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O Sangue

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O Sangue

Capítulo 5 · O Sangue

Capítulo IV

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Argumento

Desengano aos fariscadores de escândalos. Como pode o engenho fazer o milagre de conservar personagens honestos até ao 4. º capítulo inclusivé. De como no Porto de há vinte anos houve homens endiabrados com senhoras, e outras coisas tristes. Por que dizem que a esperança é verde. Entra na história a senhora Custodia da Porciúncula, e as santas manhas dela, que foi amada de um boticário poeta. Vê-se que a menina gostava do enviado de S. Gonçalo de Amarante, mas não lhe entende o estilo. Explica a senhora Custodia o que é o rolo a suspirar pela rola, servindo-se do texto do boticário, que por sinal se chamava Gregório. Dizem-se outras coisas que tocam o coração.

Não se alegrem os pessimistas, os corvos que crocitam onde há somente podridão. Cuidam que têm escândalo já no capítulo 4. º? Vem mal parados cá para os personagens das minhas novelas, os quais só começam a derrancar-se do 5. º capítulo por diante.

Aquela cartinha de Tomazia era casta como os coloquios amorosos das virgens com as estrelas, segundo poetas dizem que elas se palram a horas improprias e suspeitas. Eu de mim declaro que ainda não surpreendi palestras dessa especie: o que eu tenho visto é virgens, mais autênticas que as onze mil da legenda, conversando, pelo alto silencio da noite, não já com estrelas, mas com uns corpos opacos, a espaços luminosos por efeito da luz de algum fosforo.

E Tomazia não fazia isto nem aquilo; não conhecia estrela nenhuma, nem dava azeite nos gonzos da janela para a desoras chover sobre o objeto amado o maná dos favos do coração.

A carta seria coisa, por pequenissima, mal-cabida nas grandiosas proporções desta história, se eu não tivesse avesado o leitor a saber as miudezas de tudo. Vejam se tanta candura merecia a pena de duas ou três páginas em 8. º!

Foi assim: Aquele sujeito, que passou galhardamente, no seu estrepitoso fouveiro, Cangostas acima, quando a família Barros estava congregada no escritório, era um moço bem apessoado, enlevo de olhos incautos, e D. João Tenório quanto cabia nas forças sedutoras de um portuense de 1843. Havi-os então de bico revôlto, fatais, menos scientificos que Fausto, e com mais quatro diabos no corpo que o outro. Que devastadores de corações em flor e do mais!

Se é certo tudo o que se conta dos peraltas portuenses de há quarenta anos até à regeneração da moral, que data aí de 1850 para cá, somos todos pouco mais ou menos filhos de eles, embora nos assignemos com os apelidos dos maridos de nossas mães. Isto, se é verdade, bem que não leze as leis da procreação, é desonesto e digno de esquecimento. Esqueça-se. Viva tanto esta lembrança como há de viver o livro que leva a denuncia.

Pois o cavaleiro, freguez do Reimão, e consumidor do linguado frito das hortas do Barros Lima, era um de aqueles açoites que traziam espavoridos no Porto os anjos do pudor, custódios das mulheres respectivas.

Cuidava eu que ele não tinha lobrigado Tomazia a espreital-o pela fisga das duas portadas. Viu-a e dardejou-lhe dos olhos fulminantes uma flecha ervada no suco da sardônica erva que faz rir o coração. Sabem o que é rir o coração? Esta pergunta não a faço aos desgraçados nem aos velhos meus contemporâneos. É às loiras almas dos dezessete anos de Tomazia. Loiras?! porque não? Quem quiser materialisar o ideal da suprema graça há de enlourecel-o, assemelhal-o à suprema graça real. Pois o ouro que é senão louro? Porque chamaram verde à esperança, se por verde não quiseram figurar poetas o pasto comum das almas, os ervaçais onde elas se vão em sasão própria renovar sangue e pelagem? Loura é que se pinta a esperança aos olhos dos que ainda resistem à espessura de umas trevas negras e frias como a leiva interior das sepulturas. Aos cegos para cores da felicidade não pergunto eu, pois, se sabem o que seja rir o coração.

Tomazia não me responderia nem poética nem gramaticalmente; e por isso mesmo, se respondesse, não seria mais inteligível nem correcta que um destes bardos tirados pela fieira alemã; sublime, porém, devia sê-lo; ou então o movimento que ela fez, levando a mão ao lado esquerdo do seio, era dor de estagnação de fluido, ou, mais sobre o claro, encalhe de sangue.

