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O Bem e o Mal

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O Bem e o Mal

Capítulo 11 · O Bem e o Mal

Capítulo X

11 de 22 ≈ 18 min de leitura

D. Mafalda de Nelas, voltando de Miranda a Pinhel, trazia a escalavrar-lhe o coração o espinho do despeito. Isto não induz a liquidarmos que a menina amasse o primo D. Alexandre. O despeito das senhoras basta a explical-o a indiferença mesma dos homens que elas desamam.

Como quer que fosse, Mafalda saíra de Miranda, odiando o cunhado de sua irmã, no dia seguinte ao da ida dele para Coimbra.

Eis aqui o que ela contou ao pai, logo que chegou:

—Estava eu numa das grutas da quinta, quando o primo Alexandre, sentando-se, sem me ver, nas costas da gruta, deu um grande assobio. Fez-me curiosidade aquilo, e estive quieta para ver o que sortia dali. Pouco depois, chegou um homem de grandes barbas, que eu já tenho visto em nossa casa, em companhia do mano Sueiro.

—Bem sei, o desertor—atalhou o pai.

[124]

—É isso: eu já tinha ouvido lá dizer à mana, que ele era desertor.

—E depois?

—Depois o primo, assim que ele chegou, disse-lhe: —Olha que vais comigo para Coimbra. Está decidido—e o desertor respondeu: «Pois isso é que é preciso! »—Mas vê se aparas essas barbas, que tens cara de facínora—disse o primo—eu tenho medo que, em aparecendo morto o Casimiro, todos digam que foi obra do meu criado. —Eu quando tal ouvi comecei a tremer, e tive medo daquele homem! Quis dizê-lo à mana Guiomar; mas ela fala tão mal do Casimiro e da mana Cristina, que julguei imprudente dizer o que ouvira.

—E depois? —atalhou o velho com inquietação.

—Depois, estiveram a falar em facadas e tiros. E o desertor dizia: «são dois palmos de ferro, fidalgo. » E tirou da algibeira uma navalha, que relusia, e tamanha, meu pai, como eu nunca vi! Ainda disseram mais coisas que não me lembram, e foi cada um para seu lado. Ó papá, eles irão matar o marido da mana Cristina? Coitado!... porque é que o matam?

—Dá me papel e tinteiro, e um criado que aparelhe o macho para ir imediatamente a um recado.

Rui de Nelas escreveu esta carta.

«Sr. Ladislau. Sei que alguém intenta matar em Coimbra o marido de Cristina. Há três dias que para ali partiu o assassino ou assassinos. Avise-o como seu amigo, para que se acautele, ou se retire. Eu aborreço os infames, e as vinganças covardes: por isso me apresso a participar-lhe este plano, que oxalá não esteja executado, quando chegar a sua carta. Espero em Deus que não. Do seu amigo, Rui de Nelas. »

[125]

O criado partiu a toda a brida.

Ladislau leu a carta em suores frios. Escreveu duas linhas de agradecimento a Rui, e preparou-se para ir a Coimbra. Acaso entrara o vigário, e, lendo a carta, impediu de ir, alegando que o correio chegava primeiro.

Padre João e seu cunhado, sabiam os sucessos de Coimbra, e, sem se consultarem, nomearam D. Alexandre.

—Casimiro está vivo—disse com firmeza o padre.

—Quem em ol-o assevera?! —perguntaram Peregrina e Ladislau.

—É o raciocínio. Alexandre é incapaz de matar de rosto ou à traição. Precisamente leva um sicário assalariado que eu conheço há dez anos. Os facínoras por estipendio são muito covardes, porque amam tanto a vida que, para sustental-a se expõem a perdel-a. Se D. Alexandre ofendido vergonhosamente carece de animo para se desafrontar, devemos crer que ao carnífice alugado falte a coragem para acometer o homem que o não ofendeu. Além de que eu vou jurar que Casimiro se prepara contra as insidias do seu inimigo, e terá só de pelejar com um homem. Sobre todas essas conjecturas, roguemos a Deus pela vida do nosso amigo, e escreve-lhe a chamá-lo em termos, que não assustem Cristina.

