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O Sangue

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O Sangue

Capítulo 1 · O Sangue

Introdução

—Como tu estás conservado, homem!

Exclamou, num destes dias, o meu amigo Antônio Joaquim, encarando comigo, na revolta de uma esquina.

—Nem pés de galinha, nem calvo, nem bigode grisalho, os dentes todos! —prosseguiu ele, encruzando os braços sobre a plácida cornija do abdômen.

«Nem sequer duzentos kilos de toicinho, envolucro sujo com que a natureza veste os seus filhos maiores de quarenta anos, para que o alfaiate não possa jamais embonecal-os com as graças sedutoras de um tísico sorvido pelos vampiros do amor!... És invejável! Pois convence-te de que és velho!

—Vinte anos há que eu me convenci, amigo Antônio. Passados mais alguns, morri. Hoje, o que vês neste arcaboiço, é uma alma insepulta e penada que se oferece penitente e dócil às tuas injúrias. Não espremas, contudo, a esponja, meu amigo. Sabe que todas as passadas, que dou, vão na vereda escabrosa do meu calvário...

—Devo prevenir-te que não venho disposto para fazer via-sacra—atalhou o meu velho amigo. —Se vais até ao calvário, faz lá recomendações ao mau ladrão, e diz-lhe que, se florescesse em Portugal, mil oitocentos e trinta e cinco anos depois, seria visconde de Gestas, visto que ele se chamava Gestas. Diz também a Dimas, ao bom ladrão, que os do nosso tempo todos são bons como ele, e por isso todos se salvam. E, se quiseres questionar com algum dos apóstolos, caso lá os topes, diz-lhes que, presentemente, a gente graúda, à imitação de Cristo, considera os bons ladrões dignos do céu; e que, desde o facto algum tanto reparável de ser perdoado um salteador com prejuízo de terceiro, todos os salteadores «de sobrado alto», como lhes chama a Arte de furtar, são, sobre perdoados, honrados, —o que até certo ponto é cristianismo progressivo.

—Então, como te vai? —atalhei eu, cortando a insulsa calúnia apontada ao brioso peito de muitos dos meus melhores amigos.

—Vai-me bem, não vês? Tenho esta grande barriga em que está sepultado o melhor do meu eu subjetivo, e tenho gota neste joanete do pé direito. Tu, pelos modos, és alma penada, e eu sou alma despenada, que é pior. Tu ainda sobes ao calvário e respiras ar desafogado, enquanto eu a custo me desatasco da lama. Em suma, estou velho...

—E rico?

—Também.

—E feliz?

—Feliz como um cerdo amarrado com uma corrente de ouro. Tu não sabes ainda o que é a felicidade da pobreza, homem! Não soubeste ainda abrir o tesouro em que a Providência divina te remeteu o arnês impenetrável aos golpes da desgraça...

—Não sei... Terei eu lá em casa isso?!

—Tens, ingrato, se tens!... É o trabalho.

—Ah!

—Esse ah! é alvar. O trabalho é como aquele anjo que em forma de pomba pairava sobre a face de Santo Adelino adormecido, para que os raios do sol não lhe acordassem os sentidos e a consciência da dor. O trabalho é um absinto celestial, que suavemente embriaga e entorpece as faculdades cognoscitivas atormentadoras do infeliz ocioso. O trabalho é a compensação da pobreza...

—E a riqueza que é? uma calamidade que dispensa a pomba de Santo Adelino... não é?

—Se alguém há aí, até certa idade, verdadeiramente feliz por ela, —o que não creio—a riqueza é um abutre cruelissimo que principia a espicaçar o rico, assim que o espelho, e a dispesia, e as insomnias, e a indiferença das novas, e a consideração das velhas, e o comedimento dos rapazes em sua presença se conjuram para lhe dizer: «envelheces». Aqui tens o verdugo, que dá o laço aí pelos quarenta e cinco anos, e aperta e arrocha, até aos setenta, até aos oitenta, prolongando-lhe o suplicio, ao apuro de lhe fazer invocar a morte, execrar o ouro, amaldiçoar os homens e blasfemar de Deus.

