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O Bem e o Mal

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O Bem e o Mal

Capítulo 16 · O Bem e o Mal

Capítulo XV

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D. Eugenia escreveu o que dictava Brites:

«Minha sobrinha. Logo que esta receberes, sem demora de tempo, vai tu mesma em pessoa pessoalmente... »

—Onde é que ela há de ir levar a carta? —perguntou Brites.

—Ao quartel de cavaleria a Alcântara.

—Escreva, meu serafim:

«Vai ao quartel de cavaleria a Alcântara, e entrega o bilhete, que vai dentro desta, à pessoa que lá diz por fora... »

—Eu—interrompeu-se Brites atacada de modéstia—não tenho muito jeito para notar cartas; mas o que a gente quer é que nos entendam.

—Vai muito bem—disse Eugenia.

[190]

—Pois ponha lá:

«Toma conta que a não vás entregar a outra pessoa; e da resposta que houver escreve-me para Torres Novas. Sem mais enfado, tracta disto como coisa de muita... de muita... »

—Ponha lá a menina uma palavra, que diga... sim... que diga que é coisa de muita aquela.

—De muita consideração.

—Isso mesmo.

Eugenia sobrescritou à sr. ª Apolinária dos Mártires, na calçada dos Barbadinhos, n. º 21—quinto andar à esquerda.

A irmã de Rui de Nelas abraçou-se na ama de sua mãe, e clamou:

—Cuidei que estava mais desamparada. Há almas boas em toda a parte, louvado seja o Altíssimo!

Ámen—respondeu cristãmente a sr. ª Brites, e foi à cozinha, onde o bolieiro estava jantando para voltar com a caleça ao fim da tarde.

—Vm. ᶜᵉ faz-me o favor de entregar em Lisboa uma carta à minha sobrinha? Aqui vai o nome e a rua. Se lhe não custa... —disse a velha.

—Não me custa nada, tia Brites; mas dobre-me a porção de vinho.

—Aí vai, homem. Beba; mas não desatreme, nem me perca a minha cartinha.

—Fique certa, que de hoje a três dias por estas horas, já está nas mãos da dita suplicanta. Diz ela tudo pelo claro nas costas?

—Vai tudo pelo claro.

—Então, meta-m'a aí no bolso da jaqueta, e carregue-me o copo.

[191]

Foi a carta entregue à sr. Apolinária, e o bilhete ao alferes de cavaleria, o qual, segundo verídicas informações da engomadeira da rua dos Barbadinhos, chorou, e vasou as algibeiras nas mãos tolerantes da sr. ª Apolinária.

Escreveu o alferes uma longa carta a D. Eugenia. Principiava contando a descarga de dois tiros inúteis que lhe déram. Disse não conhecer as pessoas, que lhe atiraram, por virem rebuçadas, e estar ainda a limpar a manhã. Contou que o não feriram; mas supunha ele ter sido mais certeiro na pontaria. Acrescentava que ia ser removido para Bragança, por intrigas e influencia dos irmãos de Eugenia; e declarava-se, a final tão desgraçado e desprovido de recursos, que não podia ir arrebatal-a das mãos da sua cruel família, sem desertar, e colocar-se na precisão de ir perecer de miséria com ela em reino estrangeiro. Pedia-lhe, em suma de tudo, animo, e esperança.

Leu Eugenia a carta com profundo desgosto.

«Não me terá ele amor?! »—disse ela entre si.

Viu-a chorar a devotada Brites, e pediu-lhe o favor de lhe ler a carta. Quis ouvi-la segunda e terceira vez. Consolidou as suas convicções com uma pitada e disse:

—Esse rapaz, quem quer que ele seja, tem tino na cabeça, e pensa bem. A menina porque chora?

—Nem sequer fala em vir ver-me!...

—Pois se o pobre homem vai de marcha lá para cascos de rolhas, como quer a fidalga que ele deserte às bandeiras, e venha aqui? E depois? que seria dele? e a sorte da minha flor do céu, era muito melhor!?...

Pudéram muito com D. Eugenia as razões de Brites, e mais ainda a promessa de tomar a velha à sua conta a correspondência segura entre Bragança e Torres Novas.

