Universo da obra
Universo da obra
Le monde vit de la femme. Elle y met deux éléments qui font toute civilisation : sa grâce, sa délicatesse.
J. MICHELET.
A casa encantadora e inesquecível de Ema e de Américo Moreira, onde vivo agora em Porto Alegre, passa o dia entre o retinir das campainhas do telefone e da porta da rua.
São recados amáveis, são ramos de flores, são senhoras e meninas que entram, em comissão ou isoladamente, e que empolgam de chofre a minha admiração pela beleza dos seus portes e pelo espírito vivaz da sua fala, de macio sotaque.
Estou encantada. Eu já sabia que a riograndense era bonita, mas não imaginava
— seque ela aliasse à sua formosura essa lhaneza de trato, essa naturalidade de expressão que é apanágio das pessoas superiormente educadas, superiormente civilizadas, mas que nem sempre é nestas mesmas observada...
Nenhuma terra pode apresentar mais evidente prova de civilização que a da cultura da sua população feminina; e esta demonstração tenho-a diante dos olhos no modo por que as senhoras desta terra se apresentam e conversam.
Desanuviadas e carinhosas, a sua linguagem é tecida de certezas e de doçuras, têm o espírito pronto, a frase elegante e o gesto vivo.
Agrada-me verificar que a mocidade do gárrulo bando de meninas que me enfeitiçam com a sua meiguice e a sua graça é uma mocidade verdadeiramente moça, é bem essa coisa deliciosa que fez dizer a Júlio Janin: a mocidade, no livro, no sonho ou na realidade, pode suprir maravilhosamente bem todas as coisas, porque ela é a esperança que desabrocha com ideais fragrâncias; é o poder de sentir em toda a plenitude as maiores emoções do coração humano; é a resistência à dor, o sono fresco e a saúde; é o amor com ímpetos e avidez de leões pequeninos; a despreocupação na própria miséria; os vestidinhos de nada que parecem tudo; a poesia esparsa e embriagadora que nos acompanha como um perfume invisível; é o apetite que se senta à mesa com alegria e trinca com dentes brancos duras amêndoas torradas; é esse poder divino, criador de obras de arte como "Paulo e Virgínia", "Manon Lescaut" e os primeiros capítulos do ''Gil Blas".
Ser e saber ser moça, eis realmente uma condição rara nas gerações que se iam sucedendo nestes últimos vinte anos de anêmicas e de entendiadas, para quem o ideal consistia em ter corpo esquelético, muito dinheiro, boas tintas para o "maquillage", e saber ministrar injeções de morfina como o único meio de suavizar decepções...
Ora tenho aqui a jubiliosa impressão de que estas lindas meninas rio-grandenses podem com a máxima facilidade esfarelar duras amêndoas com os seus fortes dentinhos, assim como poderão enfrentar as mais rudes dificuldades da vida com um sublime sorriso de confiança em si próprias. Esta é a grande virtude de todos os tempos, mas que a luta das sociedades modernas há de pôr cada vez em maior e mais luminosa evidência.
É esta confiança em si própria que resplandece no rosto comovido de uma criança de olhos sonhadores e dedos picados pela agulha, que me oferece com um feixe de flores modestas a consolação de confessar-me que me tinha por sua grande amiga desde a infância... Há muita candura nas suas faces de um moreno suave e energia na sua voz cantante e fresca. Não a perturbam as sedas das senhoras da alta sociedade, que estão a seu lado na sala; fala de si com simplicidade e naturalidade. A sua vida é de trabalho, a das senhoras presentes é de gozo; no entanto, nem há nela expressão de humildade ou constrangimento, nem nas outras de soberbia. Sente-se que o fio geral da conversa corre maciamente, sem fazer nó. Parece-me perceber que no Rio Grande as mulheres que lutam para angariar os recursos da própria subsistência são olhadas por todas as outras com admiração e certa ternura. E isso basta para me demonstrar a sua cultura.
Mas não é só esta querida criança que me fala de livros; todas as senhoras com quem converso gostam de ler e citam os seus autores preferidos.
E vivemos, nós todos que escrevemos, a queixar-nos de que ninguém nos lê, e de que as geniais produções do nosso cérebro ficam confinadas no pequeno círculo de meia dúzia de amigos pessoais! Por mim posso afirmar que no Rio Grande, ao menos as senhoras, lêem a nossa literatura e se interessam pelos assuntos da nossa espiritualidade...
