Universo da obra
Universo da obra
No dia imediato ao das bodas, o saudoso vigário fora passar a tarde com sua irmã, que o viera esperar com o marido ao rochedo da Crasta.
Ao entardecer, quando o padre se despedia, chegou um portador da residência com uma carta para Peregrina.
—Para mim?! —exclamou ela duvidosa.
—E letra da sr. ª D. Cristina—disse padre João.
—Ela está lá—acrescentou o portador.
—Ela quem? —acudiu Peregrina.
—A fidalga, que escreveu a carta.
—Que novidade é esta?! —disse o vigário, abrindo e lendo.
—Lê alto, meu irmão! —disse Peregrina impaciente.
E o padre continuou a ler mentalmente, dobrou a carta, embolçou-a na sotaina, e disse ao portador:
—Vai indo, que eu lá vou ter.
[50]
E, depois que o criado saiu, murmurou com mui entranhada mágoa:
—Eu presagiei esta desgraça!
—Desgraça! —exclamou Peregrina. —Que é, meu João?
O padre, voltado a Ladislau, disse:
—A senhora, que escreve a minha irmã, é a filha mais nova de meu padrinho e benfeitor. Lê tu, Ladislau, e minha irmã que ouça.
Ladislau leu:
«Peregrina. Pela carta de teu irmão ao papá sabiamos que ias casar; mas não cuidei que fosse tão depressa. Cheguei aqui a buscar o amparo de teu irmão e o teu. Felizmente estais perto, e sei que vireis em meu socorro. Eu venho fugida, e comigo vém o homem que amo, e a quem meu pai me negou, sem compaixão das minhas lágrimas. Vimos rogar a teu bom irmão que nos receba, e legitime a nossa união. A pobreza não nos aterra. Logo que estejamos casados, teremos força do céu para suportarmos todos os trabalhos. Vem, se podes, com teu irmão para me ajudares a vencel o, se ele resistir ao sagrado dever de nos abençoar este amor, que não deve ser a nossa perdição. Tua amiga Cristina. »
—E vais casal-os não é verdade? —exclamou a comovida senhora.
—Não é verdade—respondeu friamente o sacerdote.
—Como?! —tornou Peregrina—não os casas?
—Não. A filha desobediente não acha onde quer um ministro do Evangelho que lhe galardoe a rebelião contra seu pai. A lei de Deus diz: honrarás teu pai e tua mãe: a lei eclesiástica diz ao cura de almas: não casarás [51] a menor sem consentimento de quem a governa, ou ordem superior do teu prelado. Eu vou sair.
—Eu também vou... disse Peregrina.
—Não vais—replicou o vigário. —Estás ao lado de teu marido, e Cristina aparece-te ao lado de um homem que... não lhe é nada.
Peregrina baixou os olhos, e Ladislau disse:
—Tu ficas; eu é que vou. Manda aparelhar a égua, que a filha do teu benfeitor virá comigo.
A esposa lançou-se-lhe nos braços, e exclamou:
—Tu vais buscar a infeliz menina?
—Pois se ela é infeliz!... murmurou Ladislau.
E saíram.
Cristina estava à janela do sobrado da residência quando o vigário e o cunhado chegaram.
Era noite muito escura.
—Estás aí, Peregrina? —perguntou ela.
—Não está, minha senhora—respondeu o padre. —Está o marido de minha irmã.
A secura desta resposta intimidou Cristina. E, receosa, voltando-se a um moço de boa presença, disse: «Enganei-me, Casimiro; o padre não nos recebe. »
O vigário entrou na saleta, seguido de Ladislau. Cortejou com mui respeitosa reverencia a filha do seu benfeitor, e levemente o cavalheiro, a quem chamou Casimiro Bettencourt. Depois disse:
—Vi a carta que v. ex. ª escreveu a minha irmã. Peregrina não veio, por ser inteiramente inútil a sua vinda. Eu não posso sem autorização canônica e civil ligar matrimonialmente v. ex. ª com este senhor.
—Eu vinha tão confiada na sua bondade... —disse Cristina, retrahindo os soluços sem reter as lágrimas.
