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O Sangue

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O Sangue

Capítulo 6 · O Sangue

Capítulo V

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Argumento

Inocêncio espreita e apanha a menina. Diz-se o que era o babeiro do amor. Cacareja ele uma risada sinistra. Como o cavalo do elegante colaborou no amor subitamente acendido no peito de Inocêncio. Terrores de Tomazia. Custodia dá-lhe espirito, prometendo tolher a língua do joven. Quem era João José da Costa Guimarães. Como ela alimpou os olhos enxutos e logrou segunda vez Gervásio. Intervem Custodia no lance solene de se estar Inocêncio roendo as unhas sem acabar de resolver-se a casar. Cita um apoftegma do boticário. É mal recebida a autoridade métrica no auditório. Recolhe-se Gervásio e mais o filho a um armazém de geropiga, onde lhe diz o que melhor se verá adiante. Como um homem precisa ser mais entendido que o burro de Buridan.

Inocêncio não enguliu, como ele dizia, o maranhão: riu-se da boa fé paternal e espantou-se da astucia da rapariga.

Por volta das quatro horas da tarde, estava ele, à porta da rua, fogueando o seu charuto, às escondidas do pai, e resfolegando sôfrego as fumaças, com a voluptuosidade de rapaz que fuma às furtadelas. neste comenos, passou, em upas e corcovos de fogoso ginete, o enviado de S. Gonçalo, com os olhos disfarçados no parapeito da janela onde Tomazia costumava sair já nada esquiva. Inocêncio retraíu-se para o escuro do pátio, e deu tento de rangerem em cima as portadas da janela. Espreitou de esconso o cavaleiro, e viu-o meio-voltado sobre o selim, com esbelto meneio, revirar um olho à janela e surrir, correndo pelo bigode um lenço branco. O lenço branco, naquele tempo, era ainda o babeiro do tenro amor, a bandeira do coração em batalha de ternos dardos.

Passou o galhardo picador, e Inocêncio, pulando ao meio da rua, deu de cara com Tomazia ainda embevecida na figuração ideal do gentil rapaz, com os olhos postos no cunhal da casa onde se lhe desfizera a visão.

O filho de Gervásio cacarejou uma risada ríspida e melodramática como de actor garraio. A órfã olhou despavorida, e viu Inocêncio a trincar o charuto, debaixo da aba do chapéu carregado sobre o nariz, coruscando-lhe das pupilas umas áscuas de raiva não vulgar.

Fez pé atrás a menina, e sumiu-se com o seu pejo e medo. Inocêncio voltou para o pátio, acendeu outro charuto, e começou a passear freneticamente no lagêdo, cismando sem atinar com o alvitre mais adequado à sua refervente indignação.

Estranhava-se o rapaz! Poucas horas antes, a quase certeza de que Tomazia escrevia a outro, levemente lhe agastára a vaidade; e agora, o vê-la acudir ao reclamo do mais famigerado galã do Porto, e o cuidar que era aquele o encuberto amor da rapariga, isto somente lhe atanazava o peito de raladores ciumes! Comparava-se com o outro em gentileza e agrados. Raivava convicto da sua inferioridade; porque o seu rival cavalgava guapamente, era bem parecido, galeava pelos figurinos, tinha uns ares soberbos de quem despreza invejosos, entrava na roda dos provincianos fidalgos, e, de mais a mais, rico.

Vejam de que paixão ruim nasceu o amor de Inocêncio! Foi a inveja que lho esporeou! Isto não admira. Não é bem sujo e fétido o adubo em que se aquece a raiz de um assetinado lírio? De detritos podres não surdem e avoejam insectos de azas iriadas de ouro e azul?

A órfã agachou-se a tremer à beira de Custodia e disse-lhe ansiada:

—O Inocêncio viu-me na janela... Agora aí vem ele acusar-me ao padrinho... Que há de ser de mim, Custodinha?

—Não, que a menina negue—acudiu a velha destemida. —Negue, que eu vou responsal-a, e tolhel-o a ele, que há de querer falar e não poder.

A serva de Deus recolheu-se, apanhou entre os joelhos a cara, e quedou-se orando em aquela postura pouco reverenciosa e quase indecente.

