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O Sangue

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O Sangue

Capítulo 21 · O Sangue

Capítulo XX

21 de 22 ≈ 13 min de leitura

Argumento

De como a formosa viúva se embalava nas serenas águas do Minho, e o que diziam a respeito de varias coisas os ditosissimos amantes. Requerimentos, embargos, accordãos e outros feitos das justiças destes reinos. Gervásio escapa-se com o neto. Nicolau de Almeida prova de um modo vulgar e sabido que a sociedade devia chamar-se uma porcaria, se a palavra não fosse plebea e repugnante a ouvidos cerimoniosos. O comendador Batalha depois que revessou do bucho a ucharia encruada. As jornalistas pregoam as virtudes de Tomazia, com outras tolices ao mesmo respeito.

D. Tomazia, a viúva, e Nicolau de Almeida deliciavam-se campestremente nas inspirativas margens do rio Minho.

Vestia de crepe a formosa. Era-lhe realce o escuro. Trajada de cores festivas, a alma saía-lhe ao rosto a dar reflexos de alegria aos lutos.

Nicolau remava no batel, por baixo de um docel de salgueiros. Os remos trapeavam cadentes, de uma ourela para outra do rio. Cada vez que aproavam a terra e abicavam por entre os bosquesinhos espelhados em água, saíam da frescura os rouxinões esvoaçados, e iam mais longe emboscar-se em algum amieiral, onde a lua bem sabia que era esperada dos seus cantores nocturnos.

—És feliz? —perguntou-lhe Nicolau secretamente vaidoso de abrir tesouros de felicidade para aquela mulher.

—Não... —murmurou ela sorrindo-lhe meiguices de quem pede perdão do agravo. —Falta-me o nosso filho.

—Não te basta a certeza de que ele há de vir?

—E a saudade? e o medo que mo tirem ou o façam desaparecer?...

—Não ganhavam com isso nada.

—Mas se meu padrinho cuidar que ele é seu neto?...

—Nem assim lhe assiste o direito de to negar.

—Mas quem sabe se o Inocêncio deixou alguma declaração...

—De que o filho não era dele?

—Sim...

—Mais forte rasão para que to não queiram, e comecem desde já um processo a provar a ilegitimidade do filho adulterino. Seja como for, minha filha, lá tens ótimo procurador no Porto. Pode ser que a esta hora o nosso anginho venha esvoaçando para nós. Teu sogro há de achar-te louvável o procedimento, porque não pedes herança, nem sequer as tuas joias. Pedes o filho e renuncias a ter quinhão dos bens de teu marido.

—E se eles mo não entregarem?

—Vou eu buscá-lo. Entrarei à presença de Gervásio, e direi: «Este menino é meu filho. Não tem desta casa uma tábua nem um farrapo. Gosem tranquilos os seus bens de fortuna, que esta criança, quando for homem, nem sequer há de saber que sua mãe foi casada com um chamado Inocêncio. »

—E tu ias dizer isso? —atalhou exultantemente a viúva.

—Com toda a certeza, se o escândalo for necessário.

—Não há de ser... Eles dão-me a criancinha.

O procurador de D. Tomazia apresentou ao juiz o requerimento da sua constituinte, pedindo a entrega do filho. Deferiu o juiz. Gervásio José de Barros saiu com embargos ao despacho. Alegava o porte imoral da viúva que não podia ser boa educadora do filho. Desfiavam os artigos a história das adulteras invasões do amante por escada de corda, consoante as referira o comendador Batalha. As testemunhas de vista eram já sobejas para justificar o crime, e pelo conseguinte a devassidão da viúva, concubinaria de Nicolau de Almeida. Acrescentava o líbelo que Inocêncio José de Barros morrera de paixão e vergonha.

Foram aceitos os embargos.

O procurador agravou: não teve provimento.

A conjuração contra Tomazia subia das praças aos tribunais. Os juízes da Relação, no seu acordão, ajustavam à aggravante o epíteto de «infame».

Nicolau de Almeida, informado do despacho da causa em segunda instancia, auctorisou o procurador a declarar em nome da sua constituinte que o filho de Tomazia não era filho de Inocêncio.

O agente de causas foi retido pelo pudor de sua própria pessoa. Respondeu que regeitava a procuração, e dificilmente encontraria advogado que assignasse a original e de nenhum modo desculpável declaração.

Os amigos do fidalgo admoestaram-no a que não expozesse o nome de D. Tomazia, se a presava tanto como era de presumir; que semelhante requerimento sobrepujava o cumulo do despejo; que, embora o mundo a considerasse criminosa, não fosse ela dobrar a fealdade da sua culpa, revelando segredos que a livelariam ombro por ombro das mulheres derrancadas até onde já não resta sentimento de vergonha.

Caiu em si Nicolau, e voltou o espirito para a urdidura de traça heroica e sumária. Cogitava em raptar a criança.

