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O Bem e o Mal

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O Bem e o Mal

Capítulo 3 · O Bem e o Mal

Capítulo II

3 de 22 ≈ 18 min de leitura

A mulher ajoelhada à sombra do escuro arco, era Peregrina, irmã do vigário.

Viera de longe para ali com seu irmão, sacerdote pobre, que devia a sua ordenação ao bemfazer do padrinho, velho fidalgo de Pinhel. Enquanto João se ordenava em Bragança, Peregrina vivera e educara-se sob o amparo do padrinho de seu irmão, e querida das filhas do fidalgo, que a vestiam de seus vestidos, e a sentavam entre si à mesa.

Disse padre João a sua missa nova na capela do benfeitor, e ali ficou estimado como da família, até que, por diligencias do fidalgo, recebeu a apresentação na igreja de S. Julião da Serra.

Peregrina beijou a mão do velho caridoso, beijou o rosto de suas amigas de infância, e saiu com o presbítero em demanda da vetusta igreja. Os paroquianos, posto que descontentes ao verem semblantes desconhecidos no adro dos seus mortos, disseram:

[22]

«Assim é que vinha o pastor de Vila Cova com a irmã».

Era melancólico o presbitério; as árvores ressequidas; o chão árido; as penedias calvas; os tectos assentes em vigas; as paredes interiores afumadas; os taboados movediços. Ali, as primaveras passariam despresentidas, se não fosse o azulejar-se o céu, e os festões das giestas na serra, e o calar-se o estridor das torrentes despenhadas dos cerros das montanhas.

Peregrina, quando ali se viu, por um anoutecer de novembro, disse:

—Como isto é triste e feio!

Padre João olhou em redor de si, e respondeu:

—Irmã, este chão triste é que nos há de dar o pão santo da independência. Bemdigamos o coração generoso dos nossos amigos, que me deram terra onde lavrar com minhas próprias mãos o nosso sustento de cada dia. A casa parece-nos agora triste, porque é noute. Amanhã um raio de sol nos virá alegrar estas paredes.

E, como assim falasse, o vigário desceu ao adro, subiu sobre uma peanha tosca, travou da corda que movia o sino único do simulacro de torre, e tangeu as nove badaladas de Ave-Marias. Os lavradores, que iam passando, descobriram-se, pararam, oraram, benzeram-se, e seguiram seu caminho murmurando:

—Os padres de Vila Cova faziam o mesmo. Quer Deus que todos os nossos vigários sejam bons e devotos.

Entretanto, Peregrina, rezada a oração final da sua prece da tarde, alongou os olhos às sombrias serras que avultavam para o lado de Pinhel, e chorou. Eram saudades das filhas do benfeitor, e do casal onde nascera, e onde seus pais, caseiros do fidalgo, haviam morrido.

[23]

A irmã do vigário tinha 18 anos. Era dotada de abundantes graças, compleição menos robusta que o ordinário das moças aldeãs, senhoril talvez extraordinariamente, rica de negros cabelos, formosa de olhos, doce e meiga no dizer, modestissima, parca em sorrisos, meditativa, laboriosa, e muito dada à oração.

Costumava ela erguer-se ante-manhã, quando ouvia os passos do irmão no sobrado vizinho do seu quarto. O vigário madrugava assim para dizer missa à hora em que os paroquianos saiam às suas lavouras. Peregrina acendia o lume, aconchegava o púcaro das brazas, cegava as couves, ia assistir à missa do irmão, e vinha depois cosinhar o caldo que era a refeição matinal do sacerdote e dela.