No entanto, a rapariga, ofegante de medo, subia e descia de mansinho as escadas que levavam da água-furtada, onde era o quarto da velha, ao segundo andar. De cada vez que voltava, ia à beira de Custodia, e segredava-lhe:

—Não ouço nada.

—Deixe-me cá... —resmuneou a criatura, que continuava de bôrco os seus arranjos com os espíritos superiores.

Corrido um quarto de hora sem que Inocêncio fizesse rumor, a velha alçou a cabeça, e disse com modesto aprumo:

—Está tolhido! Os meus santos não se cançam de ouvir a pecadora. Devo uma novena ao meu padre Santo Antônio.

Acabadas de proferir estas palavras, reboou desde o patamar do escritório a vozeira de Gervásio José, chamando Tomazia.

Estremeceu a menina; e a velha ficou por momentos descrida de ter bem tolhido a língua de Inocêncio.

—Ai! e agora?! —exclamava Tomazia.

—Vá lá, vá lá; faça-se de novas, e negue, que eu cá fico a rezar... E não se me ponha lá a choramingar... ouviu? Noivo tem a menina...

—Então, digo-lhe ao padrinho que tenho noivo?... acho que o melhor é ser verdadeira, não é, Custodia?...

—Não diga nada por ora, que em fim...

Gervásio vinha já subindo as escaleiras, quando a moça descia com a mais serena compostura de semblante, dizendo:

—Aqui vou, meu padrinho...

—A senhora não ouviu chamal-a há pedaço? —perguntou desabridamente o velho.

—Não ouvi...

—Essa é boa! onde estava você?

—Na trapeira a dar água aos manjaricões.

Hum... —regougou Gervásio, medindo-a com olhar carrancudo.

—O padrinho está zangado? —atalhou afavelmente Tomazia.

—Venha cá ao meu escritório: temos que falar... —E acrescentou abaixando a voz: —Estou pasmado...

—De que, meu padrinho?!

Entraram no escritório. Tomazia viu as costas de Inocêncio que estava olhando para o saguão através da vidraça.

—Com que então... —disse Gervásio, bamboando a cabeça—com que então...

A moça esperava o resto, serenamente encarada, com as mãos nos bolcinhos do avental.

—Afinal de contas... —prosseguiu o entalado velho, saltando do exordio ao final de contas. —Que me dizes tu a isto, Tomazia?...

—A isto quê, meu padrinho?! Eu não sei porque você me está tratando assim...

—Não sabes?! —bradou Gervásio—não sabes?... Com que então... aquela carta era para o meu filho?... era para o meu filho que tu estavas escrevendo a cartinha, sim?

—Era, sim, senhor.

—Não minta! —entreveio Inocêncio; rodando sobre os engonços dos calcanhares com a presteza de um manequim. Não minta! A senhora não foi, há bocado, à janela, quando passava a cavalo o João José da Costa Guimarães?

—Quem é esse? —acudiu a menina com assombrada inocência—eu conheço lá o Guimarães!...

—Não conhece aquele rapaz que ia a surrir-se para cima, e a assoar-se a um lenço branco? —replicou o moço—Não sabe quem é o Costa Guimarães?!... Ora adeus!...

—Eu tinha aberto a janela—voltou Tomazia triste, mas socegada—porque... estive por traz dos vidros a ver se... —E suspendendo-se por dois segundos, continuou com mais calor. —Eu direi a meu padrinho o que estava fazendo, e a razão porque fui à janela.

—Então, diz lá... —sobreveio Gervásio.

—Há de ser só a meu padrinho...

—Vai lá pra cima, Inocêncio—disse o pai ao rapaz.

Saiu Inocêncio com os olhos abatidos e as mãos nos bolços da judia. Levava ares de tolo, e todavia doia-lhe o coração deveras. Gervásio fez um gesto de cara para diante e cabeça para traz, significando à menina que falasse.

