Universo da obra
Universo da obra
repartição hesitou devia ir para casa comer o seu jantar ou se fconvi' nha descer logo ao bairro do Commercio e saber jdíci amigo Paulo Boto se o passeio combinado seria effectivãmente, no dia seguinte, que era domingo. Emquanto hesitava, ia desfazendo as joelheiras das calças e esticando as mangas dio redingote. Iorque os seus trajos, assim comfot o seu corpo e o tíseu espirito, accusavam sempre os geitos adquiridos no exercicio da profissão. O braço, pelo costume de mover a penna sobre as tolhas da correspondencid dobrava-se-lhe, procurando instinctivamente a posição de escrever. O espirito, sem embargo de alimentar a fagulha de uma pequena ambição, aba-; tia-se a contemplar as roupas no fio e os botins deformados, a pensar nas desigualdades e injustiças que a uns elevava sem lhes perguntar pelas virtudes, emquanto a outros humilhava à revelia de todo o merecimento.
Por fim, decidiu-se. Iria primeiro à cidade baixa, à loja dio amigo, saber o que elle resolvera. Nos dias de estio, a excursão aos suburbios, de preferencia ao campo, era um prazer salutar de que raramente se privava a mediania da população urbana. E o suburbio convidava, porque ainda vivia na simplicidade campestre, confinando com aroças, emmaranhado em capoeiras e plantações. A ï roça! à roça! era o toque de alvorada, ao despontar das manhãs estivas e feriadas, na quentura dos ninhos que a dasse inedia pendurava nos primeiros andares dos prédios massiços e rnal arejados. As janellas se abriam ao bafejo matinal. Hs gallos ainda cantavam. Huvia-se repicar de sinos, e ao longe, o rodar das carroças da limpeza publica. Dà os rapazes sofregos, a familia aforçurada, em satisfeita balbÖrdia, tinham atado o fardíel, e iam-se esgueirando ao desluzir da estrella dïalva, atravez do pÅ que os varredores da rua lançavam aos ares da cidade estremunhada.
Depressa, antes que amanhecesse, corriam -para o Cabulla, o FatatÖ e L. Eazaro, para éo Garcia, as margens do Dique e Brotas a dentro. A liberdade dos prazeres honestos ahi lhes sorria com o beneficio não encontrado nos bailariços fatigantes, fios concursos de luxo em festas de igreja, nem mesmo nos oitavarios estrondosos do Bomfim. O ar sedativo daquelles sitios ensombrados, onde as fecundas jaqueiras e recendiam os laranjaes em flor, aquella bafagem dos matos saturados de resinas de aroeira e cajueiro, dos perfumes silvestres da angelica e do bethe cheiroso, eram o balsaimsà que essa gente preferia para lenir os pulmões e o espirito. Uns inconscientemente, outros avisados da virtude sanativa dessas fugas para o campo, gosavam todos, sem cerimonia, as; doze horas de folga, es' pennejando-se ao ar livre como aves que logram fugir à morrinha do viveiro. Banhos nas fontes emboscadas, libações por folia nas bodegas da roça, lapidação e fuzilamento de passaros entre os ramos das arvores altas, tudo isso entrava no program ma dos rapazes, emquanto as moças, cacliinando e namoricando, devoravam o creme espesso: dos abacates e a polpa quente das mangas cahidas, ou chupavam as laranjas selectas de que os generosos donos das roças lhes davam mãos cheias.
-- Hh! jornadas impagaveis! dizia sempre Paulo Boto, rindo-se dos que se deixavam ficar no luxo das salas e nos jardins rachiticos da cidade. LÅ as desaproveitavam, com effeito, ou as clash e s terra a terra nos deveres e preoccupações do ganha pão, a gente pobre que tinha muitos filhos e nenhum feriado, ou as familias abastadas, victim mas da meia aristocracia de ultimas modas e lautos almoços a hora certa, senhoras devotíssimas da missa das onze à Iiedade, obrigada a seda e joias, patricias que se divertiam sobriamente pelo tom das conveniencias sociaes e julgariam peccar contra o bom gosto se deixassem encapada o piano, envolto enê èaza de moscaê o espelho biselado, se não brunissem todos os crystaes e rnarmores, se. não escancarassem as alcovas onde jaziam camas de goncaloalves virgens do contacto de corpo humano c peças de lavatorio que nunca se molharam, produzissem, uma sÅ semana, essa nobre fachina em seus PBLBDFTFS& para a recepção das familias conhecidas, principalmente das inesperadas.