Pois não disse nada a ninguém, nem à ama que a criou, nem à velha que já tinha sido serva de seus avós.

Ora, esta velha tinha ganhado tão pela raiz a estimação das novas amas, perfumando a casa do rosmaninho da sua virtude, que era já também da família. Andava por egrejas desde que alvorecia a manhã até às dez, em jejum, com os bolços atacados de biscoitos de Valongo, importunando a corte celestial com deprecações pela felicidade de seus amos, asseverava ela. Entre igreja e igreja mascava alguns biscoitos de envolta com dois padres-nossos, e, em algum recanto de pátio, desentupia-se, emborcando uma cabacinha de tão generoso vinho, que S. Jerônimo, se lha vasassem à força nas mirradas goelas, daria com a caveira na cara de quem lhe impedisse o caminho de Roma. Ao fim da quarta missa, a tia Custodia sentia-se morrer de fraca, e ia para casa, em jejum. Algumas vezes contava as suas visões. Se as ela não teria!... Que visões não dá uma cabacinha enxuta!

Convém saber que a senhora Custodia não gostava de Inocêncio. Tal desafeição ou embirra vinha de longe e até certo ponto justificada. O rapaz, criado com mimo de filho único, era endiabrado aos sete anos. As tias defendiam-no quando a mãe o ameaçava; o pai defendia-o das iras das tias; a mãe escondia-o no regaço quando o pai com fingida cólera o procurava onde sabia que o não encontraria. De sorte, que o traquinas zombava de todos, e nomeadamente de Custodia, vítima obrigada e por excelência da tirania do rapaz.

Se a velha se estava remendando, com o dorso curvo e o nariz espremido e entalado nas cangalhas, Inocêncio pinchava-lhe às cavaleiras, dando-lhe de calcanhares nas ilhargas, onde ela se queixava de uma «obstrucção» de cada lado. Outras vezes, fazia-lhe por detrás pontaria às cangalhas com a bengala do pai, e de súbito lhas fazia saltar, repuxando-lhe dolorosamente os refêgos do nariz. Custodia engulia as pragas que lhe vinham da arca do peito, visto que a mãe e tias do menino riam da brincadeira; todavia, a raiva repremida converteu-se em peçonha de ódio, que o tempo não pôde inteiramente esvurmar do coração da velha.

O que ela podia ter feito era resgatar-se do verdugo, deixando a casa; mas impediam-na muitas razões de força, entre as quais realçavam o afeto que ela tinha à menina, de cuja mãe fora já ama; depois o pedido que lhe fizera o capitão Alves de se não apartar de sua filha enquanto os bemfeitores lhe dessem uma tigela de caldo; finalmente, a liberdade de ir às suas missas, e granjear a salvação da sua alma, sem faltar aos reparos e reboques do corpo com a argamassa dos biscoitos ensopados nos haustos sorvidos da cabacinha, com que a fantasia se lhe etherisava misticamente até aos tactos substanciais infusos. E, depois, como adicção a tantos impedimentos, a mesa de Gervásio era abundantíssima, vinho a granel, cama bem enroupada, afora estipendio superior aos serviços da velha, que todos se cifravam em granjear a gloria eterna de seus amos e responsar a boa saída de todos os negócios da casa.

Isto não obstante, congraçar-se com Inocêncio é que não pôde mais a retrincada Custodia. Lanço de falar mal dele a Tomazinha não o perdia; e, desde que as tias do pequeno lhe segredaram que talvez os dois meninos viessem a ser esposos, a velha entrou a cismar e a fazer trezenas a vários santos para que a filha de sua ama tivesse melhor fado que ser mulher de tão mal-criado tunante. Assim que Tomazinha teve idade e entendimento do que era matrimonio, a velha foi-lhe insinuando a noticia do que tinha percebido, sem todavia a desviar de querer Inocêncio para marido, caso lhe não deparassem os santos da sua particular devoção outro noivo com riqueza e melhor gênio que o filho de Gervásio. A menina escutava a sua criada complacentemente e denotava nenhum empenho em passar de pobre a rica, e de órfã beneficiada a filha e herdeira dos Barros das Cangostas. Pode ser que o muito amartelar-lhe da velha contra a malvadez de Inocêncio, e por sobre isto uma certa aversão à dependência, pesada sempre nas condições ingratas, predispozessem a moça ao desagrado que avultou em antipatia chegado aos quinze anos o coração.

