Universo da obra
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Argumento
A mulher fatal. Tomazia cantada nas margens do Mondego. O que Nicolau era capaz de fazer e o que fez. O juízo do meu bom amigo Antônio Joaquim. Descreve-se o fidalgo de Caminha, e diz-se que ela o tinha de memoria pelos motivos que no capítulo se relatam. O que Tomazia fez ao outro dia. Começa o namoro como se estivesse a fazer crise. Anceia um confidente que o diabo lhe depara na pessoa de um marceneiro. Adição de um aguadeiro à confidencia. Tópicos da primeira carta. O singelo estilo que inspira um amor sincero. Ao fim de sete cartas, é dispensado o galego e substituido por escada mais inteligente. Chore quem poder.
Era pois aquela a mulher fatal que Nicolau de Almeida tinha visto ano e meio antes em Caminha.
Ela ali estava, a vaga imagem que a miúdo lhe alumiava os sonhos e perturbára as vigílias. Ali estava a Estella que lhe tinha sido o titulo e sagração de muitas poesias que os seus amigos liamos admirados da frugalidade com que aquele espirito se alimentava. Este ideal da mulher foi o do meu tempo em Coimbra: o ideal de hoje em dia não me lembro de o ter visto maltrapido com as meias e capas laceradas do meu tempo. Urgia que os acadêmicos se anafassem e lustrassem a grenha como cosinheira em domingo, para que as ideas de Goettingue, entrajadas de lantejoulas, se enamorassem de rapazes tão de sua feição e peso.
Como disse, o ideal de qualquer rapaz então era a mulher. Estella todos tinham uma; porém, tão intangivel e fugidiça como a de Nicolau de Almeida, não sei que outro poeta a endeusasse com mais arrobado lirismo.
Eil-a pois a mulher fatal!
O fidalgo de Monção, no dia seguinte, disse a Antônio Joaquim:
—Que julgas tu que sou capaz de fazer por aquela mulher?
—Asneiras superiores ao meu calculo—respondeu o meu discreto amigo.
—Arrebatal-a, e estrangulal-a, se me perseguirem e eu me vir em risco de a perder.
—Vês? —tornou Antônio—aí está uma parvoiçada a que não chegava o arrojo da minha imaginação! Arrebatal-a e estrangulal-a!... Não és rapaz de meias medidas. Faltou-te, no programa, enterral-a. É preciso enterral-a; e depois uma sangoeira de vampiro. Vais por noute morta ao cemitério e sugas-lhe as artérias.
—Não podes entender-me: és bom rapaz; mas não conheço coração mais estupido que o teu! —atalhou o acadêmico, com um sorriso em que reçumava o despeito delicado.
—Não é estúpido, quanto cuidas—contradisse gravemente o meu atilado amigo. —Tem um vicio que vocês alcunham de estupidez: o vicio da virtude. Condemno com quanta sinceridade posso essa cruel brincadeira que tu chamas fatalidade. Já me disseste que é casada a mulher.
—Que me faz isso a mim?! —obviou Nicolau sem tergiversar na protérvia da refutação. —Eu sei lá o que é ser casada a mulher onde está uma alma que me pertence?
—Então a alma da mulher de um tal Inocêncio pertence-te?!
—Não zombes!
—Pois tu crês que possa sustentar-se contigo um dialogo serio? Que distincções estás aí talhando entre corpo e alma!... Não me atarantes com subtilezas. Agacha-te ao raso do meu entendimento. A mulher é casada ou não?
—É.
—Então, deixa-a; porque não sabes quantas desgraças evitas à mulher que amas. Deixa-a em virtude do amor que lhe tens.
Nicolau de Almeida apertou a mão do amigo e despediu-se, concluindo:
—Não vives neste mundo. Eu, se tivesse mulher e filhos, em vez de andar semeando moral, estava ao pé dos meus filhos e da minha mulher. Adeus.
Alludia à situação ridícula de bom esposo e pai, que era já então Antônio Joaquim.
Tomazia reconheceu no camarote o moço que a seguira e indirectamente flagellára em Caminha. Não era ele tão pouco assignalado de graças impressivas que dezoito meses pudessem delir-lhe a imagem.