. Salustiano voltava, com muito appetite, para o seu jantar de solteiro, trazendo a certeza d! e que na madrugada seguinte se acharia em companhia 7uaquella por amor de quem acariciava uma pequena aspiração, aquella que resumia o seu Önico ideal numa vida obscura e erma de empregado publico, sem parentes nem adhereutes, sem protecção9 e qiíasi sem dinheiro. Gas ruas havia mulheres trajadas de preto, sotainas, caponas e opas roxas que passavam para uma procissão a sahir da Lé antiga. Go meio da Iraça estacionavam grupos à espera do cortejo. Antes deste, transitou sem escandalo, um negro escoltado por soldados de policia. Era escravo fugido. Kodou em seguida o bangÜ} destinado à condução dos defuntos indigentes. Não tardaram duas luxuosas cadeiras de arruar, aos hombros de quatro africanos, cujos trajos novos, chapeos de oleado e rabonas d! e ganga vermelha, quasi envergonharam Salustiano. Iela fresta das cortinas verdes, lavradas a ouro, viam-se as damas ricas que iam provavelmente ao sermão. H escripturario suspirou, pensando em que a sua Iomba bem merecia andar num daquelles palanquins.
O movimento crescia nas visinhanças da Iraça. Então elle, apressando-se afim de ver a procissão, seguiu para casa, o seu typo apparente de %mameluco, baixo, encorpado, imberbe, abotoado no redingote do serviço publico, dentro dïalma o antegosto do prasoi dado em logar propicio às liberdades Cres senhoras e dous cavalheiros formavam a alegre sociedade. Das tres, a mais moça, baixa, regularmente nu' trida, era casada, jà se chamava Dona Branca. Andava muito chegada aos mimos do marido, olhando com ar sereno, expressão de saciedadíe, as travessuras das outras, que lhe tomaram a deanteira. Iaulq Boto, de humor jovial, sempre a caçar bons ditos, prestava. se ao Wgarramento com que a mulher manifestava o desejo de prolongar, accordiada, o sonho da lua de mel, jà transcorrida havia mezes. Fazendo molinete com uma bengala de titara, falava, soltava exclamações de alegria, mettia à bulha Lalustiano, que o evitava, porque os seus gracejas, ainda qÜe vulgares, tinham um pico especial, e as suas risadas desconcertavam como vaias.
A parte vulneràvel de Salustiano era a paixão por Pomba, paixão que não era nova nem se es' condia, mas de que elle não gostava lhe fallasseml em presença de muitas pessoas. Por causa desta morena ia a toda parte, à roça, às igrejas, às festas, aonde quer que ella fosse. Atraz delia andiava como um cachorrinho de cambão. Iara não deixar d; e acompanhaí-a à èlavagem do Bomfim, arrostou uma vez o sacrificio de faltar ao ponto no Mhesouroi e perder um di a de ordenadlo. Mamanha dedicação comino Oi a. E porque Branca a admirava, tanto quanto à paciencia de Pomba, reclamou para elle a condescendencia do marido. Deixe o pobre moço fazer o seu pé de alferes à vontade. . . Fuito satisfeito, Salustiano servia nessa occasião de creado, levando ao braço uma cesta de vime com a -pitança que devia ser comida à sombra %d; aà massarandubas e mangueiras. Não teria mais orgulho um moço de libré ao serviço de uma éprinceza.
Leguia a dous passos d elle a esplendida trigueira, cujo andar sÅ por si o embalava com um rythmo voluptuoso. A volÖpia morava nos seus labios hÖmidos como a polpa da melancia: os olhos, de um negro violàceo de jaboticaba, tinham a mesma expressão sensual, em harmonia com a sensação velludosa que brotava dxquellas rnãos e %Taquellas faces tratadas com desvelo e orgulho. Graças à educação que recebera desde os dez -tnnos, no internato de meninas onde sua mãe Dosepha era despenseira, Pomba ficou addidaj à casa como auxiliar da aula de prendas e costuras, com licença de frequentar duas amigas feitas nos bancos dÅ mesmo collegio. Dessas, uma ahi vinha, pouco atraz, sustentando o recacho de senhora casada: a outra, de vinte e dous annos, afilada, lépida, viva, com lindas rosas no rosto alvo, tinha-a bem junto a si P era a sua confidente. Chamava-se Eulalia.