—E que me dizes do pobre que, na tal idade das insomnias e dispepsias, carece de saúde para o trabalho e do trabalho para o pão de seus filhos?...

—Eu te digo...

—Podes responder de uma assentada a outra pequena dúvida: se será mais infeliz o rico enfermo rodeado de filhos fartos, do que o pobre alanciado de suas dores e dos olhos suplicativos de sua família?

—Aí vens tu com o estilo!... Se entras a comover-me, cessa o nosso debate que é todo filosófico e ouro puro de Droz, de Franklin e de outros moralistas...

—Que moralizavam os desgraçados lá de entre as cortinas adamascadas dos seus gabinetes, tapetados de alcatifas de três pêllos... Se eles fossem os desvalidos, quem lhes ensinaria a moral da paciência?

—Sócrates, Filo, Jesus Cristo, João Jacques Rousseau...

—Que sacrílega camaradagem!... Rousseau havia de ensinar os pais pobres a engeitar os filhos... Meu caro Antônio Joaquim, rico sei eu que estás; mas a tua filosofia não é a peça mais valiosa que possues. Eu não sei o que pode ensinar-me Sócrates nem Filo. De Cristo sei três palavras em latim e espero que no outro mundo os anjos mas decifrem. Beati qui lugent «felizes os que choram» disse o amigo dos pobres. Como ninguém o tinha dito, nem escrito, nem pensado, a interferencia da divindade na desprezada condição dos infelizes começou na hora em que foram ditas as palavras «felizes os que choram». E quem as disse não podia ser mero homem... Em suma, se queres consolar algum engeitado da devassa fortuna, não lhe reprezes as lágrimas com o dique da filosofia; deixa-o chorar. Lá estão as estrelas que saem fora do céu para levarem ao seu criador a relação das agonias que gemem de noite não vistas nem escutadas de alguém.

—Estás comigo...

—Mas não estou com o teu Rousseau.

—O meu Rousseau... não lhe chames meu, que eu não o tenho nem o li; citei-t'o por me parecer incrivel que o não tivesses lido, andando ele nos alforges de todos os físicos que ungem de unguentos a lepra da humanidade. Pois tu imaginas que eu leio coisa nenhuma? Faz-me justiça, se queres que eu admire as tuas novelas sem as ler... A propósito de novelas, lembrei-me há dias de ti, num lance que me pareceu original...

—Um lance original!... —atalhei eu. —Coisa que dê um livro original!?

—Um livro? isso não sei; mas, se é verdade o que ouvi dizer de ti...

—Que ouviste dizer de mim?...

—Franqueza! Tu não te ofendes, nem eu sei se é louvor, se ofensa a censura: ouvi dizer que fazias dez livros originais de uma ideia sem originalidade nenhuma. Isto é verdade?

—Parece-me que sim... Eu tenho calculado que a Providência me concedeu dez ideias: foi prodiga comigo. Estas ideias repartidas por cinquenta volumes conferem com a conta da censura. Vais tu dar-me uma ideia original: tenho que explorar no restante da vida... Então que foi?

—Não é história que se conte na rua. Vem jantar comigo. Tu ainda comes? Às almas insepultas é concedido errar, em volta da lagôa estígia de uma terrina de sôpa do «hotel Francfort»? Não há inconveniencia em que as almas penadas assimilem alguns bocados de boi assado? Se não há, vem, puro espirito! Jantarás comigo alguns dias; e no último, ao troar a trombeta clangorosa, os teus ossos, melhormente vestidos, não irão perfurando a encontrões as carnes dos que merreram gordos e apopléticos. Vens?

—Vou. Posso desde já dizer ao meu editor que descobri a ideia numero onze? E que a descobri na transparência da tua cabeça?

—Isso não. Se por aí desconfiam que tenho terço de ideia, minam-me os créditos. Deixa-me fruir a reputação que me faz insuspeito à confiança de pessoas com quem tenho negócios. A besta é coisa superiormente importante, desde que S. João, o apocalíptico, viu uma corpulentissima. Todas as bestas, mais ou menos aparentadas com a do vidente de Pathmos, trazem boa sina consigo. Pelo menos, enquanto eu tiver que vender e comprar faz-me a mercê de me não vilipendiar com a denuncia de que eu te dei uma ideia... Lembra-te dos desgostos que me iam dando as tuas VINTE HORAS DE LITEIRA. Foi preciso que o teu livro esquecesse para que eu recobrasse os créditos falidos.