Uma grande parte do clero, que pastorêa almas, pode bem ser que me não aceite a verosimilhança deste caldo de couves. Espero que se desçam de sua incredulidade, se eu lhes disser que a côngrua e pé-de-altar de S. Julião da Serra não davam para chá, naquele tempo em que os direitos da charopada chineza eram enormes, e os paladares eram genuinamente portugueses, lá de aquelas serranias, se saboreavam de preferencia no salutar cozimento de couves adubadas de saboroso unto. Ora eu, que nesta fidalga e francesa Lisboa tenho sido espetáculo de riso, pedindo nos hoteis, e recomendando aos meus amigos o caldo verde, insisto contumazmente em me expôr à mofa da gente culta, dando à estampa, neste logar e para meu duradouro opprobiro, o panegirico do caldo verde, caldo de meus avós, e de padre João e de sua irmã.

em aquela madrugada, em que Ladislau fora celebrar o aniversário da morte de seu tio, orando na igreja, Peregrina demorára-se a rezar, finda a missa, porque seu [24] irmão entrara no confessionário. Dera ela conta de ajoelhar-se ali perto de si o moço, já quando o templo estava vazio. Soffreou, enquanto pôde, sua curiosidade, que teimava em querer conhecer o recolhido devoto. Não era costume seu voltar a cabeça a um lado ou outro, quando falava a Deus; porém, tanta força lhe fazia o animo para o sitio onde estava o moço que, apesar de profanação, aventuro-me a supor que o coração lhe estava tirando para ali os olhos por uns filamentos misteriosos que, alguma vez, a anatomia há de encontrar entre olhos e coração.

Foi o raio de sol nascente, vertido pela fresta esguia da capela-mór, que de todo em todo aliciou Peregrina a olhar. Um raio do sol do Senhor a alumiar-lhes o escuro do templo para se verem! Donoso e sublime confidente de duas almas carecidas uma da outra! Nunca tão auspiciosos preludios de um amor começaram nesta vida. São dois moços: ela virgem, e formosa, e imaculada; ele gentil, puro, e ali ajoelhado em consultação de seu destino. A que bendita e predita hora se entreluzem as duas almas, embebidas em Deus e subitamente encontradas no mesmo arco da igreja, em que os esposos costumam receber as bençãos!

Ladislau tinha as mãos erguidas, quando encarou no rosto de Peregrina. As mãos ficaram na postura fervorosa; mas a oração, cortada em meio, olvidou-se-lhe. E ela, que entrepassava nos dedos as contas do seu rozario, continuou a dizer as palavras santas, mas sem ouvil-as na audição interior do espirito.

Ambos a um tempo acordaram da fixidez da sua contemplação, e córaram. Ladislau baixou os olhos, e ela ergueu-os. Um parece que pedia contas à terra de uma delicia, que nunca lhe havia dado nem presagiado; outro [25] ia no céu como a decifrar o enigma da sensação nunca experimentada.

Instantes depois, padre João apareceu à porta da sacristia, e mandou à irmã que acendesse os castiçais do altar-mór, enquanto ele se revestia para ministrar a sagrada comunhão à confessada. Ladislau, como ouvisse as ordens do vigário a Peregrina, ergueu-se e disse:

—Eu vou, se o sr. vigário quer. Já sei este serviço, que era minha obrigação, em tempo de meus tios, que Deus haja.

Padre João já conhecia o sobrinho do defuncto Praxedes, como primeiro lavrador da freguesia, e moço de estudo e virtudes, segundo lhe disse o regedor da parochia, e o gravissimo mordomo do orago confirmára.

Aceitou o vigário o serviço a que Ladislau se teria oferecido, ainda mesmo que a presença de Peregrina o não movesse à delicadeza. Esta delicadeza era instinctiva certamente, e ensinada pelo coração, a fundamental de todos os ceremoniaes, que nas activissimas cidades os meninos aprendem em livros, como se a cortesia com damas não fosse página escrita no mais diamantino do peito desde que abrimos olhos para vel-as.

Accendeu Ladislau as velas, e proveu de água o jarro da comunhão, enquanto o vigário se paramentava. Subiu o ostiário ao altar, abriu o sacrário e tomou a partícula da píxide. Uma nuvem escura de trovoada iminente entoldára o sol, e a capela-mór voltava à frouxa luz crepuscular. O ministro, severissimo em todo o ritual de seu sagrado encargo, como não fiasse da claridade de uma só vela a perfeita passagem da hóstia à língua da comungante, acenou à irmã para que tomasse uma vela do outro lado.

Ladislau tremeu quando a viu tão perto de si; mas [26] assim mesmo, não desatremou em desconcerto com a urbanidade: entregou-lhe o círio, que tinha e foi tomar outro da tocheira.

