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O Sangue

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O Sangue

Capítulo 17 · O Sangue

Capítulo XVI

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Argumento

Coisas serias. Agonias moraís misturadas com as do enjôo, por causa da dualidade entumescente identificada à corporatura interna tendente a distender as circumferencias objectivas da pessoa retrô declarada. Aggrava-se a seriedade do capítulo, pelas sobreditas razões. Prova-se que o enfanticidio inculca o nobre sentimento da vergonha do mundo, e que o mundo é injusto com as mães criminosas. Dá-se um premio a quem entender Tomazia, e outro a quem explicar o reviramento espiritual de Inocêncio. Narra-se o encontro dele com Jacqueline Beaulieu de Rastignac. Como ela era velhaca. Pavores na casa das Cangostas, onde não aparecia carta de Inocêncio. Tomazia dá pulos de contente, sem embargo da duplicidade grave da sua consubstanciação, falando delicadamente. Descortinam pesquizas a lura do amante embebido em filtros da francesa. A pérfida joga-lhe duas ironias, e prega-lhe nas faces dois beijos fementidos, coisa piedosa de contar-se.

Que atormentada alma a de Tomazia!

Que peleja entre a ideia de matar-se e a de perder o homem que lhe era toda a sua vida!

Matar-se! Que fraqueza tão incongruente com a robustez da culpa!

Então o vicio não quebra e aniquila os impulsos da vergonha que atiram a mulher aos braços da morte voluntaria!?

Há coragem para o suicídio, quando não houve força para resistir ao crime?

Teses para fôlegos grandes.

Vamos ao caso; e o leitor, se me quer honrar com a sua colaboração, moralise.

Assim que Tomazia teve razão eficaz para se considerar mãe, caiu em joelhos aos pés de Nicolau de Almeida suplicando-lhe que a livrasse de tão clara prova do seu crime.

Nicolau levantou-a nos braços convulsos de meiguice, e deixou falar o coração:

—Estás salva; foge comigo!

E ela, cobrindo o rosto com as mãos, exclamou sufocada pelo medo de ser ouvida:

—Oh! que vergonha! que perdida me vejo!... Não me digas que fuja, porque eu nunca pensei em poder dar semelhante passo. Ó Nicolau, eu o que te peço é... não sei dizer-t'o... não posso, que me faz horror esta ideia...

—Adivinho-te—interrompeu ele com amargura—e não te posso crer?... Tu querias matar o meu filho?

Tomazia arquejava sem ousar responder.

—Pedes-me a mim que seja eu o algoz do meu filho, de um filho teu, querida da minha alma?... Cuidas que te há de pezar menos o remorso de matricida que a vergonha da fuga! Onde está o teu amor e o teu coração, filha!

—Mas se ele vier...? —atalhou ela.

—Teu marido?

—Sim.

—Não te encontrará; porque ele nunca mais há de ver-te, nunca mais há de sentir a tua respiração, ouviste? Isto é infernal! —disse ele com desesperada concentração—pois esta mulher ainda quer parecer pura aos olhos de tal homem!... Então que sou eu? que poder tenho na tua vida?

Tomazia punha as mãos, e clamava:

—Perdoa-me! perdoa-me! que eu... estou doida!... não sei, não sei o que hei de fazer... Olha, Nicolau, eu queria ver-me livre deste apêrto... Isto não pode ser! Fugir, meu Deus? que dirão meus padrinhos, que me amavam tanto!... que dirá toda a gente...? Jesus, valei-me!... Meu amor! —prosseguiu ela acarinhando-o. —Nós não precisamos de filhos para ser felizes, pois não? Que tinha que me livrasses desta aflição, dando-me qualquer coisa... Eu sei que há meios de se conseguir, se tu quiseres. Isto por ora não é nada que possa sentir dores, pois não? Então que tem que eu possa ser tua, sem me perder de todo, sem causar esta vergonha a meus sogros que são uns santos...

—Mas... —obviou Nicolau. —Ainda que eles te vejam assim e saibam o teu estado, não cuidam que és mãe de um neto de eles...? Por ventura sabiam eles o divorcio oculto em que tu vivias há meses com teu marido?

—Não sei se o sabem; mas creio que não...

—Então?

—E ele? quando o pai lho mandar dizer?

Nicolau não achou redarguição razoável.

—Vês? —sobreveiu Tomazia. —Vês? não tens que responder-me.

—Tenho! —acudiu ele. —Foge! que te hei de eu mais dizer, minha filha! eu, que te amo tanto, não sei, não posso valer-te de outro modo...

—Pois, sim—tornou ela mansamente contendo-lhe os transportes perigosos, no silencio da noite—pois, sim; esperemos... quando eu já não puder evitar a desgraça... quando vir que sou sem remédio descoberta e perdida, então fugirei para ti...

—Mas que importa, que lucras em esperar a desgraça extrema?!...

—Pode ser que isto não vá ao fim... que Deus escute os meus rogos... e que eu me veja livre, antes que ninguém desconfie.