—E esqueceu já o meu livro?!

—Ora!... se esqueceu!... quando eu voltei ao Porto, quinze dias depois da publicação, apenas se lembrava dele consternadamente a empresa editora. Vamos jantar.

O repasto do hotel Francfort foi leve.

Quem come francezmente cria alma; corpo é que não.

Aquele magro môlho em que boiam cascas farináceas não entulha os ductos da intelectualidade. A víscera vital por excelência não escoiceia o vizinho de cima como sucede nos casos em que o esôfago arfa sacudido pelo estomago repleto de fibrina. O coração agita-se docemente quando o novo chilo se está elaborando.

Respeitado nos seus altos camarins e não azoado com o estridor dos dentes e das funções digestivas, o espirito exercita-se em pleno gozo de suas faculdades.

A alimentação francesa pode levar à dispepsia, sem dúvida; porém, o que no homem há digno da maior estima e merecedor de toda a cautela, a alma, essa asseguro eu que não tem senão um passo a dar entre a cozinha francesa e a idealisação germânica. Se os jejuns espiritavam os cenobitas de Isthria até entreverem Deus por um postigo do céu, as águas aromáticas das caçoulas do «hotel Francfort» subtilisaram o espirito do meu amigo Antônio Joaquim a uns altos devaneamentos, que me não pareciam dele nem dos seus anos.

Falava-me da nossa mocidade como quem perdera com ela muitas coisas belas e irreparaveis. Ele, que não tinha perdido senão o direito que todo o homem tem a fazer uma dada soma de tolices! Ele que, entre o berço e o talamo, apenas teve tempo de crescer, engrossar e depôr no regaço de sua esposa um coração cheio de casta ignorância das coisas boas e más deste mundo!...

Que saudades do passado eram pois as dele? Seriam as dos prazeres não experimentados na idade competente, e dos quais o coração vasio lhe estava agora, no declive da vida, a pedir contas? Assim como a demasiada cautela da dieta enfraquece o estomago e o predispõe à anemia e à enfermidade, porventura, guardadas as distancias que topograficamente não são grandes, ao coração minguado de alimentos fortes virão afinal as doenças resultantes da inactividade violenta a que o forçaram preceitos ou circunstâncias?

Parece-me que sim.

De qualquer das maneiras, Antônio Joaquim, discorrendo tristemente sobre a brevidade da vida, e o reflorir da alma, quando o fogo da cabeça já não derrete a neve eminente de quarenta e tantos invernos, fez-me dó e ao mesmo passo desafiou-me a chorar com ele: situação ridícula que sustentamos por espaço de meia hora.

Ele adivinhava o que perdera; e eu sabia o que tinha perdido; ele anhelava imagens lucidas que tardiamente se lhe espelhavam na alma; e eu tocava em mortalhas que se desfaziam em cinzas.

Estas angustias eram entremeadas com alguns tragos ardentes de cognac, que mais me acendia no peito rebates de saudade de um tempo em que o absinto me era doce e refrigerante como a orchata e capilé destes meus caducos dias emplasmados em linhaça e refrigerados com soda-wather.

As lágrimas estancaram-se. E eu, para divertir o animo da inconsolável tristeza, perguntei ao meu amigo:

—E a ideia original que me prometeste?

—Vou dar-t'a. O prefacio foi longo, mas ajustado ao assumpto. Falei da nossa mocidade, porque a história principia então. Há vinte e dois anos que eu te conheci no teatro de S. João. Lembras-te?

—Muito. Quem fez as apresentações foi um meu contemporâneo, que vinha de Coimbra comigo. Chamava-se...

—Nicolau de Almeida; vinha com o ato do 4. º ano.

—Ainda vive?

—Vive morto.

—Como? Vive morto?!

