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O Sangue

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Capítulo 8 · O Sangue

Capítulo VII

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Argumento

Descreve-se Inocêncio, consoante as tradições. Como ele se carteava com a Mariquinhas e com a Rosa. Libertinagem do mancebo, desde as luvas cor de figado até ao quino do botequim da rua de Santo Antônio, e outras devassidões. O palácio de cristal e D. Ignez de Castro em 1868. Um passeio a vol de oiseau pelo espirito e coração de Inocêncio José de Barros. Explica-se a ida dele para o Douro. Porta-se bem, e não pode comer, rio acima. Apóstrofa Tomazia, e declama quatro versos dos Ciumes do Bardo. Espanta-se o gentio do barco da carreira, e ele assobia para disfarçar. Custodia continua a salgal-o, e ele cada vez mais insipido.

Ainda não é tarde para dizer de Inocêncio o que pude averiguar das tradições guardadas por muitos que o conheceram, no ano de 1843 em que vão correndo os sucessos desta exemplar história.

Era de sua pessoa bem ageitado o filho de Gervásio José de Barros. Largo de aspaduas. Entroncado e rijo. Trigueiro, cor de bom sangue. Olhos negros, grandes e um tanto pasmados. Nariz denunciante da raça, judaico, longo, adunco e transparente. Nariz de Judas Escariotes chamava-lhe Custodia, quando ele lhe macerava os perigalhos das ventas dela com a bengala do pai. Mãos e pés guardavam proporcional e harmonicamente um tamanho que fazia impressão. Não lhe vinha de Israel a superabundancia das extremidades: aquilo haviam-no ganhado seus avós na península hispânica, onde as tribus dispersas e acurvadas por trabalhos rudes engrossaram os músculos e estiraram os tendões de pés e mãos. Isto não é regra. Se o fosse, a terra natal de Inocêncio correria o risco de ser considerada uma conquista de hebreos.

Tenho dito da pessoa material; agora vejamol-o em espirito.

Passava por não ter nenhum na roda dos seus conhecimentos. Era taciturno e desconfiado. Sobejava-lhe instrução para se fazer ouvir; porque notava em silencio algumas parvoiçadas alheias. Lia correntiamente, não envergonhava a ortografia; e a gramática perdoava-lhe as ofensas, por entender que ele nem a conhecia de nome.

Nem era necessário para se entender com algumas meninas. Desde os dezoito anos que se carteava ora com a Mariquinhas Gomes, ora com a Rosinha da Praça Nova. Os epistolários destes amorios em flor acabaram em papelotes. Este destino foi o mesmo que rachar-se a urna onde estiveram os aromas do amor virginal de Inocêncio. Vaporaram-se.

Aos vinte anos, o representante de Pero Barrios teve seis meses de vida dissoluta. Comprava todos os domingos um par de luvas cor de figado ou cor de laranja alternadamente. Alugava cavalo ao Lopes, pedindo sempre que lhe puzessem telim orlado de vermelho, e despedia a chotar, a galopar, a ferir fogo por essas ruas. E não caía. O cavalo ia-lhe entalado nos calcanhares ingentes. Era um centauro o grupo.

Vestia-se a primor da moda e consumia verniz em barda, torturando-se com heroico stoicismo. Ninguém lhe ouvia um gemido, tendo razões para gritar como seus avós com os pés untados de gordo sobre brasas vivas.

Gervásio não o encrepava destas demasias de luxo, bem que ignorasse as cavalhadas dominicais. Dava-lhe mesada para ir ao Tivoli, e achava que seu filho tinha razão de querer admirar três vezes por semana o Grilocôcho, o Fontainhas, o Fidanza e a Grata, sujeitos que resplandeciam na prosperidade do teatro nacional do Porto, chegada ao seu apogeu, para depois cair até à Ignez de Castro, representada hoje, 5 de janeiro de 1868, no Palácio de Cristal. O palácio faz avançar a gente a empurrões!

Apanhemos o assumpto, passando a voar por coisas da vida e costumes de Inocêncio, assaz contraditórias do seu nome baptismal. Sobra razão para que o consideremos empestado da peçonha que afistulava a mocidade de há vinte e cinco anos. O botequim da rua de Santo Antônio era um cardume de libertinos: quem ali entrasse a tomar um capilé, e se demorasse dez minutos, saía cínico. E Inocêncio, começando a frequentar aquela caverna com o cândido intento de jogar o quino, passou depois ao bilhar, e daqui às mezas marmóreas onde a sã moral era espostejada como cadáver combalido em amfitheatro anatômico.

Por estas razões o filho de Gervásio não tinha sentido pela órfã o afeto dulcíssimo que só florece em almas castas. Affeito a vê-la formosa todos os dias, nem sequer a comparava com outras. Passava por ela como qualquer pessoa de juízo e medianamente admirativa pelas Venus de alabastro. Lembrava-se de a conhecer e trazer às cavaleiras quando ela tinha dois anos. Depois viu-a crescer, desabotoar flores que lhe não rescendiam algum perfume; nenhuma florecencia o assalteou de improviso; todas as primaveras da Tomazia lhe pareceram uma e mesma primavera. Esta regularidade de vida fazia implicância ao extraordinário que requer o amor. Fora mister ajuntar à formosura de Tomazia vicio ou virtude que sacudisse, de repelão súbito, o espirito adormecido de Inocêncio.

