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O Sangue

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O Sangue

Capítulo 12 · O Sangue

Capítulo XI

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Argumento

Inocêncio resiste à ceia de pescada cosida. Injúrias selvagens que ele dardeja à esposa. Acode Gervásio embrulhado num capote de três cabeções. Sossega o truculento. Gervásio manda sair Custodia. A velha faz chorar as pedras, saudosa da sua menina. Lança-se-lhe nos braços, e sai de eles moribunda. Expira a velhinha. O autor escreve o elogio da defunta, e dirige-lhe uma alocução comovente, como consta deste sentimental capítulo.

No transito da Batalha à rua das Cangostas, os beiços de Inocêncio não se abriram. Entrou em casa carrancudo como um somnambulo. Não quis cear, com quanto a mãe, o pai e as tias lhe asseverassem que a pescada cosida a podiam comer os anjos, de boa que estava. A esposa escassamente comeu, e foi para o seu quarto onde o marido passeiava rápido e assoprando.

—Que tens tu? —perguntou ela mais altiva que carinhosa.

—Tenho vergonha de ser seu marido! —respondeu com selvagem e concisa eloquência o aprumado Inocêncio, voltando-lhe as espaçosas costas.

A senhora ficou transida de frio e assombrada largo tempo sem poder articular a réplica.

Voltou-se rápido contra ela o marido e repetiu:

—Sim, é o que lhe digo: tenho vergonha de ser casado com a senhora!

—Por que? —murmurou ela com humildade.

—A senhora sabe-o; não me faça perguntas.

Calou-se alguns segundos e voltou com impetuosa veemência:

—O que a senhora quis foi ser rica, não é assim?

—Eu...

—Sim. Não me tinha amor nenhum; mentiu-me, andou a imposturar para me iludir...

—Não digas isso, Inocêncio... —redarguiu ela energicamente; mas a consciência esfriou-lhe logo a reação.

—Então isto é mentira? A carta que você me escrevia para o Douro não era sua?

Tomazia abaixou o rosto e chorou. Em situações análogas, mulheres sem defesa, choram. As lágrimas são suplicas nestes lances. Se os juízes têm boa alma e a virtude da delicadeza, rasgam o processo. Se são da índole rustica do filho de Gervásio, enfurecem-se em dobro e vociferam. Para esta ralé de homens faz-se mister que a mulher, bem que culpada, relucte e rebata as acusações, simulando arrogante inocência. Se não ganhar o pleito, perde-o sem humilhar-se.

—Responda a isto! —bradou Inocêncio. —A carta era sua... ou foi por engano que ma quis mandar?... Sim... pergunto... pode ser que a tal cartinha fosse para o Costa Guimarães.

—Logo vi... —soluçou a senhora—logo vi que a tua raiva era por estar no teatro aquele maldito...

—E acha você que é só por isso, eim? Acha que não tenho mais nada que lhe bote na cara, a respeito do tal tratante? Faz de mim tão tolo que estou aqui assim zangado porque ele olhou para a senhora!... Ora, minha amiga, outra vida!... Sabe que mais? —e destampou a voz de súbito como trovão inesperado—Sei tudo! sei tudo, ouviu? Sei tudo e sei tudo!

Aterrou-se Tomazia. Tremiam-lhe os dentes e os lábios.

Os berros do homem estrondearam na casa. Gervásio saltou da cama, embrulhou-se num capote de três cabeções, e veio bater à porta do quarto do filho, a tempo que ele bramia:

—Escrevia-lhe a ele você e fazia-me a corte a mim ao mesmo tempo! Essa ação é de mulher sem honra!

—Quem é? —disse ele, suspendendo a apostrofe, e atentando a orelha à porta em que batia o pai.

—Sou eu—disse Gervásio—vem aqui fora.

Inocêncio saiu. O pai levou-o para uma saleta na extrema do segundo andar, e disse-lhe severamente:

—Portaste-te como um galego. Estás aí a berrar com tua mulher, depois de eu te ter pedido que não fizesses caso da intriga. Isso é feitio, rapaz? É assim que tu começas a tratar tua consorte? Que começos de vida levas! Quando isto é no primeiro mês, que será daqui a seis! Mal haja a hora em que esta rapariga veio para minha casa?...

Gervásio disse isto com dor, e anciado do peito.

O filho teve compaixão do velho; pediu-lhe que se deitasse e dormisse, na certeza de que ele não tornaria a questionar com Tomazia.

O pai recolheu-se ao primeiro andar, onde já estavam as duas irmãs espavoridas perguntando à cunhada que autemgeni era aquele na alcova de Inocencinho.

Cumpriu a promessa o irado esposo, posto que o sangue lhe engorgitasse o coração.

Deitou-se. Tomazia passou o restante da noite sentada num canapé, a chorar e a tremer de frio. Inocêncio perguntou-lhe de madrugada o que estava a fazer ali.

—Nada... respondeu a esposa.

Ele grunhiu o que quer que fosse. Já era dia, quando Tomazia se levantou em direitura à porta no propósito de subir às águas-furtadas e contar a Custodia os sucessos. Inocêncio sentou-se de golpe na cama, e bradou:

—Onde vai a senhora?

—Vou sair lá para dentro.

—Quer ir entender-se com a beata? Não vai. Deixe-se estar aí.

