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O Bem e o Mal

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O Bem e o Mal

Capítulo 14 · O Bem e o Mal

Capítulo XIII

14 de 22 ≈ 17 min de leitura

A carta, recebida em Vila Cova, foi a primeira grande angustia que alanceou o coração de Ladislau.

Correu à igreja, e dali a uma aldeia da serra, onde estava o vigário sacramentando um enfermo. Leram a carta, e ambos inferiram que o matador era Casimiro; justa inferência dos termos dela.

—Matar! —disse o vigário consternado. —Matar!... Eu não cuidava isto de Casimiro! Nem ao menos diz que matou defendendo sua vida, a vida de sua mulher, e de sua filha!... Repara tu na serenidade com que ele diz: _D. Alexandre de Aguilar foi gravemente ferido, e o seu criado está morto. Este acontecimento deu-se à porta de minha casa há cinco horas. O povo, as autoridades, e a academia, indigitam-me como autor do sucesso... Se não fosse ele o autor, diria: indigitam-me falsamente! ... E mais abaixo: Minha mulher tem estado atribulada, mas como apelei do seu coração para a sua coragem, vejo-a reanimada e esperançosa [164] de minha absolvição em despeito do povo, da academia e das autoridades! _... De que ele fia a sua absolvição, se as provas o condenam a tal ponto que tudo lhe é contra!... Ó meu Deus, meu Deus! que conta havemos de dar à nossa consciência de termos trabalhado para o casamento de Cristina com este malfadado!

Ladislau ouviu a mais larga exclamação do atribulado sacerdote, e disse com pausa:

—Eu estou em crer que Casimiro não matou.

—Ó homem, tu não intendes esta carta?

—Penso que intendi. Onde diz ele que matou?

—E onde diz ele que não matou? —retorquiu o padre.

—É verdade: não confessa nem nega. Diz que o apontam como matador. Isto é diferente. Eu leio no Evangelho que Jesus Cristo, quando o arguiam...

—Cala-te meu irmão! esses confrontos são sacrílegos! —atalhou o sacerdote, inflamado em zelo santo.

—A minha intenção era boa, Deus o sabe. Seja o que for, eu creio que o meu compadre está inocente. Um homem, que mata, não escreve assim com este sossego. Aqui há mistério, e continuará a havel-o. As cartas demoram-se; e, quer demorem quer não, amanhã vou para Coimbra e Peregrina vai comigo. Desgraçada Cristina!... E que terá ele penado? que fará sozinha a pobre menina com sua filha?...

—Vai a Coimbra, Ladislau, vai! —disse o vigário—Se é criminoso, amparemol-o; se não é, ajudemol-o a vencer as iniquidades do mundo, querendo Deus que nós sejamos instrumentos de sua divina justiça. Eu também iria, se pudesse: escrever-lhe-hei as consolações da religião.

[165]

No dia próximo saíram de Vila Cova Ladislau, Peregrina, e o menino, a grandes jornadas para Coimbra. O lavrador levava todo o seu pecúlio, o ouro de sua mulher, e alfaias de antiga prata, que havia em casa. Apearam na estalagem, e foram dali à cadeia. Encontraram Casimiro sentado à mesa de jantar com a filha no colo, e Cristina a um canto da saleta aquecendo café num fogareiro.

—Não to disse eu?! —exclamou Cristina, quando o chaveiro abriu a porta, e deu entrada aos visitantes—Não veio carta, vieram eles!

As duas senhoras abraçadas falavam em soluços. Ladislau rompeu também em pranto desfeito. Casimiro, porém, sereno e com os braços abertos, dizia:

—O compadre também é dama?! Não rivalisemos com as nossas mulheres no seu privilegio de chorar!... Conversemos como homens.

—Está inocente, meu amigo? —perguntou de sobresalto Ladislau.

—Que pressa!... —respondeu em ar de graça o prezo—Parece que o meu compadre saiu de casa com essa pergunta à flor dos beiços. Ora, diga-me: se eu lhe responder que matei o desertor, e feri de morte o fidalgo, o meu amigo retira-me a sua mão pura e generosa?

