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Capítulo 32 · Jornadas no meu país

Capítulo XXXII — Pelotas

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Desembarco em Pelotas sobraçando ainda as últimas violetas de Porto Alegre. Chego assim pela segunda vez à cidade mais aristocrática do Estado. Na primeira mal lhe pisei as pedras das calçadas, numa volta rápida. Terei agora vagar para apreciá-la melhor?

A Princesa do Sul, como a chamam, recebe-me com alegria: — brilha o sol nos céus altos.

Encontro amigos nesta terra amiga; entre eles o Dr. Bruno Chaves, que por largos anos exerceu na diplomacia brasileira os mais elevados cargos, e vive agora feliz no seu torrão natal, desenvolvendo a sua atividade de médico e de estudioso entre os labores da Biblioteca Pública, de que é diretor, e os trabalhos do Hospital da Misericórdia, de que é provedor e chefe de clínica. Não se conformando com a ociosidade que para a conservação da sua saúde lhe aconselhavam os seus colegas, este homem de coragem e de ação, tendo cedido à necessidade de abandonar as preocupações do seu cargo de ministro plenipotenciário, deixou-se pouco a pouco empolgar por outros deveres menos ostentosos e mais profícuos. Enfeixando no seu querido lar objetos artísticos, que lhe recordam a sua passagem pelas principais cidades do mundo, ele não se quedou a olhar para eles de mãos cruzadas e expressão saudosa. Enquanto um homem tem a faculdade de poder ser útil aos outros, a sua inércia é um crime.

Assim o pensou e foi-se pouco a pouco enchendo de responsabilidades novas. A maior que tem é a de bem servir os pobres do Hospital da Misericórdia.

Escreveu há pouco tempo uma das nossas sumidades médicas, o Dr. Austregésilo, quando de volta de uma viagem a Buenos Aires, que o progresso dessa grande capital está manifesto no modo por que ela mantém e dirige os seus hospitais. O coração de um povo espelha-se nas suas enfermarias para os indigentes. Nem é precisa outra prova: terra que tenha um hospital perfeito, é terra civilizada. Não faltariam outras manifestações de adiantamento físico e moral para bem impressionar o espírito do nosso compatriota na Argentina, mas ele fixou-se nesta como a de mais bela e altruística significação. De fato, quando os homens só se interessam pela política, que lhes satisfaz as ambições; ou por especulações que os enriqueçam; ou por vaidades e gozos que afaguem as exigências do seu egoísmo, sempre vivo e ansioso, esses homens trabalham menos pela comunidade do que para si, embora o seu esforço, direta ou indiretamente faça construir belas coisas materiais e anime soberbas criações de arte, que a todos envaidecem ou inebriam. Tudo isso é inteligência, não é coração. Quando porém acima de todas as preocupações, o homem demonstra a de suavizar na humanidade o que ela tem de mais triste e de mais feio, — a doença, e leva ainda às classes mais desafortunadas o conforto de uma assistência cuidadosa e incansável, então sim, atinge o que na civilização há de mais perfeito, exercendo a caridade pela justiça, o dever pela fraternidade.

A Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, não é só uma casa feita para alívio dos tristes e em que tudo está organizado com inteligência e mantido com ordem, é também um hospital de expressão alegre. Pode parecer paradoxal dar-se esse epíteto a um lugar destinado ao sofrimento e à dor, mas ele é perfeitamente cabível neste caso, e está nisto a sua principal feição de simpatia e de modernismo. Tudo nele é nítido, resplandecente, polido, sujeito às regras de higiene a mais intransigente.

Há plantas nos corredores, águas correntes nos lavatórios, tiragens de ar nas enfermarias, ramos de flores nos quartos particulares e, embora tudo me pareça ter sido já previsto e executado, falam-me ainda em projetos de novas instalações e no desejo de construírem pavilhões isolados, cercados por jardins.

Lamentam então a falta de terreno, que não permite ao hospital abrir ainda mais os seus braços caritativos. A mim, entretanto, parece espantoso que para uma cidade que à minha vista se afigura pequena, seja necessária uma organização hospitalar de proporções tão vastas.

Um médico, a quem eu manifesto esta impressão, responde-me que para a cidade de Pelotas vêm doentes de toda a parte do Estado, atraídos pela superioridade dos seus hospitais e da sua Santa Casa de Misericórdia.