Andava inquieta e mais fervorosa em advogar perante os seus santos a desconveniencia de tal casamento a senhora Custodia da Porciúncula, na ocasião em que Gervásio deliberára realisal-o, receoso dos filtros que lhe traziam o filho ébrio de amorios de má casta e piores consequências.

Nas egrejas é que a solicita velha gastava as manhãs expondo mentalmente aos seus advogados que Inocêncio era um bandalho, indigno de Tomazia; e que a filha de sua defunta ama, se eles santos quisessem, poderia arranjar marido mais capaz, e tão rico como o outro.

A confiança que a beata Custodia punha em suas rogativas era tão segura, que já de antemão a fé lhe dava a certeza de que, finda a trezena a S. Gonçalo da Sé, lhe havia de aparecer sinal de ter sido ouvida.

Ao decimo quarto dia, concluída a devoção dos treze decorridos sem novidade, saía Custodia da Sé, e ao descer do Arco da Senhora de Vandoma para a Rua Chã, chegou-se dela um bem assombrado e galhardo moço que lhe disse:

—Muito bons dias, senhora Custodia.

—Deus lhe dê os mesmos. Quem é vossa senhoria? —cortejou e perguntou a velha, alvoroçada com o rebate de ser chegado o enviado de S. Gonçalo, seu procurador de causas matrimoniais em última estancia.

—Sou, disse ele, um rapaz que muito ama a senhora D. Tomazinha, e venho confiar de você este segredo, pedindo-lhe que não duvide fazer os serviços que puder à felicidade da menina a quem adoro.

—Vossa senhoria sentiu alguma coisa no coração para vir ter-se comigo? —perguntou a risonha Custodia, querendo verificar se de feito o gentil moço fora tocado por S. Gonçalo de Amarante.

—Senti, sim... —confirmou ele, bem que respondesse a uma ideia que não era a intencional da pergunta.

—Sentiu coisa no seu interior? —tornou ela.

—Uma paixão ardente pela menina que me não deixa dormir nem comer.

—Desde quando foi isso? lembra-se?...

—Desde que a vi no Reimão, e depois que a tornei a ver no teatro...

—Mas aqui há coisa de duas semanas que tem vossa senhoria sentido lá dentro do seu coração?

O rapaz não achou bem escorreito o inquérito e quedou-se a olhar muito a fito nos olhos inquietos da velha, e a repetir:

—Aqui há coisa de duas semanas?...

—Sim... pergunto eu se foi há duas semanas que vossa senhoria formou tenção de casar com a minha menina?

—Se formei tenção...? —titubeou ele.

—Pois então? —volveu Custodia desconfiada do ar perplexo do casquilho. —Vossa senhoria o que quer, não é casar com a senhora D. Tomazinha?!

—Com toda a certeza... —acudiu o taful vergastando a perna direita com o chicotinho, e ferrando os dentes num sorriso de motejo.

—Está bom; mas queria eu saber cá por certas razões se vossa senhoria essa vontade que tem de casar com a menina lhe veio há coisa de treze dias para cá.

—Sim, eu... há muito que gósto da senhora D. Tomazinha; mas... a tenção de casar... é como você diz... foi... há quantos dias?

—Há treze para cá.

—Justamente: há treze para cá...

—Então posso ir agradecer ao meu S. Gonçalo... —acudiu com entusiástico fervor a velha. —E como é a sua graça de vossa senhoria?

Proferiu o moço um nome com dois apelidos que naquele tempo significavam uma família das mais enriquecidas no comércio. Custodia esbugalhou os olhos inchados da alegria que lhe sobejava do riso, e exclamou:

—Que bonito noivo vai ter a filha da minha ama!... Não caibo na pele!... Vossa senhoria, ainda que eu seja confiada, há de ser tão rico ou mais que o Inocêncio do senhor Gervásio das Cangostas...

—Não sei; mas porque me faz essa pergunta?

—Cá me entendo.

—Também eu a entendo, senhora... senhora...

—Custodia da Porciúncula, sua criada por muitos anos e bons.

