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Jornadas no meu país

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Jornadas no meu país

Capítulo 3 · Jornadas no meu país

Capítulo III

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A primeira vez que saio em Porto Alegre, é para fazer a minha visita de cumprimentos ao Chefe do Estado, Sr. Dr. Borges de Medeiros.

Não nego, entro com certa curiosidade no Palácio Presidencial. É que vou ver de perto um estadista, notável pela energia de sua ação e do seu modo de ser; um estadista cuja feição política individual centralizadora está completamente isolada da do resto da nação, pela redoma da filosofia de Comte, sobre que é baseada a Constituição do Estado do Rio Grande do Sul.

A minha ignorância política, a que todo o sectarismo constrange, sente-se torcida num ponto de interrogação.

Realmente sua Excelência deve ser um homem de extraordinário descortínio, grande critério administrativo e tato finíssimo, visto que há vinte anos, ou perto de vinte anos, dirige em consecutivas reeleições esta terra livre e altiva que não toleraria nenhuma espécie de jugo, nem transigiria com sentimentos que não lhe parecessem nobres e justos. Isto, melhor que outra qualquer consideração, pode-me fazer crer quanto o tino e a prudência deste estadista possa ter concorrido para o relevo e a força que têm hoje a sua terra entre todas as da União. Vejo que é motivo de grande júbilo para o riograndense ver o seu Estado livre do pesadelo das dívidas que perturba o sono dos outros Estados irmãos. Não ter dívidas é na verdade uma felicidade, mas essa seria mesquinha em tais circunstâncias se não houvesse maiores virtudes a louvar. Dever, quando com essa dívida se possa acelerar a marcha do progresso e da felicidade de um povo, não é dolo nem desacerto, porque haverá de sobejo com que a resgatar em terra tão feraz e bem dirigida. Ouço que o Tesouro riograndense acumula ouro em pesada abundância no intuito de realizar obras colossais e que serão pagas à boca do cofre.

Essa intenção honesta dá grandeza moral ao gesto previdente, porque guardar dinheiro só pelo prazer de acumular dinheiro seria em casos tais uma preocupação tão absurda como a que um dia inspirou ao poeta Horácio esta observação:

"De que te serve ir às ocultas esconder com mão trêmula no seio da terra um montão de ouro e de prata? — Por pouco que eu lhe bula, dizes tu, verei em breve esgotar-se-lhe o último vintém. — Mas se não lhe tocares que valor poderá ter esse metal amontoado?"

Conhecedor exímio do prestígio que em todos os tempos as riquezas dão aos organismos sociais, o Sr. Dr. Borges de Medeiros tratou de as injetar nas veias de seu Estado, por meio da sua administração de incansável vigilância, para que assim tonificado ele possa realizar grandes empreendimentos sem nenhuma espécie de dependência. Suponho ser esse o espírito da sua administração. Suponho também adivinhar que a principal virtude que dá realce e vigor ao governo deste homem inflexível é a honestidade, uma honestidade intransigente revelada tanto nos seus atos da administração pública como nos da sua vida particular. Afirmam os que o conhecem na intimidade que ele jamais concederia favores a troco de elogios nem enfraqueceria a sua autoridade moral mandando cessar censuras com subornos; e ainda que, sendo chefe político e Presidente de um dos Estados mais prósperos e poderosos do Brasil, cujos destinos dirige há tanto e tão largo tempo, se mora em um palacete é porque esse palacete lhe foi oferecido por seus amigos por ser insignificante ou nula a sua fortuna particular. E, todavia, ninguém trabalha mais nem com tamanho ardor durante tantas horas consecutivas. Desse modo o seu cérebro não tem tempo para o repouso. O seu temperamento de nervoso trá-lo em contínua vibração. Ele sabe tudo, conhece tudo, vê tudo, indaga, observa, apalpa os fatos, abre os ouvidos aos boatos, pesa-os e expreme-os entre os dedos magros para sentir-lhes todo o suco; busca as pessoas competentes onde as encontra ou adivinha, aproveita-as com agudeza e é bem provável que já a esta hora esteja preparando um discípulo que o possa substituir em Porto Alegre quando ele, por sua vez, tiver de entrar no Palácio do Catete ou quiser fazer uma viagem de recreio ou de repouso através do Planeta.

A sua ação tem sido muito demorada no poder para que ele não tenha imprimido na alma do povo rio-grandense um pouco ao menos do seu cunho original. Vinte anos não são vinte dias; é um espaço de tempo em que se podem fazer julgamentos definitivos, afirmações e confirmações.

Pensando nisso, vejo que há um problema delicado na política rio-grandense e que não sei como poderá ser resolvido quando chegar o dia em que isso tenha de ser feito: é o que concerne à Constituição do Estado, com as convicções religiosas ou filosóficas do seu Presidente. Nem todos os homens de espírito culto e capacidade política e administrativa, que possam vir a ser indicados para o exercício de chefe supremo do Rio Grande, podem ser positivistas; e neste caso qual será a resolução a pôr em prática?

Quando o Presidente entra na sala, eu contemplo, através dos vidros da janela, a linda paisagem que dali se desenrola, ribanceira abaixo, até à prata polida do Guaíba. Volto-me e verifico que o Sr. Dr. Borges de Medeiros é verdadeiramente o retrato dos seus retratos, coisa que parece inverossímil a quem por experiência própria e observação da alheia conhece a amabilidade dos fotógrafos e muitas vezes também a traição das chapas fotográficas. S. Ex. é delgado, nervoso e, se me fosse possível metalizar a comparação, diria que faz lembrar uma fina lâmina de aço, dessas que se não torcem nem quebram, mas cortam com resolução. A sua fisionomia aguda tem certa expressão de ironia e de sagacidade que o esforço da vontade própria procura adoçar e dominar.

Sei que Sua Excelência está em período de grande atividade, com a abertura da Câmara, e que as conferências com os deputados que chegam não lhe devem permitir atender a visitas de mera cortesia, como a minha. Ao mesmo tempo que falo, observo que estou sentada ao lado de uma jarra de Sèvres, naturalmente aquela que o Sr. Paulo Claudel, ou o Sr. Dumas, pois que ambos estiveram no Rio Grande, levou pessoalmente, em nome do Governo francês, ao Presidente do Estado.

Noto também que S. Ex. não cultiva só a difícil arte da política, cujas lucubrações tornam geralmente os homens de humor desigual e esquisito, mas que também cultiva uma outra arte mais sutil, — a da conversação.

Saio trazendo a promessa de traçar ele próprio o itinerário da minha excursão através do seu Estado e entro no carro que me conduzirá ao palácio da Intendência Municipal.

Jornadas no meu país

Sinopse

Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.

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