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O Bem e o Mal

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O Bem e o Mal

Capítulo 7 · O Bem e o Mal

Capítulo VI

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Os servos iam e vinham por estradas reais, atalhos e mais desfrequentados caminhos. Ninguém dera noticia dos fugitivos, excepto um guardador de cabras, o qual disséra ter visto numa chã, passarem um senhor, vestido à cidade, e uma senhora assim a modo de fidalga, e depois os vira entrar à estrada de Trancoso. Estas novas quem as colheu foi o José-pastor, o velhaco! Ele não viu guardador nenhum de cabras: inventou-o, sem que ninguém lhe encomendasse a fábula. O que ele queria era attrahir as pesquizas para o lado oposto de S. Julião da Serra. Serviçal até ali!

Quando, ao quarto dia de baldadas buscas, os criados mais pimpões se abalaram para Trancoso armados até aos dentes, Rui de Nelas foi procurado por sujeito desconhecido. Entrando à presença do fidalgo, e interrogado sobre quem era, disse:

—Sou um lavrador da freguesia de S. Julião da Serra.

[76]

—Onde está vigário meu afilhado padre João Ferreira?

—Sim, senhor.

—Como está ele!

—Doente de cama.

—Coitado! E Peregrina? Conhece a irmã do vigário?

—É minha mulher.

—Ah! sim? quanto folgo! Já cá sabiamos que ela casára bem.

—Estimo-a muito, que é digna disso.

—E vm. ᶜᵉ creio que é lavrador abastado...

—Graças a Deus, tenho mais que o necessário...

—Queira sentar-se. Esqueceu-me de o mandar sentar, com a satisfação de ver o marido da nossa Peregrina... Satisfação, digo eu!... Vão por cá muitissimas aflições, senhor... como é a sua graça?

Ladislau, criado de v. ex. ª

—Muitas aflições, sr. Ladislau! Caiu em minha casa um raio!... Deus... não sei que mal lhe fiz! Eu, que faço o bem que posso, que dou tudo quanto me sobeja aos pobres, que eduquei minhas filhas na religião de meus avós, estou aqui esmagado por uma vergonha, que me está cavando a cova!... Quando há sete anos me morreu minha mulher, pedi a Deus a morte: oxalá que ele me tivesse ouvido!... Logo, em seguida, morreu o meu único filho varão. Resisti ainda. Depois vi cair o Senhor D. Miguel do trono à miséria da proscripção, e fiquei ainda em pé. Agora... agora... esta punhalada corta-me o último fio! Nos três infortúnios passados, o Senhor Deus dos aflictos colocou a meu lado um dos seus apóstolos, que me amparou, e me fechou as chagas com o balsamo da religião. [77] Era um frade da sua freguesia, creio eu: Fr. Braz Militão do convento de Vinhais. Morreu o santo, que passou três noutes à cabeceira do meu leito, quando enviuvei. Ele tinha experimentado a minha dor, porque vestira o habito de frade mendicante, quando Deus lhe chamou sua mulher...

—Esse frade era meu pai—disse Ladislau.

—Seu pai! —exclamou o fidalgo, erguendo-se a abraçá-lo. —Pois o marido de Peregrina é filho daquele predestinado, a quem eu recorro ainda nas minhas angustias?

—E eu recorrerei também para que meu bom pai alcance do Senhor o sossego de v. ex. ª

—Desculpe-me, que eu estou todo absorvido pela minha mágoa! Ainda não fiz senão carpir-me; porém o sr. Ladislau calculará, quando for pai, a natureza da minha dor... Que motivo o traz a esta casa?

—O seu infortúnio, sr. Rui.

—Pois sabia que minha filha fugiu? Já lá chegou a noticia? Foi sua mulher que o mandou saber a atroz verdade? É certo, é horrivelmente certo que essa desgraçada fugiu há cinco dias, e todas as diligencias em procural-a com o infame raptor se tem baldado!

—A sr. ª D. Cristina está em minha casa—atalhou Ladislau.

Rui de Nelas aproximou-se, quase rosto a rosto, de Ladislau, e exclamou:

—Que diz?! em sua casa? com ele?

—Não, sr. Rui. Em casa do filho de fr. Braz Militão não se agasalham amantes fugitivos, salvo se eles forem tão desgraçados que não tenham pão nem tecto. Em minha casa está unicamente a filha de v. ex. ª; em casa do vigário está Casimiro Bettancourt.

