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O Bem e o Mal

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O Bem e o Mal

Capítulo 19 · O Bem e o Mal

Capítulo XVIII

19 de 22 ≈ 15 min de leitura

Às duas horas da madrugada do dia seguinte ao das cenas descriptas no anterior capítulo, chegou à porta da hospedaria, chamada do Paço do Conde, uma carruagem, tirada por duas parelhas. Abertas as portas, apeou uma senhora, dando a mão a um padre velho que descera primeiro, e logo a criada. O padre, respondendo à pergunta do criado do hotel, disse que a senhora condessa de Asinoso tomaria um caldo de galinha, e voltou a receber as ordens de s. ex. ª

—Pergunte padre Francisco—disse ela—se hoje foi o julgamento de um acadêmico chamado Casimiro de Bettancourt.

O padre foi cumprir, dizendo entre si: «que importa à senhora condessa o julgamento do acadêmico, chamado Casimiro de Bettancourt? Pois será para assistir à audiência que ela vem a Coimbra com viagens forçadas?! »

Volveu o padre, dizendo:

[220]

—É uma história interessante, que parece novela, a tal do acadêmico, senhora condessa. Em resumo, conta o estalajadeiro que, estando para ser julgado o réu, e forçosamente condenado, apareceu a declaração de outro acadêmico, que mataram antes de ontem, confessando-se o matador. Em consequência do quê, o tal Bettancourt foi posto em liberdade.

—Graças, graças, meu Deus! —exclamou a condessa ajoelhando.

O padre empedreniu-se, e encarou na criada também estupefacta: nenhum ousava tugir um monossílabo.

Ergueu-se a condessa, e enviou de novo o capelão a pedir ao dono do hotel a bondade de falar com ela por alguns minutos.

O estalajadeiro vestiu a casaca, esperou na sala a senhora condessa.

Interrogou-o ela acerca de todas as miudezas concernentes à soltura de Bettancourt. O informador relatou-as todas, desde as severas lições que o acadêmico dera a D. Alexandre, até ao lindo discurso, dizia ele, que o amigo de Guilherme Lira improvisára à beira da sepultura: e numa especie de apostila à narrativa contou a esquecida circumstancia de ter irrompido inesperadamente pelo tribunal dentro o fidalgo, sogro do estudante.

—Pois ele está em Coimbra?! —interrompeu vivamente a condessa.

—Vi-o eu, minha senhora! É um velho bonito! basta vê-lo para se dizer: «aquele é um fidalgo dos antigos tempos! »

—Sabe onde mora Casimiro Bettancourt?

—Sei, minha senhora.

[221]

—De manhã tem a bondade de me guiar a casa dele?

—Pois não, senhora condessa?

O capelão, cujo quarto era sob o pavimento dos aposentos da condessa, apesar de contuso e moido dos solavancos da carruagem pelas barrocas da estrada real de 1840, não pôde adormecer, ouvindo até à madrugada os passos da ilustre dama, e o abrir e fechar de portas de uma janela. Certo fora que a condessa nem sequer encostára a face às almofadas do leito, e, de quarto em quarto de hora, ia impaciente abrir a janela e ver se rompia a alva.

Assim que aclarou o céu, já a senhora despertou a criada para lhe dar do baú outros vestidos e ornatos.

Ao nascer do sol, estava s. ex. ª vestida a rigor de viúva opulenta: modéstia elegante, pompa meio velada pela cor escura do estofo.

O egresso, que perdera a esperança de adormecer, levantou-se, e foi à antecamara receber as ordens da condessa. Saiu ela a dizer-lhe que tomaria uma chávena de café, e às nove horas sairia acompanhada de sua reverendissima.

Sua reverendissima, vendo-a assim adereçada, consentiu que o demônio da maledicência lhe encavalgasse o espirito: «Dar-se-há caso, dizia ele consigo, que a condessa esteja namorada desse Bettancourt? Querem ver que esta senhora, aos quarenta e seis anos, tresvaliou, e vai destruir o bom nome que está gosando?? Mas não! —monologou ele, tornando sobre si—Vai-te espirito aleivoso que me tentas! Aqui anda segredo que eu vou saber logo! Esta senhora é o tipo da honestidade, e o modelo das viúvas honradas.