Pungia-lhe a penugem do bigode, bem que já tivesse vinte e dois anos. A magresa realçava-lhe a elegância. Era pálido, negrejavam-lhe cabelos e olhos; a pequena boca, sorrindo infantilmente, quando dizia coisas nada inocentes, entre-mostrava o esmalte da dentadura primorosa.
Mão e pé, bem que eu os tenha em conta de atributos para rir num homem quando se encarecem pela pequeneza, não desdiriam com as formas da mais fidalga constructura de dama. Não sei se D. Tomazia deu tino, em Caminha, das bonitas extremidades do seu enlevado idolatra; mas já o leitor sabe que ela distinguira o pequenino pé de João da Costa Guimarães, de ominosa recordação.
O certo é que se recordou de o ter visto, e recordou-se também de ser aquela uma figura que lhe passava na fantasia, quando se lembrava das primeiras contendas com seu marido. Não porque a impressão lhe entalhasse a imagem na retina dos olhos de alma; senão que, à semelhança de todas as mulheres, Tomazia comprazia-se de recordar o primeiro causador dos seus desgostos, com a certeza de que seu marido não se enganára, considerando-o apaixonado instantaneamente dela. Compensações que aligeiram o peso da cruz do ciume nos debeis ombros das esposas inocentes.
Não admira que Tomazia adormecesse de madrugada a ver nas trevas o reaparecimento do extático moço de Caminha, e a ouvir-lhe a voz insinuante e argentina, ao em vez da pronuncia gosmenta de seu marido e parentes. Alvoreceu-lhe, após um dormir inquieto, a imagem do sonho cortado pelo raio de sol que lhe tocou nas pálpebras e afugentou o sono. Levantou-se. Sentiu-se leve, nova, reflorecida ao calor da juventude, desejosa de se mirar no espelho, a cuidar que via flores, a imaginar-se solteira, desligada de juramentos que a maneatavam, a conhecer que a alma batia as azas para voar longe, a gozar-se do prazer de estar sozinha, de cismar sozinha, de não ter ninguém que soubesse traduzir-lhe nos olhos o doce alvoroço do coração.
—Tanta coisa! —diz a leitora esquecida do que sentiu, ou ignorante do que ainda há de sentir.
E o mais? e a satisfação com que ela depois se ria, com as três velhas, da graça que teve o rapaz de levar o osso! E a delicadeza de oferecer o carroção! E a generosidade que ele teve de dar cinco cruzados novos ao carreiro!
Este último heroísmo foi citado com superior entusiasmo por D. Florença. O carreiro tinha revelado a Gervásio a sua fortuna, quando o comerciante lhe quis pagar.
E, depois, Tomazia deu tamanha elasticidade ao caso que não teve aquela imaginosa família outro assumpto naquele dia; salvo, quando a mãe de Inocêncio expedia um suspiro, e murmurava:
—Muito se riria o nosso menino, se cá estivesse! Meu pobre filho! onde estarás tu agora!...
As duas tias concentravam-se a rezar para que Deus levasse o sobrinho a porto de salvamento, e a esposa quedava-se calada e pensativa a dialogar consigo sobre o caso graciosissimo do osso.
No fim da tarde, Tomazia e a sogra, ao despegar da agulha, foram à janela. A esposa de Inocêncio olhou sem intenção para a loja de um enxabelador que morava defronte, e reconheceu o rapaz de Caminha. Nicolau de Almeida examinava, escolhia e comprava cadeiras, cômodas, canapés, o que se lhe oferecia. O que ele comprava melhor, e por alto preço, era o tempo que se detinha, à espera da incerta ocasião de ver Tomazia.
E ela, quando o avistou na quase escuridade da loja, não disse nada à sogra: perfilou o rosto voltado para a velha, e pôs os olhos de em vez para ele.
Nicolau quedou-se contemplativo. O marceneiro observava o enlevo, e, contente do freguez, tinha vontade de ser interrogado acerca da sua vizinha para ser prestável com as suas informações. Já o bacharel sabia o essencial. Nada perguntava: seria enxovalhar o assumpto rebaixal-o a tal interlocutor.