—Em minha consciência—tornou o vigário—digo que [52] o mais prudente e urgente ato neste desgraçado sucesso é casarem-se; mas eu não posso fazel-o...
—E então—atalhou Casimiro Bettancourt—um sacerdote do Cristo assim nos abandona, como quem diz: «sede criminosos e infames à vossa vontade... »
—Não, senhor. O sacerdote de Cristo faz, nestes casos, o que faria qualquer homem de boas entranhas. Irei pedir ao sr. Rui de Nelas consentimento para salvar sua filha da continuação do crime e da infâmia.
—Meu pai é inexorável! —acudiu Cristina.
—Não pode ser—disse Ladislau. —Um homem, que amparou e educou dois filhos desvalidos de um seu cazeiro, não pode ser impiedoso com sua filha. Minha senhora, peço licença para interpor o meu parecer numa questão em que minha mulher não é estranha, e eu também não posso sê-lo. Ela não veio; mas encarregou-me de vir aqui oferecer-lhe nossa casa; e, tão certa está de que v. ex. ª nos honra em aceital-a, que já vim preparado para a conducção de v. ex. ª.
—Pois hei de eu ir!... —exclamou Cristina, encarando ansiada em Casimiro.
—O sr. Casimiro fica sendo meu hospede—respondeu o vigário.
—Separados! —bradou ela rompendo contra todos os estorvos do pudor, e abraçando-se em Casimiro.
—Não! —clamou ele. —Cristina, sacode os teus sapatos fora desta porta, e vamos ao nosso destino.
—O agravo não me fere, que o não mereço, senhor! —disse placidamente o vigário. —Eu convido o sr. Casimiro a ser meu hospede, enquanto se solicita a licença do pai desta senhora. Se lhes é dolorosa esta separação temporária, Deus permitirá que os retornos de contentamento a façam esquecer. Soffram alguns dias [53] para merecerem o premio. Eu não posso implorar o perdão para a desobediencia, alegando que os fugitivos permanecem em criminosa união. Há o recurso da mentira; mas eu não sei mentir. Despeçam-se para um dia, que breve virá, se Deus nos ouvir. O sr. Casimiro, que me aplicou as palavras de Jesus aos apóstolos, mostra que lê e sabe os livros da religião. Seja, pois, religioso: peça conosco ao Senhor que lhe despache em bem o seu requerimento.
Casimiro apertou a mão de Cristina, e disse:
—Vai, e esperemos.
—E esperemos—acrescentou o padre—porque, a baldarem-se os nossos bons intentos, quem lhes há de empecer ajuntarem-se? O mundo, quando vê dois desgraçados, deixa-os passar, e vinga-se. Se o mundo é justo, não o direi eu: vingança justa creio que não há nenhuma aí. O inverso da caridade é a vingança. Tenham valor, que, se o não tem são mais fracos, desconfiam do poder de Deus, e da sua própria fidelidade um a outro.
—Adeus! balbuciou Cristina, sufocada de suspiros. Casimiro beijou-lhe a mão, dobrou o joelho, e disse:
—Se te fiz desgraçada, perdoa-me.
Ladislau, debulhado em lágrimas, abraçou Casimiro, e exclamou:
—Sou seu amigo! O senhor ama deveras esta menina!
—Eu sei que se amam! —disse o vigário—por isso serei parte, quanto em mim couber, na sua boa fortuna.
—E eu não?! —disse com veemência o de Vila Cova.
—Tu também, meu irmão. Ajudar-me-hás com os teus [54] conselhos, porque no teu coração tenro está a sabedoria dos virtuosos, que te educaram.
—Não fomos infelizes, Cristina! —clamou Casimiro. —Aqui estão conosco duas generosas almas. Vai, minha amiga!
—Venha—disse Ladislau—que minha mulher está pedindo a Deus que vamos.
Já não choravam ao separarem-se.
Cumpre narrar, o mais breve que ser possa os antecedentes desta fuga.
De uma família pobre de Pinhel saíra em 1814 um mancebo a assentar praça no regimento de cavalaria de Bragança, onde serviu até furriel. De Bragança passou para Lisboa em 1815. Aqui seguiu os postos até que fez a campanha do cerco do Porto, já major do exercito sitiante, e aí morreu na última batalha. Este militar era pai de Casimiro Bettancourt.
