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O Bem e o Mal

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O Bem e o Mal

Capítulo 10 · O Bem e o Mal

Capítulo IX

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Decorreram dez meses sem sucesso digno de menção, a não ser o nascimento do primogênito dos bemaventurados de Vila Cova. Recebeu na pia baptismal o nome de seu avô, sob cuja égide os pais o ofereceram. Foi padrinho o vigário, e madrinha D. Cristina, representada pela velha Brazia, a criada octogenária, que já não morre sem o contentamento de pôr as mãos no neto do santo, que ela conhecêra criança. E, com este espiritual parentesco, pagou Ladislau os setenta anos de companhia da sua serva.

Casimiro Bettancourt cursava o primeiro ano matemático, e era furriel de infanteria. Continuava a viver retirado da mocidade, excepto de aqueles que o procuravam como auxiliador na interpretação de suas lições.

Um destes disse-lhe, uma vez, que, no curso de leis, andava um rapaz provinciano, que detrahia publicamente Casimiro Bettancourt.

[112]

—Que diz ele de mim? —perguntou Casimiro.

—Misérias...

—Que são misérias?

—Diz que tu és sobrinho de um carpinteiro.

—Isso é verdade: sobrinho de um honrado carpinteiro. Que mais diz? Vamos às misérias...

—Que roubaste a senhora com quem és casado.

—Também é verdade. Fugimos para nos casarmos. Que mais?

—Diz que pagaste assim indignamente os benefícios que devias ao pai dela.

—Não procedi bem; mas todo o homem de coração me há de absolver. Como não a amei nem a raptei por ela ser rica, e não vivo nem pretendo viver do patrimonio dela, a minha dignidade é invulnerável.

Isso não diz ele... mas eu ainda te não disse quem ele é...

—Já sei: é D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma de Eça.

—É isso.

—Que diz ele em contrario do que eu afirmo?

—Que tu vives do producto das joias, que tua senhora subtrahiu ao pai.

—Mente! —disse serenamente Casimiro, e acrescentou: —Não quero ouvir mais. Ouviram-lh'o muitas testemunhas?

—No botequim da Rua-larga. Eramos mais de vinte rapazes, e passavas tu nessa ocasião.

—Se desejas servir-me...

—Se desejo!... Quebro-lhe a cara, se isso te apraz.

—Não, meu amigo. Eu sou um homem como ele. O que eu te peço é que tomes nota das pessoas que ouviram [113] a calúnia, para mais tarde pedires a presença de elas.

—Facilmente: eu te digo os nomes... Eram...

—Escuso. Basta que tu saibas. São horas de estudarmos a lição.

E abancaram tranquilamente.

Volvidos oito dias, Casimiro Bettancourt disse ao condiscípulo:

—Amanhã é sabbado. Peço-te que reunas às seis horas da tarde, no botequim da Rua-larga, os teus amigos, caso aconteça lá ir D. Alexandre de Aguilar.

—Vai sempre: das oito horas em diante está embriagado.

—Com tanto que não o esteja às seis...

—Isso é raro. Quando o está às seis, é porque já se tinha embriagado às três.

—Ótimo! Espera-me lá.

Este dialogo correu na alamêda fronteira à casa. O acadêmico escondia-se de sua mulher.

No seguinte dia, disse Casimiro a Cristina:

—Depois de jantar, vou ver um condiscípulo doente. É a primeira tarde que passas sem mim, filha.

—É verdade!...

—Mas não hás de sofrer, não? A saudade é uma companhia.

—Dizes-me isso com ar tão triste, Casimiro?

—É a saudade, minha querida!

—Pois não vás.

—Prometi ir; mandei-lhe dizer que ia...

—Deixa-me ver os teus olhos... —exclamou ela aproximando-se de golpe.

—Que tem os meus olhos?!

—Lágrimas! tu choras, Casimiro!

[114]

—Não...

—Um segredo! um segredo para a tua Cristina!

—Serei eu um fraco! —disse ele como a si próprio, imaginando-se sozinho.

—Fraco por chorar? Se não tens razão, és... mas tu, Casimiro, nunca assim te vi!... Não sairás hoje mais... juro-t'o.

—Não jures, filha, que hei de sair...

—E dizes-m'o assim com esse império!?

—É a honra...

—A honra!... Tu não vais ver um condiscípulo doente.