—Eu, padrinho, estava atrás das vidraças a ver se o Inocêncio saía. Quase sempre o vou espreitar de modo que ele o não saiba, para que não pense que eu lhe quero bem porque ele é rico. Hoje estava eu à espera que saisse; esperei, esperei muito tempo; e cuidando que ele estava à porta da rua a olhar para a Maraquinhas Gomes, abri a janela, quando ia a passar o tal homem a cavalo, que eu não sei se é Guimarães, se que diacho é. Vai em isto, o Inocencinho foi p'ro meio da rua, e pôs-se a olhar para mim muito carrancudo. Eu pensava que a zanga dele era por eu o andar espreitando; e vai ele de que se há de lembrar? vem dizer ao padrinho que eu estava a namorar o outro. Coisa assim!...

Tomazia tirou um lencinho da algibeira, e levou-o aos olhos para que Gervásio lhos não visse enxutos.

A cara do velho alargou-se dilatada pelo calórico da alegria; é preciso a física para explicar os movimentos das caras onde não há metafisica nenhuma. Tem não sei que aspeito alvar o contentamento das almas boas. O de Gervásio José de Barros jubilava tão grandemente e tão convencido da inocência da afilhada, que não se satisfez com menos de abraçar a órfã e exclamar:

—Ó menina, perdoa ao meu filho, que é um asno!... Anda aquele bólas com a cabeça tão desarranjada, que se tu lhe não dás juízo com o casamento, eu qualquer hora pego dele e mando-o comer no Brasil o pão que o diabo amaçou. Mas o que o Inocêncio quer, filha, é que tu gostes dele, e mal sabe o patarata que tu lhe queres tanto... Gostas do meu filho, deveras, rapariga?

—Sim... eu...; mas... ele... como é rico, e tem muito quem o queira... e eu sou pobre... por isso...

—Asneiras, menina, asneiras! Quem é rico sou eu, não é ele, entendes, Tomazia? Eu é que tenho alguma coisa, riqueza não digo, porque há quem tenha mais; mas ganhado com mais honra, não. Ora agora, o meu filho por enquanto é tão rico como tu; e ao futuro, se me andar fora dos eixos, pode ficar a ver o sete-estrelo, entendes?... Eu já te disse que...

—Mas se ele casar com outra menina rica... —interrompeu Tomazia.

—E daí?

—Não lhe faltarão senhoras do agrado do padrinho...

—Não me dês leis, menina. O que me convém sei eu... Não quero cá a menina rica... Quero-te a ti, porque te estimo como filha; quase me nasceste nos braços; e prometi à alma de teu pai olhar tanto por ti, como se fosses irmã do meu Inocêncio. São dois filhos que eu tenho. Se ele te não quisesse, Tomazia, sabes o que acontecia? pelo menos metade do que eu tenho havia de ser teu; isso lá nem a justiça nem o bersabú to tiravam. Se ele casar contigo, como de feito, fica-vos tudo; não tendes partilhas que fazer, e fica-vos bastante, graças a Deus, e louvores a quem mo deixou sem pragas de órfãos e viúvas.

Tomazia não se enterneceu até às lágrimas; mas ficou tanto ou quanto comovida por sentimento de gratidão ao amor paternal do velho. Figurou-se-lhe ver a imagem do pai, ainda não delida totalmente da sua memoria, arguindo-lhe com severidade a perfídia com que respondia à generosa alma do seu benfeitor. Sem intervenção do venerando fantasma de seu pai, sobrava para magoal-a a vergonha espontânea que sobreleva os malíssimos instinctos.

O regosijado Gervásio José saiu ao pátio e chamou o filho, e a mulher, e as irmãs, sentindo não ser usual invocar os vizinhos para quinhoarem da alegria de um coração boníssimo. Inocêncio foi o último que desceu.

—Venham cá! —exclamou o velho com as bochechas rosadas e cheias de riso. —Anda cá tu, meu filho, que és um lorpazito como eu fui quando amava tua mãe, e como hão de ser teus filhos e netos até ao fim do mundo perônia secla seclorium. Ouve lá, menino. Olha que a Tomazia foi à janela para te ver; e tu, que trazes a cabeça lá por cascos de rôlhas, cuidaste que ela ia ver o outro. Menina, conta aí tu como foi a coisa a este teu noivo, que está ali com um nariz de palmo a olhar p'ró chão e com a vista de esguelha! Não me estejas a olhar-me p'rá pequena com esse olhar de porco, Inocêncio! Vais mal com esse sistema... Pagar amor com ingratidão nem os cães. Menina, diz aí tu como foi que...