Os passeadores, gosando a fresca manhã de um céo leitoso, não se apressavam pela estrada. Dà reviam os pomares do Langradouro, longe das vistas da cidade. Faziam paradas. Cheiravam" tanto os laranjaes à orla do cam inho! . . . De longe em longe uma casinha de barro e palha, um roceiro que descia, com; os cassuàs cheios de fructas na espinha de um matungo: uma mulher descalça e maltrapilha que vinha da fonte com o pote à cabeça e respondia, como todas, à ésaudação dos transeuntes: - èGossïLenhor dí} d ia. . , ê. Cfeanças ranhosas, de pelle terrenta, com o aspecto anasartico peculiar aos meninos da roça, appareciam de pés no chão e roupinhas barreadas. Hutras mais espertas jà faziam pela vida, marinhando por ingazeiras e araçazeiros, com agilidade dfe micos. As que paravani na estrada iam estendendo humildemente a mjão aos desconhecidos èA benção. . . ê.
Adeante um velho africano, pachorrento, sentado à beira da palhoça, tecia palha dã Costa, emquanto o malungo fazia balaios e samburàs e uma preta mainmalhuda, no terreiro do copé visinho, a trocar lingua, punha as cangalhas ao burro pai: a -ir em caminho do brejo, onde talvez o companheiro estava a cortar hortaliça e capim de Angola. Oinha um trecho mais agreste, por onde pastava um fato de cabras. Arbustos e capinzaes ainda cobertos de orvalho, azulados nas baixas, ao fim tíe ribanceiras a pique: moitas floridas, ricas de sementes, que os passarinhos trincavam, regorgeando. Oolvendo ao amor de Pomba, disse D. Branca -à Gunca vi paciencia i gual. sei se esperaria tanto tempo. - Assim dieztn muitas, filha, quando estwo certas da fidelidade delles. Salustiano quer voar, mas que é das azas9 - Le voc} pudesse ajudal-o a acabar com isso, faria um grande beneficio.
'-- Dà prometti até. . . prevendo a maior desgraça que poderà succeder-lhe. . . - Esgotar a paciencia delia. Um derriço tãu antigo. . . Juando o conheci, foi jà namorado. Ioi signa " que o encontrava, todas as vezes que ia ao Merreiro, postado embaixo de um arvore do largo. Dà eu sabia: era Pomba que estava là em casa. Ainda seu pàe era vivo. - E o que jà falaram d e lia! . . . Deviam casar-se, para; tapar a boca dos maliciosos. -à E dos despertadlos, corno aquelle boticario. . . Nem dito horrores da rapariga. - O mesmo fez a irmã do Lilva numa reunião, em casa do dr. Alberto. - A h! esta queria o LalÖ para si. hoje dÜz que a mãe de Pomba merecia ser queimada viva, como se fazia antigamente com as feiGuma volta da estrada, Salustiano avançou com a cesta das comedorias e poz-se ao ladloi da costureira a conversar. Entre o casal e os namorados sÅ Eulalia seguia por ernquanto escoteira de segredos e compromissos.
Fas isso não lhe causava febre nervosa. Confiava em si, e esperava, sem alvoroço, a vassallagem de algum pretendente mais vantajoso que os estudantes gaiatos que lhe disparavam olhadelas, das immediações da Academia, e a respeito dos quaes sua mãe pregava de vez emi quando um sermão- de moral, indirectamente, com" o fim de abrir-lhe os olhos. Oendo o escripturario a mudar a cesta de um braço para outro, Paulo avisou: - Dà estamos perto. - Iara onde vamos hoje9 - Oamos para a sombra da mangueira que fica junto, de uma arvore sagrada. Lsso de arvore santa fez nascer um vago pensamento no espirito de Pomba. Gem ella póde dominar-se que nxo dissesse baixinho, ao lado de La- - Eï alguma gamelleira. . . - Lim9 acudiu elle, num tom admirativo, que valia por dizer: èComo sabe9 Hnde aprendeu isso9ê FDla disfarçou conr o melhor gesto essa leviandade que trahia as suas origens africanas.
A estrada larga e ondulante jà recebia golpadas de sol, A folhagem das mangueiras e jaqueiras coruscava, e um leve fumo de orvalho a evaporarse subia das baixadas verdes de hortaliça e capim mimoso. Hutros grupos faziam apparições à distancia, tomandoi rumos differentes. Huvia-se de espaço em espaço um cletonar de arma de fogo. - Lão passarinheiros, disse Salustiano. Paulo accrescentou: - As PBMCBS que se acautelem. Em outra volta do caminho avistaram o paredão fumaçado da Casa da Iolvora. Eà estava a ampia copa da massaranduba, protectora de uma fonte e abrigo de laboriosas lavadeiras. A planicie em roda era um tapete niveo de rompas relentadas, onde a luz do sol cahia em pÅ, atravez doé crivo das ramagens. Um trecho da Cidade de Ialha olhava da lomba do monte para outra cidade fronteira, o cemiterio das Juintas.
