Universo da obra
Universo da obra
Que frio! Puxo o agasalho até as orelhas, bafejo as mãos através das luvas grossas e encolho-me num cantinho do vagão que me leva da capital do Estado à cidade da Cachoeira.
Está ainda escuro e já são seis horas quando o comboio abala e parte. O caminho de ferro é de bitola estreita e a locomotiva puxa os carros com lentidão. Colo o rosto aos vidros da janela, no desejo de apanhar em flagrante o despertar do louro dia no seio negro da noite, e a primeira coisa que diviso no lusco-fusco da madrugada, é um fiozinho alvadio, traçado ao correr da estrada entre o campo e o leito dos trilhos. Percebo pouco a pouco que essa linha pálida é uma sarjeta de água gelada e sinto certa curiosidade em olhar para ela, tanto a sensação de ver neve é agradável à gente tropical. Aliás esse modestíssimo fio branco que se desfará aos primeiros raios quentes do sol, tem o poder de transportar-me a certos dias distantes, em que atravessei os Alpes numa verdadeira sinfonia de alvuras. Enquanto não há claridade que me permita descortinar o que há lá fora, viajo pelo mundo que trago espelhado dentro de mim e ao qual a saudade imprime um encanto muito sedutor. Mas não demora muito a acender-se a luz da manhã; começa esbranquiçada, coada em neblinas opacas até fazer-se brilhante e lúcida.
Vejo agora paisagens plácidas, vastas e sucessivas campinas de um verde descorado, bordadas aqui e acolá por pequenos bosques, ou capões, como dizem aqui, de arbustos tufosos, de tom denegrido. Por vezes são tão bem organizados, tão bem dispostos esses agrupamentos de plantas espontâneas, que os diríamos ali semeados por atilados e sábios paisagistas ou arquitetos de jardins.
O horizonte foge-nos diante da vista. É a imensidade verde, clara, por onde sem rugas nem soluços serpeia um rio azul, do qual aparecem trechos aqui e além. Nunca vi tanto céu, nunca senti tanto ar, nunca afoguei os meus olhos em tamanha claridade!
O dia fez-se admirável.
Parece-me estar debaixo de uma descomunal copa florida de Jacarandá.
No banco em frente ao meu vão duas lindas meninas de dezoito a vinte anos. Vestem-se carinhosamente de igual. É um costume este que se tem perdido nas sociedades modernas, em que as criancinhas ainda são de mama e já timbram em ter o seu gosto peculiar e uma personalidade inconfundível, no desesperado esforço de destaque que alanceia as almas e que só por si não consegue dar a ninguém um vislumbre sequer de originalidade. Esta submissão, esta comunhão de gostos, faz-me olhar para as minhas companheiras de viagem com curiosidade. São filhas de um estancieiro de São Gabriel e viajam sós. Esta circunstância tem uma significação agradável, porque só nos países civilizados as meninas podem viajar sozinhas.
Depois de exclamações de surpresa e de abraços efusivos, dois passageiros que se encontram no trem, encetam uma palestra de sabor regional. São ambos gaúchos, um médico o outro lavrador na vizinha república do Uruguay. Fala este das suas terras e das leis agrárias desse país com visível entusiasmo.
Desespera-o a rotina brasileira. Aponta para os campos que vamos ladeando, com certo ar de desprezo; acha-os mal aramados, com poucos fios e postes tortos e desiguais. Parece-lhe um contra-senso a liberdade concedida no Rio Grande ao lavrador, de cercar os seus terrenos com tantos fios quantos lhe dêem na vontade.
No Estado Oriental, cada estancieiro é obrigado, por lei, a fazer os seus cercados com dez fios pelo menos, de modo a que por entre eles não possa absolutamente passar, nem mesmo de rastos, um simples guaráchaim ou cão ovelheiro. Aliás a praga dos guarachaíns é lá quase desconhecida, e em matéria de raça de cães, só admitem no campo a do pastor. Toda essa malta vagabunda de canzoada ladradora que aflige aqui os cavaleiros, não seria lá tolerada. Entre nós os aramados são constituídos por cinco a sete fios, sendo ainda que os nossos postes são muito mais espaçados do que os do Uruguay, que são fincados em intervalos muito mais curtos e bem determinados. Em conclusão: lá, essas coisas não ficam ao livre arbítrio dos proprietários, mais ou menos econômicos, entretanto ninguém se queixa e todos ganham dinheiro. Ele está rico; sente-se feliz; só o impacienta a longura das viagens quando de além das fronteiras tem de vir visitar a família a Porto Alegre.