—Não. Menti-te, Cristina. Perdoa-me.

—Pois que é?! —atalhou ela sobresaltada.

Casimiro relatou exactamente o facto descrito, mostrou umas cartas recém-chegadas de Vila-Cova, e perguntou:

—Devo ir, Cristina?

—Vai! —exclamou ela—Vai, já que eu sou mulher!

E momentos depois, porque era mulher, abraçou-se nele, e soluçou:

—Ó Casimiro!...

—Quê, filha?

—Sê prudente, sim?

—Recommendas-m'o a mim?! Não viste que eu sofri oito dias, em silencio, a afronta!?

E desprendeu-se dos braços dela.

Entrou no botiquim da Rua-larga com tão pacato semblante, como se ali não fosse para mais que aligeirar as horas felizes da mocidade.

Os que o conheciam encararam em D. Alexandre de Aguilar.

[115]

O fidalgo de Miranda não conhecia Casimiro. Viu aquele sujeito fardado de infanteria 6, e disse:

—Isto é já botiquim de soldados?

—É um acadêmico: o primeiro premiado de matemática.

—É aquele—ajuntou outro—de quem tu contaste as proezas casamenteiras.

—Ah! o sobrinho do mestre Antônio! lá me quis parecer que devia ser furriel.

Isto fora dito, muito à puridade, aos circunstantes, que não se riram.

O amigo de Casimiro aproximou-se da mesa e disse-lhe:

—Estão todos.

—D. Alexandre como visse esta aproximação, ponderou:

—Eles conhecem-se?!... Quem é este acadêmico, que lhe fala? este que chamam Vilhena?

—É filho segundo de uma casa distinta de Braga.

—Cuidei que fosse filho primeiro de algum chapeleiro de Braga...

Casimiro pagou a chávena de café, ergueu-se e foi a passo mezurado à banca de D. Alexandre.

O fidalgo encarou nele, e logo nos circunstantes, como quem diz: «que quer o tolo?! »

E os acadêmicos que, formavam cerco à mesa, abriam fileiras ao lado, arrastando os bancos.

Bettancourt fez um gesto cortez aos rapazes, e disse:

—O senhor D. Alexandre de Aguilar conhece-me?

—Se o conheço...

Casimiro fez um gesto de cabeça afirmativo.

Conheço-o de o ver agora aí, e dizerem-me quem o sr. é.

[116]

—Que sabe o sr. da minha vida? —tornou Casimiro.

—Que sei da sua vida?!

—Dispensemos o eco, sr. D. Alexandre. Quem pergunta sou eu. Que sabe da minha vida?

—E se eu lhe disser que não lhe dou satisfações? Agora sou eu quem pergunta.

—Respondo-lhe que o sr. é um infame, e depois arranco-lhe a língua.

O fidalgo Alarcão Parma de Eça ia a dizer o quer que era, e engasgou-se.

Casimiro Bettancourt continuou no mesmo tom de serena conversação:

—Disse v. ex. ª que eu era sobrinho de um carpinteiro. Disse verdade. Que eu raptara uma senhora, cujo marido sou. É certo. Ajuntou que eu estava vivendo das joias, que minha mulher roubara a seu pai. Mentiu. Vejo que esta palavra não inquieta grandemente o sangue azul de v. ex. ª Ainda assim, quero imaginar que o sr. D. Alexandre me pede provas da sua aleivosia.

Tirou Casimiro do bolço interno da fardêta duas cartas. Abriu a primeira, lançou-a sobre a mesa, e disse:

—Conhece essa letra?

—Conheço—respondeu D. Alexandre—é de meu tio Rui de Nelas Gamboa de Barbedo.

—Pai de minha mulher—ajuntou Casimiro, voltando-se aos acadêmicos circumpostos; e falando para eles, continuou:

—Como eu soubesse que o sr. D. Alexandre me alcunhava de receptador dos furtos de minha mulher, escrevi a um homem de bem, pedindo-lhe que se apresentasse ao sr. Rui de Nelas, meu sogro, perguntando-lhe se sua filha, no ato da fuga, subtrahira de casa algum objeto de valor, e o declarasse por escrito. Esta [117] segunda carta é a resposta da pessoa encarregada; e diz:

«O correio só dá tempo a dizer-lhe que o sr. Rui de Nelas, apenas me ouviu, e escreveu a declaração que conteúda remeto, e mostrou-se espantado de que a calúnia propale o que ele nunca disse; e de o não ter dito mo jurou pela alma de sua mulher, e honra de suas filhas. Sem mais. Seu amigo, P. João Ferreira. »

—Leia-a agora o sr. D. Alexandre a declaração de seu tio.