Tomazinha, sem erguer o colo da pudica inclinação em que o tinha, murmurou mui constrangida:

—Já contei ao padrinho... Se ele não quer acreditar, deixá-lo. O que eu faço daqui em diante é não tornar à janela, e acabam-se as desconfianças...

—Como as desconfianças se acabam sei eu, —emendou D. Tomazia. —O que se há de fazer ao tarde faça-se ao cedo.

—Dizes bem, mulher! —obtemperou o marido. —Há de isto ficar decidido aqui hoje. —E voltado solenemente ao filho, continuou: —Inocêncio, queres receber por tua esposa esta menina?

Deteve o rapaz a resposta, roendo a unha do dedo polegar, e revirando de soslaio os olhos a Tomazia.

—Então? —bradou o pai—comes os dedos ou respondes?

—Ela que diga... —murmurou Inocêncio, passando a roer nas unhas da outra mão.

—Afilhada! —apostrofou o velho guardando os mesmos tom e postura graves. —Queres casar com meu filho?

A menina corria a orla do avental retorcendo as franjas de retroz uma por uma com os seus alvissimos dedos.

—Responde, Tomazia! —tornou Gervásio dando aos ombros com impaciência.

—O padrinho bem sabe a minha vontade... Eu estou por tudo... mas...

—Mas quê... —abreviou o velho desconfiado das reticencias.

—Se ele me não ama depois... O padrinho bem sabe que o Inocencinho nunca me disse se eu queria casar com ele... Tem lá outros namoros de meninas ricas... e eu sou uma pobre órfã... Se depois se arrepender...

—Que dizes áquilo, Inocêncio? —tornou Gervásio.

—Eu...

—Sim, tu! pois com quem diabo falo eu!

—Ó Gervásio! —atalhou a irmã Sebastiana—não tens precisão de falar no porco-sujo!...

—Pois que querem vocês? —explicou o velho. —Um homem perde a paciência! Está ali aquele focinhudo a roer os cascos, e não acaba de desembuchar o que lá tem dentro!

—Responde a teu pai, menino! —interpoz-se D. Tomazia. —Ou sim, ou não. Contra vontade não quero que te cases...

—Isso é assim! —atalhou um novo personagem nesta poética e fidelíssima cena de família.

Era a senhora Custodia da Porciúncula que assomava no limiar do escritório com as calmandulas enroscadas no pulso.

—Peço licença... Ninguém me cá chamou; os meus santos é que me trouxeram... —disse ela.

Abriram-lhe passagem com agradável sombra as três senhoras enquanto a menina desabafava o animo, encarando na sua confidente.

—A senhora D. Tomazia tem razão—prosseguiu Custodia, inclinando profundamente a cabeça diante da consorte de Gervásio. —Casar, se o coração não puxa, é mau arranjo. Sempre me há de lembrar o verso em que o boticário dizia:

Menina, casar sem gosto

Por fazer vontade alheia

É cair no inferno em vida,

Remar contra a maré cheia.

Inocêncio careteou uma visagem de anojado do tom enfático e talvez ridículo com que a senhora Custodia usava citar os aforismos líricos do boticário. A velha deu tento do desdem do moço, e calou-se de súbito, relançando-lhe a vista azedada.

—Deixemo-nos agora lá do verso do boticário—disse o pai de Inocêncio egualando-se ao filho no descaroado desamor a poetas, mormente quando se discutia uma coisa séria. Não venha cá a Custodia dar sentenças, que o negocio há de arranjar-se sem o seu voto, se Deus quiser...

—Senhor Gervásio—replicou a velha—se Deus quiser, sim; mas se Deus não quiser, não...

—Deixa falar a mulhersinha, Gervásio, —interveio a esposa, —deixa-a falar, que é mulher experimentada.

—Será, será; o diabo o negue... —acudiu o burguez maliciando o dito casto da mulher.

—Anjo bento! —murmurou a senhora D. Florença—aí vens tu outra vez com o cão tinhoso!