[192]

Era chegado o momento de uma confidencia, que tem sido o balsamo de piedade em coração de pais lacerados, pela ira e pela desonra: não será muito que o leitor, invocado a julgal-o O BEM E O MAL desta serie de biografias, dê sua piedade à desventura culpada, assim como tem dado suas bençãos à virtude sem nodoa. Há crimes repulsivos; o engenho mais abalisado, a filosofia mais bem fingida, sob capa de verdade, tenta em balde mover-nos à compaixão do delinquente, enquanto o retalhar do remorso o não fez delir com lágrimas o stigma que a moral lhe assignalou: outros crimes, porém, são de si, e por vontade divina, simpáticos não direi; mas, se a ré se pranteia, e se olha em seu seio, e exclama: «Ó meu Deus! hei de eu espedaçar em respeito ao mundo este filho, que é o meu amor e o meu opróbrio?... hei de eu abafar o grito da minha consciência e coração, para que o mundo me veja um rosto limpo, um rosto lavado no sangue do meu filho?... » Quando a mulher assim fala a Deus, a misericórdia divina dá-lhe um anteparo contra as injúrias do mundo; e o mundo, se lhe adivinha as dores, e o mimo daquela paixão, à qual só falta um sacramento para ser santa, o mundo perdoa-lhe, embora a repulse do contacto das almas cândidas, das suas filhas, das suas esposas, das suas irmãs, que Deus permita não humilhem com maiores desprezos a desgraçada que é mãe.

É, pois, chegado o momento da confidencia. Quem a recebe é a consternada velha, que vira nascer a mãe daquela menina. Até àquele momento, Brites estivera longe de imaginar um erro em aqueles amores: julgava-os na sua máxima pureza. Descem lágrimas nas rugas dos oitenta anos, lágrimas de bom agouro, que deixam mais livre o acesso à piedade. Eugenia cuida que o revelar-se [193] aos irmãos lhe dará um esposo, lhe será redempção de ignomínia.

—Não, minha infeliz senhora, não! —exclama a velha.

E conta-lhe três idênticas e desventurosas historias, que ela presenciou em sessenta anos de serviço em aquela família: três mulheres sepultadas em conventos, onde nunca entrou raio de contricção nem conforto.

O alferes sabe em Bragança as agonias de Eugenia, e sente em alma o estilete excruciante da expiação. Nenhuma morte sustenta o paralelo com as flagelações de seis meses, sofridas a tantas léguas de distancia.

Eugenia recebe o ar e a luz pela janela do seu quarto unicamente. Teme-se da observação das criadas, que lhe espiam os passos, em suspeitarem de Brites. A velhinha tudo provê e prevê; mas, a intervalos quer morrer, antevendo as agonias da hora improrogavel, da hora em que o grito de aflição rompe através das mãos da vergonha, que tentam suffocal-o.

Era no mês de dezembro de 1816.

O alferes lançou-se aos pés do general da província de Traz-os-Montes, que demorava em Bragança nessa ocasião. Abre-lhe sua alma, em torrentes de pranto. O velho general chora, e diz:

—Tenho rigorosas recomendações a seu respeito; mas vá, peça-me licença para ir ver sua família. Dou-lh'a por quinze dias. Vá, embora eu tenha de sofrer.

O alferes vestiu hábitos paisanos e desceu a Torres Novas. Ali vestiu-se de mendigo, simulou uma paralisia de braços, e pediu gasalhado em Recaldim. Trocou ligeiras palavras com Brites, e não viu Eugenia. Voltou à albergaria do comendador algumas noutes. Os criados contemplavam-no, e diziam:

[194]

—Tão novo e tolhido de braços!

As criadas acrescentavam:

—E não havia de ser feio!

Na noute de quinze de janeiro, por volta de onze horas, abriu-se a porta da albergaria, entrou Brites com a face alagada de suor e lágrimas. O alferes formou entre os braços com as dobras da capa de mendigo uma caminha de farrapos, recebeu um menino, e saiu. A duzentos passos estava o leal camarada do oficial, com um cavalo à rédea. O alferes cavalgou, o auxiliar saltou à anca do cavalo, e partiram.

Em Torres Novas alimentaram o recemnascido. Proseguiram até Santarém, onde foi batizado sete dias depois. Ali veio uma ama do Cartaxo, e o levou consigo.

Estava a expirar a licença. O alferes entrou no quartel, à última hora, e beijou as mãos do general, dizendo:

—Dei-lhe o nome de v. ex. ª. Aí me fica a memoria da sua comiseração, general!

D. Eugenia de Nelas, dois meses depois destes sucessos, recebia uma carta de seu irmão Vasco, participando-lhe que ia casar com uma titular brasileira, agraciada pelo sr. D. João VI, e convidava sua irmã a acompanhá-lo à corte do Rio de Janeiro.