Em verdade lhes digo, meus sensíveis leitores, que eu desejava ter assim um painel, para serem dois os papeis da minha estimação. O que já possuo é uma menina lagrimosa, que está dando de comer ao seu cão moribundo, que não vê o alimento mas ainda a vê a ela, e parece despedir-se a chorar. O outro quadro queria eu que fosse o vigário de S. Julião da Serra pendido à fronte humilde da cristã; de um lado, Peregrina com o rosto banhado do escarlate da flama, que ela quer afastar de si, adivinhando que os olhos do moço a estão contemplando; do outro lado, Ladislau, involuntario, cativo, alheado de si, sem poder desfital-a. Eis aqui as minhas quatro figuras todas absorvidas em amor de Deus. O padre está enlevado na suprema majestade do seu ministério: a penitente está-se identificando a divindade do corpo e sangue de Jesus; Ladislau, em seu silencioso espasmo, está psalmeando o himo de graça que o primeiro homem deu ao Senhor, no instante de ver inclinado a si um seio amparador de mulher. E ela, Peregrina? De ti, purpureada virgem, só podem sentir teus êxtase, e contar-no'l-os as tuas iguaís neste mundo, as que tiveram simultaneamente a intuição do amor e a visão do primeiro homem amado. Todos, pois, enlevados em aspirar divino: o sacerdote e a comungante pela consciência, os outros pelo coração, aberto em perfumes que queimam a Deus o mais selecto e fino bago do seu incenso.

Findo o ato sacramental, o padre subiu os dois degraus do altar, cerrou o sacrário, ajoelhou, e voltou à sacristia. Ladislau ficou em pé, rente com o tocheiro de [27] castanho tosco, de onde tirara o círio. Peregrina foi depor a sua vela sobre a credencia, desceu ao fundo da igreja saudando os quatro altares laterais, e saiu do adro, e logo entrou na vigairaria. Ladislau, viu-a desaparecer, e disse de sua consciência para Deus: «Não tornarei a vê-la? »

Assomou o pastor no limiar da sacristia, e disse a Ladislau, que ia saindo:

—Desejo tel-o em minha companhia algum pouquinho tempo, sr. Ladislau. Se não vai com pressa, tenha a bondade de esperar, que eu faço oração, e vou já.

—Espero no adro o tempo que o sr. reverendo vigário quiser.

—Por que há de ser no adro e não em casa? —tornou padre João. —Entre na residência, que a porta do sobrado está aberta.

Ladislau esperou no adro, e, enquanto esperava, tinha os olhos na janelinha da saleta, em que seu tio costumava estar nas noites quentes, esperando os freguezes, que voltavam das ceifas, e a todos falava, mandando-os sentar nos troços brutos de pedra, que ali tinham ficado de uma casa incendiada pelos franceses.

Assim contemplativo, viu ele chegar à janela a irmã do vigário, e esconder-se, apenas o encarou, surprehendida.

Que instantes aqueles para ambos! Que céus e céus, vistos à lus de um relâmpago! Que extensos poemas de lágrimas costuma a saudade fazer depois com as reminiscências de uns momentos tão fugitivos!

Saiu o vigário do templo, fechou a porta, e disse:

—Estava o sr. Ladislau a recordar-se de seus tios?... Não admira, que eu mesmo, sem os ter conhecido, lhes respeito a memoria, pelos grandes louvores que ouço dar [28] às suas virtudes. Basta ver o que este bom povo é, para se avaliar as excelências de quem assim o educou. O espirito dos dois últimos e defuntos vigários de S. Julião da Serra está ainda com o seu rebanho. Fácil me há de ser a mim, homem sem virtude nem experiência, pastoreal-o. Mais tenho que aprender que ensinar.

E, no sentido destas humildes palavras, foi dizendo outras, que se insinuavam ao coração do moço já cativo do conciliador semblante do sacerdote; e assim entraram na casinha paroquial.

