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O Sangue

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O Sangue

Capítulo 11 · O Sangue

Capítulo X

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Argumento

Desafogo de Rosa com o «Ponha aqui o seu pésinho». Encontram-se no teatro as duas famílias. O que ele sentiu quando viu Rosa tentadora como o pecado. Louvores do Faiel exprimidos no chuveiro de lágrimas das velhas. Inocêncio chama tola à esposa. Roque de Barcellos lancéta o coração de Inocêncio e conta-lhe tudo com intenções damnadas. Gervásio acalma o filho, e diz coisas escorreitas das mulheres com o tino e siso de um Balzac. Inocêncio a rir-se no camarote para «meter ferro» a Rosa. A sangoeira da tragedia que inunda de prantos a família Barros. De como Gervásio presume que o traductor da peça é um sábio que inventou a tramoia, e decide que Faiel era da pele do diabo. Torna Inocêncio a estorcegar o braço da mulher à conta do Costa Guimarães.

A este tempo, Rosa estava tocando no piano a musica do «Ponha aqui o seu pésinho» renovada com o aparecimento do drama «Pedro Sem», joia literária que ainda rebrilha no palco do Palácio de cristal, revesada com Ignez de Castro enquanto o progresso não abranger Manuel Mendes Enxundia. Tocava, porém, de raivosa a menina.

A mãe dela, que já andava moirejando no enchoval, sofreu um insulto nervoso, e passou o dia a beber chá de valeriana.

O jantar correu sombrio e taciturno, deixando apenas ouvir o mascar da numerosa família e caixeiros. Tudo estava perdido, afora o estomago.

Magnânimo e inquebrantável animo tinha aquela Rosa! Quem a visse na representação do «Faiel» quinze dias depois, radiosa de guapas fitas que lhe serpeavam dos opulentos cabelos por sobre os modelados ombros, cuidaria que era ela a noiva de Inocêncio de Barros, e não aquela outra senhora melancólica do camarote fronteiro.

Tinha sido Gervásio quem comprára o bilhete, ao outro dia da chegada do filho, afim de espairecer o tristonho aspecto de toda a sua família. No camarote, estavam ele e a senhora, Tomazia e o esposo, as duas irmãs e os dois irmãos, acamados e dispostos desta ordem: na frente as duas Tomazias e Gervásio; na camada intermédia Jerônimo, Sebastiana e Inocêncio; na terceira e última Felizardo e Florença.

Trajava a noiva modestamente vestido de seda sobre o escuro. Os enfeites do cabelo eram o ouro da cor dele. O peitilho de cambraia, afogado, só ao perto deixava ver que era menos alvo que as espaduas de jaspe lisas e brunidas. Se a tristeza realçasse sempre matizes de formosura, a esposa de Inocêncio José de Barros, em aquela noite, poderia gloriar-se de ser invejada das senhoras e lastimada dos rapazes, por conta de tal marido.

A família do senhor Barcellos da Praça Nova entrou mais tarde no camarote.

Rosa pendurou a capa sem desfitar os olhos de Tomazia. Sentou-se, segredou, sorrindo-se, aos irmãos a vizinhança que tinham, e, sacudidas as crinas de fitas, travou do binoculo e encarou no brasileiro Andraens, que a comprimentou da platéa, curvando-se quanto a barriga lhe outorgou. Não há para que falar mais neste brasileiro Andraens. Veio aqui para desmentir o fanqueiro da Praça Nova, receoso de que lhe faltassem brasileiros à filha.

Inocêncio viu Rosa. Palpitou-lhe o coração como saco aneurismático. Lancetavam-lh'o saudades, saudades como elas são e pungem quando o nunca mais vem com elas. Nunca lhe parecéra bonita senão então a Rosinha. Uns modos acanhados de inocência boçal que de antes tivera a moça, transfiguraram-se em meneios graciosamente desenvoltos, sem desaire de pouco senhoris, um certo desembaraço afidalgado que Inocêncio via nas damas de raça, e desejaria ver nas raparigas da sua roda. Tendencias ao sublime, não vulgares em sujeitos da sua laia.