[222]

Às nove horas saiu a condessa, com o seu capelão e o estalajadeiro.

Chegaram defronte da pequena casa da Couraça dos Apóstolos.

—É aqui—disse o guia.

—Obrigada. Pode ir, que eu demoro-me.

Subiu a dama a declivosa escadinha, e bateu à porta do topo. O capelão seguiu-a, gemendo.

Abriu uma criada a porta.

—Posso falar ao sr. Rui de Nelas? —disse a condessa.

Foi a criada à saleta em que as duas famílias estavam almoçando, e noticiou que era uma senhora ricamente vestida a perguntar pelo sr. Rui de Nelas.

—Quem pode ser?! —refletiu o fidalgo.

—Abre o meu quarto de estudo, e diz à senhora que entre—disse Casimiro.

Quando a criada saía da saleta, já a condessa estava à entrada, dizendo:

—Não sou de ceremonias, vou entrando, porque já conheci a voz do mano Rui.

Levantaram-se todos. O velho abriu os braços, e ficou de braços abertos, e boca também aberta.

A condessa chegou-se ao alcance do abraço, e disse:

—Parece que o mano dúvida...

Duvido... —balbuciou ele—pela mesma razão que não devia duvidar... Tu tens vinte e cinco anos, Eugenia! Estás como te vi sair de Pinhel!

—Cuidei que lisonjas eram desusadas entre irmãos, Rui!... Pois eu dir-te-hei que estás bastante alcançado. A vida de província é menos salutar do que dizem as pessoas que envelhecem na corte. Senta-te, Rui, e dá-me uma chávena do teu café.

[223]

—Tu aqui, mana!... tu aqui!... —voltava o fidalgo—Deixa-me convencer bem de que estou acordado! Quem é aquele senhor?...

—É o meu capelão.

—Sente-se, sr. padre capelão, sente-se.

—Qual destas meninas é a tua filha? —perguntou a condessa.

—É esta, aqui tens a minha Cristina.

A condessa beijou-a, abraçou-a, e mandou-a sentar.

—Este é meu genro—continuou o velho apresentando-lh'o.

Casimiro deu um passo, e curvou reverentemente a cabeça.

—Este é que é o sr. Casimiro Bettancourt? —disse a condessa apertando-lhe a mão.

E a mão ardia, tremia, e apertava extraordinariamente.

—As outras pessoas, —concluiu Rui—são filhos do meu coração: aquela é a minha Peregrina, e aquele o meu padre João. Lembras-te, Eugenia, do José Ferreira da Rochousa, nosso caseiro?

—Lembro.

—Pois são filhos dele que eu herdei. Aquele outro, que ali vês, é Ladislau, marido de Peregrina.

—E estas duas creancinhas?

—Uma é minha neta e tua sobrinha, primogênita e única de Cristina, a outra é filha de Ladislau.

A condessa, ouvindo o irmão, a cada instante relanceava os olhos a Bettancourt, único da comitiva, que ficara de pé, no intento de servir a hospeda, e dar a sua cadeira ao capelão.

—Senta-te, Casimiro—disse o velho—Aqui tens, Eugenia, o meu orgulho, a minha gloria, o meu Casimiro [224] sem mancha de culpa, com a sua honra ilibada! Não foi preciso apelarmos para Lisboa. A justiça de Deus veio mais cedo do que a esperavamos. Eu te conto como isso foi...

—Sei tudo—atalhou a irmã—Já me informaram na hospedaria.

—Mas como estás tu aqui, mana? —tornou Rui—Vinhas munida, talvez, de cartas para alcançares a absolvição de teu sobrinho em Coimbra?

—Não, Rui—tartamudeou a condessa.

—Então que palpite foi esse de te botares ao caminho, sem saberes a decisão do julgamento?!

—Dizes bem, Rui... foi um palpite...

—Bem hajas tu que vieste dar o remate à nossa satisfação! Agora vais conosco para Pinhel, não é assim?

—Irei. E hoje janto comvosco.

—Isso estava sabido!... pois então?!

A condessa disse a padre Francisco:

—Pode ir, e descansar à sua vontade, padre capelão, que eu passo aqui o dia. Queira dar esta parte à criada.

