Universo da obra
Universo da obra
Argumento
Discorre o autor acerca das reticencias com singular originalidade. De como as duas criaturas não se amavam. Tomazia e pilhada a escrevinhar e ingrampa o velho. Intenta ele debalde convencer o filho, chamando-lhe pedaço de asno, como se não fosse plus quam-perfeito. O que Gervásio José entende por amoricos de caquerácá, e outras coisas que do capítulo melhor se verão.
Não se amavam.
Que grande milagre não se amarem!... O uso de se verem duas pessoas entre-amadas gasta-lhes o amor. O uso de se verem as que muito se estimaram, não lho deixa nascer. O imprevisto, a surpresa, o domínio incerto e disputado, isto sim, é céu ou inferno, onde o amor rejubila como anjo, ou se estorce em fogo de réprobo.
Não se amavam: é onde bate o ponto.
Inocêncio respondeu, rodeando retoricamente o assumpto, que era amigo de Tomazia; mas que...
E ficou-se.
A menina, recebida a noticia que a madrinha lhe deu, disse que a sua vontade era a dos seus bemfeitores; mas que...
E nada mais.
Adiante das reticencias ponha o leitor uma coisa insignificante chamada «coração». As reticencias podiam dar a misteriosa origem de bastas agonias. Onde ninguém vê nada, estão ladeiras de muitos abismos. Há aí muita gente transviada na vereda que leva ao deserto sem horizontes—deserto, onde não enfolha árvore com sombra, nem borbulha fonte que reviva peitos sedentos de vida. Na história dessas almas que já aqui levam o letreiro fatal do poeta florentino—almas sem esperança, e, por tanto, sem amor, sem alegria, sem fé, sem Deus—na perdição dessas, há um quê indescriptível, origem fatidicamente inescrutável. Seria uma palavra? um ato de irreflexão cega? destino? impulso irresistivel da bossa? Não. Foi uma frase cortada, uma expansão sincera afogada pelo pejo, pelo respeito, pelo terror. Foram as reticencias.
Gervásio, posto que transigisse com a insanável gangrena da geração nova, não abdicava da rigidez de sua autoridade paterna. Avisado do mas... de seu filho, saltou logo furioso a filar a pior das conjecturas, imaginando-o em arranjos de se fazer raptar judicialmente por alguma das seis opositoras ao rapaz.
Assombrou a cara de ameaças, acendeu os olhos de coriscos, fez dos narizes respiradouro de cólera fumegante, e, esbarrando com o filho num corredor, expediu do peito estes gritos:
—Estás enganado, marióla! Casar, casarás tu; mas dinheiro meu não vês uma de x. Arranja mulher que te dê de comer e vestir e casa; que eu... não sou de uns certos pais que mudam de gênio quando os filhos desobedientes lhes levam os netos...
—Mas, meu pai—atalhou Inocêncio—eu não o entendo... Quem lhe disse que eu...?
—Lérias, meu amigo! não me conte lonas! Você que respondeu a seus tios a respeito de Tomazia? Venha cá... entre aqui dentro neste quarto da tia Sebastiana, que não quero que a pequena nos escute...
E, dizendo, tirou pelo filho para o quarto de sua irmã, que tinha saido com a outra para o Lausperenne das Almas de Santa Catarina.
No lanço, porém, de empurrar a porta, soou dentro do quarto um ai espavorido.
Era Tomazia.
—Que é isso?! —perguntou Gervásio. —Que medo tiveste, rapariga?!
—Eu estava aqui... —tartamudou a órfã, encostando-se a uma cômoda, sobre a qual estava uma folha de papel e o tinteiro da sua escrita.
—Estavas a fazer o teu traslado?
—Estava... a escrevinhar... —tartamudou a Cândida açucena acerejando-se lindamente.
—Deixa lá ver como estás adiantada...
—Ora... —tornou ela, opondo uma atrapalhada resistência ao velho, que foi direito ao papel.
Inocêncio desconfiaria dos inofensivos exercícios caligráficos da sua discípula? Parece que sim; por que, adeantando-se à moderada curiosidade do pai, estendeu o braço e subtraiu o papel por entre os dois.
Tomazia ia começar um desmaio, quando a inocência reagiu ao insulto nervoso, recobrando-lhe a alma para sair-se bem do apêrto.