D. Eugenia respondeu que queria viver e morrer no seu desterro de Recaldim.

«Bem sei—replicou Vasco. —Bem sei... —Brevemente, se quiseres salvar o amante, mudarás de resolução. »

Decorreram alguns meses. Instaura-se processo a Gomes Freire de Andrade. São presos os cúmplices da conspiração, [195] e os suspeitos cúmplices. O alferes é chamado a Lisboa, e recolhido ao Castelo de S. Jorge, como indiciado nos planos subversivos do general Freire de Andrade. São os Lucenas que tramam a bem agourada perdição do alferes.

Eugenia é avisada do encarceramento do alferes.

A faca apontada ao peito da tímida senhora é um dilema: se ela persiste em ficar, o alferes morrerá; se vai para o Brasil, o réu absolvido.

Eugenia vai para o Brasil, o alferes, sem saber porque o acusam, nem porque o absolvem, sai do Castelo e entra nas fileiras.

Rui de Nelas, acantoado sempre no seu solar de Pinhel recebera a infausta nova da queda de sua irmã. Respondendo a Vasco, disse: «Não tenho irmã, nunca me falem nessa mulher. Fizeram bem não me dizer o nome do insultador de nossa família, se é que ele tem nome. »

Saltemos a 1820. D. Eugenia é o assombro dos salões do Rio de Janeiro. Reviçam-lhe todas as graças; a da melancolia realça-lh'as, melancolia que dava a entender que o anjo, lembrado do céu, tinha saudades.

Vasco é-lhe odioso. A casa do irmão atormenta-a como um ergastulo. Perdeu esperanças de voltar à pátria, e aspira a ver no céu o esposo de sua alma.

De repente, como que as esperanças lhe morrem, e a querida dos fidalgos brazilienses desce os olhos sobre a terra.

Vê um conde que fora de Portugal com o príncipe regente, e a requesta de joelhos. E vai ela, levanta com a sua mão o homem que há de resgatal-a do domínio [196] do irmão, e sai condessa de Asinoso da casa abominada.

No redemoinho das festas, a condessa parece estar sempre em contemplação de um tumulo. E o marido mais a adora assim; e ela, de lhe ver o amor através das lágrimas, enchuga-lh'as e pede a Deus um novo coração para seu marido.

Nunca mais seus lábios responderam a Vasco; e, ao terceiro dia de casada, disse ao conde:

—Meu amigo, a presença de meu irmão nesta casa é como a do algoz da minha felicidade, e da tua, se posso dar-t'a.

O conde de Asinoso ouvia sua mulher, e obedecia com jubilosa escravidão.

Gonçalo de Nelas havia morrido em 1819. D. Frederico Pain de Lucena morreu em 1820, legando os seus bens ao sobrinho vivo; Vasco, em viagem para a pátria, morreu de febres.

A condessa enviuvou em 1833. Cuidou em liquidar os seus copiosos haveres, e voltar a Portugal.

Uma delirante esperança vinha com ela. Rica, livre, com a alma inteira no seu passado amor!

Desembarcou em Lisboa por junho de 1834. Reinava D. Pedro IV.

Mandou indagar do alferes de 1817 aos seus camaradas anteriores à scisão politica. Responderam-lhe que tinha morrido na guerra.

Ergueu ela então as mãos e disse:

—Ó meu Deus: merecia eu tamanho castigo?!

Mandou ainda perguntar por um filho do militar que morrera. Ninguém deu novas de tal filho. O espirito publico batia as azas ainda no ambiente de fogo e ninguém [197] curava saber onde podia existir o filho de um oficial que morrera rebelde.

Foi então que a condessa de Asinoso, aterrada da sua soledade, escreveu a Rui de Nelas, pedindo-lhe a sua estima, e uma filha que lhe fosse companhia.

O irmão não lhe respondeu.

Esta é a história triste da senhora cujo valimento Rui de Nelas vai pedir a favor de seu genro.

Qual é o valimento da condessa em Lisboa? É o prestigio da riqueza, e da beleza ainda.

Quarenta e seis anos, com trinta de amarguras e ainda formosa! É que há mulheres de tamanha alma, que primeiro o fel da desgraça há de enchel-a antes que o corpo se alquebre.

Das masmorras de 1793 saiam formosissimas mulheres para a Guilhotina.

A mulher de Luiz XVI tinha pequena alma, sonhára vinganças mesquinhas, e por isso lhe encaneceram os cabelos numa hora.

Madame Roland, a scismadora de revoluções uteis, ia formosa no seu carro de morte.

Carlota Cordai iluminou-se de formosura mistica ao ver-se espelhada no aço do alfange.

[198]

[199]

O Bem e o Mal

Sinopse

Leia gratuitamente O Bem e o Mal, de Camilo Castelo Branco, clássico lusófono em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza o romance em 22 seções para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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