—Não. Casimiro só mataria um homem defendendo-se. Foi em defesa que o matou?

—Vou responder-lhe; porém, requeiro à sua nobre alma um juramento antes de me ouvir. Não lhe digo que me jure por seu pai, pela vida de sua esposa ou filho: jure por sua honra.

—Jurei.

—Agora saiba que eu não matei, nem mandei matar.

[166]

—Oh meu amigo! —clamou com agitada veemência Ladislau.

—Não fale mais alto que eu, meu compadre, que pode ser ouvido. Não matei nem mandei matar, nem folguei com a morte do assassino trazido para mim, nem com os ferimentos de D. Alexandre. Houve um homem que me quis salvar dos dois inimigos, que me esperavam, e matou-os, no momento em que me arrombavam as portas. O nome deste homem irá comigo e com minha mulher à sepultura: nunca mo pergunte. A sociedade proclama-me assassino: embora. Deus me defenderá e salvará. Aos interrogatórios nada respondo que me absolva ou condemne. Veremos se o juri me vê provado assassino. Agora, meu amigo, tem o sr. a sua honra de sentinela à sua língua. Tomemos café. São só duas as chávenas; mas também há dois pires: as chávenas para os hospedes; os pires para nós, Cristina. Arranja lá isso.

Ladislau fitava nos olhos Casimiro, e murmurava:

—Que homem! que desgraçado tão digno de outra sorte!

—Veja lá o que são as coisas! eu cuidei que meu compadre me estava invejando esta paz de coração! —disse Casimiro.

Horas depois, saíram duas senhoras a transferir a bagagem da estalagem para a casa da Couraça dos Apóstolos. Concordaram em viver juntas, nas horas em que era vedado o ingresso no carcere.

O processo prosseguiu seus termos, com desvantagem de Casimiro, sem embargo de ser vigiado pelo primeiro advogado de Coimbra, que alcançara procuração do réu, depois de muitas instancias suas e de Guilherme Lira.

[167]

D. Sueiro de Aguilar tinha descido a Coimbra, com comitiva de dois lacaios, e dinheiro grosso para, consoante a sua frase, erguer, sendo preciso, uma forca de ouro, onde perneasse o assassino de seu irmão.

D. Alexandre erguera-se ao cabo de vinte dias, e composera as melênas de modo, que o logar da extincta orelha ficasse coberto de lustrosas espirais. A orelha cancerára e caíra, deixando um orifício hediondo e pustuloso. Guilherme Lira, quando acertava de o encontrar, dizia-lhe sempre:

—Cuidado com a outra.

—A outra quê? —animou-se a perguntar D. Alexandre.

—A outra orelha, patife!

O epíteto gelou de neve as cavernas daquele vil peito que esvasiava o pus pelo esqualor do ouvido.

D. Sueiro acelerava o processo, e descia de sua prosápia regirando do advogado para o escrivão, do procurador para o delegado, do juiz para os influentes do juri.

numa dessas suadas correrias, passando ao escurecer no beco de D. Sisenando, encontrou um acadêmico, que lhe cingiu ao pescoço umas mãos, que pareciam golilhas de ferro, e lhe jogou a catapulta da cabeça, três vezes, contra a hombreira do floreado granito da porta do palácio, onde morreu apunhalada a irmã da rainha D. Leonor Telles. Depois, largando-o atordoado, disse:

—Primeira admoestação!

E andou.

D. Sueiro, ao outro dia, escreveu a todos os governadores possiveis de Coimbra. A policia fingiu que se mechia, e D. Sueiro não saiu da cama.

[168]

O leitor já sabe que só Guilherme Lira podia tentar a destruição da melhor pedra monumental de Coimbra com a cabeça de D. Sueiro de Aguilar Vito etc.

Um homem sisudo da policia disse ao rico-homem de Miranda:

—O meu parecer é que v. ex. ª vá para sua casa. A meu ver, o fidalgo traz à perna a sociedade da Manta. Dê louvores a Deus em o não terem matado como fizeram a um lente, há dois meses: e perdoará o atrevimento do seu servo em o aconselhar. Enquanto a mim quem quebrou a cabeça de v. ex. ª foi o Guilherme Lira! Mas vão lá prendêl-o, e, de mais a mais, sem provas! Bem aviado estava eu! Ele bate-se com um regimento, e é capaz e mais os seus trinta companheiros, de arrasar Coimbra.

