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O Bem e o Mal

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O Bem e o Mal

Capítulo 9 · O Bem e o Mal

Capítulo VIII

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Temos de voltar a Pinhel.

D. Sueiro de Aguilar pediu instantemente que se mandasse buscar à Guarda sua prima Cristina. Tergiversou, enquanto pôde, Rui de Nelas; porém, quando o fidalgo de Miranda anunciou que iria pessoalmente buscá-la, o velho, entre lágrimas e gemidos, declarou tudo.

—E não está ainda morto o vilão? —perguntou D. Sueiro, concluída a narrativa.

—Morto, não: nem sei onde está.

—E pode meu tio Rui de Nelas Gamboa de Barbedo consentir que viva o cão imundo! Um Gamboa deixar viver o raptor de sua filha! —replicou D. Sueiro.

—Que hei de eu fazer-lhe agora? é marido dela!...

—Antes viúva, antes perdida, antes morta!... Que ouvi eu! Cristina, amada por Alexandre de Aguilar, [100] requestada e pedida, acha-se casada com um sobrinho de carpinteiro! Ó tio! esta vergonha é insanável!... Quem dirá que minha bisavó foi casada com o primo carnal de um avô de v. ex. ª!?... Sinto, sinto amargamente dizer-lhe que não posso ser cunhado do sobrinho do carpinteiro!

—Paciência... murmurou Rui—Deus me leve depressa. Estou farto das afrontas dos nobres e dos plebeus. Ele roubou-me a filha, e tu Sueiro, injúrias a minha dor! Que hei de eu fazer?

—Esmagar o verme!

—Valha-te Deus! não se esmagam assim homens! Os tempos são outros, meu sobrinho. A plebe agora tem a força, e nós temos o direito.

—E a força! Vá lá um plebeu requestar irmã minha!... Não verá mais sol nem lua! Juro-lh'o sobre...

D. Sueiro, como não visse à mão sobre que jurar, calou-se, e expediu um grunhido, como usam os bravos, que parecem tirar a valentia da garganta. E prosseguiu:

—Já estarão casados?

—De certo estão há três dias.

—V. ex. ª deu o consentimento?

—Nem dei, nem deixei de dar... Callei-me, farto de ouvir as lastimas de um bom moço, que aqui veio...

—E houve sacerdote indigno que os recebesse sem licença legal e canonicamente escrita?

—O sacerdote é meu afilhado, ordenado à minha custa, nomeado por minha intervenção na igreja onde se receberam.

—Pasmo!... pois... ó sacrilégio da amizade! o crime inaudito! Padre João, aquele sarrafaçal de padre [101] ousou sanctificar e legalisar o opróbrio da família que lhe deu o pão, a sotaine, e a igreja! Qual vingança há aí de tamanho crime!

Andava D. Sueiro de um lado a outro da sala, sacudindo os braços, em mental soliloquio. Rui amparava a cabeça entre as mãos, pusera os cotovelos no peitoril da janela, e olhava, sem o ver, para um macisso de murtas do jardim. As apostrofes irrisórias do sobrinho calaram-lhe no animo, a ponto de o irarem contra o vigário de S. Julião. Monologando consigo, dizia:

—D. Sueiro tem razão. O padre, devendo ser o primeiro a embaraçar o casamento, não só mo mandou aconselhar como necessário, mas ainda por cima me pediu e instou licença para casal-os. A ingratidão é flagrante! O vilão bandeou-se com o outro da sua estôfa. São uns pelos outros estes filhos do nada! Se ele me fosse grato, restituia-me a minha filha, e afugentava o raptor. Longe disso, agasalhou-o, sustentou-o, e recebeu-o como se eu lho recomendasse!... Tem razão D. Sueiro! O padre merece castigo! Não basta expulsal-o eu para sempre de minha casa: hei de reduzil-o a viver da esmola da missa, se não poder caçar-lhe o exercício das ordens.

E continuou em voz alta:

—Dizes bem, meu sobrinho: o padre é um refalsado ingrato! Há de ser punido.

—E o troca tintas?

—Casimiro?

—Sim, o pêrro, o sobrinho do carpinteiro?

—Já disse que é tarde para o mandar castigar.

—Deixe-m'o por minha conta, tio Rui. V. ex. ª não tem filho que lhe vingue as cans; mas aqui está o braço indomável do seu sobrinho.

