social e política da colônia, foram aquelles os elementos fundamentaes do nosso progresso. Ao findar, pois, o século XVI, já se acha, em suas linhas geraes, definido o núcleo da nossa sociedade, essencialmente rural, como a dos frankos e germanos, durante a idade-media.

Depois do sacerdote, a figura dominante nessa época é a do senhor de engenho. Apartado, mercê, das suas actividades, do incipiente urbanismo litorâneo* o fazendeiro, dono de sesmarias illimitadas, onde caberiam províncias inteiras do antigo continente, é um pequeno rei í 1 ). Sua autoridade é tão grande, ou maior, que a do paterfamílias, no direito romano. Sem que a lei o estabeleça expressamente, tem o direito de vida e morte sobre os que delle dependem, e são quantos se encontram amanhando as terras ou servindo nos engenhos

(x) Vide. Oliveira Vianna. Populações Meridionaes do Brasil, vol. I. da sua propriedade. Captivos e homens liyres, moradores da «villa urbana», residência da sua família, ou da «villa rústica», em que se distribue a numerosa escravaria, á semelhança do que se verificava nos domínios gallo-romanos, todos devem cega servidão ao senhor supremo. Nas suas vastas possessões, os paióes estão abarrotados de provisões de toda sorte, desde as de bocca até ás de guerra. Não tendo precisão de communicar-se com as cidades, se não em determinadas épocas, para o escambo de productos, o senhor de engenho está, conseguintemente, fora das alçadas reaes, e o arbítrio da sua vontade é o único principio jurídico.

Não rareiam, por isso, narrativas de abusos e castigos horripilantes, a que todos assistiam reverentes, sem queixa nem atoarda. Se, porventura, desconfia da honradez do filho, da virtude da esposa ou da pureza da filha, lavra sentença de morte, serenamente, e, por contrapeso, convida a parentela e a vizinhança atemorizada para testemunharem os rigores da sua inflexível severidade. Refina, ás vezes, os seus processos exemplares. Conta-se, que, nos sertões de Pernambuco, um desses altaneiros barões, certo de que a concubina repartia amores com um seu filho, mandou o irmão mais velho deste descarregar-lhe a escopeta no coração, indifferente aos esquivos e medrosos rogos dos que mais caros lhe deviam ser, como os dos netos que, por sua mão, voluntariamente lançava na orphandade.

Sem homens de tal tempera, não obstante, sem essa estirpe de monstros admiráveis, sem esses heróes que sabiam olhar o sol de frente e não recuavam mesmo ante a Igreja, o Brasil não seria uma Pátria, mas uma collectanea de paizes turbulentos e irreconciliaveis. Foi o senhor de engenho o fermento activo dos vários compostos ethnicos da nacionalidade. Ao seu caracter irreductivel, intemerato e inamolgavel, devemos nós a victoria sobre a legião de inimigos, que assaltaria de norte a sul a costa vulnerável da America Brasileira, victoria que Portugal, sozinho, enfraquecido por desmandos e desordens internas, seria incapaz de obter.

Ao mesmo tempo que isso acontecia no sertão, prosperava em certas zonas do litoral, nomeadamente em Pernambuco e na Bahia, uma sociedade que apurava, dia por dia, a sua cultura, requintando os hábitos citadinos e entregando-se aos deleites de existência já confortável. É que se transportara da Metrópole, com os meros immigrantes, uma casta de fidalgos de boa prosapia, cuja linhagem ia entroncar-se com a das melhores e mais reputadas casas solarengas da península. Em Olinda e São Salvador, cidades de florescente commeri cio, entrepostos naturaes das mercadorias do Reino, centros de intensa riqueza econômica, onde vinham ter os productos nativos das mais afortunadas regiões do Brasil, já era excessivo o luxo dos seus habitantes, ao terminar o nosso 1.° século. Dizem os chronistas do momento, em geral sacerdotes escandalizados, que milhares de cruzados se gastavam com roupas, sedas, damascos, pedrarias, tapeçarias, brocados, cavallos de corrida, vinhos, licores e toda a espécie de objectos, com que se entretinham as damas e os cavalheiros pernambucanos e bah iamos (x).