Decorreram quinze dias de plano, em que entrava o marceneiro, auctorisado a segurar à ama do menino uma avultada independência.

Outros quinze dias espiou João Ferreira os passos da ama. Não a viu. As janelas de Gervásio nunca mais se abriram, e as portas meio cerradas escassamente deixavam passar as visitas frequentes, os bons amigos do negociante que lhe alvidravam alienar fraudulentamente os seus haveres e mudar de país.

Os mais cordatos asseguravam-lhe que o direito de Tomazia à posse do filho fora denegado iniquamente, visto que nenhum processo a espoliára dos direitos maternos: precaviam-no, pois, contra as novas tentativas dela, assim que o ódio geral se desvanecesse e a lei funcionasse mais desassombrada.

Temeu o velho e abraçou o alvitre.

Deu os dotes a seus irmãos, segurados nos bens rústicos e urbanos. Liquidou as especies comerciais, embolçou o máximo dos seus haveres em dinheiro, lavrou títulos capciosos para legalisar as vendas, e saiu furtivamente para Inglaterra com a esposa, e o seu Pedro nos braços da ama.

Raros amigos lhe souberam o destino.

Chegou a nova a Caminha, levada pelo marceneiro. Nicolau chorou amargamente. Aquele extremoso amor de pai entranhára-lh'o assim a Providência para castigo. São inescrutaveis e invisiveis os caminhos por onde baixam do céu as flechas que trespassam as almas. Até sucede exasperarem-se em ardor de inferno sentimentos sacratíssimos! Vejam onde as chamas começaram a queimar: no coração de pai! tão sublime afeto convertido em lança penetrante!

Tomazia sofreu menos. Levantou clamores de apiedar feras, caiu sem accôrdo nos braços de Nicolau; mas sofreu menos. Volvidos meses, quando ela estiver esquecida do filho, Nicolau de Almeida, que apenas vira a criança no baptistério, enxugará as lágrimas cada vez que vir um menino nos braços de seu pai.

Agora, leitores, deixem correr os anos. A vida vai depressa. E, nos romances, quando ela entra no trilho comum, a rapidez salva o leitor do fastio.

Em 1847 Nicolau de Almeida era já pai de um menino chamado Lopo. Este filho nasceu legitimo... A sã moral toma aqui ar.

Nasceu legitimo. Um sacerdote, com pouquíssimo trabalho, duas frases latinas e duas portuguezas, um meneio de estola, uma benção, e de fora os termos do ritual, duas graçolas espirituosas de sua lavra, santificou pai, mãe e filho.

Tomazia não se debulhou em lágrimas de reconhecimento. Bastava-lhe saber que era amada antes de ser esposa. O fidalgo também não engrandeceu o quilate do seu feito. O que ele havia dado mais valioso àquela mulher, dera-lh'o antes: a alma. O que o esposo fez de mais, foi chamar para si os tios de Tomazia, os irmãos e irmãs do bravo capitão Joaquim Alves, que eram pobres.

Um dia, em 1849, Nicolau de Almeida disse a Tomazia:

—O nosso filho Pedro está em Londres.

—Ah! soubeste-o?

—Disse-mo no Porto um homem que viu Gervásio de Barros em Londres.

—E que intentas fazer, meu filho?

—Que hei de eu fazer? esperar. Não questionemos a posse da criança em sacrifício ao teu nome. Quando ele poder entender-me, quando o sangue lhe agitar o coração na minha presença, então lhe direi: «sou teu pai! »

Passados instantes, tomou nos braços o pequenito Lopo, mirou-o muito de chapa, e disse, coberto de lágrimas:

—Pede a Deus que me dê o teu irmãosinho.

Tomazia cobriu o rosto com as mãos, inclinou a cabeça para o seio e soluçou, murmurando:

—Não torno a vê-lo...

—Hás de ver! replicou Nicolau com veemência.

Em 1850, disse o fidalgo de Caminha a sua mulher:

—Faz hoje quatro anos que o teu nome no Porto era um como ferro que fazia golfar a posthêma da maledicência de aqueles peitos. Desejo que tu conheças de perto as cavernas onde não pôde chegar a lanceta do teu nome. Há lá dentro pus que não saiu, quando to cuspiram às costas. Prepara-te. Vamos passar dois meses ao Porto.

—Por quem és, meu filho, não vamos... —acudiu Tomazia.

—Vamos, menina. Pois não queres conhecer as delicias da rehabilitação? Sabes lá tu que prazer ensoberbece a gente, quando nos vemos de perto com os detraidores de outro tempo, e então reconhecemos quanto eramos grandes, à vista dos abjectos inimigos que tivemos?... Ir ao Porto, é coisa que eu te peço de joelhos, se for necessário—concluiu Nicolau acariciando-a.

—Vamos, filho. Se me fizeram chorar, tu me consolarás.