Saiu o padre, e todos passaram ao quarto de estudo de Casimiro, que era a parte mais alegre e arejada da casa.

—Estou entre amigos! —disse com um profundo suspiro a condessa—É a primeira vez na minha vida que digo isto!

Rui compreendeu a irmã, relembrou a mocidade dolorosa de Eugenia, e fez um gesto compassivo, e outro que significára: «Não lembremos o que lá vai. »

Porém, Casimiro, impressionado de aquelas palavras disse respeitosamente:

[225]

—As felicidades de v. ex. ª não devem ter sido invejaveis!... Em volta da riqueza, da formosura, e de um nome distincto costumam reunir-se muitos amigos... ou, pelo menos, muitos que o parecem...

A condessa encarou nele com penetrantes olhos, e disse:

—Lastima-me, não é verdade?

—Minha senhora—balbuciou Casimiro—peço perdão... não quis dizer que lastimava v. ex. ª... Quaisquer que tenham sido suas magoas, a sua elevada posição não consente que eu me condôa...

—Está bom, está bom—atalhou Rui—não se fala aqui em magoas, nem dó, nem lastimas! Este meu Casimiro tem uma propensão para discursos tristes, que nunca vi!... Olha que ontem à noute, mana, o que ele disse à beira da sepultura do Guilherme, ia arrancar ao fundo do coração as lágrimas de quem nunca tivesse chorado!

—É porque eu dava o exemplo, chorando, sr. ª condessa—ajuntou Casimiro.

—E deve ter chorado muito! —disse ela.

—Pouco, minha senhora. Sou um homem muito resignado, ou muito forte. A mim as grandes angustias levemente me abalam. Algumas vezes tenho chorado por coisas insignificantes. Posso ver a olhos enxutos morrer minha filha, e não poderei ouvir sem lágrimas o piar de uma ave, a quem mataram os filhos no ninho. Isto será deformidade de organização; mas dureza de alma não é, minha senhora... Meditando na minha índole, vim a considerar que para mim o incentivo das lágrimas é uma certa poesia fúnebre e maviosa, sensação que eu não sei de outro modo definir; ao passo que as desditas positivas, cerradas e sufocantes regelam-me a alma.

[226]

—Ele aí está a fugir para a tristeza! —interrompeu o fidalgo.

—Deixa-o falar, mano... —pediu a condessa.

—S. ex. ª tem rasão... —disse Bettancourt eu sou incorrigivel e tenho contagio. Aqui está a minha Cristina absorvida também na sua meditação...

—Não—acudiu Cristina—eu estava a pensar com alegria nas tuas tristezas passadas, meu Casimiro.

—E todos com o passado às voltas! —clamou Rui—Falem no presente, descubram o futuro, e não me aflijam, que vai aqui tudo raso! Querem ver que a minha Eugenia também é melancólica? Em pequena eras muito, menina! O teu gosto eram sombras de árvores, fontes, ver o céu de noute... Aqui estou eu também a fugir para traz trinta e tantos anos! Bem diz o Casimiro que a sua scisma é pegadiça!...

—Mas olha, mano, deixa-me conversar com o teu genro, que o passado te aborreça...

—O que eu observo, Eugenia, é que tu simpathisas grandemente com ele!...

—Porque não!?

—Beijo as mãos de v. ex. ª—disse Casimiro.

—Isso quando se diz, faz-se.

—O quê, senhora condessa?

—Disse que me beijava as mãos... então... beije.

Casimiro inclinou-se, e beijou de leve a mão da dama, que lhe apertou vertiginosamente a dele.

Este visível estremecimento impressionou Cristina e Peregrina, que se encararam de um modo que podia ser duvidar do bom senso da condessa.

—Vamos conversar, sr. Casimiro—disse Eugenia—Queira sentar-se ao meu lado. Meu mano já me disse [227] que o sr. era filho de um militar, que morreu no cêrco do Porto.

—Sim, minha senhora, sou filho de Duarte Bettancourt.

—Conheceu seu pai? Onde estava quando ele morreu?

—Conheci meu pai. Vi-o em 1830 pela última vez. Estava eu no colégio dos Nobres, quando ele morreu.

—Sabe em que ano nasceu?

—Sei-o dos próprios apontamentos de meu pai.