—Peregrina—disse o padre à irmã que os vira subir, e, sem saber porque, se alvoroçara—olha que temos hospede; vê lá como te sais; não queiras que o nosso convidado nos julgue forretas. Almoço de abade rico, ouviste?

A moça não respondeu. Affastou da fogueira o caldo que fervia, lançou alguns ovos à certã, e, tão depressa os cosinhou, foi à modesta arca do seu fragal tirar a melhor toalha, e os garfos de ferro ainda lusidios em primeiro uso.

Peregrina, posto o almoço na mesa, sentou-se no seu logar de costume, que era um banquinho tosco achegado do escano. A mesa, construida de uma só taboa afumada, engonçava naquele adorno da lareira, talvez tão antigo como a vigairaria de S. Julião da Serra.

Quando a moça se assentou, disse Ladislau:

—Aquele banco era o logar de minha tia, que Deus tem!

E ficou contemplativo.

—E eu—disse padre João—estou no logar de seu tio, e o sr. Ladislau vem sentar-se no logar que era seu.

Estava já na mesa a travessa de barro vidrado com a [29] fritada de ovos e farinha triga. O vigário sorriu-se, e disse:

—Na mesa de seu tio havia um prato e um talher para cada pessoa?

Ladislau, que não sabia o significado da palavra «talher», respondeu:

—Comiamos todos do mesmo prato; e na minha casa de Vila Cova, tanto meu pai como meus tios comiamos à mesma mesa dos criados e jornaleiros.

—Como há trezentos anos—ajuntou o padre—como os patriarchas idumeos com os seus servos e escravos. O sr. Ladislau ainda não viu, à luz da civilização, a grande distancia a que está dos seus criados. Vive, por enquanto, na fé de que senhor e servo são homens filhos do mesmo pai, um favorecido, outro desfavorecido pelo acaso do nascimento... O sr. não lê as gazetas? —perguntou o vigário abruptamente.

—Não leio, nem as vi nunca—respondeu o moço—Ouvi dizer a meu tio que um padre, daqui três léguas, quando acertava de encontrar-se com ele na feira de Pinhel, lhe mostrava gazetas.

—Pois—tornou o padre—as gazetas são uns papeis escritos em letra redonda, criados e sustentados para demonstrarem que todos os homens tem direitos iguais. Muito me admira que seus avós e o senhor tenham praticado a egualdade sem terem lido as gazetas! Provavelmente em casa dos Militões de Vila Cova lia-se o Evangelho de Jesus Nazareno.

—Lia, sim, senhor.

—Só assim pode explicar-se a virtude sem a doutrinação das gazetas. Dizem que elas são o baluarte da liberdade, da egualdade, e da fraternidade; e eu estou em defender que o sermão da montanha, prégado pelo [30] filho de Deus há mil e oitocentos anos, e o sermão da natureza, que sem cessar se está ouvindo, bastam para fazer um homem irmão e amigo do outro homem, por amor de Deus, que é pai de todos.

Posto que não excedesse os vinte e oito anos, o vigário, no pausado e reflectido do seu dizer, competia com os cinquenta anos de algum egresso daquele tempo.

As faculdades deste bem-fadado ministro da verdade tinham amadurado antes da sasão própria. Costuma ser a desgraça quem antecipa, com a precoce experiência, a reflexão; porém observa-se que o juízo—o que comumente se chama siso—proveniente das lições do infortúnio, é um recolhimento melancólico, misantropo, desumano às vezes, e quase sempre intolerante. Em exemplos desses, que os há em grande copia, acerto seria arguirmos ao enojo das chimeras desta vida o que atribuimos à reflexão.

A madureza do vigário não era apressada pela desventura, nem triste, nem intolerante. A índole, o habito da soledade, o estudo, a clara vista da alma com que entrava no secreto e desconhecido do coração alheio, explicam o ar grave, monacal, e discordante de seus anos. Não obstante, o jeito com que dizia as suas sátiras às gazetas dava mostras de espirito faceto ou humorístico, segundo agora francezmente se diz.