—Vem a dizer a senhora Custodia que o filho do Gervásio quer casar com a senhora D. Tomazia...

—É o pai, pelos modos, que trabalha para amanhar isso; mas a pequena não assigna, é por'ora...; e, se Deus quiser, o marido dela há de ser vossa senhoria, ou S. Gonçalo não tem poder nenhum... —disse Custodia com a pia intenção de estimular o capricho do santo empenhado.

—Pois bem—replicou o interlocutor, anediando a rosca da luzente e calamistrada cabeleira que lhe assentava nas espaduas. —Faz-me você o favor de entregar uma carta à menina?

—Pois isso nem dado nem de graça; lá falar-lhe, isso, não lho posso arranjar; mas escrever-lhe, não há remédio, pra se entenderem; e eu aqui estou pra levar a carta.

—Aqui a tem—disse o «elegante». (Alcunhavam-se naquele tempo de elegantes os sujeitos ferozes de que saíram depois mais párvuos e derrancados os modernos janotas.)

—Pois já a trazia feita?! —clamou a senhora Custodia com a sincera exultação de quem via em tudo S. Gonçalo e se via a si com a eficácia de suas recomendações.

E ao tempo que recebia a carta sentiu uma substancia mais fresca e solida do que o papel em contacto com os seus dedos.

—Isto que é? —perguntou ela, sem pôr os olhos sobre o objeto estranho.

—Faça-me o favor de receber estas três mexicanas para rapé—disse urbanamente o moço.

—Nemja eu... não, senhor... queira servir-se de me perdoar; mas eu não ando em isto por interesse... Tome lá, que eu não pego neste dinheiro...

—Então, faz-me essa desfeita, senhora Custodia?! —redarguiu ele.

—Tenha paciência... —insistiu a briosa velha. Não sou da casta de muitas criadas que eu cá sei. Isto que faço... sabe porque o faço? sabe porque eu levo a carta à menina?... É porque mo manda quem pode... vem do céu este destino... o que eu quero é vê-la feliz à filha da senhora que eu criei aos meus peitos, e hei de olhar pela sorte dela enquanto viver. O que eu queria era ir deste mundo depois de a deixar bem casada, para poder dizer lá no céu à mãezinha dela: «a sua filha lá ficou feliz a rezar por nós ambas».

Custodia estava enxugando os olhos, enquanto o elegante chicotava a ponta da bota de verniz, e remirava a costura da pantalona até à polaina com o desvanecimento de lhe ajustar a primor o talhe.

Ditas algumas poucas palavras de despedida e convenção de se entreverem volvidos dois dias, separaram-se.

A velha ainda foi à Sé agradecer a S. Gonçalo com efusão de alma convencida do milagre. Depois, em casa, apropositado o ensejo, segredou a Tomazia os sucessos decorridos, e concluiu entregando-lhe a carta do sujeito que havia de passar na rua às quatro da tarde.

Tomazia inferiu logo quem lhe escrevia, segundo os sinais que deu Custodia. Devia de ser o cavaleiro costumado na rua.

—Ele tem melenas pretas e um bigodinho retorcido? —perguntava Tomazia com alvoroço.

—Tem, sim, menina.

—E a modo de trigueiro, a olhar assim por debaixo do chapéu?

—É isso, é isso mesmo.

—E muito fino da cintura, com a mão pequenina?

—Tal e qual. Que lhe parece, minha filha? Gosta dele?

—Sim... eu...

—Pois aí tem o que há de ser seu marido.

—Ora!... Quem sabe?...

—Quem sabe! —respondeu severamente Custodia, pondo um braço ao alto, e um dedo apontado. —Quem sabe?! O meu S. Gonçalo de Amarante é que sabe, e, por intercessão do glorioso santo, Deus é que o quer.

Tomazia abriu a carta. A letra era inglesa, garrafal e elegante de hastes, enquadrada em cercadura de flores que enramavam frecheiros Cupidos. Custodia cavalgou os óculos para se pasmar de um coração ferido em ninho de folhagem, sobre a qual duas calhandras ou passarinhos parecidos, asseteados também do amor, davam mostras de se estarem beijando com os amorosos bicos.