—Então isto aqui é um sertão de selvagens! —bradou D. Soeiro—As leis...

—As leis estudam-se aqui—disse o cadimo aguazil—e o Guilherme Lira sabe-as bem, que é quintanista de direito; mas o malvado despreza as leis de papel, e tem lá umas de pau para seu uso, não digo bem: para uso de aqueles que as levam impressas nas costas. Em fim...

O homem da justiça encolheu os ombros, e despediu-se.

No dia seguinte, D. Sueiro foi para Miranda, e levava ainda uns parches de alvaiade na testa, e uns pontos nos tegumentos sobrejacentes aos ossos parietais.

D. Alexandre ficou; porém, assim que o sol inclinava ao poente, recolhia-se. Guilherme Lira entrava em casa todas as noutes, e espreitava-o da janela. Cada noute, ao ver-lhe a luz no quarto, arrepelava-se. Dizia com picaresco chiste o feroz acadêmico a Casimiro: «a vida [169] daquele homem peza-me como um burro sobre o peito! »

E Bettancourt pedia-lhe encarecidamente que o deixasse, por ser um estorvo nulo à sua liberdade.

Rui de Nelas, cônscio do sucesso, mandou chamar o vigário de S. Julião da Serra, e informou-se. Padre João Ferreira relatou de cor o conteúdo da primeira carta de Casimiro, e mostrou duas linhas de outra de Ladislau, que dizia: Casimiro está inocente. Casimiro é vítima da sua honra. Nada mais te digo, porque só isto me é permitido dizer, e a ti só, meu irmão.

—E tu crês na inocência de Casimiro?

—Creio, meu padrinho, como creio que vivo.

—E ele deixa-se ir à revelia?

—Não posso, nem sei responder a v. ex. ª

—É preciso que eu o proteja. É preciso, que ele é marido de minha filha! Os de Miranda não hão de levar a melhor.

—Que quer v. ex. ª que se faça?

—Que vás a Coimbra, e leves dinheiro para ele, e para a justiça.

—É desnecessario dinheiro. Meu cunhado foi prevenido.

—Deixá-lo ir. O dinheiro que eu mando, é meu; quero que minha filha o receba! Eu vou mandar o meu capelão substituir-te na igreja, e tu partes já para Coimbra.

—Recebo as ordens de v. ex. ª

—Vamos ver quem vence! —continuou o fidalgo, apertando os alvéolos, onde os dentes ausentes não podiam rangir. —Os de Miranda, tem muita prôa?... Deixa que eu vou abater-lh'a!... Vai, João, que lá irão umas cartas. Se Casimiro ficar condenado, tu ou teu cunhado [170] vão para Lisboa, e entreguem as cartas onde eu mandar. Lá está minha irmã, a condessa de Asinoso. Há vinte e três anos que não lhe escrevo: mas sei que ela está morta por fazer as pazes comigo.

—Bom seria que estivessem feitas—disse respeitosamente o padre.

—É verdade; mas que queres? orgulho de parte a parte... E sabes tu porque eu despresei minha irmã?

—Nunca v. ex. ª me deu a honra de mo revelar.

—Pois eu to direi quando voltares. Foi um caso de honra, que os de Miranda não costumam castigar. Lá tem em casa uma irmã do pai, que fugiu do mosteiro de Lorvão, e deu escândalo. Lá a tem... e não põem crepe nas pedras de armas... E vinha cá D. Sueiro vituperar-me porque eu não mandava matar Casimiro!... Olha quem!... Se eu tivesse tantos santos a pedir por mim, como de vezes me tenho arrependido de lhe dar a minha morgada!... Forte brutalidade!... Cegaram-me as vaidades de reatar as duas casas dos mais antigos ricos-homens da Beira e Traz-os-Montes!... Emfim... o que eu não consinto é que da casa de Miranda vão matadores professos assassinar o marido de minha filha... São horas... Aqui tens um conto de réis em ouro. Parte, João; e escreve a dizer o que se passar. Dá muitos beijos a minha afilhada, e diz a minha filha... que lhe perdoo!