Dos estudos do seminário passara o presbítero à capelania do padrinho de Pinhel, fidalgo, como se disse, intractavel desde 1834, retrahido ao seu quarto, em luta permanente com os achaques da alma egualmente dolorosos que os do corpo. A gota, o reumatismo, a sciatica impacientavam-no tanto ou menos que o desmancho das coisas politicas. Rui de Nelas Gamboa de [31] Barbedo, que assim se chamava o gótico solarengo de Pinhel, se alguma vez chamava padre João Ferreira ao seu quarto, era para lhe perguntar pela quinquagésima vez:

—Que me dizes a isto, padre João?

—A isto?

—Sim, à queda do rei legitimo?

—É um facto consumado—dizia o padre.

—É uma usurpação consumada! —replicava o fidalgo, e sibilava um agudo ai, levando a mão ao artelho esquerdo, cuja dor só podia comparar-se à do artelho direito.

E como o afilhado não pudésse restaurar ao trono usurpado o senhor legitimo à vontade do padrinho, Rui voltava-lhe as costas, e o padre saía melancólico a encerrar-se no seu quarto com os seus poucos livros, ou ia lecionar em primeiras letras as filhas do fidalgo, a segunda das quais principiara o alfabeto aos dezesseis anos, Deus sabe com que repugnância.

Demorei-me accintemente nestas dispensaveis explicações para dar tempo a que os três convivas almoçassem e conversassem. Conversassem, é menos exato. Quem falou sempre foi o vigário, e é de presumir que o auditório o atendesse escassamente. Ladislau, se alguma coisa escutava, era o poema interior, os himnos descompassados, mas sublimes, que soavam dentro em seu coração. Estranhas musicas deviam de ser aquelas para o moço surpreendido, na alva do seu primeiro dia de amor, por enchentes de luz desconhecida! O amor, que vem procurado, como sensação necessária à felicidade da vida, perde dois terços da sua embriagante doçura; porém, o amor inesperado, impetuoso e fulminante, esse é um abrir-se o céu a verter no peito do homem [32] todas as delicias puras que não correm perigo de impestarem-se em contacto com as da terra. Era desta especie o sentimento de Ladislau, nascido na hora em que ele ia confirmar sobre a sepultura de seu tio o pacto de ser sacerdote, abjurar as desconhecidas alianças do coração com o mundo, e aceitar as que atam o coração ao mundo com o laço da caridade evangélica.

Ora, aquele poema interior, se alguém podia decifral-o, era Peregrina. A mulher inocente e admiravelmente dotada do sexto sentido, que recebe as impressões não classificadas na ordem física nem moral. Adivinha quem a ama, antes que lho digam. Parece que o ar se lhe povoa de espíritos amigos, que giram entre ela e os olhos de quem, a fito ou de revez, a requesta. Aquele diáfano véu de escarlate que lhe purpúrea o rosto, não é sangue como dizem os materiais definidores de tudo: a mimosa susceptibilidade de cútis, chamada pudor, não pode ser sangue; enquanto a mim, é o sombreado das azas iriadas dos espíritos que voejam no ambiente da mulher imaculada, ou então reflexo das coroas de rosas, com que o deus festivo dos amores a infeita, cioso de ter nos seus altares o pouco deste mundo que merece e desculpa a idolatria.

Posto que este dizer tenha um sabor mithologico, pagão, e, sobretudo, antiquissimo, há de o leitor conceder que o seu servo romancista, tal qual vês, se desgarre do caminho trilhado à moderna, para não dizer sempre que os seus personagens estavam arrobados, extáticos, ou, o que é pior, perdidos de amor.

Os meus personagens, Ladislau e Peregrina, não estavam arrobados nem extáticos, porque ambos confessam que comeram da travessa vidrada a sua porção de ovos, [33] e tomaram cada qual o seu caldo-verde (palavra indigna de tão levantado assumpto!)

Perdidos também não estavam; porque o perder-se ou transverter-se o coração é quase sempre a prova real de não ter sido o primeiro nem o melhor um certo amor com que os alienados se desculpam.

O amor, que não perde nem desvaira, esse é que é o amor.

Eil-o aí, pois, profundo, sereno e belo como o oceano em calmaria.

[34]

[35]

O Bem e o Mal

Sinopse

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