Os roceiros, mais apressados, desciam, uns montados, outros levando pelo cabresto os animaes carregados de laranjas, abacates, genipapos, cocos Um pedacito mais, e estariam saudandb a velha e alterosa mangueira, visinha da arvore TBCg, a cuja sombra tantas vezes se banqueteara o Boto para variar édÅ; ramerrão: Da caixaria sobre os livros das partidas dobradas. Em começo das rivalidades e luctas que acabaram pela independencia, accentuou-se entre muitas e variadas feições do odio à metropole, uma que consistia em substitui re-m-se os nomes dée familia, transplantados de Iortugal, por outros que fizessem esquecer o tronco lusitano, fornecidos em regra pela flora, a fauna, as tribus e mais cousas indígenas. Gumerosos Gamas, Oieiras, Cabraes, AlbuW querques, Eisboas, Fonizes, Carvalhos, passaram a chamar-se pittorescamente Licupiras, Camaquans, IaraguassÖs, Aratinguis, GaraÖnas, Rpirangas, Iirajàs.
Um deputado à constituinte, depois estadista e grande do imperio, com um titulo de visconde, adoptou esta belleza onomàstica: G} Acayaba de Fontezuma. Não podendo mudar de lingua, o nativismo exaltado contentava-se com essa mudança de Foi assim que Paulo, neto de uin veterano da guerra do Fadeira e filho de um legalista comba#" tente na revolução día sabinada, veiu a ter, em vez do appellido de Braga, do seu bisavó, o nome de um peixe muito frequente nas aguas brasileiras, o bóto-, que, segundo a lenda, presta o caridoso serviço de rolar para as praias os cadaveres dbs naufragos. Os velhos Bragas não procuraram saber se os bótos também eram cqmmuns às aguas de Paulo Boto estudou no lyceu provincial, e aprendeu regularmente o inglez, o francez e arithmetica.
Era estudante e soffria do figado, quando se declarou a guerra entre o Brasil e o Iaraguay. Os insultos de Lolano Eopez, o aprisionamento do vapor brasileiro: URQUFY EF 8LJNEB& a invasão Fatto Grosso, todas essas provocações do dieta dor paraguayo inflammaram tanto o patriotismo cia provinda que em pouco tempo lavrava ahi um verdadeiro inc}ndio. Batalhões de voluntàrios surdiram dc improviso para vingar a honra da patria, e os navios começaram a zarpar entre adeuses, prantos e lagrimas, transportando para os pampas do sul milhares de patriotas. O imperador dizia: - è Lempre os bahianos! ê. O joven Boto mal se podia conformar com os conselhos do seu medico. Jueria voar ao campo de batalha: parecia-lhe um crime não partir. A muito custo resignou-se ao tratamento. Era um destes temperamentos mixtos, cuja apathia borbulhava de repente em fortes impulsos operosos, para depois recahir no pasmaceiro.
Agora era um homem de estatura mediana, de musculatura desenvolvida, pescoço curto, olhar curioso e intelligente. Empinava de vez em; quando a cabeça como para se rever nos espessos bigodes que lhe disfarçavam duas rugas d; e jovialidade nas commissuras dos labios. Official da guarda nacional, tinha a patente de major com que o presentearam os conservadores da Provincia-. ConservadoF em politica, Wra-o irnenos por principio do que por Habilitado pela pratica adquirida no escriptorio Doão Rodrigues, quatro annos antes de casar na familia do patrão, tivera o feliz arrojo de estabelecer-se com urna loja de fazendas e miudíezas junta ao morgado de Lanta Barbara. Graças ao tino e bem entendida economia do ex-caixeiro, ; a loja tornou-se em pouco tempo a mais popular doi quarteirão. Minha largo e bem assentado credito nas casas importadoras: começava jà a importar directamente.
Não se ajuntam milhões nem se come em baixella de prata, mas vive-se. Eevarei o melhor que se pode levar da vida. Assim philosophava Paulo, activando-se, mas confiando tambem em alguma cousa que não exclusi' vãmente o seu trabalho. Eï que elle cria na fatalidade benefica. A Irovidencia, que lhe tornava Deus sensivel, tinha infinidade de gestos e modos de manifestar-se-lhe. Oivendo em conforto com a sua gente, sem desequilibrar o orçamento nem faltar às contas conimerciaes, era approvado pelo voto infallivel da viuva sua sogra, que, embora não fosse mais a festas, honrava sempre a tradição dqX finado marido: èviver o mais alegremente possivelê. A mesa abundante, sem desmandos, as meniï nas asseiadas, no collegio, nas reuniões de familia, nas festas do Bomfim e uma vez por outra, no theatro: dividas nenhumas, casa franca aos amigos, hospitalidade cordeal a quem lhïa pedisse: consci}ncia tranquilla, religiosidade um tanto eivadla de inundanismo, mes sem condescendencia para as superstições da esposa, tal foi o modo7 de existir, a regra do fallecido negociante Doão Rodrigues, desamparado finalmente no infortÖnio de uma transação com avultada partida die fumo e cacào, Fas com o favor de Deus, dizia D. Antonia, apparecera-lhe éum genro magnifico. -- Um coração de o8uro, as mesmas mãos abertas do finado Doão, De sorte qNe as mocinhas brincavam, passeiavam, tinham creada, e ainda lhes restavam quatro paredes que os usuràrios não puderam tomar.