Nicolau de Almeida saiu tão afligido quanto espantado da reluctancia de Tomazia. Não a entendia; porque não pudera ainda confrontar duas mulheres amadas, quatro, vinte mulheres sublimes, infames, castas no vicio, almas dissolutas em envolucro imaculado, esmagando a força da consciência própria e acovardadas diante da maledicência de uma vizinha; arrojando-se afrontadoras contra a sociedade e sucumbindo imbeles e pueris à condenação de si mesmas; temendo a justiça do inferno nas venialidades e desprezando o juízo da providência nos crimes enormes; rindo no cairel do abismo e chorando se lhe empecem dissabores passageiros.

Que tinha Tomazia de tudo isto? A consciência inconciliável com os delictos do coração; a fraqueza do raciocínio igual à imbecilidade com que prevaricára. Não seria antes aquilo tudo uma estupidez congenial? Que há de a gente pensar de um opróbrio que se mostra e não se esconde, justamente para que o não vejam? Emfim, Tomazia era o que ela de si diz no dialogo. Explicou-se cabalmente. Fugir seria dar o testemunho da sua desonra; mas ficar, para quê? Esperava que os sinais da maternidade se desvanecessem? Era isso. Então que era ela afinal? Mulher.

Inocêncio escreveu de Plimouth à família, anunciando a sua chegada; mandava que lhe dirigissem a primeira carta para Londres, tendo, como vimos, indicado Veneza, quando saia do Rio. E, quando o pai lhe dizia que mandasse receber em Veneza uma carta, já ele estava em Paris, esquecido ou descuidado da que devia estar em Londres. Como aquela cabeça se refez! Trinta contos de réis e uma sede febril de gozar deram-lhe os modos e espíritos de um rapaz criado em delicias, amante do belo, inquieto, nervoso, sempre faminto e sempre resaciado como os grandes gênios!

Não tem história o encontro e enlace com Jacqueline Beaulieu de Rastignac em Paris. É coisa simplicíssima e trivial. A neta dos gentis-homens picardos tinha uma balança na mão, e pesava dois corações: um de quem quer que fosse; o outro do ilustre português viajante. Ora, o português, como visse ouro fio e indecisas as conchas, atirou com alguns punhados de ouro à sua, e fez levantar a outra à cara do concorrente. Porém, constou ao vencedor que o rival buscava azo de o desfeitear. Inocêncio conservava ainda a virtude da prudencia: saiu de Paris para a Bélgica, e daqui para Itália.

De feição que por lá andavam perdidas as cartas da família, e ele dessa perda de todo ponto resignado.

Averiguemos agora o desvio que levaram as cartas de Inocêncio para a sua família. Gervásio, desde que o filho chegou à Europa, uma tão somente recebeu, sendo pelo menos seis, ainda assim, as que o distraido viajante lhe escreveu no espaço de três meses de delirante amor.

A francesa sabia que mr. de Barros era casado. Referira-lhe ele expansivamente sua vida, fazendo-se lastimar como forçado da galé de um matrimonio constrangido. Confidenciou-lhe o divorcio em que vivia sob as mesmas telhas, com a odiada consorte, dando como impracticavel o reconciliarem-se.

Entrou-se a ociosa lorette da curiosidade, até certo ponto útil, de devassar a correspondência do amante. neste delito, a seu ver inocente, lhe ia a ela muito: se o divorcio era sincero, cumpria-lhe reter as bridas ao fausto e ao gosto de ver terras, acomodando-se à vontade do homem para lhe não incutir suspeitas de o querer desbalisar e arruinar com o vulgarissimo desplante das suas colegas; se o divorcio eram meros arrufos de passagem, urgia-lhe estar de sobre-rolda com a mercadoria do seu coração para não perder o lanço de leiloal-a a tempo. Além disto, convinha-lhe outro sim inferir da correspondência a verdade das jactâncias de Inocêncio quanto a bens de fortuna. Cédulas, luizes e libras tinha ele a rôdo, e bem lhos via ela; mas carecia de certificar-se da abundancia do manancial.

Gizado o plano, executou-o no primeiro ensejo.

Comprado pela francesa, o criado, portador da carta, entregou-lh'a. Na do pai ia incluida outra de cinquenta palavras para a esposa. Sem impedimento, porém, da sovinaria dos vocábulos, vinte de eles pelo menos eram de esposo que fingia ter saudades e tal qual pesar de as não ter sentido há mais tempo.

«Lá para o futuro—escrevia ele a Tomazia—hei de tornar a estas terras e tu hás de vir também para ver o que é bonito. Se não fossem as saudades que tenho de ti, andava contente por cá. »

A francesa sorriu-se perversamente e disse entre si:

—Olha que divorcio!... Que lérias me tem cantado o tal sujeito!... Eu me acautelarei...

A carta a Gervásio era mais extensa, e nada explicava respeito a riqueza; todavia, como não solicitava nova remessa, nem dava explicações do capital esbanjado, sobravam provas de haver ainda bastante que dispender com certa independência do pai.

Jacqueline queimou as cartas, e não deixou sair ao rosto denuncia de estar vigilante sobre as ações do fementido Inocêncio.