A ser exata a teoria de que a civilização de uma terra pode ser julgada pelo modo por que ela socorre e ampara a sua população enferma, que se há de pensar desta cidade?

Tinha-me dito a bordo um inglês, conhecedor do Brasil, de Norte a Sul, que em parte alguma deste país os homens se podem gabar de ter um club tão completo nem tão luxuoso como o Club Comercial de Pelotas.

Até parece feito por ingleses!

A opinião devia ter peso.

Na Inglaterra nenhum homem se pode considerar verdadeiramente gentleman se não puder gozar da prerogativa que lhe confere o seu direito de contribuinte para ir ler o seu jornal numa maiple do club, em vez de o ler na amiga poltrona familiar, ou perder dinheiro jogando cartas com os seus consócios, em vez de o não perder nas partidas do pocker caseiro. O club é assim para eles como que uma espécie de segundo home, onde têm os seus confortos sem terem maçadas, e as suas distrações, às vezes bem terríveis.

Conheço um fidalgo espanhol, que troca Madrid por Buenos Aires, só para fugir do Cassino, o lindo Cassino da Calle de Alcalá, onde se tem arruinado várias vezes de um modo absoluto. Na Argentina não joga. Nas praias de banhos e nas estações de águas onde toda a gente passa a vida na roleta, ele não joga; sabe resistir. No próprio Monte Carlo conseguiu sem heroísmo da vontade dominar a fascinação do pano verde; mas no seu club, entre a sua gente, todo o seu esforço de resistência é vão, sente-se na vertigem e atira-se para o abismo de corpo e alma. Depois de ter passado alguns anos em Buenos Aires, sem pegar numa carta nem tentar a fortuna do azar, voltou um dia a Madrid e logo nessa tarde, após uma volta pelo Prado, viu-se sentado no seu lugar do Cassino, tão naturalmente como se entre a última vez que ali estivera e esta agora, não tivesse mediado senão o espaço de curtas horas.

Este perigo das instalações confortáveis, pode existir no Club Comercial de Pelotas, cujos salões estão guarnecidos de mobiliário rico, tapeçarias e alfaias de luxo.

De resto, o bom gosto na organização de interiores, arte subtil e deliciosa, dizem ser um dos apanágios da sociedade pelotense, que viaja muito, observa muito, e vive carinhosamente, como numa só família.

Terra de nomes e de fortunas tradicionais, com o seu caráter especial, uma acentuada pontinha de bairrismo e grande ardor patriótico, ela vibra toda agora na campanha nacionalista, propagada pelas palavras, cheias de mocidade, de Fernando Osório e Maciel Moreira, que se não cansam de escrever livros, folhetos e discursos, incitando a juventude a bem servir e defender a pátria. Têm estes senhores trabalhado muito para animar a organização do escotismo no seu Estado. Este esforço põe de pé diante de mim a figura de uma brasileira que fui conhecer em Paris, e que nessa capital dedicava todo o seu tempo ao estudo do que pudesse ser benéfico ao seu país.

Foi ela quem primeiro e mais ativamente se interessou pela introdução do escotismo no Brasil, e isso mesmo ouvi num brilhante discurso feito pelo Dr. Bruno Chaves num sarau literário da Biblioteca, onde o orador se referiu ao nome de Jerónima Mesquita, com a distinção que ele merece.

Nestas páginas, que são apenas umas pequeninas crônicas de horas vividas à pressa, e em que procuro registar o que vejo e o que sinto, quero deixar fixada a doce impressão que me causou ouvir falar, com justo elogio, de uma amiga ausente.

A semana corre ligeira. Assisto a festas animadas: quermesses; chás dançantes em benefício da Cruz Vermelha; partidas de Tennis no Sport Club, onde vejo reunida a fina flor da sociedade pelotense; passeios, visitas, recepções em que oiço dizer versos dos poetas do sul, e um adorável almoço em que uma senhora de cabelos de neve e várias vezes avó, me conta com fino espírito alguns episódios das suas viagens, e coisas passadas em Roma com um nosso amigo comum.