Nsuràrios era o estigma com que a viuva castigava indistinctamente, vingando os soffrimentos do fallido Rodrigues, todos os estrangeiros da praça' os negociantes que lhe retiraram o credito, os ban' queirÅs e corretores a quem elle, jà em seu tempo, imputava as altas e baixas cambiaes. Contra essa usura e essa inveja dos maus estrangeiros dava-lhe agora mesmo novas razões de queixa a parda Dosefcha, que na sala de jantar da viuva praticava àsse domingo. - Do invejosos nem morar perto. . . Oeja a senhora. O cozinheiro dõ collegio ouviu no mercadoê em Lanta Barbara, um homem gordo do commert cio conversando com éoutro, a respeito de seu genro: - Dizendo mal9 - Diz o cozinheiro que eram lojistas, visinhos do sr. Paulo. Falavam de gastoâ e grandezas. O primeiro, - que nunca viu começar a vida com tamanhos desperdícios em festas, passeios, jantares. . . H outro: èOel-o-emos no fim do anno: a quebra do sogro não lhe poz sal na moleiraê. E o, gordo:
èIois é isto, aqÖillo da em droga mais hoje, mais amanhã. A muita càra queima a igrejaê. D. Antonia com resaibo e susto mexeu-se na cadeira de junco, e unindo as m ãos: - Jueria que me dissessem quaes são essas grandezas e essas festas. Não damos bailes nem banquetes. Não temos carruagem nem cadeira de arruar. Oeja esta m obilia. , . é a mesma do meu casamento. Aquella prata foi de meus avÅs. As creadas estão ahi, podem-se contar. . . Iorventura é posto fora o que se emprega na rnesa e para cobrir. . corpo9 A casa nos foi deixada pelo, finadfoi, tal qual é hoje. Lerà algum palacio9 ó casa, de facto, não se recommendava por nenhuma belleza. Era uma construcção antiga, de typo colonia! : um andar, paredes grossas, quatro janellas oblongas com sacadas de ferro pintadlo de verde, o telhado em àngulo obtuso, amparado! Äas abas por urna cornija, Önico adorno da tachadla simples, caiada a tabatínga amarella e exposta ao nascente.
A entrada era por urna porta larga e alta, para se distinguir das portas das lojas de aluguer, em; que se dividia o resto do pavimento terreo. A viuva recapitulou o seu viver, que era o mais modesto, sem pretenções a luxo. Afim de encurtar despesas, trabalhava tambem. Era ella quem fazia a arrumação da sala de jantar, espanava os moveis, dispunha no antigo guarda-lou' ça de potomujÖ as compoteiras e fructeiras, o licow reiro e as frasqueiras. Iresidia à lavagem da cozinha, mandava bater os capachos e varrer o quintal. Com as prÅprias mãos deitava agua no canteiroi circular que havia no meio do pateo-: examinava e tratava um formigueiro chronico de a o pe doé muro. Em torno da extensa mesa elastica. toda coberta por um panno da Costa listrado de azul, tinha as cadeiras sempre limpas de pÅ. Iroximo à janella do canto repousava, emfim, na sua poltrona, dos labores domésticos, a conversar com as amizades, corno fazia aquella hora.
Não havia certeza, mas dizia-se que entre; a parda Dosepha e o finado Doão Rodrigues se mantiveram em tempo remoto certas relações muito intimas, de que a Pomba teria sido o fructo. O certc' é que tanto Dosepha quanto a ècabraê parteira, sua mãe, sempre se gabaram" e fizeram timbre de èlimpar a geraçãoê. A conviv}ncia no casebre à rua da Jamelleira com a negraria de variada mestiçagem, na communhão das crenças no feitiço, nos SBNTOS& em mães e paes de terreiro, não impediu que a parteira e a filha cuidassem da purificação dios. descendentes. Oerdade ou mera invenção a historia de Dosepha teÖda e manteÖda do negociante, o que se via de longos annos era essa intimidade delia e da filha em casa da viuva Rodrigues. A despenseira cuidava die casar, a Pomba: e desse negocio principalmente é que vinha a falar com" a viuva. Como o pretendente era amigo do Boto, ahi buscava inteirar-se das condições db rapaz, que a evitava e não podia ter entrada no collegio.