—Leia-a o senhor! —bradou com grande esforço de falsa coragem o calumniador esmagado.

—Leia-a! —tornou Casimiro com um lançar de olhos fulminante.

O fidalgo tomou o papel nas mãos convulsas, e deixou-o logo cair.

—A covardia cega-o! —disse Casimiro sorrindo—Algum dos cavalheiros tem a bondade de ler?

O mais chegado de D. Alexandre leu o seguinte:

«Rui de Nelas Gamboa de Barbedo, de Pinhel, declaro que minha filha Cristina Elisiária, não subtrahiu de minha casa valor algum, nem os seus próprios vestidos e adresses, quando fugiu para casar-se com Casimiro Bettancourt. E por isto ser verdade, mui espontaneamente, e com juramento aos santos Evangelhos o declaro agora e sempre. Pinhel, 22 de abril de 1839. —Rui de Nelas, etc. »

—Está reconhecida a assinatura? —disse Casimiro.

—Está—respondeu o estudante, que lera—E quando não estivesse já o sobrinho a tinha reconhecido.

—Isso não valia nada—tornou o furriel. —Nenhum [118] dos cavalheiros prestaria fé ao reconhecimento do sr. D. Alexandre de Aguilar. Declare, pois, o sr. D. Alexandre que mentiu infamissimamente e ofereça a cara para que todos lhe cuspam nela.

O fidalgo ergueu-se, e bramiu:

—O senhor!...

—Que mais? —perguntou Casimiro.

—Insulta-me?

—Não. Obrigo-o a sentar-se, que me incomoda vê-lo de pé.

E, dizendo, baixou-lhe no alto da cabeça uma palmada, que efetivamente o fez apoiar-se sobre as ilhargas.

E, voltando-se com rosto faceto aos acadêmicos disse:

—O espetáculo foi feio, que o miserável não dá sequer um sofrível truão com medo. Agradeço a atenção dos cavalheiros, mórmente com o sobrinho de um carpinteiro, que, por não ser nobre tem vontade de ser honrado.

Saiu do botiquim acompanhado de quase todos os estudantes. Os poucos, que ficaram como petrificados, por não saberem que dizer a D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma de Eça, retiraram-se cabisbaixos.

Casimiro estugou o passo, caminho de Santo Antônio dos Olivais, e encontrou a esposa ansiada, fora de casa.

Contou-lhe, sem fatuidade, o essencial do acontecido, e reservou o facto da monumental palmada na cabeça. O delicado moço julgou melindrar sua mulher, dizendo-lhe que castigára com a mão um seu parente.

Foi o sucesso estrondosamente contado e aplaudido em Coimbra, tanto porque era de razão aplaudil-o como por ser no tempo em que a mocidade acadêmica, popular [119] e burgueza na máxima parte, desadorava os fidalgos castellãos, e não perdia lanço de os meter a riso.

D. Alexandre, no dia seguinte, foi para Miranda, em busca de romanso e solidão para pensar na vingança de covarde, que não podia já ser de outra natureza.

Vamos no rasto deste reptil.

O extraordinário da chegada do estudante, quando as aulas estavam abertas e os atos não começados, devia ser de algum modo explicado a D. Sueiro e à parentela alvorotada. Contou ele que tinha tosse; e o caso foi que tossiu. O medico da casa apalpou-o, auscultou-o, e decidiu-se pela tosse, em concordância com a faculdade medica de Coimbra, que mandara a ares pátrios o mancebo, ameaçado de coisa séria. Em verdade, a pertinácia da embriaguez reduzira D. Alexandre a um viver mórbido, astênico, e análogo ao do ético; e já não admira que a palmada capital do sadio Casimiro o fizesse sentar.

Supunha D. Sueiro que o casamento de Cristina era muita parte na doença do irmão, e curava de remediar o mal de amor com os amores novos da cunhada que tinha em casa, galante menina, Mafalda de nome. Era a vigessima nona Mafalda em aquela família de Pinhel. Entrando neste numero a santa infanta Mafalda, fundadora do mosteiro de Arouca, irmã de D. Afonso II, que também era da família, pelos modos, e sem dúvida nenhuma.