Escreveu Ladislau a carta copiada no anterior capítulo; e, no dia seguinte, saíram de Vila Cova, e, à segunda jornada, pernoitaram em Gouvea. Dois dias depois chegaram Casimiro e Cristina.

A esposa de Ladislau, para abraçar sua comadre, pousou sobre o leito a criancinha que lhe adormecêra ao seio.

Cristina, porém, como se não visse o fervor da amiga, [126] ajoelhou à beira do leito, e beijou sofregamente o menino, que sorria aos afagos de algum anjo. Era belo de verem-se todos cinco, em redor da criança, como se para outro fim se não reunissem! Parece que ela lhes estava dizendo: «Distrahi vosso espirito de dores, que eu estou pedindo a Deus que vos defenda. »

Peregrina pôde furtar as carícias de Cristina, tomando-a para si com força.

—Estava a invejar-te, minha comadre! —disse a esposa de Casimiro—mas olha, não devo invejar-te, não!...

E disse-lhe ao ouvido breves palavras, explicadas pela exclamação de Peregrina:

—Sim? e não mo tinha dito!... que ditosas seremos com os nossos filhinhos!

O vigário sorriu-se, e murmurou:

—Não há crianças mais crianças que as mães! Estas alegrias raras vezes lhas recomeçam depois os filhos!...

Casimiro concentrou-se tristemente, e Cristina disse:

—Não falem em mãe diante de meu marido, por quem são!

—Falem, falem—disse Casimiro—que eu tenho de encontrá-la no céu pelo muito que a desejei neste mundo.

E, tomando o braço de Ladislau, chegou a uma janela, e perguntou:

—Que é isto? Que significa esta chamada?

—Não mo pergunte diante de sua senhora.

—Porque não? ela é forte. Se um dia me fraquearem os esteios da honra, minha mulher há de fortalecer-m'os. Diga, meu compadre.

[127]

Ladislau mostrou a carta de Rui de Nelas; e Cristina, ouvindo-a ler, exclamou:

—Não te disse eu?... Era o desertor ou não?

—Era o desertor—respondeu o vigário.

—Pois sabia? —acudiu Cristina.

—Disse-m'o a razão e a pratica dos valorosos barões de Miranda. V. ex. ª viu-o?

—Vi: mostrou-m'o o nosso anjo da guarda!... E meu pai é que te avisa, Casimiro! Quem me dera poder beijar-lhe a mão!

—Seu pai é um homem de bem às direitas, minha senhora—disse o vigário—Seria um modêlo de virtuosos, se os preconceitos de raça o não molestassem. Porque não há de v. ex. ª ainda beijar-lhe a mão? Esperemos.

—E agora? —disse Casimiro—que querem de mim? Será airoso que eu me vá esconder a Vila Cova das iras de D. Alexandre?

—É dever de marido e pai fugir o perigo—disse Ladislau—Sabemos que lhe sobra animo; porém agora, quer-se e requer-se que o coração seja maior que o animo. Sua senhora manda; o vigário aconselha; e minha mulher e eu rogamos. Falta-lhe paciência para viver alguns meses na tristonha casa da serra? É assim ingrato àquela terra agreste onde desabrocharam todas as flores da sua felicidade, meu compadre?!

—Ó meu amigo, meu generoso irmão! —exclamou Casimiro, nos braços de Ladislau—Vamos, vamos para Vila-Cova. Lá sei eu que tenho segura a vida, a alegria, e sempre viçosas as flores de felicidade, que se abriram no seu nobre coração, e para mim! Não é covardia fugir. Covardes são os que não tem uma esposa, [128] e fogem; covardes são os que não tem amigos como vós, e fogem!

—E no filhinho não falas? —disse Cristina sorrindo-lhe com incantadora meiguice.

—Não o disse eu! —acudiu o vigário—Agora, quer s. ex. ª que todo o coração de seu marido esteja embebido do futuro filhinho! Valha-vos Deus, mães loucas do amor de vossos filhos, que sois capazes de ceder do coração dos maridos em beneficio dos pequerruchos, anjos purissimos a quem basta o bafejo do Senhor!

nestas doces praticas, que eu, a medo, submeti à benevolência do leitor, se passaram as horas do descanso, até ao repontar da alva, em que proseguiram sua jornada. Lá vão os felizes, escoltados por suas mesmas virtudes.