[78]

—E meu afilhado—interrompeu iroso o fidalgo—consente que se recolha em sua casa o roubador de minha filha, da filha de Rui de Nelas, a quem ele deve tudo o que é?!

—Lamento, —disse Ladislau—que meu cunhado aqui não esteja para dignamente responder a v. ex. ª. Eu não tenho a virtude nem as expressões santas, persuasivas, e affectuosas do afilhado de v. ex. ª. Estou aqui, porque a doença há três dias o tem a ele na cama: apressei-me a vir para que o padre, despresando a enfermidade, não viesse por este mau tempo arriscar a vida. As intenções, todavia, de meu cunhado, acolhendo em sua casa Casimiro Bettancourt, são obvias e justas. Os dois, desgraçados pela cegueira do amor, foram pedir ao sacerdote a benção matrimonial; o sacerdote não podia abençoal-os sem consentimento de v. ex. ª, e não podia também abandonal-os sem faltar à caridade que professa, à sua própria consciência, e ao que deve ao sr. Rui de Nelas. Abrir mão de eles, na situação em que os viu, o mesmo seria declarar-lhes que não há divina nem humana misericórdia. Eles iriam porta fora desconfiados da virtude do ministro de Deus, em que tinham posto sua esperança, e julgar-se-iam desquites de serem ou procurarem ser virtuosos...

—Bem! —atalhou Rui, a que vem o senhor?

—Implorar a v. ex. ª consentimento...

—Para se casarem?

—Sim, senhor.

—Sabe o que pede? o sr. Ladislau sabe o que pede?! —bradou o fidalgo com os olhos afuzilando ira e gestos descompostos.

—Sei que peço, segundo meu cunhado diz, o único remédio de tal desgraça.

[79]

—Seu cunhado é um parvo! —rebradou o velho, batendo rijamente com o punho fechado sobre a mesa. —Repito: seu cunhado é um parvo, e não tem desculpa nenhuma, porque sabe quem é o pai de Cristina, e quem são os parentes desse ninguém que roubou minha filha. Não lhe disse ele que Casimiro é sobrinho de um carpinteiro?

—Sim, senhor, disse.

—E então? Parece-lhe que é bem arranjado o casamento do sobrinho do carpinteiro com a filha de Rui de Nelas? Responda!... Que pena eu tenho que, em lugar do senhor, não estivesse aí o padre, a ver que me respondia!...

—Parece-me que o padre responderia a v. ex. ª que a sr. ª D. Cristina...

—Diga, diga!

—Casada com o sobrinho do carpinteiro está mais honrada que na situação em que se acha agora.

—Quer isso dizer que da parte do mariola é muito grande favor casar-me com a filha!?

—Não, sr. Rui; eu não quis dizer semelhante coisa; não vim aqui ofender v. ex. ª.

—Pois então?... A vontade do meu amigo padre (replicou o fidalgo, sorrindo à palavra amigo) é que eu admita em minha casa os noivos?

—Não lhe ouvi isso. O que ele unicamente pede é a certeza de que v. ex. ª lhe levará a bem que ele os case, embora o seu consentimento não seja escrito.

—Prohibo-o expressamente de os casar, sob pena de eu o fazer sair da igreja, e meter em processo!

—Que quer, por tanto, v. ex. ª que faça sua filha? —redarguiu Ladislau com os olhos humidos de lágrimas de desanimação—Que há de ela fazer?

[80]

—Entrar num convento, chorar o seu crime, e morrer lá, é o que eu quero. A ele hei de perseguil-o até ao inferno! hei de mettêl-o numa masmorra, e impontal-o para as Pedras-negras.

Ladislau recolheu-se breves instantes, e saiu de si, dizendo com grande impeto de pranto:

—Se aqui estivesse frei Braz de Vila Cova, que diria, neste ponto, o bom cristão a v. ex. ª? Eu creio, senhor, que meu pai diria: «Perdão, e misericórdia. A neta dos reis de Judá, Maria, mãe de Jesus, foi eleita pelo Eterno esposa de um operário: era carpinteiro o pai putativo do Redemptor dos homens. »

—Não me pregue sermões! —interrompeu Rui de Nelas, cujas convicções, no tocante ao casamento da Virgem Maria, eram muito pela rama. O fidalgo acreditava que uma sua tia freira bernarda em Lisboa tinha oração infusa, e, em seus êxtase, se erguia sobre a terra quatro covados; acreditava que S. Tiago e S. Jorge vieram em pessoa combater e vencer pelos portugueses; acreditava outro sim que a morte e vinda de D. Sebastião era por ora coisa duvidosa, porém o casamento da filha dos reis de Israel com um carpinteiro custava-lhe a tragar!