Casimiro sabia que nascera em Lisboa em 1816, e não conhecia sua mãe. Com referencia ao seu nascimento, apenas possuía a página de uma velha carteira, que dizia: «Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro de 1816: foi batizado em S. Domingos de Santarém, aos 22 do mesmo mês. Foi criado no Cartacho, de onde saiu em 1820. Entrou no colégio dos Nobres em 1825. Tenho pago todas as prestações até hoje 31 de dezembro de 1830. » Em nenhum outro caderno de apontamentos encontrou indícios de sua mãe; nem das muitas cartas que seu pai deixou esquecidas num bahu de folha, pôde coligir quais pertencessem a sua mãe. As que tinham data eram quase todas muito posteriores ao seu nascimento. Apenas duas assignadas com a inicial E, posto que sem data, queria e conjecturava ele [55] que fossem de sua mãe: este querer fundava-se um pouco em vaidade, e muito em presagio, como depois se verá.
Morto o pai, e transvertida a ordem politica, claro é que o joven alumno do colégio dos Nobres havia de sair entre dezesseis e dezessete anos de idade, desvalido, desconhecido, e indiferente a toda a gente. Dos sabidos amigos de seu pai uns tinham morrido, outros emigrado, e outros esmolavam.
Sabia Casimiro que seu pai nascera em Pinhel, e se correspondia com sua irmã, a largos espaços. Achou cartas assignadas por uma Mariana de Bettencourt. Escreveu, ao acaso, à senhora daquele nome, ou ao nome daquela senhora. Responderam-lhe que sua tia tinha falecido em 1832. A pessoa, porém, que respondia, era o viúvo, carpinteiro de seu ofício, bom homem que lhe oferecia sua casa, e metade de suas sopas.
Obrigado a optar entre a fome e as sopas do artista, Casimiro foi para Pinhel, auxiliado pela esmola de um condiscípulo, filho de um brigadeiro liberal, camarada do finado major antes de 1828.
O artista redobrou de trabalho para não obrigar o sobrinho de sua mulher a pegar da serra e da enxó. Comprava-lhe vestido à feição de que usavam os moços remediados, e esperava que seu compadre Rui de Nelas—padrinho de um filho que mandara para o Brasil, quinze anos antes—cedo ou tarde conseguisse algum decente emprego para Casimiro.
O fidalgo admitia à sua casa e presença o moço, em atenção ao pai, que morrera fiel à justa causa, como honrado e bravo. As filhas do fidalgo achavam-no distincto, delicado, bem falante, e divertido, quando a tristeza, a dolorosa introversão o deixavam dissimular contentamento, que o pobre, a bem dizer, nunca sentiu deveras. [56] Rui de Nelas mostrava desejos de lhe abrir a carreira da independência. Aos dezenove anos, Casimiro pensava em ser soldado; o fidalgo, porém, queria que ele fosse padre com um patrimonio fantástico, e o carpinteiro inclinava-se ao generoso parecer de seu compadre.
Sacerdote é que não! Casimiro amava Cristina, Chistina ia chorar com ele; e sabia em que sombras de árvores, ou margens de ribeiras o moço ia chorar.
E ela ia, tremendo de medo e paixão, e a pedir resguardo às azas dos anjos, buscá-lo onde ele estivesse. Tremia, mas não corava de pejo. As flores que viam, invejavam-lhe a pureza. Arquejava-lhe o seio cançado de retrahir-se: cuidava a doce criatura que o espirar alto a denunciava. Era o ofegar daquele seio como o da avesinha ansiada, que busca, de fronde em fronde, o ninho que lhe desfizeram. De longe o antevia pelos olhos da alma. As lágrimas tem seu odor: só lho não presentem os que as deixam gotejar sem misericórdia, sem dó.
E quem havia de ter pena do sobrinho do carpinteiro a não ser ela; que o intendera ao primeiro instante de ser amada, e ao mesmo raio ardente se queimára, e, se o timorato moço esmorecia de medo e pejo, era quem o acoroçoava e levantava do seu abatimento?