O emprego ainda não lhe rende o bastante. ' Fas se ha justiça, elle não pode deixar de subir e ganhar mais. E quer sempre muito bem a Iom' ba: quanto a isso não tenha receio. josepha respirou: depois sorriu com finura. Ke' ceio de que9 E; o que ella não tinha. Leguro8 testava elle, preso como a sombra ao corpo. Juando o boticàrio andou diffamando sua filha é certo que Salustiano mostrou desconfiança. Era mais ciume do que outra cousa. Csso desfez-se em pouco tempo, e o moço acaboclado, como lhe chamavam as alumnas do internato, tornou a apparecer todas as tardes, a espiar sonsamente as janellas do sobrado. . - O peor é ganhar tão pouco. Não sei, são injustiças. . . . disse D. Antonia. Um empregado serio, bem comportado, que não: falta ao emprego, vive marcando passo todo esse tempo. . .
- E de quem depende isso. . . elle subir9 - Ba de ser do presidente da Irovíncia, da chefe da repartição. Eï preciso arranjar forte. O melhor empenho é o de mulher. O presidente d casado: talvez por intermédio da directora. . . - Lim, senhora. . . respondeu a despenseira dis' tiahidamente, lembrando-se dos Casos em que pessoas sem ventura ou de èmà cabeçaê conseguirahi ver girar de um dia para outro, em seu favor, a roda da fortuna Gião queria descobrir, nunca descobriu à viuva esse jogo, se bem que nelle jà se empenhasse çpéla felicidade dia filha. - Feu genro por seu lado farà o que puder. Eï muito amigo de Salustiano. Fas, repito, não ha como protecção de mulher. - Assim é o mundo, reflectiu alto Dosepha. Ierto daqui, na rua da Ajuda, mora um homem rico, viuvo ha muitos annos, com um filho unico. Gunca mais se lembrou de amparar uma moça, havendo tantas pobres. Oive com uma negra. Este que bem podia não quer: os que querem não podem, nãq t}m meios. . .
- Deus dà nozes a quem não tem dentes. -à Cada um com sua cabeça, accrescentou a despenseira, mas irritada no intimlo com: ; essas iniquiïdades dia fortuna e jà formando a intenção de appellar para quem as pudesse corrigir. ë cousa ao seu sentir era simples: uma èfroca de cabeçasê. A ventura do ricaço amancebado passava para o pobre e honrado Salustiano: o atrazo deste passava para aquelle. Le o mundo havia de ser sempre composto de felizes e desgraçados, fossem felizes os bons e ficasse a infelicidade para os maus. D. Antonia, sem saber que o fazia a proposito, tornou a queixar-se dos avarentos e usuràrios. Defendia a memÅria do marido, que empobrecera, não pelo que desperdiçasse. Foi a guerra dos invejosos. Agora haviam tomado à sua conta o genro. Lempre queria que dissessem quaes as grandezas e as dissipações. . .
D. Antonia louvava. se no juizo que o proprio Boto fazia de si e dos outros. Elle mesmo dizia que era um desfructador como muitos dia sua terra e da sua sociedade. Os que o arguiam de perdulàrio não passavam de uns sovinas, que sÅ tratavam; de forrar dinheiro com sacrifício da saude, do bem" estar, do asseio do corpo e das vestes. Ga modéstia de suas aspirações, cioso do bom passadio da família, acostumado a associar a mocidade com o prazer, elle pertencia a uma classe incomprehendida dos maldizentes. A viuva e sogra dava-lhe razão. - Como elle eram tantos! . . . Fas porque diacho não falavam dos outros9. . . Csso é que a intrigava e lhe arrancava esconjuros contra as suppostas conspirações. Csso lhe punha inais gelhas nja rosto e mais depressa lhe embranquecia os cabellos.
- Não se apoquente, recommendou ainda a despenseira. E fitando na viuva os olhos raposeiros, com desejo de íazel-a entrever um mysterio, - A seu genro ninguém faz m al. . . Abaixo de Deus elle ainda tem muito quem lhe valha. . . Assim Não foi sem desígnio que Boto se dirigiu nesse dia para o sitio do FatatÖ. Nma cerimonia tão curiosa quanto grave devia celebrar-se na mesma tarde por aquellas cercanias, ENe, porém, fóra discreto, segundo lhe ordenava a sua nova qualidade de homem; casado. As horas da manhã passou-as com a à sombra das massarandubas, em visita a roças e aprasiveis recantos povoados de recordações da sua adolescencia. Apesar de estar a alguns passos da gamelleira, a que alludira em caminho, não chamou para alli a curiosidade de ninguém, nern disso mais falaria se não fosse uma palavra ing}nua proferida por Salustiano.