Inocêncio leu alto, alternando os olhos entre ela e o pai.
Meu caro amor do meu coração, e único bem da minha paixão...
—Ai! —exclamou o risonho velho. —A menina faz versos? ou isso não é da tua cabeça?...
Tomazia respondeu com um trejeito de modéstia acompanhado de tosse de pigarro; tudo, porém, lhe realçava a graça do semblante.
O moço continuou, lendo:
Não tenho palavras com que possa explicar-vos...
E estacou. É que não continha mais a carta.
Inocêncio atirou o papel ao chão, entortou os beiços com dois sorrisos sarcásticos, e murmurou:
—O pai não sabe o que é isto?... Não sabe?
—Não: pois que é isso? respondeu Gervásio.
—É uma carta de namoro.
—Que é? —bradou o velho. Tu escrevias esta carta a alguém, Tomazia?!
A menina sorriu-se e disse com imperturbável candura:
—Escrevia, sim, senhor; mas não a mandava... Eu bem sei que me não ama a pessoa a quem eu escrevia...
—Querem vocês ver... —atalhou Gervásio com o carão alumiado de dois raios de esperteza e alegria interior—querem vocês ver... Tu ainda não percebeste, Inocêncio?
—Eu, não, senhor.
—Pois não percebeste, pedaço de asno?... A carta era para... Diz tu, menina... Para quem era a carta?...
Tomazia olhou carinhosa para o padrinho, e balbuciou muito dengosa:
—Ele bem sabe... mas... não lhe faz conta dizer.
—Entendeste agora, rapaz? —bradou o velho victorioso e inchado de sua soberba.
—Ora, meu pai... —replicou o incredulo fazendo um momo plebeu como a frase—eu não engulo maranhões... Esta carta não era para mim...
—Pois pra quem havia de ser, bruto? —retorquiu o pai, batendo palmas na cabeça.
A órfã, aparentando doloroso constrangimento, pediu ao padrinho licença para sair do quarto.
—Vai, afilhada, que eu bem sei que és uma boa menina—condescendeu o velho. —Pena é que este rapaz não tenha o coração de teu padrinho...
Tomazia saiu de rosto abatido e braços pendentes.
—Ó alma de cântaro! —apostrofou Gervásio—pois tu acharás debaixo da rosa do sol rapariga mais galante e que mais te encha as medidas?!
—Esta carta não era para mim... —tornou Inocêncio, relendo a parte poética, no dizer do velho, e a oração incompleta que parecia ser prosa. —Não tenho palavras com que possa explicar-vos—leu ele. —Pois ela que me queria explicar?! Sim; que me queria explicar ela a mim?
—Queres que eu te responda, menino?... Espera, que eu já volto.
Saiu Gervásio, tirando-lhe da mão o papel. Foi entender-se com a afilhada, deteve-se alguns segundos, e tornou:
—Eu te desengano já, pateta. Tomazia estava para pôr adiante disto que aqui está... Que diz? Deixa-me ler: Não tenho palavras com que possa explicar-vos... aí vai o resto: a satisfação que recebi quando vossa mãe me disse que nos queria ligar pelos sagrados laços do... não me lembra do que ela disse... é uma coisa muito falada nas comedias... sagrados laços do... laços do...
—Do himeneu? —acudiu-lhe o rapaz.
—É isso... É o que ela queria escrever, porque diz que se acovardava de to dizer de cara a cara. Percebes, homem? Que estás aí malucando? A apostar que tens alma de não amar este serafim!! Esta creaturinha tão linda que foi criada contigo! Rapaz! olha bem para mim! Ouve lá, que isto é a valer. Se a não quiseres para tua companheira, quero-a eu para minha filha. Percebes tu? Para ela ter que comer à farta não precisa de casar contigo. Olha se me entendes, Inocêncio. O pai dela sou eu. Tu anda lá por onde quiseres, que eu... cá estou. O filho podem levar-m'o; o dinheiro não... Cuidas que eu não sei a tua vida? (aqui Gervásio espirrou um riso de maganão). Tenho-me calado, porque pensava que lá essas tuas raparigas eram amoricos de cáquerácá. A coisa é seria pelo modo... Deixas a minha afilhada lá por alguma farropilha que te botou o anzol? Bem asno és... Tu cá virás com a cela na barriga... Lá t'avém. Boas noites.
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