—Não me pregue sermões! —dissera, pois, Rui de Nelas, e prosseguiu: —Seu pai, se aqui estivesse, iria sem que eu lho pedisse, procurar essa mulher perdida, e convertêl-a a Deus, levando-a a um convento, e obrigando-a a ver bem a sua vergonha para que nunca mais se amostrasse a olhos do mundo. Seu pai, sr. Ladislau, de certo me não viria dizer que premiasse a desobediencia de minha filha, e a petulância do farropilha, que ma roubou, casando-os. Boa maneira de os castigar, não tem dúvida nenhuma! O resultado de tão funesto exemplo [81] seria as outras minhas filhas fugirem-me com os miseráveis que as seduzissem! Se a religião mandasse ou aconselhasse tal, ai da ordem social, que então direitos de pai e obediência de filhas tudo andaria transtornado! Não, senhor! frei Braz Militão não podia, de modo nenhum, ser o patrono de tamanho crime!

—Que quer, pois, v. ex. ª que se faça? —disse Ladislau com os olhos já enchutos, e um tom de voz, que denotava outra condição de espirito.

—Já disse: ela, convento; ele, se poder fugir, que me fuja; mas já e depressa, quando não a justiça fila-o.

—Creio que a sr. ª D. Cristina não entrará em convento, nem Casimiro fugirá sem ela.

—Veremos! Eu vou mandar homens a S. Julião da Serra!

—Fará v. ex. ª mal. Na minha terra nunca entraram homens de braço armado, excepto os franceses, que incendiaram as casas por não encontrarem alguém. As nossas defezas e resguardo são as serras. Eu conduzirei a filha de v. ex. ª onde não possa a violência alcançal-a. Ela fiou-se em mim, aceitou a minha casa, hei de defendel-a. A não poder vê-la esposa do homem que ama, não serei eu que vá perfidamente arrancal-a ao seu destino, bom ou mau, Deus sabe qual será. Calar-me seria uma perfídia. Volto, pois, com o coração de luto, e direi a meu cunhado que v. ex. ª lhe prohibe remediar a desventura da sr. ª D. Cristina.

—Mas diga-me cá! —acudiu de golpe o velho. —Se eu consentisse no casamento, que se seguia? Minha filha voltava a Pinhel com o marido?

—Não, senhor.

—Pois então?

—Lá sabem o seu intento. A Pinhel não voltarão.

[82]

—Mas quem os sustenta, depois?

—Serei eu, se eles quiserem.

—Belo começo de vida! Vai viver minha filha às sopas da...

Conteve-se Rui; mas Ladislau, adivinhando-o concluiu a frase:

—Às sopas da serva de v. ex. ª... Minha mulher tanto se considera ainda uma criada de v. ex. ª que recebe como a maior das honras ter à sua mesa a sr. ª D. Cristina, e servil-a como criada.

—Perdoe-me, atalhou Rui comovido, perdoe-me, que a minha dor faz-me mau; que eu não o sou, meu amigo! Sua mulher nunca foi minha criada. Sentei-a à minha mesa, e vesti-a como minhas filhas. Nunca me arrependi, e queria não me arrepender nunca. Faça o sr. com que ela resolva Cristina a esquecer esse homem, e a fazer me a vontade. Pode ser que o tempo venha a gastar o ódio, que tenho a essa perdida, e a tire do convento. É o maior serviço, que podem fazer-lhe, dissuadil-a. Façam com que Casimiro saia de Portugal: que vá para o Brasil ou para o inferno, que eu não lhe faço mal. Tenho dito, sr. Ladislau, a este respeito.