Opltandio do matto, onde se embrenhara a catar fructas, o escripturario annunciou em presença das senhoras: Encontrei agora um feitiço, debaixo daquella Paulo sorriu da ignorancía do amigo. Este, vendo-lhe a cara incrédula, protestou: - èCousa feitaê, evidentemente. - Jue foi que viste, Lald9 - Ao pé da gamelleira, entre as raizes, -muito azeite de dendl}, um prato cheio de bobÅ de inhame, uma gaílinha morta numa poça de sangue. . . Eà està, se quer ver. . . Branca e a irmã franziram o nariz, com repugnancia. E o lojista, que no seio da família fugia de ostentar conhecimentos de taes cousas, não póde todavia condescender com o erro do outro. - Estàs muito enganado, disse. viste não é ècousa feitaê, é uma offerenda, é um sacrifício aos santos dos nossos pretos africanos e creoulos. Aquella arvore é Um altar, se não é mesmo uma divindade. . .
- Jue lembrança! exclamou a mulher. - Não se escandalize, pediu-lhe Boto. Bouve tempo em que eu, não tendo muitjo o que fazer. , para divertir-me, vinha a estas roças caçar passarinhos, a inteirava-jrne destes segredos com os negroa que tinham perto daqui um terreiro. Malvez ainda existam! a LniãWi e o pae desse terreiro. Eu os conheci, como conheci outros africanos. Apesar de certa desconfiança e reserva com os branoos, elles iniciaramme nas suas crenças e nos seus ritos. . . Eis porque afíirmo que aquella arvore pÅde muito bem ser a encarnação de ura espirito, de uma divindade, quem os negros offertam comidas e bebidas, assim como nÅs offerecemos c}ra, flores e incenso aos sanê tos do nosso oratorio. - Gjão ha comparação, disse Branca, protes- - Como são brutos! commentotu Eulalia.
- Os negros9. . . Certas pessoas não admittem como sagrado senão aqui ""o que adoram. Alas cada qual cr} no que pode: a fé é a mesma à ojpéra os mesmos milagres. Memos jejuns, retiros, procissões, cremos. . - purgatorio, no inferno, em deinonios e almas do outro m undo. . . Oejam bem que não estou zombando. Os negros t}m tudo isso, apenas sob fortnàs differ}ntes, e e: m tudo isso cr}em segundo a sua idéa. Não são propriamente brutos. - Lão grosseiros, propoz Laiustiano, oomí o que o amigo concordou. Branca nem isso concedeu. - Comparar os actos da igreja com um candomblé, por exemplo, é menoscabar. O h! se mamãe ouvisse. . . - Não estou menoscabando, minha boa mulher. A verdade, porém, é esta. Juantas abusões t}m os negros mais dÅ que nÅs, os brancos9 Le uns fazem feitiço, os outros rezam de olhado, penduram Lanto Antonio e furtam-lhe o menino. Uns trocam cabeças para dar ventura, os outros roubam dos missaes o Breve Lantíssimo da Farca e o trazem coiníé talisman ao pescoço. As mulheres que deitam cartas não são: africanas. Ba curandeiros brancos, como ha curandeiros africanos. Aos que tiram o diabo db corpo dos possessos respondem os paes de terreiro fazendo entrar o SBNTO no corpo das èyauósê. . .
- Dizem que elles abusam, I aulo. . . que enganam as pessoas e fazem até mal com beberagens e - E ï verdade, apoiou Salustiano: com as minhas visinhas deu-se um caso, que me foi contado na O escripturario referiu que uma das suas visinhas era viuva, jà madÜra, com alguns bens, quando lhe appareceu um official do exercito e se de relações ern casa, promettendo casamento. Algum tempo depois é transferido parê o norte, e ide là não escrevia nem uma linha à viuva. Eembrou-se ella de recorrer a um feiticeiro do Garcia O preto preparciu a MFSB( interrogou a cliente sobre suas posses e disse-lhe que voltasse no dia seguinte. Hrdenou-lhe então que tomasse uma camisa de homem, envolvesse, em cada punho, bem atado, uma cédula de cem mal reis, e mandasse jogar a camisa ao mar, na praia do Coqueiro dïAgua. de Fens-.
