Universo da obra
Universo da obra
Elogio da Loucura Elogio da LOUCURA, de ERASMO.
Um discurso, de matéria fingida, pronunciado pela Loucura em sua própria pessoa.
POR mais levemente que eu seja estimada no juízo comum do mundo — pois bem sei com que deslealdade a Loucura é desacreditada, até por aqueles que são, eles mesmos, os maiores loucos —, é contudo apenas por minha influência que todo o universo recebe o fermento de sua alegria e jovialidade. E disso se pode alegar prova convincente: mal apareci para falar diante desta numerosa assembleia, todos os semblantes se douraram de uma vivaz e cintilante satisfação; logo me acolhestes com olhar tão animador, estimulastes-me com tão alegre murmúrio, que, na verdade, por toda a aparência, pareceis agora corados por uma boa dose de néctar revigorante, quando, ainda há pouco, estáveis sentados, sonolentos e melancólicos, como se tivésseis acabado de sair da cela de algum eremita. Mas, assim como é costume que, tão logo o sol espreite de seu leito oriental e recolha as cortinas da noite sombria; ou como, depois de um inverno rigoroso, a primavera restauradora sopra um ar mais vivificante, a natureza logo troca de vestimenta, e todas as coisas parecem renovar a idade; assim, ao primeiro olhar que lançais sobre mim, todos vos desmascarais e apareceis em cores mais vivas. Aquilo, portanto, que oradores experientes mal conseguem obter com todos os seus pequenos artifícios de eloquência — isto é, elevar a atenção de seus ouvintes a uma disposição composta do pensamento —, uma simples mirada minha o ordenou. A razão por que apareço neste traje tão estranho logo vos será dada a conhecer, se, por tão breve tempo, tiverdes apenas a paciência de me emprestar ouvido; não, porém, tal ouvido como costumais prestar a vossos reverendos pregadores, mas como o dais aos charlatães, bufões e farsantes; em suma, tal como outrora foram presos a Midas, em castigo por sua afronta ao deus Pã. Pois estou agora disposta a representar por algum tempo o papel de sofista; não, porém, da espécie daqueles que assumem a tarefa servil de tiranizar meninos de escola e ensinam uma habilidade de brigar mais que mulheril; mas à imitação daqueles antigos que, para evitar o epíteto escandaloso de sábios, preferiram o título de sofistas; a estes cabia celebrar o valor dos deuses e dos heróis. Preparai-vos, pois, para vos entreterdes com um panegírico; não, porém, de Hércules, Sólon ou qualquer outro grande personagem, mas de mim mesma, isto é, da Loucura.
E aqui não dou apreço à censura daqueles que pretendem ser tolo e afetado alguém louvar a si próprio; seja tão insensato quanto lhes apraz, contanto que admitam ser necessário. E, com efeito, que há de mais adequado do que a Loucura ser a trombeta de seu próprio louvor e dançar ao som de sua própria flauta? Pois quem poderá expor-me melhor do que eu mesma? Ou quem poderá pretender conhecer tão bem a minha condição?
E mais ainda: posso seguramente alegar que tudo isto não passa do mesmo que fazem vários homens que parecem grandes e sábios; os quais, com uma modéstia de nova moda, empregam algum orador miserável ou poeta rabiscador, a quem subornam para lisonjeá-los com algum retrato altissonante, composto de puras mentiras e imposturas. E, contudo, as pessoas assim exaltadas se eriçam e, à maneira de pavões, espalham suas plumas, enquanto o parasito insolente eleva aos céus o pobre miserável e o propõe como modelo completo de todas as virtudes, de cada uma das quais ele está tão distante quanto o próprio céu do inferno. Que é tudo isso, enquanto isso, senão enfeitar uma gralha com penas roubadas; esforçar-se por mudar a cor de um mouro, e vestir sobre os ombros de um gigante a roupeta de um pigmeu?
Por fim, confirmo a velha observação que concede o direito de louvar a si mesmo àquele que não tem ninguém que o faça por ele; pois, realmente, não posso deixar de admirar essa ingratidão — chamá-la-ei assim? — ou estupidez do gênero humano, que, embora todos me paguem de bom grado seus maiores respeitos e reconheçam livremente suas respectivas obrigações para comigo, ainda assim não tenha havido ninguém tão grato ou cortês que me concedesse uma oração laudatória; sobretudo quando não faltaram aqueles que, à custa de muito suor e perda de sono, em discursos elaborados, fizeram elevados encômios a tiranos, febres, moscas, calvície e outras ninharias semelhantes.
Hei de entreter-vos com um discurso apressado e não premeditado, mas tanto mais natural por isso. Ao vertê-lo ex tempore, não quero que penseis que procedo de quaisquer princípios de vanglória pelos quais os oradores comuns regulam seus intentos; esses que, como é fácil observar, quando dão à luz um discurso que levou trinta anos a ser concebido, e talvez, ao fim, nem sequer seja deles, ainda juram tê-lo escrito às pressas e com pouquíssimo aviso. Ao passo que a razão de eu não vir provida de antemão é somente esta: sempre foi de meu gosto falar constantemente aquilo que está mais à tona. Além disso, que ninguém seja tão ingênuo a ponto de imaginar que eu haveria de restringir minha invenção ao método de outros pleiteadores, primeiro definindo e depois dividindo meu assunto, isto é, eu mesma. Pois é igualmente arriscado tentar comprimir dentro dos estreitos limites de uma definição aquela cuja natureza se estende de modo tão difuso, ou mutilar e separar aquilo cuja adoração congrega unanimemente todas as nações. Além disso, para que serviria estabelecer uma definição de uma fraca semelhança e mera sombra de mim, quando, aparecendo aqui pessoalmente, podeis contemplar-me sob luz mais certa? E, se a vista não vos falha, podeis reconhecer à primeira vista que sou aquela a quem os gregos chamam Mwpia, e os latinos, stultitia.
Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.