Em cada uma dessas reduzidas cortes, onde brilhava a descendência illustre dos

í 1 )) Cf. Varnhagen. — Historia Geral do Brasil, vol. I. Cavalcanti e dos Acciauoli, de Florença, dos Albuquerque, dos Mello, dos Coelhos, dos Souzas e Bulhões, de Portugal, a emulação fazia crescer as louçanias e garridices desproporcionadamente com o meio, ainda bárbaro e reyesso. Representavam-se autos profanos e sacros, jogavam-se os mais enervantes jogos de azar, disputavam-se justas e torneios, em que os cavalleiros appareciam trajando velludo e gorgorões, com armaduras lameladas de ouro, e tudo era motivo de festas e prazeres. Mulheres e homens rivalizavam entre si no pendor para as diversões, os folguedos e as funçanatas ruidosas. Despendiam-se com isso os lucros da exportação do assucar e das madeiras. Accumulavam-se, pois, dividas sobre dividas, para que fidalgos de verdade ou fidalgotes de arribação folgassem á larga. Data d'ahi essa febre do litoral que, até hoje, despovoa os nossos campos e attráe o emigrante das planícies ferazes do nosso «hinterland». Data d'ahi, também, o exaggero, em que vivemos, e a desmedida propaganda que fazemos da natureza brasileira. Os poetas e os chronistas da época seiscentista vão de par no lirismo das suas apologias. A terra é a mais bella de todas, a maior do universo, a que mais aves possue nas suas florestas, a que mais estrellas exhibe nos seus curvos céos. Um livro desse tempo, de controvertida autoria, mas em todo caso escripto por quem conhecia e amava a colônia, os «Diálogos da Grandeza do Brasil», pode considerar-se o padrão dessa literatura dithyrambica.

Taes informações extraordinárias, sem duvida, deveriam ter influído no animo dos aventureiros e dos governos de aventureiros europeus, os quaes, fascinados pelos rumores de tamanhas opulencias, assim como pelo desejo de estabelecer importantes domínios coloniaes, que lhes facilitassem o cruzeiro das estradas oceânicas, tentaram apossar-se de trechos extensos do nosso território. Ingleses de Cavendish e de Lencastre, franceses de Villegaignon e La Ravardière, hollandeses de Albert Schoutt e da Companhia das índias Occidentaes, assaltaram^ com mais ou menos felicidade, as nossas angras e os nossos portos. Desde o anno de 1557, com a fixação dos franceses no Rio de Janeiro, até 1661, com a expulsão do domínio batavo, firmada no tratado de Haya, a nossa vida foi uma batalha.

A conquista do Brasil septentrional pelos hollandeses, representa o mais grave episódio em toda essa 'tragédia, que é o Cyclo da Defesa. Depois de repellidos da Bahia, em 1625., desembarcaram em Pernambuco, em 1630, os mandatários da Companhia das índias Occidentaes, bem municiados, dispondo de guerreiros dextros e capitaneados por hábeis almirantes e generaes. As conseqüências dessa luta de 30 annos, culminada, com a derrota dos invasores, nas duas batalhas dos Quararapes, foram de inestimável alcance para a historia da formação do espirito nacional.

Desajudados da metrópole, que, ostensivamente, mandava entregar á Hollanda «aquillo que lhe pertencia», os brasileiros não se conformaram com a impotência confessada do governo partuguês. Brancos, índios e negros morreram, confundidos na justiça e na belleza da mesma causa. Inferiores numericamente, dispersos em bandos irregulares sob a chefia de capitães audazes, os representantes das três raças coloniaes enfrentaram denodadamente o adversário, soffrendo amargas provações, mas pelejando até á morte, muitas vezes rodeiados das mulheres e dos filhos infantes. Os guerreiros hollandeses, nos seus relatórios, não se cansam de elogiar os seus inimigos, e se espantam1 de que estes, apenas com trabucos e flechas, arremettessem contra as suas tropas, defendidas por entrincheiram entos fortíssimos e pesada artilharia.

Apparecem, aqui, em toda a evidencia do seu valor, aquelles dous factores a que acima alludi. Esses corações vigilantes são movidos pela fé, pois lutam contra protestantes, e pelo zelo da terra, pois se empenham em varrer delia os intrusos. Triumphou com elles a própria causa da nacionalidade, que, desde então, se avigora na confiança que os naturaes começam1 a'depositar nas próprias forças triumphantes. A guerra contra Hollanda foi, por assim dizer, a primeira lição de «patriotismo», de «orgulho nativista» que as circumstancias obrigaram a Metrópole a nos dar. Tão largos effeitos produzio essa campanha que, poucos annos depois delia, o procurador da Colônia junto ás Cortes, poude affirmar: «O Brasil, em quarenta annos de guerra continuada, padeceu muito, e seus moradores soffreram infinitas misérias e hostilidades na defesa daquelle Estado, onde a maior parte delles se assignalaram em muitas occasiões com singular valor, e despeza das suas fazendas: em respeito do que deve V. A. ser servido que nos postos de milícias, que vagarem no dito Estado, sejam somente providos os que nelle têm servido a V. A.; e da mesma maneira nos ditos moradores os officios de justiça e fazenda, como também em seus filhos as igrejas, conezias e dignidades; pois é justo que despendendo seus pães e avós as fazendas, derramando seu sangue, e perdendo muitos a vida, sejam os postos, cargos e honras do dito Estado concedidos a estes sujeitos, em quem concorrem as partes e qualidades necessárias.» Esse prudente aviso, que aliás não foi ouvido, demonstra eloqüentemente a situação que surgia entre brasileiros e portugueses,- quando acabava o Cyclo da Defesa.

Estudos brasileiros: 1a. série

Sinopse

Texto original de Estudos brasileiros: 1a. série, livro de ensaios de Ronald de Carvalho publicado em 1924. Edição Literunico organizada em oito blocos a partir do exemplar em domínio público da BBM/Brasiliana, limitada ao texto autoral.

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