Universo da obra
Universo da obra
Argumento
João de Pinhel quer levar o rapaz para o Pará. Amores infantis de Tomazia e Inocêncio. Ideias do brasileiro acerca do casamento predestinado para crianças. Como a menina se fez linda, e não queria saber ler. Vê-se o que faz a vaidade e o que ela promete aos sete anos. Delicias de Gervásio José nas hortas do Reimão, onde correram os dias mais felizes da geração que vai acabando. Diz se que os peraltas do Porto exercitaram o seu tirocínio de elegância nas merendas do linguado frito. Investidas dos cavaleiros portuenses ao coração virginal de Tomazia. Congrega-se a família para casar Inocêncio com ela. Vê-se que o rapaz era namoradiço, e o pai tanto ou que velhaco, sem desfazer na sua honradez comercial, coisa invulnerável no Porto. Receia o pai que o filho atire dois couces ao aparelho. Tendencias artísticas de Inocêncio para desenhar narizes, e do mais que no capítulo se disser.
Quando Inocêncio, filho de Gervásio, prefez doze anos, veio a Portugal um tio seu materno, estabelecido no Pará, solteiro e rico. Quebrantado pelas enfermidades do clima, Luiz de Pinhel, que assim se chamava o opulento fazendeiro de cacau, prometia pouca vida aos quarenta anos. Algumas melhoras cobrou com os ares pátrios, mas a ciência futurou-lhe peorar e morrer, se voltasse ao Pará.
Não obstante, insistiu na ida para liquidar os seus haveres contados por centenas de contos, e pediu instantemente a sua irmã Tomazia que deixasse ir com ele o sobrinho Inocêncio para quem estivera trinta anos amontoando os cabedais já agora inúteis para si.
A resistência foi enérgica e indelicada; mas, ao verem que Luiz de Pinhel desistia despeitado da benévola pretenção, convieram em consistório os pais e tios que se deixasse ir o menino; que tanto montava acrescer-lhe ao seu dote de bons cinquenta contos o triplo desta quantia.
—De maneira, dizia o pai, que o nosso rapaz vem a ser o homem mais rico do Porto, e juntará a fortuna que teria, se os ladrões dos franceses lhe não roubassem ao avô quinhentos mil cruzados, não falando no juro desde 1808 até hoje, que já lá vão vinte e oito anos. Vejam vocês pra onde isto deitava!
O rapaz, porém, não ia de vontade para o Pará. Cada vez que a pequenina Tomazia lhe dizia: «Então tu vais-te embora, Inocêncio? » o menino debulhava-se em lágrimas e dizia entre arrancos que era a mãe que o mandava. As senhoras presenciavam consternadissimas este lance, e não podiam ter o pranto.
Um dia chamaram elas Luiz de Pinhel para espreitar como as duas crianças se abraçavam a soluçar. O tio condoeu-se, e disse muito comovido:
—Agora, minha irmã, sou eu que peço, e ordeno, se for preciso. Inocêncio não vai. Se eu morrer, cá lhe vem dar o que for meu; se eu viver, irá mais tarde, quando lhe chegar vontade de ver mundo.
E chamando a si os pequenos disse-lhes cariciativamente:
—Brincae, meninos, brincae; que eu não te levo o teu amiguinho, Tomazia. Lá virá tempo em que a ambição ou o amor vos apartem...
Tomazia sorriu-se e levando o irmão de parte, segredou-lhe:
—Não sabes, Luiz, que muitas vezes a gente tem pensado em os casar? Estes já não se apartam...
—Isso é muito possível; e, se eles vão neste afeto, chegados à idade, não há mais que leval-os à igreja; que bem casados levam eles já os corações. Mas olha, Tomazia, que não há fiar nestas affeiçõesinhas. Eu conheço alguma coisa o mundo, e por isso andei sempre por longe dele, e metido cá no meu trabalho, por não saber em que havia de gastar a vida, que bem depressa gastei... Estas crianças que brincam, em começando a olhar seriamente uma para a outra, já não acham gosto às brincadeiras da meninice. Depois, cada qual trata de procurar coisas e afeições novas, porque o coração humano é assim. O moço não tem o coração do menino, nem o velho o coração do moço, percebes? O que eu te quero dizer é que não vás tu por engano casal-os muito cedo, sem eles saberem o que fazem nem o que querem. É muito perigoso que, na idade de saberem o que são e hão de ser até à morte, se não submetam às obrigações para que a sua razão não foi consultada. Entretanto, Deus os faça tão bom homem e digna mulher como são bons e amigos em crianças.