As subsequentes cartas, escritas de Itália, seguiram igual fado. Observou, porém, a francesa que as frases suaves de mr. de Barros para a esposa iam esfriando à medida que os dias e as noites discorriam, revesadas por delicias da natureza e da arte, entre os dois camaradas de viagem. Isto dava-lhe a ela uma ideia vantajosa da sua pessoa e bem fundada soberba de ir conquistando uma alma menos má.

Quem passava dias amargosissimos era Gervásio José de Barros e sua mulher.

Três meses sem carta do filho, nem novas indirectas da existência dele!

Tomazia escondia-se da sogra por não poder acompanhal-a nas lágrimas, nem estar sinceramente ajoelhada diante do oratório a requerer a divina proteção para seu marido.

—O meu filho morreu! —exclamava a consternada velha D. Tomazia, abraçando-se à afilhada—morreu, minha menina!... Se estivesse vivo, quando teu padrinho lhe disse que tu estavas no teu quinto mês, o meu filho vinha logo para casa!...

E voltava-se outra vez para Deus, cuidando que a nora cooperava nos seus aflictivos rogos, ao tempo que a esposa do chorado Inocêncio ia esconder-se no seu quarto para beber a tragos as delicias de imaginar-se viúva e desapressada das angustias do medo e da vergonha.

Não há aí dizer o desafogo daquele pleito da suposta viúva! Cada vez que o sogro vinha da rua, suado de andar pelos consulados a solicitar de diversos paizes novas do filho morto ou vivo, Tomazia ageitava o mais amargurado rosto que podia, e, saindo ao velho, de braços estendidos e respiradouros arquejantes, perguntava-lhe que novas tinha.

Gervásio rompia em pranto desfeito, esmurraçava os pulsos um contra outro na impaciência da sua dor, e gemia:

—Não sei nada!... Estás sem marido, e eu sem o meu filho! Estou resolvido a ir eu mesmo em cata dele por esse mundo fora!

Acudia então a esposa, tirando do peito gritos pavorosos:

—Não te deixo ir, meu Gervásio, não! Se vais, por lá acabas também, marido do meu coração! Se ele vive, Deus o encaminhará; se morreu, não há remédio, e cedo ou tarde nos virá a certeza para lhe cuidarmos da alma!...

Sobrevieram no entanto aggravantes noticias de muitos naufrágios, e desastres nos caminhos de ferro, durante os três meses últimos. Nada mais possível que ser Inocêncio uma das obscuras vítimas contadas às centenas, sem ter deixado sinal nem documento da sua naturalidade para os competentes avisos.

Todos aceitavam, ainda assim, o caso funesto como suposição; salvo Tomazia, que o defendia como coisa certa, quando Nicolau de Almeida lho impugnava, imaginando o conflito de aparecer-lhe o marido inesperadamente em casa.

As averiguações do ministro dos negócios estrangeiros conseguiram, depois de um mês de inculcas, bem dirigidas pelo representante português em Paris, descobrir a residência de um chavalier de Barros em Milão. Para esta cidade enviou o ministro português as necessárias perguntas, e colheu que o espanhol chamado Barros já tinha saido com passaporte em direção à Sardenha. Prosseguiu o activo indagador na piugada do inquieto viajante, e vingou fazer chegar a Turim uma participação, informando Inocêncio José de Barros do cuidado em que estavam seus pais em Portugal com a falta de suas noticias. Esta participação, recebida pela francesa, não chegou a vê-la Inocêncio, nem duas cartas de Gervásio que lhe iam inclusas, uma encontrada em Londres, outra dirigida a Paris. Mademoiselle Jacqueline Beaulieu de Rastignac respondeu incontinente que as suas cartas se tinham desencaminhado, mas que ia imediatamente assegurar a seus pais que vivia e tinha saúde. Escreveu e assinou: Inocêncio José de Barros.

Espantou-se o homem quando voltou a casa, que a francesa lhe fizesse esta pergunta num tom de chança:

—Diz-me cá: estás bem certo de que vivias com tua mulher tão castamente como se conta de certos santos casados com certas santas?

—Isso que quer dizer?

—Quer dizer o que as palavras explicam—tornou ela modificando para melhor o modo zombeteiro.

—Torna a perguntar—volveu ele.

—Tua mulher, se hoje tivesse um filho...?

—O quê?! —atalhou Inocêncio, fitando-a de frecha com os olhos coruscantes.

—O filho podia chamar-te pai?

—Não! —exclamou ele. —E porque perguntas isso?

—Aí estás tu fora de ti! —acudiu a francesa, tão outra e sisuda de semblante, que parecia não ter tido mais intenção que dizer uma tolice. —Quis experimentar, se é certo o que me tens dito. Agora acredito que falas verdade, meu Barros.

E, com dois beijos calorosos, renasceram nas faces de Inocêncio as boas cores, esmaecidas num instante de pundonor insurgido.

O Sangue

Sinopse

Leia gratuitamente O Sangue, de Camilo Castelo Branco, clássico lusófono em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza o romance em introdução e 21 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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