Se a menina o amava não sei, nem averiguei, por ser demais na pauta deste escrito; o que me consta é que D. Alexandre, tão adentrado estava com os seus cálculos de vingança, que não dava pela prima, nem se lisongeava do seu amor.

A única pessoa de Miranda, com quem se abria o [120] fidalgo, era um desertor de cavalaria, muito dos Alarcões, especie de molosso da casa, sob cujas telhas estava a seguro.

As inteligências de D. Alexandre com o desertor são obvias; curava de comprar-lhe o braço vingador; mas, tão em segredo, que nunca viesse à luz a sua segunda ignomínia.

Conchavaram-se de barato. D. Alexandre daria ao desertor basta quantia a transportal-o ao Brasil, e o desertor, em mesquinha paga de tamanho beneficio, mataria Casimiro Bettencourt.

neste acordo, pediu D. Alexandre ao morgado que lhe deixasse levar como criado o desertor, visto que a plebe acadêmica se bandeara contra os estudantes fidalgos e devotos da causa vencida. Annuiu promptamente o irmão, contente de ver que D. Alexandre recobrava cores, e olvidara Cristina.

Abertas as aulas voltou o moço à Universidade, com o seu vingador, por tal arte disfarçado, que dava de si um rustico cavalariço, incapaz de fazer mal a fôlego vivo.

Os amigos dos anos anteriores fugiam-lhe, e novos nenhum lhe apertava a mão. O opróbrio do fidalgo era ainda matéria de ociosos, revivido com a sua presença.

Preoccupava-o a traça de fazer conhecido Casimiro ao seu matador: coisa não fácil na multidão de mil e tantos moços, entre os quais raro se via o solitário de Santo Antônio dos Olivais.

O solicito confidente de D. Alexandre tomou sobre si o encargo de conhecer Casimiro, e esperava tiral-o pelas feições que lhe vira em Pinhel, quando ele era mocinho de quinze anos.

neste intento, foi como de passeio a Santo Antônio [121] dos Olivais; e, logo por fortuna, ao dobrar o combro de uma azinhaga, viu um sujeito de farda militar com uma senhora pelo braço.

—Cá está o homem! —disse entre si, e deteve-se a examinal-o, sem atentar em Cristina, que o examinava a ele. Casimiro, por sua parte, nem deu tento do reparo do caminheiro.

Ora, Cristina tinha visto aquele homem em Pinhel, recebera da mão dele uma carta de D. Alexandre, e lembrava-se de ter ouvido dizer ao primo D. Sueiro que aquele soldado de dragões era o seu guarda fiel, e com ele iria ao inferno atacar Satanás.

O desertor, porém, olvidou-se-lhe Cristina, e nem por sombra imaginou ser reconhecido.

A senhora estremeceu... e duvidou. Já ele se havia sumido, quando ela disse:

—Acautella-te, meu filho!

—De quê?

—Vi agora um criado dos de Miranda... Não pode deixar de ser ele... Veio com o Alexandre, e anda a espreitar-te.

—Que tem isso, Cristina?

—Tem, que ele é um malvado... Ai meu Deus! daqui em diante não tenho momento de sossego! Queres que nos vamos embora deste ermo? Aluga casa na cidade. Podes ser assaltado no caminho. Tu és valente, meu Casimiro; mas de uma traição ninguém se livra!

—Os prevenidos livram-se—atalhou Casimiro. —Não vejo causa para medo; mas, se hás de viver inquieta, mudemos, filha.

—Sim: faz-me isso, que é anos de vida que me poupas!

[122]

Andava Casimiro em procura de casa, quando recebeu a seguinte carta de Ladislau:

«Meu compadre. Vai ser surpreendido com a minha petição, à qual subscrevem minha mulher e meu cunhado. Logo que esta receber, meta-se a caminho com a sua senhora, e venham direitos à sua casa de Vila Cova. Iremos os três esperal-os a meio caminho. Perder um ano da Universidade não faz implicância à sua futura sorte, se ela tem de ser boa. Esperamol-os; porque não posso acreditar que meus compadres faltem ao seu Ladislau. »

Casimiro leu, e disse:

—Vamos, e vamos hoje.

[123]

O Bem e o Mal

Sinopse

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