Universo da obra
Universo da obra
Andei parte do dia pelo bairro dos Navegantes entre operários e teares, fornos e chaminés de fábricas.
Há, parece, que nada menos de cento e cinquenta desses estabelecimentos em Porto Alegre. Convidaram-me a visitar cinco de entre eles, o que já não é pouco. O que me vale é que tenho curiosidade para tudo, graças a Deus.
Para mim a vida é um livro em que cada dia é uma página de interesse particular e significação diferente. Um verdadeiro romance, com períodos à Ponson ou à Eça, à Júlio Diniz, ou à Zola.
Neste bairro operário penso involuntariamente em certos contos de Gorki, onde. o rangido das correias e os dentes das engrenagens exprimem ideias confusas em sons mastigados e de ruído insuportável.
Há no mundo só três espécies de rumores com beleza: o das tempestades; o da música e o das ovações ou imprecações das turbas.
Todos os outros fazem desesperar quem os suporte. Lembra-me que a primeira vez que entrei em uma fábrica fiquei tão horrorizada com o barulho, que fiz a mim mesma uma promessa de jamais entrar em nenhuma outra. E essa promessa só deixei de a cumprir hoje, quando transpus a soleira da mais importante fábrica de tecidos desta cidade manufatureira.
E tão manufatureira, que eu cismo em como, com a nossa mania de fazer comparações, tais como a de qualificarmos o Recife de Veneza; S. Luís do Maranhão de — Atenas, etc.; nós não tínhamos ainda dado o nome da fabril Manchester a Porto Alegre! Tanto melhor, por que essas coisas quando não sejam perfeitamente justas, são absolutamente ridículas.
Pois este bairro operário é grande e sugestivo! Já do alto do sítio aristocrático da Independência e dos jardins da Idráulica, eu tinha voltado para ele os olhos notando-lhe a quantidade de chaminés que emergem da sua larga planície, desenrolando no ar consecutivos rolos de fumo.
Percorro a fábrica toda; atravesso pátios, entro em salões sucessivos, vejo tecer, vejo fiar, vejo tingir; sinto o cheiro da lã bruta e da lã cardada; subo e desço escadas, ensurdecida pelo vozear dos maquinismos colossais que me dá a impressão de me ter feito inchar a cabeça; grito para fazer-me ouvida em uma ou outra pergunta, não ouço as respostas que me dão, acanho-me de o confessar e admiro o esforço dos industriais em uma montagem que me parece completa e perfeita, a não ser que já existam no mundo maquinismos que façam as mesmas coisas em absoluto ou mesmo relativo silêncio, e saio, trazendo como lembrança da minha visita, um lindo ramo de flores e um não menos lindo corte de vestido.
Mas, como está determinado que o dia se consagre à observação das indústrias manufatureiras da capital rio-grandense, deste grande estabelecimento levam-me os meus amigos a um outro de não menor importância — a uma Fábrica de Meias em que me dizem trabalhar, se não me falha a memória — seiscentos operários. Há entretanto muitas máquinas paradas por falta de agulhas, que a guerra não deixa exportar da Europa. Reconheço nestas meias rio-grandenses muitas das que vejo expostas nas nossas lojas, como vindas do outro hemisfério... O edifício é grande e de caprichosa montagem, percorro-o todo, declaro-me admirada, recebo flores, e quando entro no automóvel vejo amontoadas no banco da frente várias caixas de meias!
— Mas é um passeio lucrativo! exclama uma das minhas amigas, ao mesmo tempo que eu pergunto:
— E agora para onde vamos?
— Agora para uma fábrica de vidros, respondeu-me o amável dr. Montaury. O trajeto foi curto. Momentos depois atravessávamos a área do novo estabelecimento em que, como nos pátios das outras fábricas, havia empilhada uma enorme quantidade de lenha.
Desde que cheguei ao Rio Grande do Sul tenho a impressão de andar viajando em pleno reino mineral, tão insignificante me parece, relativamente, a vegetação no harmônico conjunto das suas areias, das suas águas e das suas pedras. Causa-me por isso certa estranheza ver tamanha abundância de lenha nas fábricas que visito.