—Sabeis vós que mais? —redarguiu Gervásio—ide à fava! Estou a mandal-as todas pra riba, e fico sozinho com os pequenos... Que estás aí a resmungar, Custodia?... Diz lá o que quiseres... Achas que a filha de teus amos vai mal casada com o meu filho?

—É consoante, senhor Gervásio. Se eles gostam um do outro, muito que bem; se não gostam, tanto faz ser rica como pobre; contentes é que eles hão de viver, quando eu for rainha. Não é isto nem aquilo... Estes meninos, cá segundo entendo, não estão talhados pra se casarem. O senhor Inocencinho não gosta da senhora D. Tomazinha.

—Quem to disse?! —bradou Gervásio.

—Ora, quem mo disse! Basta vê-lo. Se ele gostasse dela, estava aqui agora aquela menina à espera que ele se resolva? Então já lho ele tinha dito, e acabavam estas caramunhas de parte a parte... Emfim, senhor Gervásio, queira perdoar o meu atrevimento, mas a minha opinião é que os deixe estar solteiros. O seu filho não lhe faltam noivas; e à menina, se Deus quiser, não lhe hão de faltar noivos. O melhor dote que ela pode ter é a sua virtude e a carinha de santa que tem.

Gervásio roçava as costas das mãos uma na outra e bufava, voltando a parte posterior de sua pessoa à sã filosofia de Custodia. As três senhoras, convictas de que a velha era servida de favores do alto e sempre mais ou menos inspirada, atentavam religiosamente no que ela dizia. A menina desafogava-se da opressão, respirando pelo desabafo da criada. Inocêncio guardava um silencio que tanto podia considerar-se sumô siso como supina toleima.

Quebrados os ímpetos da cólera, Gervásio José abriu uma porta de entrada para um armazém de geropigas, e disse ao filho:

—Anda comigo, rapaz.

Entrados ao armazém, fechou o velho a porta, e rompeu assim de vizeira com Inocêncio:

—Queres casar ou não? Gostas da rapariga ou não gostas? Diz lá o que quiseres, que eu não to levo a mal. Se vês que te não agrada o casamento, dil-o p'r aí à boca cheia. Cá às costas não quero culpas. Queres a moça ou não queres?

neste lance, o rapaz viu três bonitas raparigas: uma era a vizinha Mariquinhas Gomes, que tocava piano; outra, era a Felismina da rua das Flores, que lhe tinha dado amêndoas, na Misericórdia, em quinta feira santa, ao pé da pia; a terceira era a Rosinha da Praça Nova, que lhe pisára um pé, estando ele a jogar o quino em casa da mesma menina, a mais presada das três. Por tanto eram três provas de ternura que lhe lancetavam o coração naquele momento. Três meninas, aliás quatro com Tomazia, que lhe embaraçavam a escolha, obrigando-o a ter mais engenho que o pensador e histórico burro de Buridan.

nesta oscilação, demorou-se o que bastou para o pai concluir assim terminantemente:

—Está visto... Não queres a rapariga... Acabou-se; não falemos mais em isto. Vamos embora.

—Olhe cá, meu pai... —susteve Inocêncio.

—Que é?

—Eu queria dizer-lhe uma coisa...

—Então?

—Peço quinze dias de espera.

—Pra quê? Pra te decidires? Deixemo-nos de historias. Se o coração to não pede, acabou-se. Tanto faz cismar no caso como estar a dormir. Arrumou-se a pendencia. Nada perdido. Vou tratar de casar a pequena com um dos meus sobrinhos de Vila-Flor. O que eu não quero é têl-a solteira em casa; que isto de mulheres, às duas por três, desandam, e ninguém tem mão em elas. Acabou-se. Vamos embora.

A determinação de Gervásio era sincera. Pode ser que um misterioso relâmpago, em aquela hora, lhe aclarasse, em confuso, o porvir desditoso de tal enlace. O certo é que a vontade de unir o filho à órfã se lhe varreu de todo.

O Sangue

Sinopse

Leia gratuitamente O Sangue, de Camilo Castelo Branco, clássico lusófono em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza o romance em introdução e 21 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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