Voltou-se a sentar-se, tremente de raiva, a medrosa senhora.

Ao nascer do sol, Gervásio José de Barros já andava na rua. Entrou no mosteiro de Santa Clara, deteve-se meia hora a conversar com a prelada, foi dali ao paço episcopal, e voltou com um papel assignado pelo bispo.

Chegou a casa esbaforido. Mandou chamar ao escritório Custodia da Porciúncula, e disse-lhe com semblante carregado:

—Custodia, não podes estar mais tempo em minha casa. Escuso de te dizer as razões que tenho para te despedir. Não me serves...

—Então... —exclamou Custodia, erguendo as mãos em affligidissima postura—assim se põe na rua uma velhinha de sessenta e nove anos!...

—Não vais p'rá rua, mulher. Venho de te arranjar um encôsto no convento de Santa Clara, onde te mandarei dar todos os meses o necessário para o teu passadio. Vais para onde possas rezar e ouvir muitas missas à tua vontade. Cá em casa é que me não serves.

—E a minha menina! —tornou Custodia, lavada em lágrimas—a minha filhinha do meu coração... hei de deixá-la!... ai! que eu morro! ai! que eu morro!

—Não faças gritarias, mulher! —atalhou Gervásio, sustando o alarido da consternada velha. —A tua menina ia por bom caminho, se tu continuasses a levar e trazer cartinhas de sujeitos que tu lá sabes...

—Eu!... seja pelas almas! —interrompeu ela.

—Está bom, está bom—concluiu o negociante—não quero plemicas! Vai lá tratar de arranjar a tua caixa, que daqui a uma hora hás de ir para o convento; e, se não quiseres ir com a boa esmola que te dou, procura a tua vida lá por onde te fizer conta.

Custodia pediu quase ajoelhada que a deixasse despedir da senhora D. Tomazia.

—Sim, sim, ela está lá por cima—abreviou Gervásio, fechando-lhe a porta na cara.

Subiu Custodia e encontrou num corredor a filha da senhora, criada aos seus peitos. Lançou-se a ela, sufocada de soluços, beijando-a e molhando-a com a torrente das lágrimas.

—Adeus, até ao dia do juízo, minha filhinha! —foram as únicas palavras que pôde proferir, porque perdeu o alento nos braços da senhora.

Tomazia sentou-se no pavimento e deitou-a no regaço, bafejando-lhe as mãos regeladas. nesta postura a encontrou o marido. Parou, e disse carrancudo:

—Que história é esta?!

A esposa não respondeu e continuou a aquecer com a fricção das suas as mãos da criada.

Passou Inocêncio adiante e chamou as tias, mandando-as conduzir Custodia para as águas-furtadas.

Acudiram as senhoras todas, ainda ignorantes do sucesso; que Gervásio apenas tinha segredado a sua mulher que a tal santinha de Custodia era uma desavergonhada de mão cheia.

Tomazia disse às senhoras que a velhinha estava fria de morte.

Pegaram nela e conduziram-na ao leito. Agitaram-na, chamaram-na, deram-lhe um pedilúvio de água espertada com mostarda, e borrifaram-lhe a cara com vinagre. Não dava sinal de vida a pobre Custodia.

D. Tomazia de Barros foi ao escritório dizer ao marido que a velha parecia morta.

—Isso há de ser fingido para não ir p'ró convento, —disse Gervásio—mas eu vou lá ver...

Quando Gervásio chegou acima e se abeirou do catre de Custodia, já a velhinha tinha os olhos abertos, e circumvagava com eles espantados por toda a gente.

—Eu não te disse que era fingimento! —segredou Gervásio à esposa. —É matreira como o diabo a tal beata! Pois há de ir...

neste comenos, as pálpebras de Custodia desceram outra vez; mas não chegaram a unir-se; porque as inferiores já tinham perdido a força vital da elevação. Estava morta: morrera da sua fulminante agonia. Foi a saudade que lhe desfez o coração em que não tinha mais sangue que o das últimas lágrimas choradas nos braços da sua ama. Não levou à presença de Deus culpa que a excluisse da misericórdia do céu. Pecou por ignorância e demasiada fé em S. Gonçalo e outros santos da mesma respeitabilidade. Pecou atribuindo à magia do sal virgem o exito de um casamento que se lhe figurou a felicidade da sua menina. Foi medianeira nos amores de João José enquanto acreditou que o homem trazia missão do alto quando solicitava a sua proteção. Odiou-o assim que lhe descobriu a protérvia dos planos, e voltou os seus esconjuros a favor de Inocêncio, por lhe parecer o melhor marido, à falta de outro eleito nos conclaves dos santos, mártires, doutores e apóstolos do seu conhecimento.

Descança, pois, em paz eterna na tua cova do cemitério de S. Francisco, pobre Custodia da Porciúncula! Dorme até que a trombeta chame às alvoradas do dia eterno a tua alma. E, se nessa ocasião este meu livro sobreviver, como espero, ao renovado chãos, pede ao teu anjo da guarda que junte este capítulo ao autos do teu processo, e eu terei também o duplo prazer de ter concorrido para a tua salvação, e de ser citado no Vale de Josafat.

O Sangue

Sinopse

Leia gratuitamente O Sangue, de Camilo Castelo Branco, clássico lusófono em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza o romance em introdução e 21 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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