Universo da obra
Universo da obra
Argumento
Noticias do Pará. Sequidão de Inocêncio. Acommisera-se o velho da nora, que não se dá disso. Tomazia realça em epistolografia, fazendo suspeitar o sogro de que anda ali cachimônia de maior cunho. Opinião de Inocêncio acerca de viajar. Estuda francês, e vai ver mundo. Encontra em França a neta de uns gentis-homens da Picardia, a qual neta vai ver mundo com ele.
Passados três meses, sequentes ao embarque de Inocêncio, vieram cartas do Pará.
O cobrador da herança noticiava que estava empossado dos trinta contos. Vituperava a memoria do tio, criminando-o da torpeza de deixar quatro mulatos assignando-se com seus apelidos, e herdeiros de mais de um milhão em moeda fraca. Vexava-se de ser coherdeiro com tal negralhada, e noticiava que ia partir para o Rio de Janeiro.
A Tomazia escrevia meia duzia de linhas, consagradas ao boletim da sua saúde e ao desejo de que a consorte passasse sem novidade.
—Cá vou passando... disse ela entre si, quando Gervásio notava num lance de olhos à mulher a sequidão das palavras do filho. Tinha o velho dó sincero da sua afilhada.
—Escreve-lhe, Tomazinha, —dizia Gervásio—escreve-lhe que eu lhe direi que isto não é carta que se mande a uma esposa! Estragaram-me aquele rapaz os vadios do Porto, os comedores, os mariolas dos botiquins! Escreve-lhe uma cartinha amorosa, sim, minha filha?
—Pois, sim, meu pai; —disse ela mui de mimo e dolorida—mas, se ele me despresa, é pior estar eu a impaciental-o com as minhas cartas...
—Não, senhora; escreve-lhe como te digo, pra dizer cá com a minha carta.
Que prodígio de fantasia operou Tomazia para poder alinhar um quarto de papel inglês com umas frases assim a modo de saudosas com ares de amorinhos!
O velho leu-as, e obedeceu ao impulso de espanto, exclamando:
—Ó menina, isto não é da tua cachimônia! parece-me copiado do «Feliz Independente» que tua mãe me leu no Douro há mais de vinte anos! Tu já leste a história do «Feliz Independente»?!
—Não, senhor.
—Pois olha, ninguém há de dizer que este palavriado é teu! O Inocêncio vai ficar banzado, quando lá vir estes ditos!
—Ora!... o pai está a mangar comigo!...
—Agora estou! Palavra! tu dizes aqui coisas que parecem dos periódicos!
Gervásio foi ler a carta à esposa. A santa senhora pagou o seu tributo de lágrimas, quando a leitura chegou à seguinte passagem: _Já que não tenho o teu amor nem a tua amizade, dou graças aos ceos porque me não levaram o amor de tua santa mãe e de teu santo pai. Alguma coisa me havia de dar a Divindade Celeste a quem peço que te dê saúde e satisfação... _
Tomazia, se tivesse capacidade para imitar estilos, poderia dar de si, no gênero epistolar, coisa melhor; que o mestre era excelente e as lições, quer escritas, quer orais, muito amiudadas. Sem embargo, os progressos não correspondiam à frequência do pedagogo, cuja linguagem era assim correcta que sublime. Tomazia aprendia somente o que podem entender e saber as faculdades do coração. O estilo do coração, se algum ele tem, a meu ver, é de todos o mais desatado e avesso da boa prosódia. As suas flores são beijos quando não são lágrimas. destas segundas não tinha ainda Tomazia experiência: dos outros, não afirmo nem nego. Não vi.
Mês e meio depois, vieram novas cartas de Inocêncio datadas do Rio de Janeiro. A mesma friesa com a esposa, e muitos afetos ao pai, desfechando com pedir-lhe licença para ir do Rio a Inglaterra, e ver as cidades principais da Europa, antes de recolher-se a Portugal. Alegava o sujeito uma razão que, a juízo dele, rebatia quaisquer obstáculos. Quem vê mundo, escrevia ele, aprende tudo quanto há sem ler livros. As viagens dão muita experiência dos homens.
Posto isto aforisticamente, continuava: Estou a aprender dois dedos de idioma francês: (a palavra idioma entalou os gorgomilos intelectuais de Gervásio) _o francês é preciso saber-se para não fazer má figura. Logo que possa andar por lá de modo que eu me faça entender, vou ver mundo, isto é, se você e minha mãe não se opposerem, o que não espero da sua amizade paternal e maternal. _
—Estás um bom trápolas! —disse em soliloquio o bom velho. —Que irá ele fazer agora por esse mundo de Cristo?! Pilhou-se c'os trinta contos, e não vem pra casa sem dar com eles em Pantana! Deixá-lo! Cavalladas por cavaladas, antes as faça longe da minha vista.
Mostrou-lhe Tomazia a sua carta, dizendo:
—Aqui tem, padrinho; veja que modo de me escrever! Diz que tem saúde e que me deseja a mesma.