De que matas terão vindo essas árvores esquartejadas, amputadas e lascadas, que esperam ao vento e ao sol a hora suprema da sua última transformação?
Pergunto e respondem-me que elas foram trazidas das regiões ubérrimas do Rio Grande interior, das margens baixas dos rios ou dos dorsos das serras umbrosas.
A aridez que eu noto é limitada à região das cidades principais, onde há pouquíssimas ruas arborizadas e raros parques verdes, tão queridos nas capitais populosas, mesmo naquelas de luz pálida e calma, como Londres.
Eu que adoro o arvoredo e trago na minha bagagem um livro de que faço propaganda ativa, porque o escrevi certa da necessidade cada vez mais imperiosa e urgente do plantio da árvore no Brasil, não posso deixar de lastimar quando a vejo mal estimada. Certamente que o Brasil é uma terra de florestas, mas de florestas dizimadas, quando entretanto a sua glória e a sua fortuna estão exatamente dependentes da árvore cultivada!
Essas matas serranas de onde provém tanta madeira, serão ao menos replantadas?
A esta pergunta ninguém responde de modo claro e positivo. Quer isso dizer que não são replantadas; que não há lei que obrigue o lenhador a substituir a árvore adulta que ele abate por outra árvore pequenina da mesma ou de melhor espécie, que perpetue na pátria o melhor tesouro da sua natureza e da sua previdência. Assim as lindas regiões montanhosas ou as margens férteis dos rios necessitados de sombra, de onde vem a lenha para os ventres insaciáveis dos fornos industriais se converterão pouco a pouco em sítios escalvados, sem poesia nem utilidade.
Um dos meus tios avós, filósofo português aferrado aos livros, sempre que a esposa lhe ia pedir dinheiro para compras e contas, abria uma gaveta, sem mesmo interromper a leitura que fazia, remexia os dedos em moedas de ouro e dava-as sem as contar, com. o único desejo de que o deixassem em paz. Chegou um dia porém, em que à costumada solicitação, ele, executando maquinalmente o mesmo gesto de sempre e não encontrando nada dentro da gaveta, respondeu tranquilamente—Acabou-se. E continuou a ler.
A mulher, nervosa, inteligente, e conhecedora da alta competência literária do marido, não perdeu tempo em fazer exclamações e correu a inscrever o nome de Pedro Seixas num concurso que se encerrava nesse próprio dia para lente de Literatura não sei em que escola oficial de Lisboa. Foi o bom do meu tio avisado da hora em que deveria comparecer às provas públicas desse certamen de que tirou o primeiro lugar com admirável e superior brilhantismo. Foi preciso que a última libra esterlina tivesse rolado do seu bolso para o abismo do incognoscível para que o seu saber fosse útil à sociedade em que vivia.
Esperemos que não seja igualmente necessário o ver desaparecida a última árvore das nossas terras para corrermos então a semeá-las, com gesto vivo e alma esperançosa.
Vejo fabricar vidro. Um operário de bigode ruivo, fisionomia de austríaco, presenteia um dos meus amigos com uma bengala e a mim com uma caneta de cerca de cincoenta centímetros de comprimento! Além disso ainda os diretores me presenteiam com os seus mais vistosos vasos para flores.
— Será preciso ver mais fábricas?
— Sim! Vamos agora a uma de bonbons, que derrama doçura por todo este Brasil, e depois a uma de perfumes habilitada a rivalizar com a do próprio Houbigant!
E assim aconteceu. Em todas a mesma atividade, as mesmas comodidades e boas instalações, em todas muitos operários, ar de riqueza e as mesmas flores e caixas atadas com fitinhas em lembrança da nossa visita. Não se pode ser mais gentil, mas sinto-me cansada. Terei febre? Suponho que sim. Recolho-me mais cedo esta noite e ao adormecer revejo a linda figura de uma rapariga trigueira, de tranças negras, pendidas à moda cigana, e que na fábrica de tecidos tomava conta do seu tear.
A séria e singular expressão dessa operária formosa e moça impressiona ainda a minha imaginação.
Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.
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