Como estivesse inquieto, o esposo de Tomazia saiu do camarote e passeou nos corredores. O pai, assim que o pano se levantou, saiu a chamar o filho.

Entrava Inocêncio no camarote, quando a personagem chamada IZAURE dizia a FAIEL:

Ah! já não amas a infeliz consorte?

neste lanço, a loura esposa voltou o rosto e olhou intencionalmente para o marido, que tinha já os olhos cravados no camarote de Rosa.

Tomazia seguiu o suspeito lanço de vista, sorriu-se, e baixou a cabeça, encostando-a à mão direita.

daí a pouco as senhoras D. Florença e Sebastiana choravam lágrimas como punhos. É que Izaure, de joelhos diante do furioso Faiel, exclamava:

Ah! prostrada a teus pés, digna-te ouvir-me.

Tem compaixão, Senhor, da aflita esposa! etc.

Poucas cenas deixaram de ser victoriadas pelas lágrimas da família Barros, exceptuado Gervásio; que esse, quando Faiel vociferava ameaças de morte contra a esposa, dizia:

—O homem é levadinho de todos os diabos!

Findo o primeiro ato, perguntou D. Tomazia ao marido se tinha gostado.

—Gostei... —respondeu secamente Inocêncio.

—E ouviste o que eles disseram?

—Ouvi, que estava perto.

—Cuidei que não... —disse-lhe ela ao ouvido. —A tua comedia esta noite é a Rosinha...

—És tola... —replicou brandamente o esposo. —Que me importa cá a mim a mulher!...

—E a mim importava-me menos o homem de Caminha... —voltou Tomazia.

Este breve dialogo correu sem atenção da família, que se ocupava em ponderações relativas aos casos tristes do ato 1. º

Inocêncio foi fumar para o vestíbulo.

Roque, o irmão discreto de Rosa, visinhou-se dele com bom semblante, apertou-lhe a mão, e deu-lhe os emboras do seu casamento.

Inocêncio tartamudeava, humilhando-se com conscienciosa vergonha à superioridade do outro que devia ser o corrido.

—Sempre fui teu amigo desde a escola—disse Roque—e hei de sê-lo até à morte.

—Também eu fui sempre teu.... tartamelou Inocêncio, pedindo-lhe o cigarro para acender o charuto.

—Lá com o que faz a minha família não me importo. Se estiverem de mal contigo, deixal-os estar. Pois hei de querer-te mal porque não casaste com minha irmã Rosa? Não... Fizeste o que te pediu o coração, e...

—Foi meu pai... —atalhou Inocêncio abemolando piedosamente a voz.

—Eu logo vi que foi teu pai: que tu por tua vontade não casavas com quem casaste. Isso mesmo disse eu à minha família... Parece que adivinhava! Quando me afirmaram que casaste por namoro, gritei sempre que era mentira; ou então não sabias quem ela era...

—Ela quem?

—A senhora D. Tomazia, acho que é Tomazia a mulher.

É; mas então... dizes tu... que eu não sabia quem ela era?

—Sim, não sabias...

—Sabia muito bem. O pai dela era um capitão que morreu no cêrco, e a mãe uma senhora que morou sempre defronte da minha casa, e era filha de um negociante falido com honra, depois dos franceses.

—Não digo o que tu pensas, meu amigo. A minha ideia é outra.

—Sim, tu disseste que eu não sabia quem era Tomazia—insistiu Inocêncio com a voz alterada. —Que vem isso a ser?

—Já que mo perguntas com esse fogo, sempre te vou explicar o meu pensamento. Tu és um rapaz de caráter e brios. Diz-me cá: se te avisassem de que a menina com quem querias casar andava escrevendo cartas a uns e a outros, casavas com ela?

—Não; mas...?

—E se te contassem que um dos seus namorados vinha ler as cartas dela na Praça Nova, no meio de uma roda de lordes de luva branca, para que eles rissem até romper pelas ilhargas, casavas com ela? Sim, pergunto eu...

—Não, já to disse; mas que tem isso com minha mulher?