Quer-me parecer, por esta amostra, que o Rio Grande do Sul, como aliás todo o Brasil, precisa de boas estradas de ferro. E nenhum dos nossos Estados as pode construir com maior facilidade, graças a não exigir o seu terreno custosas obras de arte.
No correr da conversa oiço dizer ao moço loquaz, que além de agricultor parece também engenheiro e bom conhecedor de toda a região, que se poderia viajar desde a fronteira por essa mesma estrada até à capital, na terça parte do tempo. Olhem que já seria uma diferença a considerar, para quem não dispõe ainda dos aeroplanos! Agora que eles não tardarão por aí, não sei se valerá a pena exigir muita coisa das estradas de ferro. O moço acha que sim, faz considerações apreciáveis sobre as vantagens de se baratear e facilitar o transporte de mercadorias.
À parte o gado, são o milho, o feijão, o arroz, as forragens etc, que constituem, mais do que todas as fábricas existentes e por existir no Estado, a fortuna do seu erário. Este ficaria tanto mais abarrotado, quanto aos lavradores fossem permitidas todas as facilidades na exportação dos seus produtos.
Aqui, como em todo o Brasil, a mesma queixa.
Afoito-me ao frio e abro a janela.
A luz é fulgente; os campos desenrolam-se ainda e sempre em planícies largas. Em nenhum deles há solidão completa: anima-os sempre um ser vivo, ao menos um cavalo, um touro ou qualquer outro animal, a pastar solitária e sossegadamente.
Cachoeira está toda aninhada entre campinas e envolvida por um ambiente alegre e leve. É uma cidadezinha que lembra uma criança que ri, de olhos pasmados para o esmalte azul dos céus e a vastidão dos horizontes; mas é uma criança que se fará depressa adulta, a julgar pelo que me dizem da sua prosperidade. Não tardará muito que a denominem — A Princesa do Arroz — ou de outra qualquer coisa, à maneira americana, e do principado ao imperialismo não mediará talvez grande número de anos. Afinal, é justo que aprendamos também a andar depressa!
Nesta, como em outras cidades rio-grandenses, faltam ainda aperfeiçoamentos materiais, que a tornem confortável, mas essa falta é perfeitamente compensada pela lhaneza e simpatia da sua população e por um não sei quê, que enche a sua atmosfera de carinhosa jovialidade.
Quando às onze horas da noite entrei no meu quarto, vi ainda a janela escancarada para a algidez da treva e do relento. Mal pude dormir: senti frio até nos cabelos que me pareciam transformados em fios de vidro quebradiço. Por que não adotarem no Sul o sistema europeu dos aquecedores em fogões fixos ou móveis? Seria um luxo que ninguém lhes poderia levar a mal!
De manhã, saio cedo. A rua está ainda guarnecida por cortinados de neblina. As pessoas que encontro apertam contra a boca um lenço que trazem amarfanhado na mão. Receiam que o nevoeiro matinal lhes faça mal aos pulmões. Uma delas, a quem eu fora apresentada na véspera, vem a mim e exorta-me a voltar depressa para o hotel. Considera uma imprudência a minha caminhada numa hora em que só vão à rua os que têm por obrigação fazê-lo. Pois suponho que também eu tenho essa obrigação e continuo no meu giro sob as lindas paineiras da grande praça central,
De volta ao hotel, entro, com o pretexto de qualquer compra fútil em uma das lojas por que passo, e verifico, com certa surpresa, que o seu comércio é exclusivamente feito por mulheres. O estabelecimento pertence a uma senhora que tem por empregadas as filhas e as sobrinhas.
Nada mais simples, nada mais natural; mas, como entre nós a iniciativa feminina é ainda vaga e tímida, este fato dá ao meu espírito uma agradável impressão.
Encho minha alma de azul, contemplando do alto do cemitério o panorama admirável e cuja vastidão sugere o desejo do voo. Compreendo, como nunca, o ímpeto de velocidade dos "peões" gaúchos, atirando em galopadas a toda a rédea os seus cavalos embriagados de ar e de luz. No ambiente translúcido, sente-se tenuemente o cheiro verde dos campos, em cujas ondas suavíssimas, se percebem de vez em quando pequeninos trechos do columbrino rio Jacuhy.
A caminho da Xarqueada do Paredão, vejo com frequência ninhos do pássaro joão-de-barro como remates ornamentais dos postes das cercas e do telégrafo. Nesta terra de ventanias e de descampados é mais do que em qualquer outra admirável a habilidade arquitetônica desta ave singular. E eu nunca as vi em tamanha quantidade, pousadas de sentinela sobre as suas habitações, a espalhar por todo o ermo a sua atenção corajosa.