Entretanto, recebeu D. Alexandre de Aguilar a nova de ter saído de Coimbra Casimiro Bettancourt, e o mesmo foi assoalhar, mediante alguns necessitados de sua recheada bolça, que o furriel se evadira, sabendo que ia ser desafiado a duelo de morte. Correu o boato, justificado por circunstâncias: a precipitação da saída, o estarem abertas as aulas, o ignorar-se o intento da retirada, o ter dito Casimiro, na véspera, que procurava casa em Coimbra, tudo induzia a crer a atoarda molesta à reputada intrepidez do militar.

A Vedeta da Liberdade, jornal portuense, publicou uma correspondência de Coimbra, em que se dizia em grifo: que um estudante militar, apelidado Bettancourt, fugira com a mulher para se não bater com D. Alexandre de Aguilar, acadêmico brioso, a quem, no ano anterior, insultára. E acrescentava: _O tal militar é avezado a fugas: uma vez fugiu com a filha de um nobilíssimo cavalheiro, onde seu tio carpinteirava agora; [129] fugiu com as costelas incólumes, porque o tio carpinteiro não sabe endireitar costelas quebradas. _

O jornal apareceu em Vila Cova subscriptado, a Casimiro de Bettancourt.

Casimiro leu a correspondência em voz alta.

E Ladislau perguntou:

—Que é isso?

—É uma gazeta—disse o vigário.

—Uma gazeta? —reperguntou Ladislau.

—Sim.

—Mas... (desculpem a minha ignorância...) como se faz isso?

—Isso que, meu irmão?

—Como se estampam esses insultos?

—Estampam-se.

—Então... —estou confuso, e vejo que me não percebem... —as gazetas servem de insultar? quem quer infamar alguém vai a casa do homem, que tem esse modo de vida, e diz-lhe: «imprima lá esse insulto», é isto?

—É isso—illucidou o padre—com o acrescento de que o dono do jornal recebe tanto por linha do insulto publicado.

Ladislau ergueu-se com nunca visto impeto de fúria, e exclamou:

—Então isso é infame! e a civilização que isso consente é a barbaria, é o escárnio de Deus e das leis de nosso país!

Casimiro sorriu, e disse:

—A indignação de meu compadre tem graça!... A que distancia este bom rapaz vive do mundo culto! Quer ele, talvez, que a civilização esteja em Vila Cova, e a barbaria em casa do jornalista!... A gazeta, [130] meu querido amigo, tem outra face, que o sr. vigário lhe não mostrou, e é que, se eu quiser insultar daqui D. Alexandre de Aguilar, o mesmo dono da gazeta me vende o espaço de seu papel, e imprime o meu insulto; e, no dia seguinte, vende o mesmo espaço para o louvor de D. Alexandre e meu. O dono deste papel é como a estatua em que Aretino fixava as suas vaias aos reis e aos papas, num tempo em que papas e reis eram coisas sacratíssimas e inviolaveis. Agora, que não há nada defêso, com que direito me hei de eu queixar? Não me alistei eu no exercito que defende as instituições livres?! Seria paradoxo gritar eu contra uma alavanca do progresso, chamada nem mais nem menos que «Vedeta da liberdade»! Os homens livres passam diante da estatua de Pasquino, e descobrem-se. Assim como a discussão racional e ilustrada aclara as escuridades e aplana os empeços da ideia útil, por igual razão as injúrias à pessoa, os ataques à moral de cada individuo servem de o abrir, à luz da analise, e ver tudo o que ele lá tem dentro do coração e consciência. A licença da imprensa é uma inquisição: em lugar de fogueiras tem atoleiros de lama. Das chamas do auto-de-fé saíram almas purificadas, no crer de alguns teólogos; e da alma da imprensa desbragada devem sair as consciências lavadas, no entender de alguns legisladores. Sejamos do nosso tempo, meu compadre.

