Leia agora
Jornadas no meu país

Universo da obra

Jornadas no meu país

Capítulo 4 · Jornadas no meu país

Capítulo IV

4 de 37 ≈ 5 min de leitura

O dia está macio, de uma claridade leitosa, favorável à minha miopia.

Terei agora de descer da cidade alta, onde estão construídos o Tesouro, varias secretarias, o principal teatro, a catedral e os palácios presidenciais, velho e novo, sendo que este ultimo ainda não concluido, para a cidade baixa, mais comercial e mais ativa. As ruas por que passo, lavadas pela enxurrada de um forte aguaceiro da véspera, desmentem o que delas me tinham dito a bordo em relação ao asseio urbano e dão-me por isso uma impressão agradável.

Não me seduz certamente a arquitetura da maioria das suas casas, cujas linhas desproporcionadas lembram as de um aleijado de pernas curtas e busto avantajado. A maioria dos prédios de residência, feitos recentemente, têm o primeiro pavimento ao rés do chão, muito baixo, e as portas pequenas, em desacordo com o movimento arquitetônico do primeiro andar, de salientes e pesados balcões quase sempre guarnecidos de balaústres grossos ou gradis pomposos.

Tive depois muitas vezes a impressão, quando descia algumas das ladeiras portalegrenses, de que iria bater com a cabeça em uma dessas sacadas barrigudas e ameaçadoras que me disseram terem sido introduzidas na cidade por um arquiteto alemão. Para atestar a sua nacionalidade, ele procurou mesmo encimar alguns dos seus edifícios com um ornato pontudo que lembra a forma do capacete militar do seu país. Por fortuna foi esse talvez o único vestígio que notei do gosto tudesco no Rio Grande, onde o predomínio dos alemães não tem a importância que eu supunha, nem mesmo existe, visto que da sua colaboração nada há dominante, nem sequer interessante no país. Mas se a arquitetura das residências particulares de Porto Alegre não tem na sua generalidade pureza de linhas nem elegância de conjunto, não se pode dizer o mesmo de alguns dos seus edifícios públicos modernos que são de aparência a um tempo nobre e vistosa, como este belo palácio da Municipalidade em que vou entrar agora. Mal o avisto tenho a impressão de que foi construído com certa conciência artística. É de estilo Renascença e tem distinção e certa majestade.

Ah, a mania dos zimbórios, das cúpulas monstruosas, dos minaretes ridículos e torreões enredados por guirlandas em que há mais gesso e complicação do que desenho e gosto, não atribulou felizmente o cérebro do construtor que o delineou. Não há nada mais detestável do que a fantasia de pedra e cal.

Muitas vezes, quando escrevia crônicas semanais no O Paiz, na vaidosa pretensão de que o meu julgamento pudesse ter alguma aceitação, pela sinceridade com que era emitido e pelo ardor da sua convicção, eu gritei como pude contra a exorbitância desses imensos casarões sem arte e sem estilo com que era reedificado o Rio de Janeiro, pedindo de mãos postas aos poderes públicos que nomeassem uma comissão de artistas competentes, artistas de verdade, brasileiros ou estrangeiros, para lhe organizarem um plano geral e dirigirem com harmonia e beleza as novas construções. Alguém haverá por aí de boa memória que se recorde disso. Pois a antipatia que me causavam já esses fantasmas de cantaria e de cimento cresceu com o correr dos dias, pois quanto mais envelheço mais adoro o que é puro e simples.

Foi bem impressionada pela beleza exterior do Palácio da Municipalidade de Porto Alegre que subi a sua larga escadaria, no topo da qual me esperava o Intendente da cidade, Sr. Dr. José Montaury.

Depois de poucos minutos de conversação sinto que este senhor, nascido às margens da Guanabara, é o mais gaúcho dos rio-grandenses. Luzem-lhe os olhos, em que se lê bondade, ao falar desta admirável gente, — desta magnífica terra, — deste excelente ar! A sua pessoa modesta está toda como que a pedir desculpa da situação a que se viu guindada, como a dizer que não foi por culpa sua, enquanto me faz ver no salão nobre a galeria de bustos em gesso policromo executados pelo ilustre pintor Sr. Décio Vilares e que representam vários dos mais eminentes políticos brasileiros, a principiar por José Bonifácio e Tiradentes.

Já, de passagem, eu tinha pouco antes visto, do mesmo autor, na linda praça Marechal Deodoro, que encima como um diadema a cabeça de Porto Alegre, um grande, rico e catapultuoso monumento em homenagem a Júlio de Castilhos, que nele figura em atitude acanhada de pretendente mal aventurado, entre figuras simbólicas de gestos estirados.

Jornadas no meu país

Sinopse

Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.

Jornadas no meu país

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Jornadas no meu país

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Jornadas no meu país Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 4 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Jornadas no meu país

Todos os capítulos 37 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir