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O Sangue

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O Sangue

Capítulo 9 · O Sangue

Capítulo VIII

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Argumento

Como Inocêncio foi enguiçado. Para onde lhe deu o vinho da colheita de 1817. Palestra aflitiva com o pai, que não crê em bruxêdos. Lastimas de D. Tomazia, e horrores das tias que julgam paradoxo um jejum de três dias. Inocêncio come à tripa forra, e ama à proporção. Discurso de Gervásio conducente ao casamento. Pudor da menina e pieguices amorosas do rapazola. Resolução de afogadilho. Casam-se em S. Nicolau, e vão passar a «lua de mel» ao Bom Jesus do Monte, em Braga. Diz-se da mula e macho que os transportam e dos passarinhos que cantam.

Ao cabo de três dias, Inocêncio derivava em um barco de pipas na corrente do Douro. Que três dias de aldeia! Três dias de insomnia, de dessocego, de aflição e fastio. Repuxava-lhe a alma para o Porto uma força irresistivel. A espora da saudade picava-lhe fibras ilesas até então. Chegado ao galarim do tédio e do desespero, furou uma pipa da colheita de 1817 e bebeu com aquelas sedes ardentes de Musset, de Espronceda e de outros infelizes que fizeram adegas dos corações vasios. Mas, ah! o coração de Inocêncio estava cheio do amor de Tomazia. O vinho empoçou-se-lhe no estomago e daqui fumegou-lhe para o cérebro uns delírios que rompiam em apostrofes métricas, sacrilegamente apanhadas nos Ciumes do Bardo. Quantas vezes tenho ouvido relanços daquele poema servindo a paixão declamatoria de alarves mais obstinados que Inocêncio! Fazem-me lembrar onagros a pastar nos roseirais, quando os ouço a espumar das sujas bocas aqueles versos de ouro!

Aplacada a sesão, Inocêncio correu-se de pejo da sua sombra. Revoltou-se contra si mesmo, exclamando:

—Oh! quanto sou asno! Que vim eu fazer ao Douro?! Não podia eu estar agora à beira de Tomazia, e livre destes ciumes que me...

E, dizendo, enganchou os dedos de forma de garra, e fincou-os com força de ventoza sobre o lado esquerdo do peito, como quem diz que os ciumes lhe agadanhavam o coração.

Feito isto, chamou um galego da vinha, entregou-lhe o alforge e a mala, desceu ao cais do Pinhão, e esperou que desatracasse barco de pipas.

Tais foram as angustias que precederam a partida e inesperado aparecimento de Inocêncio no escritório do pai.

—Já por aqui?! —exclamou o velho. —Que novidade trazes, Inocêncio?

—Nenhuma... —respondeu o moço com tristeza. —Não pude lá estar mais tempo... Estive a morrer...

—No rio? houve desastre?

—Não, senhor... Quero dizer que me vi tão aflito, tão apoquentado, que...

—Que tiveste, rapaz? —atalhou o velho alvoroçado. —Tu estás amarelo, meu filho!... Tens os olhos molhados!... Que é isso?...

—Meu pai!... —murmurou Inocêncio, apanhando a cabeça com as palmas das mãos. —Eu desconfio que me fizeram feitiçaria... Não pude comer nem dormir três dias!...

—Como assim?... —acudiu Gervásio despegando-lhe as mãos da testa—então que sentes, menino?

—Sinto-me doudo desta cabeça... A minha razão diz-me que não ame Tomazia, e eu não pude esquecel-a uma hora, um minuto, enquanto andei por lá...

—Então cuidas tu que isso é bruxedo? —atalhou o pai com ridentissimo carão. —Ó filho, isso não é o que tu cuidas; é um mal próprio da natureza que péga em todos. Qual feitiçaria, nem qual carapuça! Nunca os males sejam maiores... Se gostas dela, fazes o que deves; também ela morre por ti. Ainda não há meia hora que Tomazinha me veio aqui trazer esta carta para eu ta mandar amanhã dentro da minha pelo correio. Aqui a tens, olha, lê-a e verás que a mocinha estava cá como tu por lá. Esteve aí a chorar como vides, e a dizer que tu, se a não querias, dissesses isso e não andasses a desacredital-a.

—Eu não a desacredito! —exclamou Inocêncio indignado com razão. —Pois eu que disse?...

—Ora vamos lá... vamos lá... Tu disseste que o outro do cavalo andava por aí a espinotar pela rua p'r amor dela, e que...

Foi interrompido Gervásio pela estrondosa descida da família que recebera do criado a nova de estar Inocêncio no escritório.

A mãe e as tias penduraram-se no rapaz; e Tomazia, com os braços abertos, esperou a sua vez para o apertar ao seio.

Deixou-se estreitar, afável e ao mesmo tempo melancólico, o ditoso, com uns trejeitos que seriam de tolo se não fossem antes umas mimalhices que a boa fortuna permite aos seus beijamins. Inocêncio fez um bico de beiços e um pendor de pálpebras assim a modo de quem quer chorar as suas penas no seio de quem lhas deu. neste em meio, chegou Custodia, e encarando com os dois meninos abraçados e mudos, bradou, batendo as mãos:

—Está feito o milagre! ouviram-me os meus santos! Eu que disse, senhoras? —continuou ela virando-se para a mãe e tias de Inocêncio—eu não disse às minhas amas que eles se queriam como um casal de pombinhos? Ora aí os têm a rever-se um no outro como dois serafins! benza-os Deus, que tão galantes são! Tomara eu não acabar sem ver os filhinhos destas duas criaturas! Vejam, vejam, como ela se faz vermelha!...

—Está bom, está bom, Custodia—disse o alegre Gervásio—vai dizer à cosinheira que ponha lá que comer na mesa, que o menino está a cair de fraco.

—Bem se te vê na cara, meu filho—confirmou a mãe. —Comeste pouco por lá?

—Há três dias que não come—explicou Gervásio.

—Jesus, santo nome de Jesus! —conclamaram as três senhoras, benzendo-se. —Há três dias!...

—Ó meu Inocencinho! —lamuriou D. Tomazia de Barros, saltando-lhe outra vez ao pescoço. —Estiveste três dias sem comer!?

O rapaz sorriu-se tristemente e murmurou:

—Isso que tem?...

—Que tem? —voltou a velha lastimosa—que tem? Podia levar-te a bréca, meu querido filho! Três dias sem comer!...

—É a primeira que ouço! —disse D. Florença, com as mãos juntas sobre o promontório da região hipogastrica.

—Três dias! —obtemperou D. Juliana—eu não sei como ele ainda se tem de pé! Vamos pra cima, vamos, Inocencinho. Anda comer.

E queriam amparal-o todas para o ajudarem a subir as escaleiras.

—Não é preciso... —disse o rapaz, desviando-as.

Era um gosto de sibarita ver o amante a funcionar com o aparelho da mastigação, desobstruido já o canal onde o amor infeliz costuma empécer como salamandra em cano de chafariz.

Regalavam-se todos a cada naco de paio que rodava no trago de vinho. Não obstante, a mãe, de certo ponto em diante, pedia-lhe que não comesse tanto, que podia dar-lhe na fraqueira. O pai contraditava a esposa atirando-lhe para o prato colheradas de letria e ovos moles, bradando em tom aforístico:

—Come, que a barriga é como um saco; enquanto couber, deita-se-lhe pra dentro.

Findo este repasto de Romeu, quanto era possível ser-se na rua das Cangostas, Gervásio, que tinha bebido de meias com o filho uma garrafa de 1815, desatou a falar com entusiasmo e tal qual eloquência. O discurso pusera a mira em concluir ali de uma vez para sempre o tantas vezes malogrado intento dos desposórios. Depressa chegou ao fito nestes termos idílicos e comoventes:

—Rapariga, tu gostas do meu filho, e ele quer-te deveras. P'r'amor de ti é que o Inocêncio não comeu nem dormiu, nem parou, enquanto não veio para a tua companhia. É amor verdadeiro. Agora, não admito réplicas de parte a parte. Casar, que é tempo. Casar, e acabaram-se as historias. Casar, e... tenho dito!

A menina lobrigou por debaixo da sobrancelha o repleto noivo, cujo coração se recostava regaladamente sobre o coxim do estomago; situação absurda nos termos, e todavia experimentada por todos os amantes felizes depois de um banquete em que se haja comido à portuguesa, segundo as formulas de Domingos Rodrigues. Os olhos de Inocêncio cheios de graça dardejavam aos de Tomazia um raio oblíquo de ternura com o suplemento de um sorriso entre alvar e amoroso.

Gervásio, arrebatado pelo mutuo colóquio de olhos que todos presenciavam, levantou-se, foi ao pé da afilhada, chamou o filho, tomou as dextras de ambos, achegou-as com patriarcal gravidade, e disse:

—Meus filhos, Deus vos abençôe! Sede felizes, como eu tenho sido com vossa mãe.

As lágrimas das três velhas realçaram a solemnidade das expressões singelissimas de Gervásio, que faziam lembrar os tempos antigos.

Os noivos olhavam para o aspeito jubiloso do velho, como querendo furtar-se à contemplação reciproca de suas pessoas. Depois, deslaçaram as mãos, e escutaram atentos um longo discurso do pai, tendente a demonstrar que os casamentos feitos ao tarde não provavam bem; sendo certo—dizia ele em mais claras frases—que os vícios trazidos do trato do mundo para o seio da família, quando um homem se casa depois de os ter radicado na alma, estão sempre a dar rebentos e frutos mãos.

Custodia foi presente ao mavioso espetáculo. Anciava-lhe o arcaboiço do peito em resfôlegos de alegria. Aquilo era obra dela, segundo sua fé na magia do sal virgem lançado ao lume. Se devia ao diabo, se aos santos, o rápido e feliz exito das suas obtestações, não no sabia ela decidir. De qualquer das maneiras, sobravam-lhe motivos de vaidade, e não lhe faltava tempo de reconciliar-se com Deus, à imitação dos feiticeiros S. Anastácio e S. Gil de Santarém, dado o caso de interferencia diabólica nos efeitos prodigiosos do sal virgem.

Tiradas licenças e dispensa de banhos, no prazo de dois dias, Inocêncio José de Barros e Tomazia Alves receberam as bençãos na igreja de S. Nicolau.

Era no mês de agosto de 1843. O calor tornava invejável os amores das aves regorgeados nas sombras das frescas florestas. Inocêncio, poeta pouco mais ou menos como todos os seus vizinhos, invejou as aves dos bosques do Bom Jesus de Braga. Conhecia ele de nome a sasão das primeiras delicias conjugais, chamada lua de mel. Consultou as inclinações bucólicas da esposa, e recebeu um alegre consenso à sua ideia. Os velhos condescenderam.

Tomazia sentada em vistosas andilhas cilhadas no largo albardão de uma mula, e Inocêncio galhardamente encavalgado sobre um macho de arriaria, saíram caminho de Braga, ao repontar uma tépida manhã, festejada dos passarinhos e perfumada das madresilvas dos vales.

O Sangue

Sinopse

Leia gratuitamente O Sangue, de Camilo Castelo Branco, clássico lusófono em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza o romance em introdução e 21 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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