Exceptuada a cúmplice deste enorme crime—o enormissimo crime de erguer homem pobre olhos afetuosos à filha de um Rui de Nelas Gamboa de Barbedo—o restante do mundo seria contra ele, se pudesse adivinhal-o.
Adivinhava-o o padre João Ferreira, quando voltou de tomar as últimas ordens. A Casimiro disse:
—Subjugue o coração enquanto é tempo. Tenha sempre diante de seus olhos os benefícios que deve ao sr. [57] Rui. Recompensar-lh'os com desgostos será crueza e indignidade.
Casimiro não respondeu. O amor, aos dezoito anos, quando assim é surpreendido, não sabe mentir.
A Cristina disse o padre:
—A maior prova de estima, que v. ex. ª pode dar a Casimiro, é desvial-o de si. Dos dois há de ser ele o mais desgraçado. Na sua idade, menina, o amor é sempre uma creancice, e como criancice se esquece quando é contrariado; porém, a primeira afeição do moço pode ser a última e volver em desgraça irremediável.
—Quem sabe? —disse Cristina com pueril audácia e destemor.
—Eu não sei senão que v. ex. ª está amando um homem que seu pai repulsará de casa, logo que desconfiar de tão estranhas inteligências. A menina será perdoada como inocente, e ele perseguido e castigado como vilão. Como penso que assim vem a acontecer, entendo que o seu amor será funesto ao pobre órfão. Seria querer-lhe muito desenganal-o.
Observou padre João que as duas cegas criaturas, depois do aviso, praticavam como se, em vez da censura, recebessem louvores. Buscavam-se mais, escondiam-se mais, e, de dia para dia, pareciam ir declarando a toda a gente o seu amor, como se contassem com o apoio do fidalgo.
Rui de Nelas chamou o padre e disse-lhe:
—Ó afilhado, tu não desconfias de nada?
—A qual respeito, meu padrinho?
—Que minha filha Cristina olha o Casimiro de um certo modo?
—Pode ser que v. ex. ª se não tenha enganado. Eu [58] suponho que se estimam; e meu padrinho não podia embaraçal-os de se estimarem.
—Essa não me parece tua! —exclamou o fidalgo. —Não posso embaraçal-os?! Então quem é que pode?
—Ninguém, meu padrinho: o tempo é que corrige estes defeitos do coração humano. Deixe v. ex. em silencio a suspeita que eu tomo a meu cuidado o descanso de v. ex. ª.
—Nada de panos quentes! —bradou Rui de Nelas. Casimiro vai ser posto fora desta casa, e talvez de Pinhel. É assim que ele me paga? É-me bem feito! muito bem feito! Não seja eu tolo de estar aqui de braços abertos para receber desgraçados, que afinal...
Padre João esperou que seu padrinho desabafasse a sua ira, e disse com humilde e pacato animo:
—Sou eu um dos desgraçados que v. ex. ª recebeu nos braços abertos para todos: o que posso dar em troca de tantos benefícios é a lealdade do meu coração, o meu leal aviso em coisa tão melindrosa. Se v. ex. ª perseguir Casimiro, a sr. ª D. Cristina, se já o ama como creio que sim, amal-o-há mais depois. Conheço de fundamento a índole desta menina, e algum tanto a de Casimiro. Este moço tem espíritos de condição muito altiva, que se revoltam contra a baixeza em que o lançou a desfortuna. Por vezes me tem falado do seu futuro com uns raptos de visionário, que me fariam rir, se me não compadecessem. Presagiam-se brilhantes destinos, e esquece-se de que o honrado carpinteiro está a suar para que ele se não avilte no trabalho incompativel com as suas imaginações. Enquanto à sr. ª D. Cristina, é minha opinião que esta menina desobedece ao raciocínio, e à força, se lha imposerem. Sabe v. ex. ª que, de todas as suas filhas, esta foi a mais remissa em aprender o pouco [59] que sabe, sobejando-lhe talento para muito. Observei que uma palavra áspera ma afugentava por oito dias, e transtornava todo o anterior aproveitamento. Argumentando destas coisas simples, por analogia, todas me levam a crer que o emprego de providencias enérgicas dará mau resultado.
