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O Sangue

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O Sangue

Capítulo 20 · O Sangue

Capítulo XIX

20 de 22 ≈ 11 min de leitura

Argumento

João Ferreira vai na piugada dos fugitivos levando a nova da viuvez a D. Tomazia. A viúva fica satisfeita ao que parece. Noite de pezames na casa das Cangostas. Revelações do comendador Batalha, negociante probo e honesto da Praça do Porto. O que ele diz de Tomazia, e o que os outros dizem dele e da mulher. Sucia de patifes e burros. Gervásio declara que não tem nada de seu, por temer que a nora o queira roubar. Suspendem-se-lhe as lágrimas na repreza do ódio. Abraça-se à mulher, quando as visitas o deixam e desafoga a sua dor por maneira consternadora. E do mais que consta o capítulo abaixo declarado.

Meia hora depois, João Ferreira, o devotado marceneiro, chegou esbofado ao hotel do Pexe, endireitou aos aposentos de Nicolau de Almeida; e como o não visse no quarto, perguntou aflito ao criado:

—O fidalgo de Caminha?

—Chegou aqui, mandou aparelhar os cavalos e partiu.

—Para onde!

—Não sei.

—Iria para Caminha?

—Não sei.

O artista pediu ao dono do hotel que lhe alugasse cavalo para ir levar uma urgente noticia ao fidalgo; mandou recado à filha, e partiu na piugada de Nicolau, caminho de Vila do Conde.

Ao abrir da manhã, avistou além de Casal de Pedro os dois cavaleiros, que reconheceu pela libré do lacaio. Nicolau ouviu brados à retaguarda. Parou, deixou avisinhar o cavaleiro que batia as pernas à espora fita, e reconheceu o marceneiro.

—Que há? —perguntou Almeida, a distancia.

—Que há? morreu o senhor Inocêncio.

—Como?! —volveu Nicolau, enquanto a viúva, a tremer sobre as andilhas, abafa o respirar para não perder uma sílaba das palavras de João Ferreira.

—Lembra-se vossa excelência quando a minha filha disse que ia entrando muita gente para casa da senhora D. Tomazinha?

—Sim.

—Eram negociantes que acompanhavam o senhor Gervásio, onde vinham dois que desembarcaram e trouxeram a noticia de ter morrido na França o senhor Inocêncio. Assim que vossa excelência saiu e mais a senhora, dali a pouco, fecharam-se as janelas. Eu disse logo à minha companheira: «Ó mulher, aquilo é novidade! pois com este calor fecham já as janelas! »—«Que queres tu? (disse ela). Se te parece!... Fugiu-lhe a nora, eles não sabem dela... estão a gritar, e fecham as janelas por isso. » «Não (disse eu) ali há coisa de maior! » Tirei-me dos meus cuidados e desci à rua. Cheguei-me a uns senhores que estavam à porta do senhor Gervásio, e perguntei se havia alguma novidade. —Morreu no Havre (acho que disse isto) o Inocêncio de Barros. em isto vinha saindo um sujeito, e disse aos que estavam: «Vocês não sabem? A mulher do Inocêncio fugiu esta noute. Vai lá em cima uma barafunda de gritos que nem o diabo se entende! As velhas estão todas desmaiadas; o Gervásio está num pasmo mortal. Desgraça deste calibre, nunca eu vi! »—Pus-me à espreita a ver o mais que diziam uns que vinham e outros que iam, e contavam a mesma coisa. Só houve um que disse: «Se querem saber onde está a mulher de Inocêncio, procurem-na no hotel do Pexe, que móra lá o brejeiro (vossa excelência há de perdoar) que lhe andava por aqui a raspar a asa. Eu bem no disse, mas ninguém fez caso. Melhor fizera eu, se tivesse avisado o Gervásio. » «Não, que a esse respeito (disse outro dali, que por sinal era o comendador Batalha) a esse respeito eu lhe conto: não há muito que eu estava aqui na vizinhança metido num pátio à meia noute e um quarto, pouco mais ou menos, e vi botar uma escada de corda a esta janela, e subir um homem, e meter-se lá para dentro, e mais a corda. »—«E você calou-se com isso? —Veio dali outro. —«Calei-me, respondeu o Batalha, porque não sou o almotacé das honras alheias; cada qual que guarde a sua casa. »

Eu assim que ouvi isto, meu fidalgo, despedi por ali arriba, que não sei como não botei os fidalgos pela boca fora... Depois, foi um raio por essa estrada fora catrapós, que trago aqui o garrano a dar as últimas. Aqui tem vossa excelência o que há. Sirvo para amigo ou não?

