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O Bem e o Mal

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O Bem e o Mal

Capítulo 20 · O Bem e o Mal

Capítulo XIX

20 de 22 ≈ 12 min de leitura

Decorridas algumas semanas, o casamento de Casimiro Bettancourt com sua prima carnal D. Cristina de Nelas era validado pelo nuncio apostólico, dispensando no parentesco, e saneando a ingnorada irregularidade. A condessa perfilhava Casimiro para lhe segurar a sucessão de seus grandes cabedais. Casimiro, porém, com quanta delicadeza e respeito a ternura filial lhe inspirou, disse que só aceitava a perfilhação para ser seu filho, e não seu herdeiro. Ficou interdicta, e alheia da intenção da resposta, a condessa. O filho esclareceu assim a própria demência:

—Minha mãe herdou de seu marido: eu, filho de outro homem, que morreu pobre, peço licença para ser estranho aos haveres do sr. conde de Asinoso. Eu sou filho de D. Eugenia de Nelas. Minha mãe ainda tem a sua legitima nesta casa de Pinhel. Essa aceito-a como dote para egualar o patrimonio de minha mulher.

—Pois sim, filho, faça-se a tua vontade—disse a condessa. —Por [232] minha morte ficarás agricultando algumas geiras de terra em Pinhel, que valerão doze mil cruzados. Ficarás sendo um lavrador dos menos abastados da comarca. Minha sobrinha Guiomar virá senhorear-se do vinculo e da casa que é vinculada. Tu com tua mulher e filhos irás viver no casal da Rechousa, ou em outro semelhante, que ameaçam ruína.

—As paredes abaladas especam-se, minha querida mãe; a dignidade aluida é que nunca mais se repara. Eu amo a mediania, que é o refugio da paz. As lições da vida deu-m'as o lavrador de Vila Cova. Minha mãe prometeu-me ir ver de perto a casa de entre serras, aquele abrigo de honrados e de santos. Venha comigo ali estar uns dias, e v. ex. ª olhando dali para o céu, dirá: «se há paraíso na terra, se há bem no mundo, é aqui».

—Iremos, filho: eu também o desejo. Já estou convidada para ser madrinha do segundo filho de Ladislau. Bem vês que ando a cuidar-lhe do enxoval.

E, logo na semana seguinte, partiram todos para Vila Cova, e as meninas solteiras de Pinhel também.

Quem é este homem de jaqueta de pano azul e colete encarnado, e chapéu braguez que vai a pé, ao lado da égua em que monta a condessa?

É mestre Antônio—o carpinteiro. —Ali vai conversando em obras, que é preciso fazer aqui e acolá, nas casas arruinadas do fidalgo. A condessa trabalha por tirar este homem do ofício: oferece-lhe dinheiro para erguer casa, e comprar bens. Mestre Antônio responde:

—Fidalga, grande nau grande tormenta! Deixe-me cá com a minha vida que vou bem assim. Meu filho brasileiro manda-me duzentos mil réis cada ano, e eu, a falar verdade a v. ex. ª, tenho-os ali para uma gaveta, [233] sem saber de que me servem. A minha alegria é o trabalho. Em pegando dois dias-santos, ando como tolo sem saber em que hei de gastar o tempo.

—Mas gaste-o em trabalhar nos seus bens.

—Nos meus bens trabalho eu, sr. ª condessa. Logo que me pagam o serviço, alguma coisa tenho dos bens em que trabalho.

Ficarás, por tanto, carpinteiro, honrado homem, mas homem honrado, toda a tua vida!

Custa a caber tanta gente na casa de Vila Cova! Armam-se leitos de bancos nos cazarões das tulhas. O quarto solene dos padres é consignado ao fidalgo. A condessa ocupa o de Peregrina. Que feliz barafunda ali vai! Os criados vem carregados de caça dos montes. O fidalgo quer ir à cozinha fazer umas troixas de ovos, cuja receita lhe deram os anjos. A condessa anda lá pelos campos a correr atrás da nétinha. As irmãs de Cristina sobem à lapa da Crasta e entram de lá a berrar que lhes acudam, que as comem os lobos. O capelão da condessa, acertando de encontrar na livraria dos padres Militões as cartas manuscriptas de fr. Bartolomeu dos Mártires, persegue toda a gente para que lhe ouçam ler as cartas e os comentários soporiferos dele.

Quem mais o atura é Casimiro que foge do bulício para a livraria defesa às corrimaças das cunhadas.

Chega o dia do batizado, e nesse dia aparece inesperado em Vila Cova um tabelião de Pinhel, a rôgo da sr. ª condessa de Asinoso. Lavra-se uma escritura. É uma doação que faz a mãe de Casimiro ao seu afilhado Rui, filho de Ladislau. Dôa-lhe quinze mil cruzados em [234] inscripções nos Bancos de Portugal, em virtude dos muitos e impagaveis favores que devia a seus pais.