O paraense foi-se embora com grande jubilo de Inocêncio e Tomazia. Os pais do menino também exultaram, ficando-lhes a certeza da herança próxima ou remota.
Principiaram as aulas de Inocêncio, e minguaram as horas da folia. O pequeno aplicava-se ao estudo, e ia ensinando a Tomazia o que aprendia, já com certo aprumo e vaidade de preceptor. A menina entretinha-se com medíocre prazer nas praticas do alfabeto, e ia arguindo vocação negativa para cultivar o entendimento. Era a soberana ordem das coisas, raras vezes desconcertada. Chovia-lhe a natureza dons de infantil formosura, e dava-lhe ao mesmo tempo sequidões esterilisadoras de inteligência. Cada dia lhe abrolhava flores novas; e cada dia lhe entibiava mais a percepção. Por maneira que a menina já choramigava quando Inocêncio lhe pedia contas da invencível dificuldade de soletrar.
—Deixa lá a pequena! —exclamou a madrinha compadecida. —Eu também não sei ler, e graças a Deus não me tem feito falta. Uma mulher de casa não lhe chega bem o tempo para cuidar do seu arranjo. Isso de ler é lá para as fidalgas que não sabem no que hão de gastar as horas. Aprende tu, que és homem, e deixa a menina. Se ela não tem jeito, para que apertas com ela? É forte birra a tua, rapaz!
—Eu não quero que ela seja bruta! —disse Inocêncio com uma autoridade e sobrecenho irrisório, atentos os seus doze anos.
—E que tal! —clamaram as tias enquanto a menina córava, e a mãe se benzia, murmurando:
—Ora esta! querem vocês ver! O rapaz já diz que não quer que ela seja bruta! Assim nos vai chamando brutas a todas! Então tu governas em Tomazia? —tornou a risonha senhora. —Ela é tua parente ou adrente?
Inocêncio fez uma pirueta de educação mediocremente esmerada e saiu da presença da mãe aos pinotes.
Ora vejam agora como a serpente da vaidade mordeu de assalto o amor próprio da menina. Ao outro dia, pediu ao seu impertinente mestre que lhe ensinasse a lição, estudou-a, deu de si boa conta à custa de muito martelar na combinação literal dos nomes bisillabos, e conseguiu em poucos meses livelar-se com a ciência do pedagogo. Fez-se o prodígio em razão de lhe ter chamado ele bruta!... Indicio de alguma coisa, a meu ver; se boa, se ruim, o futuro, querendo Deus, nos irá assentando as bases para seguro juízo.
Na aprendizagem incompleta das primeiras letras consistiu a educação literária de Tomazia Alves. O padrinho entendia que as quatro operações não lhe desconvinham e a leitura de uma carta lhe podia ser útil. daqui em diante, nem ele sabia nem lhe constava que mulheres pudessem aprender coisa proveitosa.
Por encurtar fastios, sigamos de salto os anos de Tomazia até aos quinze.
Eil-a bela quanto pode imaginal-a a mais artística e ambiciosa fantasia. Faltava, porém, alma e luz naquele rosto, porque as imperfeições, embora poetas e romancistas as esqueçam, são inevitaveis. A estatua de certo tinha vida bastante para valer em tresdobro da Galathea e das notórias Venus de inocente mármore; todavia, a glacial placidez do semblante, se não fosse natural, deslustral-a-ía com umas sombras de desvanecida e concentrada na contemplação de si mesma. Não era; e que fosse, ainda assim daria muito que invejar às poucas a quem a prodigalidade do destino concedeu peregrino rosto e adorável alma a transluzir-lhe em olhos e sorrisos; que alteza de pensamento e profundidade de conceitos isso não vale tanto à mulher bela como quatro flores do campo nos cabelos.