No entanto, a velha saiu da janela, e a nova, retraindo-se um passo, ficou de modo que era vista, entre as duas portadas que iam fechar-se. Nicolau esperou que ela desaparecesse detrás dos vidros e saiu.
—Careço de um confidente—disse ele de si consigo no dia imediato. —Arrisco muito; mas, se o não tiver, posso perder tudo. É questão de vida ou morte para mim o desenlace disto. Dou punhados de ouro para que ela saiba que eu hei de matar-me na hora em que me disser que me não ama. Onde irei comprar um medianeiro?
Chegava o marceneiro ao hotel do Pexe, na Feira das Caixas, com galegos carregados de mobília. Nicolau não sabia ainda para que comprára cadeiras e canapés, tremós e cômodas. Mandou arrimar as alfaias no pátio do hotel. Chamou ao seu quarto o artista, pagou sem glosar a soma das parcelas, entrou em conversação com o homem, e abriu-lhe margem a contar-lhe sua vida. João Ferreira tinha duas filhas casadas com oficiais do seu ofício, e a terceira estava para casar com um regente de um cartório de escrivão de direito. O regente queria que ele dotasse a filha com uma mobília completa de sala e dois quartos.
Lastimava-se o pai de não poder dispender-se em mais duzentos mil réis, importância dos trastes. Nicolau de Almeida pôs-lhe a mão no ombro e disse:
—Senhor João Ferreira, a mobília de sua filha está no pátio deste hotel. Faço-lhe presente dela: mande-a buscar, que me dá em isso muita satisfação.
—Pois vossa excelência... —tartamudeou o artista.
—Disse. Mande-a buscar. Se não for bastante; e à vontade do seu futuro genro, augmente-a por minha conta.
O marceneiro quis beijar-lhe a mão e abraçar-lhe os joelhos.
—Então vossa excelência não precisava dos trastes..? —exclamou ele, fitando-o penetrantemente, como se lhe dissésse: «já entendo... »
—Não: digo-lhe, sem receio de que me denuncie, que não precisava dos moveis. Fui a sua casa para ver a senhora que móra de fronte...
—A mulher do Barros... —atalhou o artista sorrindo—olhe que eu também o desconfiei... Não, que beleza assim!...
Nicolau carregou sobrôlho à profanação, e João Ferreira estacou, suspeitando que se adeantára de mais.
—Você—disse o fidalgo de Caminha reanimando o interlocutor—pode fazer-me um serviço grande, sem o maior incômodo?
—O que vossa excelência quiser e eu puder.
—Consegue que algum criado ou criada dessa senhora lhe entregue uma carta?
Refletiu dois segundos o pai da futura esposa do regente de cartório, e disse:
—Está vossa excelência servido. A carta há de entregar-lh'a o aguadeiro.
—A quem você dará esta recompensa. —E tirou um guinéo da bolça de prata.
—Isto dá pra dez vezes... —disse o marceneiro alargando as ridentes bochechas.
—Não, senhor: ordeno que seja a primeira gratificação de quem entregar a carta.
Estava já escrita. Fora o dulcíssimo lavor e fruto da noite desvelada. Eram dez páginas em 4. º grande. Uma biografia escrita com a sublimidade singela que todas as almas percebem, maiormente as almas amantes ou propensas ao amor.
Ao outro dia, às dez horas da manhã, D. Tomazia (que presentimento!) como ouvisse os passos do aguadeiro, saiu ao mainel da escada para lhe encomendar que comprasse na loja do Antônio das Alminhas uma caixa de agulhas n. º 7. O galego sacou de entre o colete e a camisa a carta embrulhada numa gaseta, e entregou-lh'a tregeitando com os olhos o mistério clandestino do ato.
—Que é?! —disse a senhora.
O aguadeiro sacudiu a cabeça, fechando um olho, como quem diz que não eram necessárias nem oportunas as explicações.
Tomazia, com as pernas tremulas e o coração em saltos, fechou-se no seu quarto e leu.