O vigário ajoelhou diante de Rui de Nelas, e clamou:

—Deixe correr as minhas lágrimas de alegria sobre as suas mãos, meu nobre, meu virtuoso padrinho!

—Não fiques agora aí a chorar, homem! —Disse o velho, erguendo-o. —Aqui estou eu também... —prosseguiu, enxugando os olhos. —Vai, que são horas.

[171]

A aparição do vigário na saleta da cadeia foi saudada com um brado de alegria. Cercaram-no todos, e beijaram-no todos.

—Eu só dou beijos em crianças, —disse ele em tremores de exultação. —Sr. ª D. Cristina deixe-me dar à sua filha os beijos do avô.

—Falou com o meu papá! —exclamou ela. —Está muito zangado contra o meu pobre Casimiro?

—Isso está, minha senhora! zangadissimo, feroz!

—Cuida que foi ele quem... —E reteve-se, relanceando os olhos ao marido, que a observava.

—Não sei o que ele cuida... —volveu o padre. A ira do fidalgo subiu ao ponto culminante dele mandar ao sr. Casimiro um conto de réis para o custeio das suas despesas judiciarias. É onde pode chegar a ferocidade humana!

—O sr. Rui perdoou-me? —perguntou Casimiro mais recolhido que expansivo.

—Se isto não é perdoar... A mim não me encarregou de lhe notificar o perdão; mas à sr. ª D. Cristina manda dizer que está perdoada. Aqui têm o dinheiro, que é ouro, e rasga-me a algibeira da sotaina.

Cristina fez um gesto, significando ao padre que entregasse o dinheiro ao marido; Casimiro fez outro gesto, indicando Ladislau.

—Então que resolvem? —disse o padre.

—Resolve minha mulher, —disse Casimiro—que esse dinheiro passe ao poder do nosso mordomo, o sr. Ladislau Tibério Militão de Vila Cova, em cujo cargo hemos por bem nomeal-o para lhe fazermos honra. Assim deve formular as suas nomeações quem tem, como eu, guarda de oficial à porta.

Ladislau, sorrindo, respondeu:

[172]

—A não servir de mais, deixem-me ser mordomo. Eu guardo o dinheiro, e darei contas.

Relatou o padre a sua chamada a Pinhel, e o sentir do fidalgo, com a promessa das cartas para Lisboa, caso o exito do processo fosse funesto em primeira instancia. Acrescentou que Rui de Nelas tinha muita confiança no valimento de sua irmã, na capital, a sr. ª condessa de Asinoso.

—É a primeira vez que ouço falar nessa irmã do sr. Rui! —disse Casimiro. —Nunca me falaste em tua tia, Cristina.

—Porque a tinha esquecido—respondeu a senhora. —Eu e minhas irmãs mais novas ainda há poucos anos soubemos que tinhamos em Lisboa uma tia. Ignoro as desinteligências que se deram entre ela e o papá, muito antes de eu nascer. O certo é que em nossa casa nunca se falou em tal tia, e diante do papá seria perigoso falar. Muito me espanta agora que ele queira escrever-lhe! Vejo que meu pai está mudado!

—Sabe que desavença de família foi essa, padre João? —perguntou Bettancourt.

—Não, senhor. Ninguém o sabe em Pinhel. Apenas sei que em Lisboa viveu desde menina a irmã do sr. Rui de Nelas, em companhia de um grande fidalgo seu tio, e mais os dois irmãos filhos segundos. Também sei que estes irmãos lá morreram, e que a sr. ª casou com o conde de Asinoso. É o que eu sei de um clérigo velho de Pinhel, que a viu em menina, e me disse ser ela vinte anos mais nova que o morgado. Deve hoje ter, portanto, a sr. ª condessa quarenta e seis.

Sobre este incidente exhauriu-se aqui a pratica, em que Bettancourt, de condição scismadora em coisas misteriosas, mostrava estar muito entretido.