—Lá chegaremos... Representava-se a Degolação dos Inocentes, e era um domingo de tarde...

—Bem me lembro—atalhei eu.

—Estás certo daquele pedaço de omoplata de carneiro que caiu sobre ti de um camarote de 3. ª ordem?

—Se estou!

—Muito folgo que te lembres. O Nicolau apanhou-a do chão num lenço que levantou pelas pontas, e convidou-nos a seguil-o ao camarote onde o cordeiro, também inocente, soffrêra as consequências da degolação. Recordas?

—Mal. Ajuda a minha memoria que se está deliciando nessas recordações liricas.

—Fomos e vimos uma família de vários Herodes, descarnando as costelas da vítima com um ranger de dentes bastante a justificar que ainda temos que farte sangue e queixos hellenicamente ruidosos, de aqueles que Homero cantou. No camarote estavam, à primeira luz, vários sujeitos gordos e mulheres de condigno bojo que representavam em geral e cada qual em particular um curral de carneiros assados e digeridos. As esposas e filhas e irmãs, ou o que eram de aqueles antropófagos, tinham as mantilhas penduradas dos cabides, dando ao interior do camarote um aspecto lúgubre de ágape gentílica onde as vítimas sacrificadas fossem logo comidas. Um dos sacrificadores, que parecia o mais auctorisado por ter em punho a cabeça meio descascada do cordeiro, suspendeu-se no lanço de a levar aos dentes engatilhados, e, arrotando, regougou:

«Os senhores que querem?! »

Nicolau fez uma grave mesura, estendeu o braço para dentro com o lenço pendurado e respondeu solenemente:

—Foi deste camarote, sem dúvida, que uma das senhoras deixou cair a parte respectiva do bodó?

—Do bode?? —perguntou o chefe dos canibais, forçando com um arranco interior a descida do bocado que lhe entopia os gorgomilos.

—Do bode, —tornou Nicolau—se vossa senhoria quer que seja bode, carneiro, porco-espinho ou como é que deva chamar-se o animal comido e ex-proprietário desta pá.

—Foi o Felizardo que deixou cair... —disse uma criatura femeal, relançando a vista repreensiva sobre o sujeito que se chamava Felizardo.

No entanto, o nosso amigo, com ademans de quem entrega uma luva que alguma formosa senhora lhe deixou feliz e acintemente cair ao alcance da mão, acercou-se de uma das três senhoras esféricas, e deu ares de lha querer depositar no regaço, largando três pontas do lenço.

—Ai, credo! —exclamou a velha sacudindo as mãos e encolhendo contra o tabique a parte proeminente da região umbilical, expressões que deves empregar, se escreveres a história, porque o termo do uso comum é de aqueles que tresandam a teatro anatômico. Lembras-te disto?

—Como se o estivesse vendo—confirmei eu alanciado de saudades. —Até me recordo de uma bellissima rapariga que estava nesse camarote.

—Bem sei eu por quê... Era ela uma das formosuras que ficam impressas na alma, através de anos e séculos, como as virgens de Urbino ou as outras imagens menos virgens de Ticiano. Que sabes tu dessa mulher que viste há vinte e dois anos?

—Nada: creio que nunca mais a encontrei... decerto não. Apenas me lembro de que Nicolau de Almeida me escreveu para a província, dias depois do episodio do carneiro, e me dizia que estava apaixonado pela mulher divina que comia carneiro. Não dei peso à linguagem chula da noticia, nem tornei a ver Nicolau de Almeida. Alguém me disse depois que ele vivia relegado no seu solar do Alto Minho, e que não concluíra a formatura. Há mais de quinze anos que ninguém me falou dele. Agora me dizes tu que o Nicolau vive morto... Coitado! Queria ainda vê-lo nesse estado extravagante!... Começo a crer que me dás uma ideia original...

—Lá chegaremos... O caso é que te recordas bem da menina que se escondia entre as mulheres gordas com uma andorinha entre três peruas?

—Sim.

—Pois então aí tens um dos personagens componentes da ideia original que te ofereço.