De todas as brasileiras é talvez a rio-grandense a que melhor sabe guardar na velhice uma certa graça e uma frescura de espírito que tornam a sua presença sempre atraente e agradável. Em geral, nós não sabemos envelhecer. Aceitamos como um estigma os sinais que o Tempo, com mão inexorável traça em nosso rosto. Humilhadas, tratamos de apagar-nos, como se tivéssemos culpa da transformação física de que somos vítimas. Por essa espécie de pudor das rugas, em que a nossa vaidade se sente espezinhada, mais do que por qualquer outra razão, são raras as senhoras velhas que sejam interessantes, que tenham opiniões, saibam defendê-las e encham de sorridente amenidade uma hora de palestra em um salão. E é tão leve e tão bonita, essa exuberância de vida que prolonga até aos dias da maior decadência física, um clarão de mocidade intelectual e moral!

É esta encantadora velhinha que me chama a atenção para o sabor especialíssimo dos doces de Pelotas. Oh, um poema!

Estes, sim senhores, merecem todos os meus cumprimentos.

Não sei se por aqui houve conventos, mas se não foram ensinadas por mãos de freiras, exímias na fabricação de guloseimas, caíram do céu para as cozinhas pelotenses as receitas destes papinhos de anjos, casadinhas fofas e queijinhos de ovo, que tenho no meu prato e que são mesmo uma tentação!

Eu já sabia serem famosas as passas de pêssego, que nesta cidade se fazem como em parte alguma, mas para a delícia das outras complicações de ovos e açúcar é que não estava prevenida. Pois é uma especialidade digna de menção, não só pela maneira por que ela agrada à vista como pelo bem que sabe. ... ao coração.

Reparo que todas as pessoas íntimas da boa sociedade no Rio Grande se tratam por tu. Fala-se, em geral, mais corretamente do que entre nós. Há diferenças sensíveis no sotaque; mas o sotaque não importa.

A sintaxe é que é tudo. Eles aqui acham graça no que chamam: o chiado do Rio, e que é o som molhado dos nossos plurais.

Na sala em que estou, oiço a uma linda pelotense de dezoito anos dizer a outra menina da sua idade: — “Como estás tu? Esperei-te ontem.

— “Não pude vir mas aqui me tens hoje.”

Francamente, não foi muito mais bonito e cordial assim, do que se dissessem:

— Como está? esperei você ontem. ?

— Não pude vir mas você aqui me tem hoje?

A criada do hotel Aliança, em que me hospedo, vem dizer-me de manhã que os telhados fronteiros estão brancos de neve e se quero que abra a janela para os ver. Digo-lhe que sim.

Ela escancara as vidraças com gesto trágico, persuadida de que me vai fornecer um espetáculo nunca antes presenciado em minha vida. Não posso retribuir a boa vontade da boa mulher com a exclamação de surpresa que ela espera, porque mal distingo uma espécie de neblinazinha errante sobre a superfície porosa e grosseira das telhas do vizinho; em todo caso tenho que conchegar ao corpo a roupa que me cobre. — Estão três graus abaixo de zero, informa ainda a serviçal Maria.

Creio bem.

Este dia estava destinado a um passeio de automóvel pelos arrozais do coronel Pedro Osório, e a algumas visitas. É o dia do adeus, o dia sempre melancólico, de partir

Uma telefonada avisa-me de que o mau estado das estradas impede a excursão aos campos do arroz. Desço então sozinha a passear a pé pela cidade. Como na primeira vez que nela pisei sinto ainda a falta da árvore, quer nas suas ruas quer debruçada de algum dos seus muros.

O hábito que temos no Rio e em S. Paulo de ver vegetação, acostuma-nos os olhos à cor verde de uma tal maneira, que ela se torna para eles uma necessidade.

Como na Europa, as lojas principais estão defendidas do frio e do pó das ruas por portas móveis de vidraça. Empurro a de uma livraria e entro à procura de um romance português, de Aquilino Ribeiro, que ouvi elogiar e cuja remessa se esgotou dentro de poucos dias no Sul.

Estou na livraria Echenique, a melhor de Pelotas. Pergunto pelo movimento de livros na cidade. Respondem-me que se lê muito.

É uma sensação animadora esta, que recebo em pleno seio, de brochuras e revistas abertas.

Lê-se, e lê-se principalmente na nossa língua, o que é ainda mais admirável.

A mania de só ler francês e de só achar bonito o que é escrito em francês, não contaminou ainda estes espíritos mais positivos e mais francos. Vagueio ainda pela cidade, até a hora em que deverei fechar a minha mala e partir

Jornadas no meu país

Sinopse

Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.

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