[102]

—Não aprovo—disse o velho—Estão casados. Já me não poupo à vergonha de receber em minha casa a viúva do homem abjecto. É tarde para remédio. O sangue já não lava a nodoa.

—Nodoa eterna! —acrescentou D. Sueiro de Aguilar.

—Seja o que Deus quiser! —Está visto que regeitas a esposa que pediste, meu sobrinho. Ficaremos em paz; eu com ela, e tu com a tua dignidade limpa. Mas olha que és injusto! Minha filha Guiomar está inocente no delito de Cristina. Faz o que quiseres. Escolhe-a mais rica; mais fidalga dificilmente a acharás em Portugal.

—Sei que é minha prima! —disse modestissimamente o fidalgo de Miranda, e ficou ali, por não ter mais que dizer a tal respeito. Uma prima dos Alarcões Parmas de Eça não podia ser mais nada em matéria genealógica. A D. Guiomar, porém, entre as qualidades dignas de seu primo, sobrava-lhe a de ser tola, com uns longes de idiota.

O ajuntarem-se estes dois era preordenação, não direi do alto para declinar a influencia divina de sobre as parvoiçadas que se fazem neste globo; mas, predestinação, isso era, se alguma há nesta coisa de encontros e desencontros, que os poetas mirificamente explicam.

E tanto assim era que, naquele mesmo dia, D. Sueiro, vindo de passeio com D. Guiomar affectuosamente disse ao tio que, apesar de tudo, seria seu genro, com a resalva de em sua casa nunca mais se proferir o nome de Cristina.

Concordes em isto, afanaram-se logo em aviar os preparativos. D. Sueiro de Aguilar foi dispôr suas coisas a Miranda, e Rui de Nelas enviou ao Porto o feitor à compra do precioso enxoval.

Natural seria que o velho, contente e distrahido, perdoasse [103] ao vigário de S. Julião, ou esfriasse no ardor vingativo até esquecer o ingrato, e desprezal-o fidalgamente.

Assim não foi. A natureza vai tão falsificada que já me quer parecer que andamos a chamar natureza a tudo que é arte: arte, digo eu, sinônimo de manha, ardil, malicia e obra de Satanás.

Escreveu Rui de Nelas ao seu procurador na Guarda, acusando o vigário de S. Julião da Serra. Foi padre João chamado à câmara eclesiástica para responder sobre o casamento irregular de Casimiro Bettencourt e D. Cristina de Nelas. Ingenuamente relatou o vigário que os casara com a licença vocal do pai da contrahente. Redarguiram-lhe que era apócrifa a licença, e dali sem averiguações o suspenderam do exercício paroquial.

Padre João, antes de recolher à vigararia para fazer entrega dos livros à posse do novo pastor, foi a Pinhel, e serenamente bateu ao portão do fidalgo.

Os criados receberam-o com má sombra, e um foi avisar o amo, e voltou dizendo:

—O fidalgo não lhe fala. Vá-se o sr. padre em paz, que o amo, se o vê, vai-lhe ao espinhaço.

—Diga ao sr. Rui de Nelas que seu afilhado vem pedir-lhe perdão, e explicar o seu procedimento.

O servo, vencido pela humildade, voltou ao amo, e trouxe esta resposta:

—Que lhe não perdoa, nem quer ouvir explicações.

—Um de vm. ᶜᵉˢ—replicou o manso vencedor do Evangelho—faz-me o favor de lhe entregar uma carta?

—Entrego eu, disseram quase todos.

—Volto já.

Saiu o padre a escrever na primeira tenda que se lhe prestou. Dizia assim a carta:

[104]

«Meu bom padrinho consentiu verbalmente que eu casasse a sr. ª D. Cristina com Casimiro?

«Consentiu.

«Meu padrinho requereu a suspensão das minhas funções parochiaes, alegando a irregularidade daquele casamento?

«Requereu.

«Devia fazel-o?

«Cito perante Deus a consciência de meu padrinho.

«Se procedi mal, peço perdão. Se procedi bem, Deus me ampare. De v. ex. ª afilhado, capelão e servo.