Ora, pois, as minhas queridas senhoras rio-grandenses estão nesta berlinda porque são belas e fortes; porque têm entusiasmo e sabem transmiti-lo na sua palavra graciosa e franca; porque sabem rir com alegria e olhar com desassombro para as pessoas a quem fixam; porque têm firmeza na elegância do seu modo de pisar em que nada se revela de contrafeito; porque já cultivam o sport que dá elasticidade aos músculos e alegria ao espírito, e, sobretudo, porque demonstram um evidente desejo de liberdade e de instrução. Percebe-se mesmo que elas começam a ter uma certa supremacia no seu meio e tê-la-ão cada vez em maior grau, não só pela capacidade da sua inteligência e o vigor da sua energia, como também... porque são muitas. E eis uma razão em que ninguém pensa e que tem a sua força... Vivendo em uma terra em que o número de mulheres é, segundo me dizem, muito superior ao dos homens, elas têm pelo menos, a primasia da quantidade; mas essa seria de pouco ou nenhum efeito moral se não se empenhassem, como se estão empenhando, em melhorar as condições espirituais e práticas, sobretudo as práticas, da sua nova educação.
Parece que os hábitos da mulher riograndense têm mudado muito nestes últimos anos. Conservavam-se antes submersas na pacatez caseira, saindo por exceção de muito em muito longe. Hoje nas ruas de Porto Alegre vêem-se senhoras em muito maior abundância do que em outras cidades brasileiras, e o mesmo sucede nas suas salas de espetáculo. Basta essa circunstância para as tornar simpáticas. Por tal e tão especialíssima razão o Rio Grande do Sul poderia ser considerado um paraíso para os homens — se lhes não ministrasse com a fascinação da graça feminina a tortura tantálica do embaraço da escolha... É que, além de inteligente e bonita, a rio-grandense tem ainda uma qualidade que a torna muito distinta e interessante: — veste-se bem.
De todas as nossas populações é talvez a do Rio Grande, a que pelas exigências do seu clima e a sua vizinhança com as Repúblicas do Uruguay e Argentina, se traja mais ao modo europeu. Há uma projeção do sentimento artístico do vestuário desses dois países para a nossa gente do sul, principalmente no que concerne aos costumes de rua. O tailleur sombrio, o chapéu de veludo, sem o espalhafato que procura na originalidade um meio de destaque, na maior parte das vezes de mau gosto, dá-lhes um aspecto de agradável aparência. Grande número de senhoras recebe os seus vestidos, suas pelissas dos grandes armazéns de modas de Buenos Aires, onde o preço de todos os artigos é mais baixo do que no Rio e nas demais capitais brasileiras, graças ao bom critério e à atilada administração do Governo Argentino, que não taxa com direitos exorbitantes as mercadorias vindas do estrangeiro. De resto, o capricho no bem trajar não é só frequente e notável entre as senhoras mas entre os homens também, e direi mesmo — principalmente entre os homens, que parece terem a seu serviço excelentes alfaiates e não desprezarem também a arte de bem voltear o laço... da gravata.
Dentro de uns vinte anos o mundo feminino do sul brasileiro será de uma grande e notável independência, tal o impulso que ele, talvez inconscientemente, está tomando com a adoção de ideias novas, práticas de novos regimes e sujeição à disciplina das escolas modelares que as meninas frequentam com expressiva assiduidade e de que o professorado é na sua maioria, constituído por senhoras, profundamente estudiosas e competentes.
Não digo que as rio-grandenses, a par dessa sofreguidão pelo saber, que as exalça, tenham já o gosto completamente formado na adoração da arte e da estética das coisas.
Seria impossível. Por notáveis que possam ser nos indivíduos os instintos de arte, sobretudo das artes plásticas, eles não acertarão no seu julgamento se não tiverem tido antes uma demorada e bem orientada educação da vista pela contemplação de obras superiores; e bem sabemos que nessas formosas terras a que o Guaíba beija tão carinhosamente os pés, como aliás em todas as capitais dos nossos Estados, não há ainda elementos para uma tal afinação. Essa coisa vem-se formando aos poucos com o espólio dos dias de pensamento e de esforço. Os que viajaram e viram nas velhas cidades arquitectónicas telas e esculturas dos mestres antigos e modernos e sentiram no fluxo dessa beleza imortal a revelação da arte suprema podem, ainda que ignorantes no assunto, discernir o ótimo do bom, o belo do vulgar; mas quem se não tenha submetido a essas impressões como poderá fazel-o?
Sinto em todas um sincero entusiasmo pela música. O Rio Grande é, como se sabe, a terra das melhores vozes brasileiras. O ídolo agora da mocidade estudiosa de Porto Alegre é o pianista e professor Guilherme Fontainha, Diretor do Conservatório de Música, que em curto espaço de tempo tem criado discípulas admiráveis e incutido o gosto dos melhores autores clássicos e modernos, em todos os que frequentam as suas aulas. A declamação do verso é que é ainda pouco cultivada nas rodas femininas, onde há, aliás poetizas de talento e esperançoso futuro.
Deixar-me ia ficar por mais tempo na irradiação de simpatia com que me envolvem as encantadoras Rio-Grandenses, mas é tarde e temos de nos despedir...
Olhos de veludo que me ledes, olhos gaúchos cheios de fogo e de ternura, bem sabeis que não falseio e que vos estou falando com o coração nas mãos...
Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.