—Pois, sim—disse Ladislau—mas deixe-me render louvores a Deus por me ter dado o nascimento nestas serras! Eu não cuidei que era assim o mundo. neste último ano quantas paixões más que eu não conhecia! Meu mestre decerto as ignorava; senão, ter-m'as-ia dito. Os meus livros também mas não disseram...

—É porque os seus livros são bons—atalhou Casimiro [131] Bettancourt—A corrompida sociedade da Roma imperial não tinha gazetas; mas tinha historiadores e poetas. Se meu compadre os ler, imagina que maus inventores o querem deleitar com fabulas hediondas. O homem foi sempre mau; será mau até ao fim. A sociedade parece melhor do que foi, olhada colectivamente: é parte em isto a lei, e grande parte o calculo. Cada individuo se constrange e infrea no pacto social para auferir as vantagens de o não romper: porém, o instinto de cada homem, em comunidade de homem, está de continuo repuchando para a desorganisação. Eu aceito, como puros os corações formados na solidão, a não se dar a segunda hipótese do proverbio, que disse: homem sozinho, das duas uma: ou Deus ou bruto [4]. Melhor seria dizer, com Santo Agostinho, ou anjo ou demônio. Ladislau formou-se aqui, rescende virtudes extraordinarias; mas, se for às cidades, à feira dos vícios, sentirá coar-lhe um veneno corrosivo nas entranhas; e, a meia volta, perderá de vista a benigna estrela destas suas montanhas. Ó meu amigo, não se alongue do seu paraíso! não queira saber que nome tem, a dez léguas da sua aldeia, o que meu compadre chama dever, civilização, amor, caridade e Deus.

Os gosos da vida domestica aligeiravam os meses da inactividade de Casimiro. Ao quinto de residência em Vila Cova, realisou-se a ventura saudada por Peregrina na estalagem de Gouvea: Cristina foi mãe de uma menina, que trouxe do céu o seu quinhão de felicidade, do qual todos participaram.

Queria o pai que Ladislau e Peregrina fossem padrinhos; [132] mas o vigário, consoante as velhas praxes de filhos casados contra vontade paternal, pediu que fosse convidado o avô, por carta de D. Cristina.

Escreveu ela com humildade sem baixeza uma carta, onde se lia este período:

«É uma ternura filial que me anima a escrever a meu pai: não é a necessidade que me obriga. Se sou pobre, ainda não tive ocasião de sentir desejos de ser rica. O perdão de meu pai é que eu desejo e peço, se foi delito o ato que está sendo a minha felicidade. Quisera um dia beijar as mãos de meu pai e dizer-lhe que tenho tanta vaidade em ser filha de v. ex. ª como esposa de Casimiro. »

Foi lida a carta e discutida. O vigário achou duras algumas palavras daquele relanço, e pediu a illisão das palavras: «se foi delito o ato que está sendo a minha felicidade»; bem como: «tenho tanta vaidade em ser filha de v. ex. ª como esposa de Casimiro. » As primeiras palavras foram substituidas: as últimas não. Cristina nem ao marido obedeceu.

Rui de Nelas recebeu a carta, e leu-a sem rancor até às expressões rebeldes à censura do vigário; mas, neste ponto, rasgou o papel e disse ao portador:

—A resposta é esta: diz lá que eu é que não tenho vaidade nenhuma em ser padrinho de um filho do sr. Casimiro.

Tal resposta magoou medianamente a família de Vila-Cova.

—É soberbo! —disse Ladislau.

—Preconceitos de raça—acrescentou o vigário.

—Não tem outra falha a excelente alma do sr. Rui.

[133]

—Pois há de ser padrinho da neta! —tornou Ladislau.

—Que capricho é esse, meu compadre? —perguntou Casimiro.

—Não é capricho: é batalha dada contra a soberba: havemos de amolgal-a com a brandura.

Na segunda dominga, posterior ao nascimento da menina, saiu, ante-manhã, de Vila Cova Ladislau, uma ama de leite, e a criancinha. Chegaram a Pinhel às nove horas, e ele entrou à igreja paroquial, onde, por informações de mestre Antônio carpinteiro, Ladislau soubera que o fidalgo ia ouvir missa. A ama sentou-se no adro, e esperou, rodeada de meninos, que se acotovelavam para ver o rosado rosto da baptisanda.