Casimiro abraça sua mãe, e exclama:

—A virtude é engenhosa, minha querida amiga!

Os pais do menino beijam-lhe a mão, e Ladislau diz:

—Com a condição de que meu filho conservará o deposito como patrimonio dos desgraçados: mande v. ex. ª escrever esta clausula na escritura.

—Ladislau—disse a condessa—já lha deve ter escrita no coração.

Ali se detiveram trinta dias. De Pinhel, em cada semana, vinham cargas de viveres. Ladislau sentia-se, e o fidalgo respondia:

—Isto é para o capelão da mana condessa, que lê muito as cartas do fr. Bartolomeu; chora de entusiasmo; mas não o imita na temperança. Seria capaz de engulir o santo, o bom do egresso, se o pilhasse! Sem este contrapeso de vitualhas, amigo Ladislau, eramos todos vítimas da gulodice do padre. Vamos lançando estes bocados ao Acheronte, que promete, ao contrario do outro, levar-nos para o céu, se não adormecer no meio do caminho.

A alegria dava graça ao velho, que, em geral, era semsaborão.

Na volta para Pinhel trouxeram consigo a família de Vila Cova, salvo o vigário que voltou ao amor do seu rebanho.

Saiu para Lisboa o capelão da condessa com ordens ao procurador para vender o palácio, os trens, os primores da Asia, que opulentavam a triste vivenda da viúva. Triste, sem um amigo, como ela dizia. Ao mesmo [235] tempo, o egresso cumpriu outras ordens com referencia ao ministro da justiça. Ultimado tudo, voltou o padre a Pinhel: ia reloucado de prazer, porque, à última hora, soubera que fora nomeado cônego da patriarcal. Beijou as mãos à condessa.

—Vá—disse-lhe ela sorrindo—vá imitar na pobreza eclesiástica o seu predileto Bartolomeu dos Mártires.

Na mesma data era nomeado cônego da sé da Guarda o padre João Ferreira.

O vigário, avisado na sua pobre parochia, foi a Pinhel, depositou a mercê nas mãos da condessa, e disse:

—Perdoe-me v. ex. ª a recusa: eu não posso separar-me de minha mãe e cunhado. V. ex. ª não quer que eu me deixe ali viver à sombra das virtudes dos padres de Vila Cova.

—Eis aqui um padre novo, que destôa das doutrinas do meu velho capelão! —disse a condessa—Pois sim, padre João, vá para o seu presbitério, e venha ver-me muita vez, e tome à sua conta a minha velhice.

Cristina contou a sua tia e sogra os menores incidentes do seu namôro, e mostrou-lhe o José-pastor que tão útil e leal lhe fora.

Chamou a fidalga José-pastor e mandou-lhe que dissesse a razão porque fizéra aqueles serviços ao sr. Casimiro e à menina.

O rapaz respondeu:

—Era toda a gente contra eles, e eu disse cá c'os meus botões: ora deixa estar que eu vos dou nas ventas para traz.

—E nunca te deram nada?

—Eles que me haviam de dar, fidalga??

—Então fazias tudo sem interesse?

[236]

—O que eu queria era vel-os casados. A menina estava lá em cima fechada a chorar, e o sr. Casimiro andava lá por longe escondido... fizeram-me muita pena! Foi o que foi.

—Queres tu ser padre? —perguntou a condessa.

—Padre?!

—Sim.

—Não, senhora. Antes queria ser sargento.

—Sargento!... mas tu és muito rapaz ainda para assentar praça.

—Posso assentar praça de tambor, que os tambores são do meu tamanho.

—És tolo, rapaz! Queres tu estudar para depois ser oficial?

—Eu já sei ler, que me ensinou o sr. Casimiro.

—Pois sim; mas agora vais aprender outras coisas para Lisboa.

—E leva-se lá bordoada de cego?

—Não, patarata, ninguém lá te bate.

—Então, se a fidalga quer, e o fidalgo deixar, vou.

E foi para a Politechnica de Lisboa, com recomendação da condessa.

D. Sueiro de Aguilar teve noticia destes sucessos estupendos. Sentiu guinadas de fazer as pases com a família de Vila-Cova, e por um cabelo se não descobre nesta extrema de despejo. Guiomar ainda escreveu a sua tia, cumprimentando-a pela sua chegada. A condessa respondeu: «agradeço o cumprimento de minha sobrinha, e faço votos pela sua felicidade. »

Esta sequidão irritou D. Sueiro, que se desentranhou em apostrofes contra a canalha de Pinhel. A tia de sua mulher foi exposta à irrisão dos seus hospedes, na presença da sobrinha. Repetiram-se os vilipendiosos amores [237] que deram o filho natural, sobrinho do carpinteiro. Desde este facto, D. Guiomar odiou o marido, cuja hediondez de caráter só podia ser avantajada por D. Alexandre.