Bem viram como saltou o coração no peito do rapaz, quando o galhardo Costa Guimarães remessava o cavalo pelas Cangostas. Amor assim nascido é o descredito de uma paixão que se gosa de ser a primeira na jerarchia das nobres. A gentileza do picador rival e a fina raça do cavalo, as duas coisas, produziram a instantânea irrupção da crátera. Beleza, inocência, agrados e carícias honestas nunca vingariam espertar o afeto do descuidado moço, que até àquela hora se andára narcizando a remirar-se no espelho dos alfaiates, ajustando às mãos rebeldes as luvas cor de figado.

O abalo, porém, foi perdendo força, ao mesmo passo que a menina, dócil à vontade de Gervásio e incapaz de reagir senhorilmente, se prestava a satisfazer a vaidade do cioso deixando-se desposar com ele.

Se a órfã conhecesse o jogo de cena da comedia humana, continuaria a fomentar as suspeitas do indiferente Inocêncio, indo à janela na ocasião em que as patas de cavalo denunciassem a passagem de algum façanhudo Saint-Preux, terror da moral desde a Porta Nobre até ao Poço das Patas. Então veriamos o amador um tanto velhaco de Rosinha de Barcellos apertar com o pai para que lhe desse a posse legitima e santificada da linda menina que os burguezes, notáveis na gineta e nobilitados por seus cavalos, lhe andavam disputando com sensível vantagem.

Estamos chegados à ida de Inocêncio para as quintas do país vinhateiro. Foi ele quem se ofereceu. O pai maravilhou-se do insolito zelo vinícola do rapaz. Ora o caso tem explicação e mistério.

A explicação é que dois irmãos da Rosinha, interessados no casamento da irmã, denunciaram a Inocêncio que o Costa Guimarães se gabava de ter recebido cartas de Tomazia. Cuidavam eles que este aviso impediria o ir por diante o tal ou qual afeto com que a menina da Praça Nova suspeitava inclinar o coração de Inocêncio à sua bela hospeda.

Agora o mistério. Chama-se assim à míngua de o podermos destrinçar pelo claro. O ininteligível está em que o moço não acusou a órfã ao pai, nem proferiu palavra indicativa das agonias do seu animo.

daqui procedeu a deliberação de ir para o Douro, apostado a distrair-se com uns ares filosóficos de pessoa sizuda que houvesse lido as doçuras e alívios que Zimmermann promete aos solitários. Como quer que fosse, tudo que eu dissesse em honra deste rapaz seria pouco encarecido, atentos o juízo e generosidade com que ele escondeu do pai as leviandades de Tomazia. Assim se absteve heroicamente de vingar-se dela e sair victorioso das suas suspeitas, assentando em honestas bases a repugnância que lhe fazia tal casamento.

Ele aí vai Douro acima. Ao dar do meio dia, olhou de soslaio para os alforges onde abundavam as vitualhas e disse de si para consigo:

—Não tenho vontade de comer!... e vou em jejum!

Depois, concentrando-se em intestino mais fidalgo que o outro relacionado com os alforges, monologou, pondo os olhos nas ribas alcantiladas do Douro:

—Tomazia!... que diabo de feitiço me fizeste!...

E, pendendo a fronte, assentou a barba no seio, e meditou deste feitio:

—Verdade é que eu nunca lhe disse que lhe tinha amor... Coitada!... ela bem sabia que eu fazia a corte à Gomes, e nunca me mostrou má cara... Mas, se ela gostasse de mim, não mo dizia? Dizia, sim... E talvez não dissesse, porque tem lá a sua soberba, e não queria mostrar que me queria bem por eu ser rico. Pronta a casar comigo estava ela, pois não estava?! Estava... eu bem lho ouvi dizer a meu pai... Mas então para que escrevia ao outro?... Seria pra me meter ferro?... Eu sei cá!

E aqui acudindo-lhe à memoria uns versos que ele tinha decorado dos Ciumes do Bardo, exclamou em voz soturna, bracejando com impeto não destituido de harmonia mimica:

Mulher! que misto horrendo és tu na terra,

para unir crimes tais com tantas graças?

Que nome te convém? cruel? perjura,

impia, blasfema, algoz, monstro dos monstros?

E calou-se.

Os barqueiros olhavam espantados para ele, e duas passageiras já idosas tomaram-lhe medo.

Inocêncio, caindo em si do rapto, quase se viu ridículo, e entendeu que o disfarce era assobiar assim a modo de quem se vai divertindo monologando passagens de Castilho e relembrando no assobio trechos de Donizetti que ele conhecia dos realejos.

Como acima se disse, este caso passava ao meio dia em ponto. E à mesma hora, quando as nove badaladas caíam da torre dos Clérigos, a senhora Custodia da Porciúncula, de cocoras à beira da fogueirinha, fazia estalejar os espirros do sal virgem, e murmurava: Eu te salgo, Inocêncio; eu te resalgo e torno a resalgar, para que não possas comer, dormir, falar, nem socegar sem com a Tomazinha casar.

O Sangue

Sinopse

Leia gratuitamente O Sangue, de Camilo Castelo Branco, clássico lusófono em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza o romance em introdução e 21 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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