João. »

Rui leu a carta com arremesso, e releu-a com brandura. A sua consciência estava diante de Deus. O juiz era inexorável, e o velho supersticioso, talvez. Tremia, e queria fugir de si próprio. Carregava-lhe no peito a mão férrea da justiça divina, e abafava-o. Rui chamou o criado, e mandou entrar o padre. O padre, porém, entregára a carta, e saíra caminho de Vila Cova.

Deixemos o delinquente a resolver-se no inferno que se abriu com a mão iníqua, e sigamos o homem de animo inteiro, o humilde triumfante.

Chegou a Vila Cova de rosto alegre, e disse:

—Certamente, Ladislau, não te enganaste com as palavras de meu padrinho, respeito ao casamento da filha?

—Não me enganei; foram estas: casem; mas que eu os não veja mais. Porque mo perguntas?

—Fui suspenso de vigário, a requerimento do sr. Rui de Nelas.

[105]

—Mas estás em paz contigo e com os teus deveres.

—Estou.

—Então descança na tua casa, meu irmão. Fica ao pé de tua irmã. Vila Cova, sem padre, está como viúva saudosa e inconsolável. Os teus paroquianos já te amavam: paga-lhes o amor ficando entre eles. Virá outro vigário enviado pelo governo; e tu serás o enviado de Deus. Ambos são necessários. E tu para mim, e em minha casa, és o cumulo de felicidade.

—Ficarei e trabalharei—respondeu padre João.

No dia seguinte, chegou à residência de S. Julião da Serra outro pastor. daí a curto espaço, estava o adro a transbordar de povo. A noticia chegou aos campos, e os agricultores ergueram mão da sáfra, e acorreram ao presbitério.

Feita a entrega de livros e utensílios da igreja, padre João saiu ao adro, e disse:

—«Meus amigos, como no pouco tempo, que vos parochiei, não houve espaço de mostrar meus vícios, saio de entre vós sem deixar má nota, escândalo, ou desamor. Como fostes rebanho de um pastor santo, que me antecedeu, achei-vos doceis, bons e virtuosos. Edifiquei-me entre vós, e aprendi a crer na influencia de um bom parocho. Creio que a vontade do Altíssimo é que os vossos pastores no futuro não destruam as boas obras dos passados. Eles semearam; vós sois o fruto, e de vós hão de fructear mais gerações. E, por isso, é fé minha que o vigário novo terá o espirito dos antigos. Sede com ele o que fostes comigo. Ficai com Deus. »

Os ouvintes abraçaram-o em tropel, debulhados em lágrimas; e ele, ensopando com as suas a manga da batina, encostou-se ao ombro de Ladislau, e caminhou para Vila Cova.

[106]

À mesma hora, Rui de Nelas, humilhado pela consciência na batalha com o orgulho, escrevia ao procurador, mandando-o que fosse ao paço episcopal e encarecidamente solicitasse o pôr pedra sobre o processo contra o padre vigário de S. Julião da Serra, e levantar-se a suspensão. E desculpava a mudança de seu animo, com ter-se lembrado que dera verbalmente a licença, e o padre, em virtude disso, procedera regularmente. Encarecia em termos aflictos os seus escrúpulos e remorsos, pedindo a máxima brevidade no levantamento da suspensão, e retirada do novo vigário.

Ora vejam que alavanca de ferro a prostrar um soberbo, foi a humílima carta de padre João! Estas victórias dá-as o Evangelho; e as bandeiras triunfais são estas. Que é vencer Cezar a Pompeu, ou Scipião a Annibal? Que é Roma armada avassalar o mundo? Que é Napoleão devastando reinos e homens à frente de milhões de escravos? Dobrar o orgulho de um homem, quando se lhe pede perdão de um inventado agravo, isso sim é que é vencer. Qual filosofo, antes do divino Cristo, ensinou a citar ao tribunal do juiz supremo a consciência de um mau, e fazêl-o aí acusar-se, dobrar-se, condemnar-se, e reparar o ruim feito, a afronta, a injustiça?

Alguns dias passados, padre João Ferreira era restituido à posse da igreja, visto que ulteriores informações abonaram a regularidade do matrimonio acusado indevidamente.