—Tem paciência, filha... —respondeu o velho consoladoramente, pondo-lhe a mão no rosto. —Ele cá virá, quando se cançar de ser mau e ingrato. Agora me pede licença para ir viajar... Olha tu que asneira!... E eu não sei o que hei de responder-lhe...
—Se ele quer ir... acudiu Tomazia, e susteve o restante da ideia, receiosa de inspirar desconfiança da sua indiferença; e, tornando logo sobre si, emendou: —Se ele quer ir, é porque não tem saudades de mim... O que eu admiro é que as não tenha de seus pais, que lhe querem tanto...
—Valha-me Deus! —voltou o compadecido velho. —Olha que estás enganada; meu filho quer-te bem; mas foi de cá zangado com o diabo dos Barcellos...
—E eu tenho culpa?!
—Está feito, está feito, menina... aquilo de escreveres ao outro não foi grande coisa... Um homem, que gosta de uma mulher, não leva a bem que os outros andem a dizer que ela também gostou de eles. O rapaz ficou varado, e custou-lhe a engolir o vexame. Fizeste mal, Tomazia; mas... emfim o passado passado. Agora o que se quer é paciência, e esperar que ele venha à razão. A carta que lhe escreveste ainda agora estará a chegar-lhe à mão. Verás como ele muda de ideias logo que a receber. E o que tu hás de fazer, filha, é arrumar-lhe já com outra. O Silencio sai amanhã para o Rio Grande do Sul e faz escala pelo Rio. Escreve-lhe hoje que eu vou já fazer o mesmo.
Novas e redobradas maravilhas de espirito! A carta de Tomazia, se não recendia saudades, ia menos mal engenhada com umas melancolias queixosas, mas logo dulcificadas por balsamos de resignação.
Gervásio gostou muito, e segunda vez espremeu os lacrimais da esposa.
Enquanto não chega este mimo de alma exemplar de paciência ao Rio, vejamos as saudades que a primeira carta comove no peito do esposo. Estava ele conjugando o verbo parler, quando lhe entregaram a correspondência da Europa. Lida a carta do pai, leu a da mulher, e releu a do pai. Entristeceu-se e compadeceu-se. Era a primeira vez que mansamente, e em tom de amorosa, Tomazia se queixava do seu desamor. Seguiram-se uns pruridos de saudade em alma, e logo o aparecimento ideal da formosura de Tomazia, com uns encantos renovados, como se aquela imagem lhe tivesse esquecido, e renascesse mais bela para lhe captivar a um tempo a alma e a razão até ali desvairadas.
Por um fio que mudou o desígnio de ir em cata da experiência do mundo; mas puderam muito a retel-o no propósito feito os estudos progressivos da língua francesa, e o anseio de aprender tudo quanto havia, sem ler livros.
Quando recebeu as segundas cartas, quarenta dias depois, tinha já enfardado para seguir no primeiro vapor inglês. Leu as novas, mas brandas queixas da esposa; sentiu-se bem com a crença de ser amado, e projectou desde logo não se demorar mais de três meses na sua visita às capitais da Europa.
Foge-nos agora o tempo sem paragem de acontecimentos que prestem à essencial narrativa. Decorridos quatro meses, Inocêncio José de Barros estava em Florença, e não estava sozinho. A criatura interessante, que o acompanhava, era no hotel conhecida por madame Barros e el signor de Barros gozava créditos de opulento espanhol. Madame Barros era francesa, carinhosa, corrigia-lhe com infinita graça os erros de linguagem, e formava-lhe com os lábios nos dele frases puro parisienses. Inocêncio estava um homem aceitável em qualquer sala e muito conversável, de fora parte a compostura pessoal, que toda se devia ao gosto delicado da francesa em matéria de trajar. A civilisadora daquele bruto em ruins tempos, tinha sido oficiala de alfaiate, e em outros piores, comensal de estudantes no quartier latin. Mas mr. de Barros não contava isto aos seus conhecidos de Florença. No dizer e crer dele, Jacqueline Beaulieu de Rastignac era vítima de um sedutor que a raptou no chateau de seus pais, fidalgos picardos de primeira raça.
Dias depois, encontrámos Inocêncio na Suissa, procurando as relíquias da casa de João Jacques Rousseau em Genebra. Quem meteria no cérebro daquele homem um desejo tão significativo de craneo cultivado? Fora a descendente dos fidalgos picardos. Jacqueline tinha ouvido discutir o filosofo nas palestras literárias dos seus comensais, antes da quarta garrafa de Bordeaux.
Por maneira que, neste saltar de terra em terra, Inocêncio não recebia cartas da esposa nem do pai. Umas estavam retidas em Paris, outras em Bruxelas, outras em Milão, outras em Veneza.
Se ele houvesse recebido de seu pai uma escrita em abril de 1846, e retida em Londres, onde nunca estivera, encontraria a circumstanciada noticia do que vai contar-se no seguinte capítulo.
Leia gratuitamente O Sangue, de Camilo Castelo Branco, clássico lusófono em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza o romance em introdução e 21 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.