—Qual?! —atalhou o fidalgo.
—Uma fuga, uma vergonha.
—Tu pensas isso, João?!
—Ousaria eu dizer a meu padrinho o contrario do que penso?!
—E os ferrolhos dos conventos para que se fizeram?
—Para as freiras estarem seguras da inviolabilidade de suas pessoas.
—E para as filhas rebeldes.
—A rebelião continua nos conventos, a rebelião do espirito, contra a qual não prevalecem os ferrolhos.
—Veremos.
—Seria acêrto não experimentar, meu padrinho.
—Então que queres tu que eu faça?: Deverei cazar minha filha com o sobrinho do carpinteiro?
—Não, senhor. Penso que v. ex. ª, simulando inteiro desconhecimento do que se passa, deve favorecer Casimiro para que siga a vida militar que deseja.
—Agora! agora que ele ousou pôr olhos em minha filha! o ingrato! pois não! Vou mesmo agora estabelecer-lhe mesada em Coimbra ou Lisboa para ele se formar em matemática, e namorar-me de lá a filha! Estavam bem avisados os pais, se tivessem de mandar a Coimbra os maltrapilhos que lhes requestam as filhas! Não haveria aí aprendiz de sapateiro, que se não fizesse galan das herdeiras ricas! Ora, sr. padre João Ferreira, outro ofício! Não sei em que livros e em que terras tu [60] foste estudar e experimentar semelhantes desconchavos. Eu consultarei o meu travesseiro...
—Deus responda às suas consultas, meu padrinho—disse o padre, quando o fidalgo lhe voltou as costas.
No dia seguinte, às cinco horas da manhã, já o fidalgo estava a pé, e abria subtilmente a janela do seu quarto sobre o jardim cujo muramento partia com a rua. Viu ele Cristina sair ao terreiro pela porta da cozinha, atravessar as aléas de amoreiras, destrancar um postigo de comunicação com a estrada, e debruçar-se no peitoril. Desceu Rui de Nelas, de manso, ao jardim, e ia já em meio, quando a filha deu tento da espionagem. Soltou um ai; mas de turvada que ficou, nem aviso deu a Casimiro. O pai apertou o passo, correu impetuosamente ao postigo, e viu o moço quieto, e sereno como se a surpresa fosse um gracejo de futuro sogro, que se entretem a fazer foscas ao futuro genro, muito do seu agrado.
Não assim Cristina, que, passado o momento do espasmo, dobrou o joelho e balbuciou:
—Meu pai, eu é que sou a culpada!
Não atendeu, nem acaso ouviu estas vozes o fidalgo. Inclinou-se à estrada, e exclamou:
—Vá lá contar a seu tio carpinteiro a maneira como vossa mercê pagou a hospitalidade, que lhe dei! E não me torne a rondar a casa, que não vá algum dos meus criados apalpar-lhe as orelhas!
Fechou-se o postigo com estrondo. Aquelas palavras continuaram a martelar nos ouvidos do moço, que levava as mãos à cabeça, como para as não ouvir. Pensou em se matar, como toda a gente, alguma vez, excepto os bons cristãos, os felizes, e os tolos, que não são cristãos [61] nem felizes, nem precisam ser senão tolos para viverem e até sobreviverem a si próprios.
Caminhou às cégas por uns trilhos de cabras, que se aplanavam numa chã, arborisada de sôbros, onde padre João regularmente amanhecia com os seus livros de teologia moral ou história eclesiástica.
—Casimiro viu-o, correu a ele, e exclamou:
—Valha-nos!
O padre reçebeu-o nos braços e ouviu acontecido.
—O remédio virá do céu—disse ele. —Não sei que lhe faça, a não querer receber-me um conselho. Espere, sofra, conforte-se, ore, e humilhe-se: não sei que mais lhe diga.
Casimiro Bettancourt, ao anoutecer desse dia, adormecera com a face encostada a uma pedra: era a letargia da fome, da fadiga, e da desesperação.
Não orára.
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