—Vejam vocês! que graça têm estes bonecos! —dizia a senhora Custodia, jogando com a cabeça e óculos para apanhar em cheio o raio visual. —E este menino tão gordo! —prosseguiu ela pondo o dedo arroixado de um unheiro sobre a cara jubilosa de Cupido. —Isto não pode ser o menino Jesus, porque tem aqui uma cestinha à bandoleira. Será São Joãosinho?

—Nada, não é—corrigiu a menina. —Isto é o Amor.

—O amor?! —interrogou com absorta ignorância a senhora Custodia da Porciúncula. —Este rapazinho assim era pêllo é o amor?...

—Foi o Inocêncio que me ensinou a conhecer o retrato de Cupido. Chama-se Cupido também.

—Ah! isso pode ser; que eu, quando era moça, bem me lembra de ouvir cantar o boticário da minha terra umas modinhas à guitarra, onde dizia lá o verso:

Maldito seja o cupido

Que cravou no peito meu

A setra que não penetra,

Marília no peito teu.

—Já hoje se não cantam destas modinhas! —continuou em tom de lastima a velha, tirando os óculos. —Agora o que se ouve por aí é umas senhoras a dar uns guinchos que parece que estão com as dores de parto. Pelos modos cantam à moda italiana...

—Vamos agora ver a carta? —atalhou Tomazia.

—Vá lá.

Começou a menina deletreando correntiamente o fraseado. A velha abria os olhos à proporção da boca, por onde ela dava sinais de querer engulir a indigesta inteligência das expressões. Tomazia ia lendo monotonamente e ladeando a vista de uma linha para a outra à espera de topar palavra em que tomasse o fôlego e sentisse a satisfação de entender a ideia do namorado estilista. Chegou a anhelada passagem. A seguinte frase ajustou-se-lhe ao entendimento esclarecido pelo coração: «Suspiro por vós como o rolo que geme na árvore solitária pela rolinha amada. »

—Ai! —suspirou Tomazia. —Vês o que ele diz, Custodia?

—Ele que diz? —perguntou a velha. —Má mês pra mim, se eu entendi pataca! Há uns modos de dizer à moderna que parece latim! E a menina já sabe isso que aí diz o que é que diz?

—Algumas palavras não as entendo; mas outras sim. Pois tu não entendes isto? Diz ele que suspira por mim...

—Sim, isso entendi eu; mas...

—Que suspira por mim como o rolo...

—O rolo?!

—Sim; o rolo que geme pela rolinha...

—Ah! já, já, já! —exclamou a velha, batendo palmadas nas cabeças perfurantes dos joelhos. —O boticário também cantava esse verso à guitarra. Deixe-me ver se me alembra... há de alembrar...

O rolo quer a rolinha

E a gemer chama por ela;

O pombo quer a pombinha;

Só tu me despresas, bela!

—E depois dizia—prosseguiu a senhora Custodia com juvenil entusiasmo:

Invejo a sorte do rolo,

E do pombo a sorte invejo;

Santas leis da natureza,

Não falteis ao meu desejo.

—Ai! que tempo! que tempo!... Tivesse eu cabeça, que bem podia a esta hora ser a dona da botica!... Morria por mim o pobre do Gregório... Sim, o Gregório—disse ela baixando o tom da voz à feição de nota explicativa entre parênteses—o Gregório era o boticário, que me botava estes versos e muitos que me hão de lembrar!... Fui tola... na cabeça me deu... Ai! homens, homens!

Uma lagrima borbulhando no canto interno do olho direito de Custodia da Porciúncula atesta que, naquele momento, se desdobram cenas tristes diante de sua alma. Respeitemos a secreta angustia que ainda pode espremer-lhe uma lagrima do coração mirradinho. Um lance desgraçado de sua vida nos basta para conjecturar que passava por ela o suão infernal de um amor desditoso. Aquela mulher, quarenta e dois anos antes, acceítára a criação de um filho estranho, tendo atirado o seu à roda dos expostos. Quantas agonias de arrependimento e saudade em aquela lagrima!

—Vamos lá... leia o mais, menina—disse ela com veemência limpando os olhos, e sacudindo os braços como se quisesse afugentar as imagens mortificativas.

D. Tomazia foi lendo até final, sem encontrar frase que lhe lisongeasse a percepção. A linguagem era cada vez mais repolhuda, e entremeada de vocábulos exdruxulos e de tal compridez, que a menina partia-os a meio para arejar os bofes. Confessou ela ingenuamente que não tinha estudos para entender os dizeres do sujeito; sem embargo, o coração interpretou aqueles adoraveis enigmas.