—É um bom, e não sei se o meu único amigo, senhor Ferreira—disse Nicolau, apertando-lhe a mão.

—Não ouviu dizer nada do meu filhinho? —perguntou a viúva.

—Não, minha senhora. Ninguém lá falou no menino.

—E agora? que fazes, Nicolau? —tornou ela, voltando-se para o pai de seu filho.

—Tudo estava salvo, se não foges... murmurou o de Caminha muito concentrado.

—Mas posso agora ir... acudiu ela.

—Segundo desatino—obstou Nicolau. —Estás prohibida de deliberar, minha filha—prosseguiu o moço em tom de suave preceito. —Senhor Ferreira, siga-nos para Vila do Conde: lá pensaremos. Não há razões para precipitar qualquer resolução. Estás viúva, estás livre, Tomazia. O teu filho hás de reclamal-o: ninguém tem mais direito do que tu a possuil-o. Agora estão as leis por ti. Sossega. É uma questão de pouco tempo.

Deixá-la expandir agora a sua silenciosa alegria. Aquilo sim, que é tragar liberdade a sorvos deliciosos. Se ali não fossem duas testemunhas dos seus transportes, Tomazia pediria a Nicolau que a deixasse desafogar em gritos de exultação bem aconchegada do seio dele. O filhinho é dela: disse-lh'o tão sobre o seguro o pai! É seu: dentro em pouco, poderá despir-lhe o luto; e, quando ele souber proferir a palavra pai, ninguém lhe dirá morreu! Que lhe faz a ela que a riqueza de Gervásio não seja para seu filho? O pai é tão rico, é tão brioso, que não há de querer que o seu menino se apelide Barros para suceder na herança de algumas duzias de contos! Fluctuando de ideia em ideia, disputada por uma à alegria da outra, de vez em quando foge-lhe um suspiro desafogado por entre surrisos que lhe desbordam do seio.

Nicolau, porém, vai triste: sente cair-lhe e queimar-lhe sobre o coração uma torrente de lágrimas; relucta por tirar a consciência de sob o peso de um cadáver. Quer ele imaginar que a sua misteriosa amargura são parvulesas de poeta, e de amador novel que ainda não tem abroquelado o peito para rebater os golpes do remorso. Quer e sucumbe. Vai pois mais amargurado do que virera até ao momento em que lhe disseram: Caminha a passo; não fujas; que o marido dessa mulher é morto; e o desonrado pai que ficou a choral-o é um ancião.

Ai! e como o deplorável velho chorava, apertando ao seio a criancinha, em aquela hora!

—Não tens pai nem mãe! —exclamava ele com a eloquência nascida a súbitas das ingentisssimas agonias. —Como ela te deixou, anjinho, entregue a uns velhos que não podem viver muito!...

E o comendador Batalha, que não o desamparára em todo o curso da noite, dizia-lhe:

—Deixá-la ir: nunca este menino saiba que teve tal mãe! E guarde-se de que essa infame lhe entre a sua porta. Ela hoje é capaz de vir buscar o filho e chamar-se senhora da fortuna que há de ser dele e da que lhe cabe.

—Ela! —exclamou de salto o velho—ela pôr mão em dinheiro do meu filho e do meu neto!... Isso é mais fácil eu ajuntar o valor de tudo que tenho nesta casa, e pôr-lhe o fogo! Sou capaz de o fazer... E de mais—prosseguiu Gervásio subitamente inspirado e mais enérgico para que todos ouvissem—não tenho nada de meu. Tudo o que aí está é os dotes de meus irmãos e irmãs. Não tenho nada que dar a essa mulher...

—Mas que ingrata! —dizia D. Tomazia, na saleta vizinha, entre soluços, à esposa do comendador Batalha—que ingrata aquela!... Trazel-a eu pobrezinha, creal-a, dar-lhe o meu filho... o meu querido filho... que eu não torno a ver... —e lançava-se por terra, ferindo o rosto nas cadeiras, e escabujando nos braços das cunhadas, que mal podiam acudir aos transes alheios.