O povo da freguesia exorbitou da sua costumada prudencia, saltando por cima das admonendas do seu vigário. Os mais entusiastas fizeram fogueiras como em noute de S. João, e correram a freguesia com esturdias instrumentais, e foguetes de lágrimas. Cotizaram-se seis [107] lavradores abastados para celebrarem o sucesso, num aprazado domingo, mandando fabricar um balão na Guarda, e comprar na botica os ingredientes para a ascensão, com grande copia de girandolas e quantas invenções pirotechnicas se achassem na Guarda e Viseu afora a musica de Pinhel. O vigário empenhou rogos e autoridade em demovêl-os; porém, como os visse inquebraveis no intento, chamou ele artificiosamente a si o dinheiro destinado às festivas despesas, obrigando-se a fiscalisal-o do melhor modo.

Chegou o domingo aprasado. Logo de madrugada os lavradores foram à residência do vigário a tomar conta dos objetos que deviam ter chegado no sabbado. Padre João mostrou-lhes uma arca de pinho, e disse:

—O balão, que há de chegar ao céu, já ali está em aquela arca.

Os lavradores quiseram vê-lo mas o padre diferiu para as onze horas desencaixotar o balão que havia de chegar ao céu.

—E os foguetes? —perguntaram eles.

—Também chegam logo, e hão de ser todos de lágrimas.

—E a musica?

—Vem também; e há de ser musica de anjos.

Os paroquianos encararam-se mutuamente e murmuraram:

—Anda aqui marosca!...

No fim da missa do dia, por volta de onze horas, o vigário assomou no arco da igreja, tirou de entre os colchetes da batina um papel, onde eram inscriptos os nomes de doze velhos pobres e doentes da freguesia. À proporção que os ia chamando, os velhinhos saiam de entre a multidão e colocavam-se em frente do vigário.

[108]

Chamado o duodécimo, que subiu amparado por dois netos, o padre mandou conduzir da sachristia para o arco da igreja a arca de pinho, que os lavradores tinham visto na casa paroquial. Abriu ele a caixa, e foi tirando e repartindo por cada um dos doze pobres uma roupa inteira de pantalona, colete, e véstia de saragoça. Os velhos recebiam com mãos tremulas a esmola, e murmuravam palavras de benção, e alimpavam os olhos turvos de lágrimas para verem o seu remédio do próximo inverno. Finda a repartição, o vigário, procurando com os olhos os lavradores cotisados para a funcção, disse-lhes:

—Aqui está, meus amigos, o balão que chega ao céu; ali tendes no rosto de aqueles anciãos invalidos e doentes, as lágrimas, que são lágrimas de graças ao Senhor e de gratidão a vós. Haveis de confessar que as lágrimas dos foguetes são menos brilhantes e consoladoras. Quanto à musica, dir-vos-hei, meus bons amigos, que os anjos do céu assistem com suas musicas a esta vossa festa. Se fiscalizei mal os vossos trinta e seis mil réis, accuzai-me para eu vol-os repôr.

Disse, e logo um, e todos os lavradores lhe foram beijar a mão; e os pobres, a não serem retirados brandamente, iriam beijar-lhe os pés.

Ao meio dia em ponto, no sobrado da residência, estava posta uma mesa com treze pratos. Na cabeceira sentou-se o vigário, e os doze pobres já lavados e vestidos, lateralmente. O jantar viera cosinhado de Vila Cova: o bodo aos pobresinhos fora devoção de Peregrina.

Ladislau e sua mulher serviram os convivas, um de cada lado, já partindo em pequeninos bocados a ração [109] de cada pobre, já ministrando-os à boca do mais intrevado que se não servia de suas mãos.

Em redor da mesa, de pé, silenciosos, e com que arrobados naquele espetáculo santo, estavam os principais lavradores da freguesia. Por vezes, uma ou outra voz, mal desabafada das lágrimas, murmurava:

—Louvado seja o Senhor!

E, cada lavrador enxugava os olhos.

Concluído o jantar, ergueu-se o sacerdote, e deu graças a Deus, em voz alta; e, ao sair da mesa, proferiu estas palavras:

—Louvemos o Altíssimo porque nos deu coração para sentirmos as alegrias da caridade. Esta virtude, que comove até aos prantos consoladores é a sombra dos contentamentos da bem-aventurança. Meus amigos, a vossa festa acabou; mas eu espero em Deus que haveis de vê-la continuada no céu.

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O Bem e o Mal

Sinopse

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