—O que ele diz é que me ama; isso lá, diz! —asseverou Tomazia.

—E que quer casar com a menina? vem isso lá? —perguntou atiladamente Custodia. —Sim; é preciso saber-se se diz que a ama para o bom fim.

—Pois não ouviste que ele escreve...

—O quê? que escreve?

—Que suspira pela rolinha amada... —observou Tomazia relendo o trecho predileto.

—Mas isso que diz da rolinha não é cá o que eu quero saber. Deixemo-nos de rolinhas. Fala aí em casar? Eu não ouvi...

—Casar? sim... eu, casar, não achei cá.

—Pois então, menina—decidiu severamente a velha—se não achou, não responda sem que ele diga pelo claro o que quer. Que eu—modificou a senhora Custodia—estou certa de que o mancebo quer casar; mas, pelo sim, pelo não, quero tudo em pratos limpos. Ora com isso de rôlos e rolinhas não temos feito nada. Eu já não sou de hoje nem de ontem. O mundo está cada vez mais diabo, Deus me perdoe. Os meliantes já não eram poucos no meu tempo... que fará agora, que a religião está na espinha! Emfim, depois de amanhã hei de ir onde a ele, e bem sei o que lhe hei de dizer.

Parecia querer a menina advogar o texto sibilino da carta, alegando que a sua falta de sabedoria a não deixava entender os pontos onde a pessoa lhe propunha o casamento. Correu de olhos outra vez a carta a ver se, pelo menos, encontrava a palavra himeneu, erudição que a pratica das comedias lhe havia ministrado, e depois lhe serviu, como se disse, na mentira a Gervásio. O que prova, ao mesmo tempo, que a erudição é boa e má.

Himeneu era vocábulo de que os estilistas de 1844 já se não serviam. Não estava na carta esta velharia tão necessária a Tomazia, num lanço em que o seu espirito podia confundir a ignorância e ruim suspeita de Custodia. Ficou triste a moça; mas não duvidosa das intenções honestas do seu amador, mormente, se, consoante a fé vacilante da velha, lho tinha suggerido S. Gonçalo—intervenção em que a menina não punha a maior confiança.

Como quer que fosse, Custodia, passados dois dias, foi em cata do programático noivo, e disse-lhe que fizesse outra carta que se entendesse, e pusesse claro o sentido do namoro.

O elegante não se riu interiormente da ignorância da Tomazia, porque, bem averiguado o caso, não era redacção dele a carta, nem ele, dizendo verdade, se tinha avantajado à inocente da rua das Cangostas em percebel-a. O interprete de seu coração tinha sido um poeta, prosador bíblico, precursor temporão destes teutônicos de hoje em dia, cujo progresso os distância tanto do lirismo de 1844, que já os espalhafatos daquele tempo nos parecem agora comparativamente chãos como a carta de amores de uma costureira.

O rico mancebo que encomendava os rascunhos aos seus amanuenses, sem lhes graduar o calibre intelectual das mulheres, e, pelo comum, se não dera mal com o gênero farfalhudo, pediu copia sem pautar o espirito da pessoa, trasladou-a com esmerada caligrafia, convicto de que os corações amados desnecessitam entender a retorica dos corações amantes. Advertido agora pela honesta alcaiote destes amores mal estreados por causa do luxo da língua (que para tudo serve e presta, como diz Rodrigues Lobo, e até para tolos é dadivosa) foi o joven logo dali escrever outra carta com o estilo de casa, bom, espalmado, ótimo para o efeito de que o entendessem.

À leitura da segunda carta, Custodia batia as palmas e exclamava, abafando o esganiçado entusiasmo:

—Agora, agora! Isso percebo eu, menina!

Tomazia também percebia tudo, tirante as sandices que podiam ser somente inventariadas por pessoas de espirito culto. No mais, não faltava à declaração um ar de sincera estupidez, solapando o bestial intento de seduzir a moça.

Agora fica já conhecido o sujeito a quem a menina das Cangostas estava respondendo.

O Sangue

Sinopse

Leia gratuitamente O Sangue, de Camilo Castelo Branco, clássico lusófono em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza o romance em introdução e 21 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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