—Eu já soube esta noite lá fora quem era o tal desaforado—dizia o comendador ao auditório fúnebre, que de vez em quando intermitia no estilo elegíaco algumas diatribes politicas a José Passos e outros propugnadores da revolução de maio daquele ano—bem sei quem ele era... e agora me arrepelo de não ter avisado este pobre chefe de família; que eu bem o vi subir pela escada de corda...

—Havia de ser—disse o negociante Abreu ao ouvido do negociante Leite—havia de ser quando ele se preparava para subir pela escada de páo, e não de córda, para o quarto da mulher do Simão Lopes que mora três portas abaixo do lado de lá.

—Pois era isso... —confirmou o negociante Leite—eu já de lá o vi sair de madrugada, e às dez horas encontrei-o no escritório do Simão a dizer que o mundo estava desmoralisado, e que sabia de três infames mulheres casadas que traziam nas praças e nos cafés a honra dos seus maridos às vaias dos folhetinistas e de outros calafrios desta laia.

—Pois aquilo é um tratante!... Olha, olha, como ele se explica.

—Estes malvados—proseguia o comendador Batalha, batendo murros nas próprias pernas—estes malvados que desviam do seu dever as senhoras honestas, e cavam a ruína domestica das famílias, deviam ser mortos a tiro como cães damnados. E elas então? eu, todos sabem que sou casado. Graças aos céus, topei mulher que me deixa andar com a cara descoberta...

—Aquilo é mentira—disse o negociante Abreu ao ouvido do negociante Leite.

—Ora diz-mo a mim! —segredou o outro. —A casa dele ninguém sobe com escada de corda, porque a estrada para o coração da mulher é pela trapeira, há mais de doze anos. Bem sabes que o Raimundo Braga, vizinho dela...

—Se sei!... Deixa-m'o ouvir.

O comendador saltára do assumpto, porque um dos auditores tinha escarrado, querendo chamar com tão indecente sinal a atenção de Leite e de Abreu.

—Faz o senhor Gervásio o que deve em não consentir que essa mulher perdida lhe entre em casa, nem leve o pequeno—prosseguiu o comendador, solicitando com os circumvagantes olhos o apoio do auditório. —Segure-se, e quanto antes, meu amigo. Estamos aqui todos promptos para tudo que for necessário. Não sei se o troca-tintas do sedutor tem de seu; mas acho que pouco terá. É destes cavalheirotes de aldeia que colhem cem rasas de milho, e vendem quatro árvores quando vem ao Porto. Se é o que eu penso, ele há de querer comer dela, e não tarda por aí a justiça a vir intimal-o para inventario.

—A mim? —atalhou Gervásio—está bem servida a justiça comigo! Já disse que não tenho nada de meu. Devo a cada um de quatro irmãos que aí estão dez mil crusados de dote afora os juros. As quintas do Douro estão captivas dos dotes, e mais esta casa. O vinho que por aí está nos armazens já o vendi. Estou sem nada, logo que pagar o que devo.

—Faz muito bem! —obtemperou radiosamente o comendador—assim é que se ensinam os bigorrilhas e as... e as... adulteras.

—Não sabe o nome da mulher dele... —cochichou Abreu à orelha de Leite.

—É mais burro que honrado—adicionou o outro.

Esta farça fúnebre de pêsames, cuja exactidão carecia de mais espaço e relêvo, passava assim num lance de supremo infortúnio. As lágrimas intermitentes de Gervásio tinham perdido toda a sua pungitiva uncção. Quem ali fosse para compenetrar-se do funeral espetáculo de um velho, chorando um filho morto e simultaneamente infamado, sairia rindo ou amaldiçoando quem tão vilissima tempera deu ao homem.

Quando Gervásio, ao raiar do sol, sentiu pesar-lhe a cabeça carecida de repouso e a recostou para os braços cruzados sobre o peito, os hospedes evacuaram de mansinho a sala, queixando-se todos de enxaqueca, e convidando-se para ir tomar chocolate ao botequim da rua de Santo Antônio.

Gervásio sentiu que uns braços o achegavam do seio e uma face branda lhe animava as cãs. Olhou, e viu sua mulher, que lhe dizia:

—Ó meu pobre homem, se nos deixassem chorar sozinhos...

Abraçaram-se estremecidamente. As primeiras lágrimas de desafogo foram aquelas.

O Sangue

Sinopse

Leia gratuitamente O Sangue, de Camilo Castelo Branco, clássico lusófono em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza o romance em introdução e 21 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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