—Que tem? essa é boa! tem tudo; porque tua mulher é que escrevia cartas ao Costa Guimarães, que tu conheces perfeitamente, não conheces?

—Sim...

—E ele, ali à esquina da Praça Nova, que o vi eu com estes dois, esteve a ler em alta voz uma carta, em que ela por sinal dizia tolices de palmo e meio, e eram as gargalhadas tantas que até parava a gentalha espantada. Aqui tens agora porque eu te dizia que...

—Tu juras pela vida de teu pai que não mentes, Roque? —exclamou Inocêncio trespassado de dor que só vilissimas almas ousariam motejar.

—Juro pela vida de meu pai que não minto, e que sustento o que digo diante do Costa Guimarães, e diante da tua criada Custodia que era a confidente da correspondência.

Inocêncio encostou-se à parede, livido e tremulo, com os olhos encarniçados e fitos no rosto do denunciante, jubiloso de sua vingança.

Depois, impetuosamente, saiu do seu torpor, e disse convulso:

—E que ganhaste em vir contar isso, tu?

—Não ganhei nada... nem te peço paga nenhuma. Isto veio a propósito de eu te ter sempre defendido, quando ouço dizer que tu bem sabias quem tua mulher tinha sido em solteira.

Inocêncio rompeu de roldão por entre o povo apinhado no átrio e saiu, sem redarguir, ao irmão de Rosa.

Chegou a meio do largo da Batalha e retrocedeu. Entrou outra vez no camarote, quando corria já na última cena o ato 2. º la desfigurado. O pai tirou-o fora pela lapela do casaco, e obrigou-o ora suave, ora asperamente a contar-lhe a conversação com Roque. Ouviu-o retraindo os assomos da ira, esteve-se a cismar rematado o conto, e disse placidamente ao filho atribulado:

—Inocêncio, não tomes a peito isso que pode ser mentira, e, se o não for, também não é crime que te envergonhe. Tomazia fez uma ação má em escrever ao Guimarães; mas olha que na idade dela essas coisas não tem aquela nenhuma. Todas namoram, todas escrevem e a gente não pode pedir-lhes contas do que fizeram antes de serem nossas mulheres. Tua mãe, quando me escreveu a mim, já tinha escrito a outro; e há muitas senhoras honradas que escreveram a uma duzia de eles ao mesmo tempo. Mau é terem elas quem lhes leve as cartinhas...

—É verdade! —atalhou o filho. —E Custodia? que me diz você à desaforada da Custodia! aquela beata que ouve três missas!...

—A Custodia, meu filho, está cá por minha conta... Agora o que te peço é que venhas para o camarote, que não te mostres de avessas com tua mulher, que te rias para ela de modo que lá os Barcellos te vejam... Pois tu não entendes que o bregeiro do Roque o que quis foi meter-te a garrocha e fazer-te saltar? Esta hora estão eles lá muito regalados de verem que saiste do camarote, e amanhã vão espalhar que tu bateste na mulher... Vem, Inocêncio, vem, que Tomazia está inocente. Cartas escrevem-nas todas. Ora olha cá o que te eu digo. A Rosa não te escrevia?

—Sim, senhor.

—E a Gomes? também. E a Luísa Leite? também. E a Emília Fernandes? também. E as outras trapalhonas que andavam à pilha da tua fortuna? Todas te escreviam. Eu sabia a tua vida hora por hora. Olha cá o que te eu digo agora: essas raparigas, que te escreveram, ficaram desonradas por isso?

—Não, senhor.

—E, se elas casarem, os maridos ficam desonrados porque tu te carteaste com elas? Não; não ficam. Ficam ou não?

—Não, senhor.

—Então que estás tu aí a malucar? Cuidei que tinhas outra cabeça, homem! Eu, se fosse a ti, e o Roque me viesse cá com essas trampolinices, dizia-lhe: «Ora, meu amigo de Peniche, vá dizer a sua irmã que meta a viola no saco, e que vá cavar pés de burro. » E, se lhe não dissesse isto, dava-lhe dois pares de murros à portuguesa, que ele havia de ter que contar ao sarrafaçana do pai, que está levado de dez milhões de diabos porque não pôde meter-me em casa a lambisgoia da filha. Arre, ladrões, vão ganhal-o!