Tratou a condessa de casar suas sobrinhas, com auxilio dos seus haveres. Accorreram pretendentes das duas províncias contíguas, e casaram todas com morgados, homens de bem, vaidosos de seus apelidos, mas inofensivos, e virtuosos mesmo por vaidade de imitarem seus avoengos. As senhoras dispersas por aqueles palacetes solarengos reuniam-se em casa de seu pai, nas festas do ano, nos natalícios, e no aniversário do casamento de Casimiro. Esta clausula fora instituida pela condessa.

A tiro de peça de Pinhel, existiam uns casebres derrocados, onde nascera, segundo informações de mestre Antônio, seu cunhado Duarte Bettancourt, filho de um soldado da ilha de S. Miguel, que ficara na metrópole, e ali estabelecera uma tenda. Comprou a condessa estes pardieiros aos possuidores, e mandou-os arrazar, e sobre eles edificar um obelisco cintado por grossa cantaria, com portas de ferro. Ia todos os dias ver a obra, que durou um ano, com os melhores alveneis da província. Concluído o obelisco, foi entalhada na base uma lamina de ferro com esta legenda:

À MEMORIA

DE

DUARTE BETTANCOURT

MORTO NO SEU POSTO DE HONRA

EM 1834

MANDOU ERIGIR SEU FILHO

CASIMIRO BETTANCOURT

EM 1843

[238]

Rui de Nelas, lá muito no seu interior, não gostou da lembrança. Era a natureza a puchar por ele.

neste tempo, teve a condessa uma hora de muitas lágrimas.

Casimiro, de propósito e por veneração, nunca lhe mostrára duas cartas, que conservava entre os papeis de seu pai, assignadas pela inicial E.

numa tarde, como estivessem sentados na base da coluna, Casimiro tirou da carteira dois papeis dobrados e amarelecidos.

—Que é isso, filho?

—Veja, minha mãe:

Abriu ela, e exclamou:

—É minha a letra! Como possues isto?!

—Minha mãe já deve saber como as possuo.

A condessa leu soluçante, e beijou aquele papel, que estivera nas mãos de Duarte. Leu a segunda, e, em meio da página, susteve-se afogada de ânsias e lágrimas.

Casimiro arrependeu-se da indiscripção, e acariciou-a, pedindo-lhe, pela memoria de seu pai, que vencesse a sua dor.

Era este o conteúdo da primeira carta:

«Não sofras, D. —Conta com o meu valor. Parece-me que vou ser arrebatada para uma quinta do tio. Não sei qual. Eu te avisarei a preço de tudo. O mais que podem é matar-me meus irmãos. A minha alma irá identificar-se à tua: viverei sempre contigo na terra, e amando-te de um mundo melhor. Sossega, meu amigo. Se Deus vê a nossa inocente paixão, ele nos protegerá. Se não há Deus para nós, seremos um para o outro. Tua, E. »

Esta carta devia ter sido escrita antes da ida para Camarate.

[239]

A segunda dizia:

«É horrível esta opressão! Tenho medo de morrer abafada pela angustia. Vem, aproxima-te, dá-me alentos, se não prefiro antecipar a morte. Ai! que soledade! que abandono nesta hora! Vem, vem, D., que eu queria ver-te antes de morrer! E. »

Presume-se que esta última carta foi escrita de Recaldim para Torres Novas, quando Duarte desceu de Bragança, a receber das mãos de Brites aquela criança, que ali está agora, homem, com o rosto de sua mãe apertado ao seio.

Em seguida àquele trance, a condessa acamou, e teve febre por longos dias. A presença do filho, magro, livido, triste como quem pede a primasia na morte ao lado de um enfermo em perigo, abrazou-a em suplicas ferverosas a Deus, pedindo a vida. Declinaram as febres, volveram esperanças e saúde, e continuou o himno de graças ao Senhor, entoado por aquelas duas famílias que rodeavam o leito de Eugenia.

Segura a convalescença, a condessa, prevendo que, por morte de seu irmão, a casa de Pinhel passaria à sucessora do vinculo, cuidou em construir um palacete em nome de Cristina.

Casimiro objetou que daquele modo passava a seus filhos a casa do conde de Asinoso.

A mãe respondeu:

—Quererás tu privar-me que eu beneficie minha sobrinha? Isto não tem nada que ver contigo, Casimiro! As demazias da dignidade são uma impertinencia.

[240]

[241]

O Bem e o Mal

Sinopse

Leia gratuitamente O Bem e o Mal, de Camilo Castelo Branco, clássico lusófono em domínio público. Esta edição modernizada e conservadora do Literunico organiza o romance em 22 seções para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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