[173]

O patrono de Casimiro, sabendo que o sogro do seu cliente o protegia em Lisboa, e quase seguro da condenação do réu no tribunal conimbricense, inredou o processo de modo que, no caso de se provar o crime em juri, houvesse direito a pedir um recurso por nulidades, sem ser ouvido o tribunal da segunda instancia. A lei organisadora dos processos em Portugal, país de mais leis que tem o universo é uma corda bamba que se presta a saltos maravilhosos sob o pé de um hábil volatim. «Vai o processo para Lisboa, dizia o jurisconsulto, e lá, se o braço for forte, os autos vem arremessados à cara do juiz, e o juiz dá alvará de soltura ao preso. »

Este salvador intento do causídico foi revelado a Casimiro, com grande alegria, pelo vigário. E o preso respondeu:

—Não quero! diga-lhe que não quero! Há de ser a lei, sem coacção, sem torcedura, sem vexame de poderosos, que me destrancará aquelas portas. Mas que digam ser dolorosa a experiência: não importa. Quero experimentar até que ponto um réu inocente pode ser torturado. Hei de ir de condenação em condenação, até poder dizer: «Acuda-me a justiça divina, que a dos homens é infame! »

—Mas—atalhou o padre—se as provas são tais que a lei tem de forçosamente o reconhecer criminoso?

—Não são tal! As provas permitem que as destrua o ardil de um hábil jurisconsulto. É isto certo?

—É.

—Pois bem: eu quero que a lei as aniquile, e não a trapaça: que este ato se cumpra à luz do sol, à luz de todas as consciências, que me condenam. Que faz que as influencias poderosas me libertem, se o mundo há de dizer: «salvaram-no as influencias! o ferrete de [174] homicida lá o tem na testa! » Não quero, sr. padre João! Agradeça ao compadecido patrono: mas avise-o de que eu serei no tribunal o interprete mais severo da lei contra mim.

O advogado, quando tal ouviu, pasmou e disse:

—É um doudo maior da marca, este homem! Creia que irá da cadeia para a enfermaria dos alienados!

E prosseguiu:

—É vergonha fazer-lhe eu uma pergunta, sr. padre João: Casimiro Bettancourt, matou um homem e espancou o outro?

O padre não respondeu. E o advogado repetiu:

—Matou ou não?... Pois o senhor cala-se a esta pergunta?

—Calo, sim, sr. doutor. Não posso responder.

—Está claro! Outro doudo!... Que esquisita família é esta! Já fiz a mesma pergunta à mulher do preso: silencio! Interroguei Ladislau Tibério: silencio... O sr. padre João Ferreira...

—Silencio! —atalhou o vigário.

—Nem a mim, que sou seu advogado—tornou com azedume o doutor—há uma pessoa que me diga matou ou não!...

—Há—disse um acadêmico que entrava.

—És tu? —perguntou o advogado a Guilherme Lira.

—Sou eu. Casimiro Bettancourt não matou. Tu vais advogar a causa do homem mais honrado e inocente do mundo!

—Posso dar-te como testemunha, Lira?

—Da sua honra e inocência? podes; mas não me cites, que eu... ouve-me... eu hei de tirar Casimiro da forca.

—Santo Deus! —exclamou o vigário, lavado de súbito [175] suor. —Da forca! Pois é caso de sentença última?

—Se a sentença última é inaplicável neste caso, —disse o advogado—não sei onde está no código penal o crime condigno! Mas não se fala aqui em forca... pensemos...

—Não pensemos... —interrompeu Lira—Deixa correr o tempo que pensa por nós.

Padre João foi contar a Casimiro o que ouvira em casa do letrado, citando o nome de Lira.

O acadêmico recolheu-se, voltou a face, e o sentido aparentemente, sobre outro assumpto, e disse em sua mente:

—Que intenta fazer aquele desgraçado?

Pergunta que o leitor se digna fazer-me e espera a resposta.

[176]

[177]

O Bem e o Mal

Sinopse

Leia gratuitamente O Bem e o Mal, de Camilo Castelo Branco, clássico lusófono em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza o romance em 22 seções para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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