—Escritos por ele mesmo?

—Sim, minha senhora.

—Dá-me licença que os veja?

—Por que não, sr. ª condessa? Aqui está a velha carteira de meu pai...

A condessa tomou da mão de Casimiro, com sofrega ânsia, a carteira, que folheou.

—Onde é? —disse ela convulsiva.

—Aqui, minha senhora—respondeu Casimiro indicando-lhe a página, que a condessa leu:

Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro de 1816. Foi batizado em S. Domingos de Santarém aos 22 do mesmo mês. Foi criado no Cartaxo de onde saiu em 1820...

A condessa murmurava ainda; mas não lia o restante da nota. Fechou a carteira, e voltou-a nas mãos, remirando-a. Depois, pregou os olhos no rosto de Casimiro, e permaneceu neste espasmo alguns minutos, até que muito do fundo do seio lhe saiu um grito estridente, e uma explosão de lágrimas em que a luz da vista parecia innevoar-se.

—V. ex. ª sofré!... —disse Casimiro.

E acercaram-se todos da condessa, que, tomando a mão de Bettancourt, ergueu-se de impeto e disse-lhe:

[228]

—Leve-me a uma janela... dê-me ar, e uma gota de água.

—São nervos! —observou Rui—É da casa, que é abafada... Abram todas as janelas... Queres tu descer ao quintal? Vai com ela, Casimiro... Vamos todos.

—Estou melhor—atalhou D. Eugenia—Já respirei...

—Costumam dar-te estes acessos, mana?

—Costumam...

Sentou-se de novo, reparando na carteira, e outra vez se lhe tingiu de escarlate febril o rosto.

—Mistério! —disse o vigário ao ouvido do cunhado.

—Que cuidas?! —perguntou Ladislau...

—Esperemos.

A condessa afastou das fontes os cabelos empastados de suor, e disse cortando as palavras de suspensões, que pareciam o abafar de mão estranha na garganta:

—Casimiro esteve no colégio dos Nobres até...

—Até 1834, minha senhora—respondeu o filho do major.

—E depois...

—Como perdi meu pai, fui a Pinhel procurar amparo de parentes pobres.

—E nunca viu no «Diário do Governo» um anúncio perguntando se existia um filho do major Duarte Bettancourt?

—A Pinhel nunca chegou esse jornal—disse Casimiro—E quem se interessava em saber se eu existia?

—Quem?...

—Sim, minha senhora.

—Era eu.

—V. ex. ª! —acudiu Casimiro com assombro.

—Com que fim eras tu, Eugenia? —perguntou o fidalgo.

[229]

A condessa fitou a vista incendiada no irmão; e disse:

—Com o fim de saber se existia... meu filho!

Assim devia ficar uma família de Pompeia, de súbito, empedrada na invasão da lava fulminante. Uns a outros, com olhos pávidos, pareciam pedir o claro sentido de aquelas palavras.

Casimiro sentiu lavaredas no seio e descerrou os lábios à expedição do lume. Estrondeavam-lhe no encéfalo umas alucinações de ébrio. Dos olhos de sua mãe afuzilavam umas como frechas que lhe cortavam de lampejos o curto espaço de ar intermédio. Para os outros, há só o termo «estupefacção» que os descreva. A condessa oscilava outra vez assoberbada pela comoção nervosa; já se não sustinha, com as mãos apoiadas nas costas da cadeira. Levantou-as, estendeu os braços como a pedir amparo. Encontrou o seio de Casimiro, e nele inclinou a face, exclamando:

—Meu filho!...

Mas isto tudo é um sonho! —disse Rui de Nelas, levando as mãos às fontes.

Casimiro ajoelhou com a mãe nos braços. As duas senhoras, sem segura consciência do que faziam, foram amparar a condessa. O vigário pôs as mãos em atitude de quem ora. Ladislau cruzou os braços no peito contemplando o grupo.

De súbito, Casimiro afastou um pouco a face, contemplou o rosto pálido da condessa, beijou-a na fronte e disse:

—Tenho mãe, meu Deus!... Eu sabia que a tinha, e havia de encontrá-la!...

Então, chorou, a torrentes!

Se não chorasse enlouquecia.

[230]

[231]

O Bem e o Mal

Sinopse

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