Tenho por companheiros de passeio, além de muitas senhoras, a mais considerada professora do lugar, verdadeira mãe espiritual dos cachoeirenses: D. Cândida Brandão, e o escritor Gregório da Fonseca, que, por um acaso feliz, veio hoje de visita ao lar materno. Casa-se assim à emoção despertada por estas paisagens novas, o sabor de uma palestra interessante.
O mau estado de uma estrada não nos permite completar o programa do passeio com a visita a um bosque de eucaliptos plantado pelo médico dr. Baltazar de Ben, mas as outras estradas permitem-nos excursões encantadoras.
Disse Bergson que uma paisagem pode ser bela, trágica, sublime, insignificante, graciosa ou feia, mas cômica — jamais. Seja qual for a atitude de uma árvore, o movimento de uma correnteza, a forma de um penhasco, a irregularidade de uma montanha ou de um vale, nunca despertam o sentimento do ridículo. Não creio, como o escritor, que o cômico exista apenas no que é humano, por que em todos os animais há expressões e movimentos que excitam o riso, mas estou de pleno acordo de que essa impressão nunca foi comunicada a ninguém pela paisagem, que nem só os poetas como o amado Teócrito gostam de contemplar.
Não sei quantos quilômetros percorre o nosso automóvel, que nos leva dos campos altos para o velho bairro da — Aldeia, — muito pitoresco, e depois, à porta de um engenho de arroz de grande movimento, à beira-rio.
Como pertenço a uma família em que esse cereal goza de uma espécie de veneração um tanto asiática, observo com especialíssima atenção a sua preparação através de tubos, peneiras, polidores, etc.
De volta à cidade tenho ainda tempo para visitar escolas, que são os templos da minha devoção. Mas à noite tirito, sob o acolchoado do edredon e de não sei quantos cobertores.
Parece-me agora estar fazendo parte de uma representação cinematográfica americana. O cenário conviria para um quadro da Paramount ou de outra qualquer empresa idêntica. Estamos em Ferreira, a convite do amável engenheiro Dr. Serzedelo Mendes, diretor do — Serviço de Sondagem e Pesquisas de Carvão de Pedra e Petróleo — a duas léguas da Cachoeira.
A habitação do chefe, feita de madeira, está a poucos metros do lugar onde instalaram o maquinismo, cuja função é a de perfurar a terra por meio de uma sonda rotativa que a seu tempo revelará se existe ou não neste ponto uma jazida carbonífera.
Para consolação de qualquer possível desengano, sabe-se de antemão que, se as pesquisas forem negativas nem assim os trabalhos ficarão perdidos. Eles virão a servir para a planta geológica do Estado.
Ao terminar o encantador almoço, oferecido pelo diretor na sua pequena cottage de trabalho, noto a propósito da presença de um pernambucano na roda, que, de todos os Estados, é Pernambuco o que oferece maior contingente de população ao Sul. A esta observação responde alguém que, de fato assim é. A própria magistratura do Estado está quase toda em mãos de juízes pernambucanos, o que não deixa de ser curioso.
Às cinco da tarde — chá no Club Renascença. O salão amplo e florido está repleto. Muita menina e moça, muitas crianças, muita animação.
Em todas as cidades do Rio Grande do Sul há clubs familiares de grande concorrência, o que testemunha a sociabilidade do povo. Esses clubs são em geral mais frequentados por senhoras do que por homens, arredados deles por outras fascinações.
O que vale é que a mulher rio-grandense não é só bonita, mas também vivaz e tão exuberante que sua presença compensa a desilusão de outras faltas e enche de animação a sociedade em que está. As de Cachoeira parece que não têm, nesse sentido, muita razão de queixa. Pelo menos hoje, vejo que elas têm com quem dançar. Não sei mesmo se nesta doce e amena cidade há casas de tavolagem e cabarets, que são os rivais dos clubs familiares.
Em Porto Alegre, dizem-me haver nada menos de cento e oitenta desses antros de perdição, como se escrevia na linguagem romântica de outros tempos.
Ora cento e oitenta casas de tavolagem e cabarets em uma cidade que não é excessivamente grande, já é uma continha mais do que redonda: — redondíssima!
Volto à capital pelo Rio Jacuí. O dia é desses de luz preguiçosa, e lenta transformação. As águas são mansas e nas margens o verde da vegetação tem uma nuança escura e uniforme. Há melancolia nesta paisagem fluvial. há mesmo muita melancolia, mas há poesia também.
Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.
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