Tomazia ganhára fama, bem que os pregoeiros da sua formosura escassamente a vissem nas egrejas, nas procissões, nos camarotes da 3. ª algum domingo de tarde, e uma ou outra vez nas hortas do Reimão, onde Gervásio José costumava desde menino ir merendar sob a folhagem das parreiras. Se o apetite lhe faltava e o cirurgião lhe formulava óleo de mamona, dizia ele à família:
—Bem sei... Vamos ao Reimão merendar uns linguados com a respectiva salada. O meu óleo de mamona é o verdasco de Basto ali tirado da pipa, e quatro azeitonas de Sevilha.
Apesar das precauções do avisado enfermo nos lanços da preguiça de estomago, Tomazia era vista dos peraltas que ainda em 1841 se não pejavam de apear de seus cavalos e carruagens à porta das tavernas do Reimão e Barros-Lima.
Se o comerciante reparasse nos seus confrades da medicina do linguado e da azeitona, podia ver alguns de eles caracolando os ginetes que lhe pateavam sonoramente a testada da sua casa nas Cangostas.
Ele, de certo não; mas a sua afilhada, menos mal servida de reminiscencia, reconhecia três ou quatro dos cavaleiros que uma vez e diversas vezes tinha visto nos bucólicos festins do padrinho ou nos festins espirituais da madrinha mui devota do Senhor-exposto de Belo-Monte e da Misericórdia.
Isto, porém, não desluz nem mareia a candura de Tomazia. Era um ato de memoria e mais nada; ato, porém, que não condizia com a frouxa faculdade de reter a taboada salteada. Há compensações; é o que é. Ora agora, que a senhora D. Tomazia de Barros (o dom começou a honorifical-a aí por 1840, ano em que seu marido foi da câmara) que a senhora D. Tomazia e suas cunhadas e marido não tinham sombra de suspeita da leviandade da menina, é bem de entender, sendo tal e tão crescente o amor que lhe davam.
Aí por volta dos dezesseis anos da moça, a família Barros congregou-se em sessão, cujo memento se infere de terem descido ao escritório de Gervásio. Se um caso desatado da história pudesse ser contado aqui, sem enfado de quem lê, diriamos que Tomazinha, vendo-se só e ouvindo estrupiada de cavalo, entreabriu as portadas da varanda, e por um resquício espreitou o cavaleiro até à revolta da rua para o largo de S. Domingos. Está averiguado que ele a viu também com olhos satânicos; mas ela, por sua parte, ficou ilesa e quieta de coração. Quando é que a lua, nas alturas onde os poetas lhe mandam declarações de amor, se deu por ofendida ou perdeu tanto como isto da sua proverbial castidade? Tomazia podia pleitear isenções com a lua neste caso e vencel-a em muitas qualidades amáveis.
Desçamos ao escritório.
É proposto e não discutido o casamento de Inocêncio José de Barros com a ditosa menina. Divergem ainda assim os pareceres, no tocante ao prazo da realisação. Os tios Jerônimo e Felizardo opinam que o rapaz está muito novo. As tias Sebastiana e Florença abundam neste parecer; mas Gervásio, bamboando três vezes a cabeça como quem prefácia uma revelação ponderosa, diz:
—O rapaz tem dezenove anos. Vocês cuidam que o tempo de hoje é o nosso? Estão enganados. No meu tempo, antes dos vinte e cinco, homem que tolejasse com mulheres, era um asno de quem as pessoas serias não faziam cabedal. Eu tinha vinte e oito e alguns meses, quando pensei em procurar companheira. Isto agora é outra coisa. Voltou-se o mundo. As mulheres estão desaustinadas e os mancebos, assim que lhes pinta o buço, ninguém tem mão em eles...
—O nosso filho é bem comportado—atalhou a senhora D. Tomazia com aplauso do auditório, que se mexeu nas suas cadeiras de segóvia marchetadas de botões de cobre.
—O nosso filho, repetiu com intencional sorriso o orador, o nosso filho é como os outros. Eu que lho digo é que o sei; e agora... vão vocês saber que Inocêncio... namora!
—S. Bento! —exclamou a senhora D. Tomazia, sobrelevando às interjeições dos outros ouvintes.