Tópicos essenciais da carta: A sede de amor que abrasava desde a primeira mocidade a alma de um rapaz para quem todas as mulheres conhecidas se figuravam o ludibrio das suas esperanças. O encontro nas ribas do mar, em Caminha. A saudade e a desesperação de a tornar a ver. As noites solitárias de Coimbra e as lágrimas com que ele pedia a Deus a segunda visão do anjo, embora o fulminasse a desgraça no restante da sua vida. A reaparição no teatro. O recrudescer do amor com o propósito inabalável de se matar, e esperal-a no céu. As mais pungitivas páginas, porém, eram as da narrativa da sua mocidade, sem pai nem mãe aos seis anos, rico dos bens inúteis deste mundo, e mendigo dos carinhos de uma alma que lhe ensinasse os nomes e sentimentos sagrados da família, as ternuras da intimidade. Aqui, Tomazia não teve as lágrimas. Compreendeu aquela orfandade, e chorou por seus pais, como se dias antes tivesse visto sair os dois esquifes.
O abalo fora profundo. Amava-o. Desde que alimpou os olhos para poder ler a última página da carta, amava-o, renascia, via ali um amigo sem ver ainda o amante, não sabia nem queria entender a sua posição social, não tinha marido nem deveres: era mulher, era uma alma sozinha, a quem tanto montava alar-se para o céu como descer ao abismo.
Não fio que estas frases lhe adejassem no espirito; mas o conceito, a interpretação do seu delicioso devaneio, depois de relida a carta, cifrava em aquilo.
Respondeu sem medo nem consultar vocabulários. Poucas linhas, e essas, por milagre do amor, quase correctas. «Vivo muito infeliz—escrevia ela. —Não tenho alegria nenhuma, senão quando leio esta carta que me faz chorar. Não ter pai nem mãe é a maior pobreza deste mundo. Agora é que eu sei quanto perdi, por que as suas palavras o explicam de um modo tão verdadeiro, como eu poderia dizer, se soubesse escrever. Peço-lhe que me continue a dar o prazer das suas cartas, enquanto alguma desgraça me não privar de as receber. Sou tão sua amiga como uma irmã que não tem mais ninguém. Seja meu amigo. »
Passados quinze dias, Gervásio José de Barros e um irmão com as duas irmãs foram fazer a vindima às quintas do Pinhão. Motivou uma leve enfermidade da velha D. Tomazia, ficar no Porto o restante da família.
neste tempo, o aguadeiro sentira sete vezes a satisfação de trocar uma carta por outra. Entreviam-se a miúdo, sem escândalo dos vizinhos. A residência de Nicolau, durante o dia, era no segundo andar da casa do marceneiro. João Ferreira pagava exuberantemente a dadiva dos trastes, e outras que tornavam a noiva do cartorário cada dia mais rica de seducções à cobiça do seu amado.
O jantar do hospede vinha do hotel com o resguardo conveniente para não suggerir desconfianças. O marceneiro e a filha engordavam a olho, de feição que os seios da moça, já de seu natural entumecidos, ganhavam volume que prometia uma ubérrima creadora de filhos, e regalo de lúbricos devaneios ao amor licito do regente do tabelionato.
De noite, Nicolau de Almeida saia embuçado, e recolhia-se ao hotel de Pexe a inventariar os júbilos do dia.
Mas sucedeu uma vez que o inventariante dos júbilos diurnos em vez de encaminhar-se para o hotel, ao dar da meia noite, cingiu-se com a parede da casa fronteira, esperou minutos, abriu-se subtilmente a janela do 1. º andar, içou-se sem leve rumor uma corda por uma guita, e um homem pela corda, e a corda seguiu o homem, e fechou-se a janela.
O marceneiro fechou então vagarosamente a sua porta, esfregou as mãos satisfatoriamente e disse:
—Foi muito bem!
Era o jubilo artístico de ter tecido a corda e entravado os ganchos, e disposto as travessas em boas proporções, que foi um gosto ver Nicolau de Almeida marinhar à janela sem dar de si, nem levemente torcer-se a escada.
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