—Quem? a tal?! Aquela família como original podia figurar nas exposições fotográficas; mas considerada ideia não me daria para um capítulo. Pelo que vejo, a ideia oferecida com tão magnânimo desinteresse é a pá descarnada do carneiro!...

—Principia aí pontualmente. Olha que começos teve uma tragedia obscura!... Continuemos as reminiscências de 1845. Nicolau, ao dar de rosto na mulher que se retraía de ser vista, quedou-se dois segundos a a contemplal-a, perdeu o engraçado atrevimento, e saiu do camarote canhestramente como se fosse corrido. Quando desciamos a platéa, disse ele: «Eu vi aquela mulher em Caminha há ano e meio; e, desde que a vi, outra imagem não pude mais ver em meus sonhos, nem encontrei mulher que ma fizesse esquecer. Aquela é a minha inevitável fatalidade! »

—disso é que eu de todo me não recordo.

—Talvez lho não ouvisses. Entramos à platéa. Nicolau nunca mais desfitou a vista do camarote da 3. ª, sem que visse a linda cabeça de Tomazia (chamava-se Tomazia) por entre os volumosos comensais. Saimos ao vestíbulo, concluída a tramoia de Herodes, e esperamos que ela descesse. Tu já tinhas saído no intervalo do 3. º ato, e por isso não assististe a um rasgo de generosidade com que podes fechar originalmente a introducção do teu romance.

Chovia a odres. A família carnívora esperava no pátio que estiasse a chuva cada vez mais torrencial. Nicolau de Almeida saiu açodado dizendo-me que o esperasse. Guiado prosperamente pelo amor, foi topar um carroção que despejava as últimas dez pessoas da terceira família em uma casa da rua de Santo Antônio. Ofereceu ao carreteiro porção fabulosa de pintos, e conduziu à porta transversal o carroção que, debaixo das cataratas do céu, parecia a Arca Santa no trigésimo nono dia do diluvio universal. Avizinhou-se cortezmente o bacharel da família que se aconchegava como rebanho que farisca lobo, e disse voltado a um dos três homens gordos:

—Tomo a liberdade de oferecer a vossas senhorias um carroção que os conduza a sua casa.

—Este e o do osso... —disse uma das gordas à orelha da outra.

A menina achegou do cóllo a mantilha e baixou os olhos divinizados de pejo.

O sujeito, a quem Nicolau se dirigira, respondeu bem-humorado:

—Não é de desagradecer o favor, porque chove que tem diabo, e nós moramos nas Cangostas.

O nosso amigo saiu debaixo do alpendre e disse ao boieiro: «Leva estes senhores à rua das Cangostas. »

E, cortejando o rancho, saiu comigo pela outra porta, murmurando: «Que mulher! »

—Bem! —exclamei eu, já temos dois não vulgares elementos para um romance ideado originalmente; a saber: a pá de um anho e um carroção! Duas especies raras!

Antônio Joaquim prosseguiu até noite alta a história.

Devo confessar abertamente que o enredo, confiado a compositor de engenho afeito a imolar a verosimilhança para comprazer a dois ou três leitores, dava largas a fantasias originais. Na minha oficina, por mais que a Europa se queixe, as obras hão de sair sempre fundidas das formas da verdade. Não importa que o verdadeiro orce pelo fastidioso, e as maravilhas da invenção lhe ganhem no estádio da popularidade. num país de gente que lê sempre, como este em que os pais se reproduzem para ter o gosto de dar leitores à república literária, há partidos para todas as bandeiras da milícia intelectual. Eu, de mim, sem invejar a voga dos meus vizinhos, conto sempre com consumidores que vencem em sede de ler a temerária afoiteza dos editores. Escrevo para a gente séria. O meu partido é o da gente séria. Tenho por mim todos os amigos da verdade que assignam as correspondências das gazetas. Para estes e outros inéditos é que eu vou concertar os apontamentos que ontem escrevi, ao compasso da narrativa do meu amigo Antônio Joaquim, a quem deixo aqui estampada a minha eterna gratidão.

O SANGUE

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Sinopse

Leia gratuitamente O Sangue, de Camilo Castelo Branco, clássico lusófono em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza o romance em introdução e 21 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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