—Quem te há de fazer chorar? Vais topar toda a gente à porfia de te fazer rir... E hás de rir.

Era um palácio com quatro salões corridos, e doze janelas a jorrarem luz e estrondosas harmonias. As carruagens, entralhando-se à porta do palácio, despejavam comendadores relampadejantes de venéras com os braços arqueados, onde poisavam leveiras como arvéolas umas mulheres que volitavam com suas azas de alvissimas gazes. As baronezas nutridas pisavam ponderosamente os tapetes do vasto peristilo do palácio, pedindo aos maridos que lhes desfizessem os refegos da saia, mas com disfarce. Um criado com borlas e galões de ouro tirava pela sineta, assim que ouvia o fremir das sedas no pátio. A meio da escada, descia então o dono da casa, um mancebo de 26 anos, pálido, de olhos negros, e sorriso torvo. Inclinava-se diante das houris que iam povoar o seu paraíso, e, recurvando os braços, as conduzia até onde estava uma mulher loura, grave e linda. Então voltando-se às senhoras, dizia com palaciano entono:

—Apresento a vossas excelências Tomazia de Almeida, minha mulher.

E a profusão da ceia fez supôr que Lucullo e Cresso e Apício morreram de fome.

Um conviva, quase afogado pela onda do champagne, e opilado de aves frias que se lhe encruavam no estomago, avençou-se com um criado para lhe ensinar a parte da casa, onde ele pudesse obedecer aos ímpetos de um vomitório involuntario: era o comendador Batalha. Despejada a ucharia mal esmoida que lhe tomava as cavidades intestinas, sem resalva de uma em que tivera a consciência, foi dizer a D. Tomazia que Gervásio José de Barros, como judeu que era, alienára indignamente quanto tinha, posto o intento em roubal-a.

—Mas esteja vossa excelência certa—acrescentava ele—de que seu filho vem a herdar o melhor de oitenta contos. Se for preciso, eu direi a vossa excelência com quem foram feitos os contractos fraudulentos.

D. Tomazia não respondeu. Entreviu nos grupos o marido que a procurava com os olhos, e rebatia, cerrando os lábios, o impulso do riso.

Ao outro dia, a imprensa periódica, no esmero com que cinzelou o estilo das noticias, bem deixava entender que escrevia para a eternidade.

Da dona da casa, diziam que associava à fidalguia das maneiras uma tamanha gentileza e fidalgo porte que o primor das joias riquissimas era de seus enfeites o que menos resplandecia.

Que a flor da sociedade portuense convergira, à competência de galas, aos salões de suas excelências; sendo tantas as «notabilidades» que não sabia o redator estremar primazias de belezas e ainda menos de toiletes.

Que a elegante esposa do excelentíssimo Almeida surpreenderia com as suas peregrinas graças a quem a não tivesse já admirado entre as mais preclaras formosuras do Porto, onde sua excelência tinha nascido.

Que às cinco da manhã parecia ter começado o baile, sendo àquela hora tal o delírio e entusiasmo, que os pares invadiam as quatro salas, arrebatados na febre do cotillon.

Que a excelentíssima Tomazia de Almeida apenas dançára duas quadrilhas, concedendo a solicitada honra de parceira aos senhores barão da Sola e visconde do Tijolo, que tiveram a fortuna de ouvir sua excelência descrever as pitorescas orlas dos rios Lima e Minho, onde a virtuosa e abastada senhora possui riquissimas quintas.

«Suas excelências—concluia o poeta das locais—tencionam ainda abrir segunda vez as suas esplendidas salas na estação invernosa. Parabéns à nata da esbelta cidade da Virgem! que só assim, na esperança de renovados júbilos, poderemos ir mitigando as saudades da rápida noite que ontem nos proporcionou a liberalidade e finissimo gosto desta fidalga família, » etc. , etc.

Nicolau de Almeida, lido o terceiro periódico, entre frouxos de riso, quedou-se triste e disse gravemente:

—Principia agora o nojo. Viste a sociedade, Tomazia? Estás contente com a rehabilitaçao?

Tomazia sorriu-se, beijou as mãos do esposo, e respondeu:

—De que me serve a mim isto? Tu é que me fizeste o que sou...

—E receias que estas mulheres façam de ti o que elas são?

—Não receio... tu me defenderás, meu amor.

—Entendes pois que esta gente não pode reabilitar ninguém?... Vamos então embora. Levemos o nosso filho para as árvores do Minho, que este ar tem veneno que faz mal às crianças. Está aqui o bafejo acre da podridão interior da ilustre canalha, que há quatro anos te levaria a pontapés das portas dos juízes, se tu viesses pedir teu filho, e o filho fosse de teu marido, e não tivesses pão que lhe dar senão o dos Barros das Cangostas.

O Sangue

Sinopse

Leia gratuitamente O Sangue, de Camilo Castelo Branco, clássico lusófono em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza o romance em introdução e 21 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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