E, dizendo, levou o filho pelo braço, recomendando-lhe que entrasse a rir-se, muito satisfeito no camarote.

E, de feito, Inocêncio entrou a rir-se no camarote, com a mais infeliz cara que imaginaram Gavarni e Molière. O rir dele era uma dilatação lateral de bochechas, e o vértice da língua apontado aos dentes. São tão poucos os infortúnios sem um reverso ridículo!

Perguntou-lhe Tomazia onde tinha estado.

—Andei a conversar com os amigos—respondeu ele meigamente, sem desmanchar o aparelho do riso.

—Não viste o segundo ato que era tão bonito! —tornou ela.

—Ai, filho! —confirmou a mãe—sempre aqui temos chorado!...

—Eu cuidei que perdia os sentidos! —abundou D. Florença, enquanto D. Sebastiana enxugava ainda os resíduos das lágrimas estancadas nas rugas.

Corrido o pano para o terceiro ato, Inocêncio sentou-se à beira de sua mulher, falando-lhe com fervoroso interesse e geitos muito acariciativos, em coisas que era natural dizerem-se sisuda e gravemente.

Estava como admirada Tomazia. Aqueles modos causavam-lhe certa estranheza e desconfiança; porque não eram usuais nem naturais em seu marido. Além de quê, a senhora desejava seguir o entrecho da tragedia, e ele a cada instante, com a boca cheia de riso, lhe cortava a atenção com algum dito de tão desengraçado espirito que propriamente Tomazia o achava parvo.

Decorreram assim dois atos.

A família Barcellos espreitava, simulando indiferença, os movimentos do camarote. A vista de Inocêncio, apurada pela raiva, tudo via de soslaio. Quanto mais o espreitavam assim ele requintava em ternura com sua mulher, chegando à demasia de lhe estar brincando com as guarnições do decote.

Na penúltima cena do 5. º ato, pediu-lhe Tomazia que a deixasse ouvir a fala de Gabriela, apontando para o cadáver de Cuci.

As três velhas, chegado o drama a este abuso da sensibilidade humana, já não choravam somente, gemiam gemidos de tal arrancar do seio, que Tomazia mal pôde ouvir os derradeiros versos de Gabriela que gritava assim pela boca da Grata:

Sim, meus votos recebe, sombra amada;

Por teus manes ensanguentados juro

Um amor te prometo, que escarneça

De seus furores. Não, já te não temo!

A minha mesma dor me arranca a vida.

Ora, como Faiel corresse então sobre a mulher, e a matasse com um punhal, Gervásio não teve mão de si que não murmurasse em tom indignado:

—Era da pele do diabo o homem!

Vai, depois, Faiel mata-se também. São já três os cadáveres em ruma. O terror abafa a respiração do auditório, enquanto a razão não emerge do seu letargo para aplaudir e vozear pelos artistas. A esposa e irmãs continuam a soluçar entaladas, puxando a custo a respiração dos gorgomilos.

Gervásio reveste-se da sua dignidade crítica e diz:

—Vocês são tolas! Olhem que isto é tudo uma tramoia inventada pelo sábio que fez a comedia. Levantem-se daí, e vamos embora.

Inocêncio deu o braço a sua mulher. As três senhoras velhas ainda trajavam mantilha. Desceram ao pátio, e esperaram o carroção. Esta demora assanhou a ulcera latente de Inocêncio. Tomazia sentiu um brutal repelão que lhe torturou o braço. Olhou para o marido, e viu que ele cravára os olhos num homem que, de entre a multidão, lhe estava espreitando para a consorte. Ela seguiu aquele raio de luz sinistra e viu João José da Costa Guimarães. Corou: incendeu-lhe as faces o ódio, estimulado pela vergonha.

Havia ainda muita coisa boa na alma daquela mulher. Córava!

O Sangue

Sinopse

Leia gratuitamente O Sangue, de Camilo Castelo Branco, clássico lusófono em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza o romance em introdução e 21 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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