—Minha mulher não ousa dar tais conselhos à sr. ª D. Cristina, nem eu a minha mulher. Em fim, sr. Rui, ouça v. ex. ª o que vou fazer. Acompanharei sua filha ao lugar onde a encontrei; lá, onde a espera Casimiro Bettancourt, direi a ambos: «Fiz o que pude, pedi com lágrimas, pedi com razões: tudo se malogrou. Agora se meu cunhado os não quer ou não pode casar, sigam sua vida, vão mostrar-se por esse mundo desonrados, e digam que, se a desonra os afasta das pessoas de bem, é porque esta infeliz menina tem um pai, que antes a [83] quer assim. » É o que farei e direi, sr. Rui de Nelas; mas antes disto, ainda me resta um esforço. Pedirei à alma de meu pai que lhe toque o animo; e, de joelhos e mãos erguidas, ainda uma vez, suplico a v. ex. ª que dê consentimento para que sua filha seja honesta!

Disse Ladislau as últimas palavras ajoelhado.

O fidalgo contou, passados anos, que, em lugar de Ladislau, vira, como em sombra, fr. Braz Militão. Há segredos de Deus; porém, bem pode ser que o caso, a dar-se, fosse mera visualidade do velho. Fosse ou não, Rui de Nelas inclinou-se a levantar Ladislau de sua postura humilde, e disse:

—Valha-me Deus!

Passeou, de uma parede a outra, repetidas vezes, o salão, enquanto o moço arquejante lhe estava como bebendo a resposta dos beiços convulsivos. A final, parou o velho, em meio da sala, levou as mãos às fontes, e, sacudindo vertiginosamente os braços, exclamou:

—Casem! mas que eu os não veja mais!

E sentou-se, prostrado.

—Beijo as mãos de v. ex. ª—disse Ladislau, retirando-se com alvoroço tal de alegria que a sua vontade era distancear-se depressa, receoso do arrependimento.

Arrependimento que por um cabelo, pouco depois, ia dando de si um feito vil!

Rui de Nelas ergueu-se de golpe, já quando o moço tinha saído, e esporeava a galope desapoderado a mula, estrada fora.

Chegou ainda a gritar pelos criados, cujo maior numero tinha ido para Trancoso. Era seu intento envial-os a S. Julião da Serra, infractores da palavra de seu amo.

neste lanço, estropearam no pátio dois cavalos: o [84] cavaleiro era D. Sueiro de Aguilar Vito de Alarcão Parma de Eça, fidalgo de Miranda, com o seu lacaio.

Este sujeito, além daquele nome, que só por si é uma fortuna, nascera primeiro que seus irmãos, na maior casa de aqueles contornos de Miranda. Barbedos e Alarcões tinham começado, pouco mais ou menos, com o gênero humano. Estas duas famílias, em franqueza intima e modesta, diziam que o primeiro sangue de Lisboa—da Lisboa de sangue azul, intende-se—era um regato da fonte caudal, represada em eles, aí pela fundação dos reinados de Leão e Castella.

Desde muito que Rui de Nelas meditava em casar a filha morgada com D. Sueiro de Aguilar, e em isso trabalhára, com intervenção da parentela.

Eil-o aí está agora o almejado genro a pedir-lhe a filha, e eil-o vem a ponto de estorvar que o sogro se desonre, violando a palavra dada, com desdouros dos reis de Leão e Castella, seus avós.

Trocados os termos ceremoniosos, D. Sueiro perguntou pelas primas.

Entraram cinco meninas meia hora depois.

—E a prima Cristina? —perguntou ele.

—Está na Guarda, em companhia da tia Mafalda Portugal—tartamudeou Rui.

—Sinto—disse D. Sueiro—porque, vindo eu pedir a mão da prima Guiomar para mim, sou encarregado de pedir a prima Cristina para meu irmão Alexandre.

—Céus! —exclamou para dentro de si o fidalgo, e as meninas encararam-se mutuamente.

—Falaremos acerca de Cristina—disse Rui, expedindo um gemido rouco.

E declinou a prática sobre trivialidades, até horas de jantar.

[85]

D. Alexandre, acadêmico do primeiro ano na Universidade, tinha visto sua prima na feira de Viseu, um ano antes. Escrevera-lhe, mediante os bons ofícios de sua tia D. Beatriz de Albuquerque. Não respondera Cristina senão termos agradecidos à escolha, posto que incondescendentes. Assim mesmo, D. Alexandre de Aguilar recalcitrou, sem melhor exito. D. Sueiro, porém, tomou a peito levar a noiva ao irmão.

Contou-se o incidente que prende com o porvir desta história.

[86]

[87]

O Bem e o Mal

Sinopse

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