nos, às tantas horas da madruga día de tal dia, settl A viuva prometteu, mas achando grande- a quantia, reduzira-a a metade, e no dia e à hora designafoi urna intermediaria fazer o que mandara o feiticeiro. Estava tudo em silencio, ainda escuro, apenas se distinguia, a distancia, um vulto que parecia de uma preta velha e a quem a rapariga não deu importancia. è Fas tornando a viuva ao Garcia, dias depois, fez-lhe ver o africano que o santo estava muito zangado, porque a èsinhàê não tinha feito o que lhe fóra recommendado: que não se enganava o santo, e que agora era preciso gastar mais para tirar-lhe a zanga. A viuva, surprehendida, continuou a dar dinheiro. Fas o official. . . nunca mais. -- Leria a preta quem apanhoar, a camisa9 Cngenua E aly! exclamou o Boto. Juem havia de s e r9. . . Ba muita velhacaria, mas ha também boa fé no meio dessa gente. Iergunto e u: quem o mWis culpado - o negro; que faz pela vida, explorandlo a crendice do branco, ou o branco civilisado e catholico que procura o africano e se deixa explorar9 Não me consta que elles obriguem mulher casada, viuva ou solteira a ir às suas capellas dar dinheiro em troca de vaticinios ou remedios. Ellas vão por sua livre vontade, porque cr}em! e não consideram o passo nem ridiculo nem vergonhoso.
Durante essa conversação havia déus olhos que se não desviavam do rosto de Paulo: eram os olhos roixiscuros de Pomba. Calada, rindiÅ às vezes a contra gosto, ella palpitava interiormente, emquanto-falava o lojista, descortinando um mundo maravilhoso atravez de cada palavra evocativa e sincera que elle Em dado momento quiz intervir e col locar urn dito: mas o respeito e certo pejo a detiveram. Não sabia conversar de taes cousas naquelle tom jocoserio em que se fazia a palestra. Não queria trahir, por outro ladjo, a raça e cór da sua ascendencia. Foi obrigada a sahir desse mutismo por um appello inconveniente do Boto. Elle acabava de reaffirmar o caracter sagrado da gamei leira, quandb de repente, dando pela attenção religiosa que a costureira lhe prestava, disse:
- Eis aqui quem pÅde dizer-nos sobre isto alguma cousa que eu jà ouvi a Dosepha. Ella ha tde saber, sem duvida. -. Pomba entrou constrangida no assumpto. Fin' giu-se, quanto póde, alheia e ignorante: mas instada, começou, com hesitação: - Eu não s e i. . . minha mãe é quem conta. . . que numa roça da Juinta das Beatas havia uma gamelleira muito velha. . . De tempos em tempos apparecia o pé da arvore rodeadlo de pennas de galNnha, bolas de arroz, acaçàs, azeite de dend} e algum carneiro degolado. Um dia o dono da fazenda entendeu que devia derrubar a gamelleira, chamou os escravos e mandou-lhes metter o machado no 23-: 14 olharam uns para ps outros espantados, e assim ficaram sem dizer palavra. - Oa-8 mos, disse o senhor. Eli es então se ajoelharam, rogando: - è A i! meu senhor, não corta, não! . . . Com o! Não obedecem 9 - Não corta, não, meu sen h or! . . . ê O homem vendo que era debaldle, inandou-os para o fundo dia casa e là foram elles çnetW tidos no tronco. Ireferiram soffrer o: castigo a tocar o ferro na arvore. Iorque estavam certos de que se a ferissem correria sangue. . .
- E a arvore, cortou-se9 O dono da roça não fez caso die conselho nenhum. . . Chamou trabalhadores e mandou derrubar a gamelleira. Dizemi que na occasião dã derrubadia um galho apanhou um delles e matou-o. Não fiDahi em deante, o homem começou a andar para traz. A roça cobriu-se #e ma; tto, as mangueiras não deram mais mangas e por; fim adoeceu o dono da roça d! e uma moléstia de pelle, foi para a cama e morreu na peor misería - Eis o feitiço, explicou Paulo Boto ao amigo. Juanto aos negros, procederam como toda a gente fiel à sua crença. Le dissessemt a; minha sogra, por exemplo, que devia tapar o formigueiro do pateo de casa com o barro da fonte de Gossa Lenhora %das Candeias, ella sem duvida brigaria comi o impio que tal lhe propuzesse. Basta! gritou a mulher, intimando-o a não ser mais leviano e dando por findia a conversa.
Romance de Xavier Marques publicado em 1922, agora disponível no Literunico para leitura gratuita online, em capítulos macro, em domínio público.
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