Ladislau apresentou-se ao abade, com uma carta do padre João Ferreira, e conversaram.

Às dez horas tangeu a sineta à missa, e chegou o fidalgo com suas filhas, e foram ajoelhar na alcatifa da sua capela privativa. Antes do terceiro toque, o abade aproximou-se de Rui de Nelas, e disse-lhe:

—Faz v. ex. ª a esmola de fazer cristã uma criancinha?

—Sim, abade, pois não!

—E de escolher a madrinha?

—Será minha filha Mafalda.

Chamou ele a menina, e acercaram-se do baptistério.

A ama entrou com a criança, chamada pelo sachristão.

A um lado, estava Ladislau com uma tocha, escondendo-se ao lance de olhos de Rui de Nelas.

Ao descobrimento da menina, Mafalda exclamou:

[134]

—Ai! tão linda que é!... Veja, papá! Ó manas, venham ver que perfeição!...

—Quem são os pais? —disse o fidalgo.

O abade, como tivesse começado as ceremonias do sacramento, não respondeu; e, pouco depois, perguntou:

—Qual é o nome?

—É o meu—disse Mafalda.

Findo o ato, foram à sachristia lavrar no livro o assento baptismal.

O abade escreveu à vista dos apontamentos, e leu depois para conhecimento dos padrinhos:

«Mafalda, natural de Vila-Cova, termo de Pinhel, filha legitima de Casimiro Bettancourt, natural de Santarém, e da ill. ᵐᵃ e ex. ᵐᵃ sr. ª D. Cristina Elisiária de Nelas Gamboa de Barbedo»...

—Como?! —exclamou o fidalgo—Como se intende isto? Que abuso foi este, sr. abade?!

Ladislau saiu do escuro da sachristia, e disse:

—O abuso é meu, sr. Rui de Nelas. E v. ex. ª não me castiga, porque eu vou pôr em seus braços a criancinha a implorar o meu perdão e o de sua mãe.

E tomou a menina dos braços da ama, e depositou-a nos da madrinha, dizendo-lhe:

—Seja v. ex. ª a intercessora de sua irmã!

—Dê-lhe um beijo, papá! rogou maviosamente D. Mafalda.

O velho pôs a mão na face da criança, e disse:

—Não tens culpa tu, pobre inocente!...

E o abade continuou a leitura do assento baptismal, sorrindo, e olhando por cima dos óculos, para ver Rui de Nelas, que deixava chupar-lhe a criança no dedo mendinho.

[135]

Ao saírem da sachristia, o fidalgo disse à ama da criança.

—Vá lá a casa, depois da missa, mulher, e o sr. também se quiser.

Ladislau fez um sinal de agradecimento.

Finda a missa, a menina foi levada a casa do avô. As quatro tias deram inquietações à ama, temerosa de que lhe abafassem a criança com beijos.

Entretanto, Ladislau contava a Rui de Nelas os sucessos de Coimbra e os aleives da correspondência da «Vedeta da Liberdade».

O velho ouviu-o em silencio; mas com ar de satisfação, enquanto aos brios de seu genro no justo castigo de Alexandre; porém, quando soube que as gazetas traziam o seu nome aparelhado com o do carpinteiro, irritou-se, e clamou:

—Quando pensei eu de andar pelas gazetas!... É o que minha filha me arranjou!...

Este acesso durou alguns segundos.

Continuaram a conversar serenamente. Eram horas de partir para Vila-Cova. O fidalgo mandou entrar a afilhada, e deu-lhe um beijo, e duas peças à ama.

E—caso único! —apertou a mão do lavrador de Vila-Cova, e disse-lhe por último:

—O tempo fará o resto. É cedo por ora! A ferida sangra ainda!

—O balsamo do Evangelho, sr. Rui de Nelas... —respondeu Ladislau, saindo.

[136]

[137]

O Bem e o Mal

Sinopse

Leia gratuitamente O Bem e o Mal, de Camilo Castelo Branco, clássico lusófono em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza o romance em 22 seções para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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