—Namora, sim, senhores. Pois que cuidam? Vocês não sabem que ele é rico? não sabem que há por aí muita moça que pensa que há de casar-se rica, porque tem um palmo de cara ajeitada? Não sabem—prosseguiu ele alteando a voz graduada pela inspiração própria e espanto dos ouvintes—não sabem que assim que aí chegam brasileiros ricos ao Porto, são os próprios pais das raparigas casadoiras que os mostram às filhas e as picam para que elas andem para diante antes que as vizinhas os apanhem? Não sabem... —continuou Gervásio José adivinhando o quilate retorico do quousque tandem de Cicero, repetido com ascendente energia. —Não sabem que meu cunhado, quando cá veio do Pará, me disse a mim que lá na América não se feiravam tão desavergonhadamente as pretas como aqui as brancas? Se não sabem, —concluiu o velho restaurando a respiração esbofada—saibam que mais de seis mulheres andam na piugada de Inocêncio, e de quatro que eu conheço, não há uma que tenha dez réis de seu, assim que eu levar ao tribunal as letras reformadas que cá tenho dos pais de elas.
D. Tomazia tinha-se benzido tantas vezes, quantas foram os triunfais não sabem. Jerônimo e Felizardo bufavam, e coçavam-se como se quisessem arrancar à unha das cabeças de eles ideias condignas da sua indignação. As tias do rapaz pareciam corridas do seu sexo e espantadas da pureza dos seus costumes.
Seguiu-se ao silencio de três minutos esta pausada interrogação de Gervásio:
—Que me dizem agora vocês? É tempo de o casarmos ou não?
—E quanto antes—responderam tios e tias.
—E tu que dizes, Tomazia? —tornou ele voltando-se à esposa, que sobre-estivera silenciosa e cogitativa.
—Que hei de eu dizer?... Estava a pensar no que meu irmão me disse quando cá veio... Homem! e se ele não gosta da nossa afilhada? Amizade é uma coisa, amor é outra... Achas que o nosso filho, se quisesse casar com Tomazia, andaria lá com esses namoros que dizes?...
O marido sorriu-se, e, por entre os beiços velhacamente franzidos, murmurou:
—Namorar não é casar... Vocês são mulheres, e não sabem nada do mundo... Eu cá me entendo... O rapaz, já lhe disse, é como os outros do seu tempo. As raparigas desafiam-no; ele que lhe há de fazer?
—É não lhe dar trela! —respondeu pressurosa a senhora D. Tomazia.
—Valha-te Deus, mulher! —redarguiu o esposo, editando segunda vez o sorriso sôrna e justificativo de que o homem não resalvára a sua inocência da peste contemporânea—valha-te Deus! Um homem é um homem. A culpa não na tem eles; são elas. Eu cá me entendo... Se o rapaz fosse criado com as leis e costumes de há quarenta anos, os namoros custavam-lhe um par de trochadas boas; mas hoje em dia não há rei nem roque logo que eles asneam. O mais prudente é um pai leval-os às boas; se não, quando um homem mal se percata, está-lhe em casa o juiz e o escrivão com um requerimento lá de uma trocatintas que lhe tira o filho de casa e o leva para a sua. Isso está-se vendo, e medo não me falta a mim; por isso me tenho posto à espreita, e não faço bulha, que não vá o rapaz atirar dois couces ao aparelho, e por aqui me sirvo. Só aqui há dias lhe disse: «Inocêncio, tem-me lume nesse olho: não faças cavalada. Olha que as moças que te fazem festas, o que querem é o teu dinheiro; mas vão erradas; que eu o que tenho, posso perdel-o; nemja que um filho mo leve para onde eu não quero que vá o suor de teus avós, entendes, Inocêncio? »
—E vai ele que disse? —interrompeu com alvoroço a senhora D. Tomazia.
—Nem uma nem duas; sentou-se ali àquela mesa e esteve a riscar com a pena sobre o papel uns narizes que ainda lá hão de estar. Aqui têm vocês o que se passou. Agora estou resolvido a dizer-lhe que é minha vontade que ele se case com Tomazia. Se sim, bem estamos; se disser que não... veremos.
—Se ele disser que não, —obviou a esposa bem aconselhada pelas advertências do mano Luiz—acabou-se; à força não quero casamentos.
Discutiram detidamente os dois cônjuges e vieram afinal em que, por suaves modos, se consultasse a vontade do moço.
A vontade da órfã não foi discutida. Discutir o coração da pobre... para quê?!
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